Notas iniciais
@Myara aqui, depois de mil anos sem atualizar essa fanfic ^^' Peço desculpas pelo hiatus, mas voltamos bem mais rápido do que o Togashi (não que isso seja um mérito muito grande). Vamos que vamos que 2021 promete, pelo menos aqui no nosso mundinho das fanfics, não é mesmo? Espero que gostem da participação especial. Boa leitura ♥

— Agradeço a oferta, mas a família Nostrade já tem seus advogados. Não precisamos de mais uma.

Kurapika respondeu, resoluto, perante a proposta dela. A mulher havia o procurado diversas vezes nas últimas semanas, desde que ele havia recebido a intimação para responder pelo incêndio do laboratório, que acarretou na morte do doutor Yang. Ainda que fosse mais monstro do que médico, a justiça deveria fazer o seu trabalho. Aquilo o deixou intrigado a princípio, porém. Era a primeira vez que era denunciado por algo, e tinha a certeza de que não havia deixado provas nem testemunhas.

Quando recebeu uma mensagem de texto dizendo a ele para dar uma chance à mulher, acompanhada de emojis de lágrima e estrela, soube do que aquilo se tratava. Era o jeito torto de Hisoka de chamar a atenção dele para algo que o interessava. Mas Kurapika não sabia o quanto aquilo o interessaria também. Na dúvida, e vencido pelo cansaço, acabou concordando em ceder à mulher um espaço em sua agenda.

O nome dela era Lorelai Fox, uma estrela em ascensão nos casos criminalistas da cidade, tendo conquistado a liberdade de pessoas verdadeiramente hediondas. Não era menos monstruosa do que Yang, ainda que se parecesse com a pintura de uma virgem imaculada na parede de uma igreja e sorrisse como o sol. Hisoka havia a contratado para cuidar de algum assunto burocrático dele, e então fez questão de colocá-la no caminho do Kuruta. A proposta que ela fez a ele, porém, foi absolutamente banal.

Ainda que o mágico tivesse se mostrado útil em outras ocasiões, aquela, até então, havia sido uma perda de tempo.

— O senhor Morrow havia me adiantado que você seria resistente, — ela disse afável, para evitar a palavra teimoso. — Ele me disse que talvez ajudaria se encontrássemos um interesse em comum.

Ela se inclinou ligeiramente sobre a mesa, apoiando o queixo na mão e olhando para ele direto nos olhos. Por um minuto Kurapika pensou que ela pudesse estar tentando seduzi-lo, e detestou imaginar que Hisoka pensasse em sua vida amorosa ou sexual.

— Receio não termos nada em comum, senhorita Fox. — Ele tentou dispensá-la, com frieza.

Mas ela sorriu cálida em retorno.

— Ele me disse que você é um caçador de relíquias. É verdade?

Kurapika não conseguiu esconder a reação que aquelas palavras causaram nele. Suas feições transpareceram o interesse misturado com amargura, e Lorelai riu como se ele tivesse lhe contado uma piada deliciosa.

Chamar os olhos de seu povo de relíquias era realmente uma piada de mal-gosto.

— Certa vez eu tive um cliente que não podia me pagar em dinheiro, não o valor integral dos meus honorários para o caso, — ela prosseguiu, empertigando a postura na cadeira. — Então ele me ofereceu essas orbes escarlates. Elas são lindas, é uma experiência quase mística olhar para elas. Eu pesquisei no mercado negro e vi que elas valem muito.

— Seu cliente deve ter feito algo horrível para precisar oferecer tal pagamento. — Kurapika disse, a mão cerrando-se perante a descrição dela.

— Tsc, tsc, não diga isso do meu cliente. — Lorelai fez um lento aceno negativo com a cabeça, quase condescendente. — Ele foi liberado de todas as acusações, é um homem inocente.

— O que você quer? — Ele queria encontrar uma forma de fazer ela falar de uma vez, mas infelizmente entendia o motivo dela se dar bem com Hisoka. — O que ganha me defendendo nesse caso?

— Justiça. — Lorelai deu de ombros. — Você é inocente, eu quero provar isso.

— E se eu não for?

— Você é. — Ela não permitiu que ele prosseguisse, interrompendo-o com determinação. — O diretor geral do centro de medicina forense que é o culpado. Ele andava fazendo negócios com o doutor Yang, mas eles acabaram se desentendendo por conta de dívidas. Eu tenho provas disso, mas falta isso aqui — ela demonstrou a curta distância, com o polegar e o indicador da mão, — para conseguir provar o envolvimento dele nesse crime.

— O que falta sou eu. — Kurapika concluiu, e ela voltou a se inclinar ligeiramente na direção dele.

— O doutor Yang te procurou para garantir a segurança dele porque ele estava se sentindo ameaçado. Infelizmente, você chegou tarde demais. Uma pena.

O Kuruta respirou fundo e desviou o olhar. Se ela queria incriminar o diretor geral do centro de medicina forense, era porque ele estava no caminho dela de alguma maneira. Eliminá-lo lhe daria a certeza de livrar um ou mais de seus clientes. Quantas vítimas seguiriam sem justiça? Quantas mais eles poderiam fazer em liberdade?

Quantos criminosos alguém como Lorelai permitiria continuar agindo?

— Você não precisa me responder agora, mas pense bem. Eu estaria pagando para te defender. Não é todo dia que um advogado oferece isso, não é mesmo?

Lorelai piscou para ele e sorriu, sedutora e inebriante como vinho.

Mas ele odiava aquele tipo de vinho

[...]

— Fiquei sabendo que conseguiu o que queria, — a voz repentina soou atrás de Kurapika, que imediatamente levantou a guarda e preparou-se para atacar se necessário. Hisoka soltou um muxoxo chateado. — Você está muito reativo, pensei que fosse me agradecer pelo favor.

Eles estavam a sós na rua escura. O mágico tinha uma habilidade incomum em se ocultar, e aquilo enervava o Kuruta. Tudo sobre ele estava o enervando, e a decisão dele de aparecer assim, sem aviso, lhe pareceu imprudente. Exatamente o tipo de jogo que ele jogava.

— Eu iria encontrá-la de qualquer maneira, não se gabe.

— Lorelai é encantadora, não é mesmo? Ou era? Faz tempo que não tenho notícias dela, poderia me atualizar?

— Cale a boca. — Kurapika demandou com frieza e virou as costas, seguindo seu caminho em silêncio.

— Você está amadurecendo rápido… — Hisoka disse com malícia, mas não o seguiu.

Aquele tolo não sabia de nada sobre o Kuruta.

Nada.