Animália
2 Capítulo 01
Notas iniciais
A lua jazia no topo das montanhas na cidade de Lewt. Um garoto, de aproximadamente oito anos, abrira os olhos. Tinha a pele morena, seus olhos castanhos, cabelos negros. No centro de seu tórax, havia uma marca de nascença em formato de uma lua em sua fase minguante, com dois pontos entre as pontas da lua. O garoto sorriu ao sentar na cama e observar a Lua. Adorava aquilo. Apoiou e a olhou pela janela durante algum tempo. Assim que a Lua finalmente pareceu no centro do céu, Lucas espreguiçou-se e caminhou lentamente até o quarto de seus pais. Os passos dele eram silenciosos, mesmo no chão de madeira, podia pisar sem fazer barulho algum. Assim que ameaçou abrir a porta, escutou algo quebrando dentro do quarto. As mãos dele tocaram a maçaneta, porém, não a girou.
— O que quer aqui? – Escutou a voz de seu pai dentro do quarto. Sua mãe gemia de dor.
— Ora, que pergunta inconveniente! – Uma voz tranquila podia ser escutada lá também. – Entregue-o, ou terei que matá-los – Lucas arregalara os olhos. Abriu a porta com toda força que tinha, quebrando a maçaneta. Um homem pálido, alto olhava para o mais novo. Um sorriso foi se espalhando no rosto do homem. Era um sorriso maníaco. – Ora, se não é o pequenino!
— Quem é você? – Perguntou Lucas com um rosnado de leve em seu peito.
— Lucas, vá embora! – Seu pai mandou em um tom agressivo. O menino olhou para o pai com raiva.
— N-não!
— Faça o que ele está mandando! – Gritou sua mãe levantando rapidamente ficando em sua frente.
— Não adianta mulher! – O homem falou rindo. – Você acha que pode me impedir? – Avançou com rapidez para cima da mãe de Lucas. Ela recuou o corpo contra o do filho, esperando pela morte. Porém, antes de alcança-los, o homem fora arremessado para longe. O pai de Lucas soltou um estrondoso rosnado.
— LEVE-O EMBORA! – Gritou olhando para a mulher. As lágrimas eram visíveis em seus olhos. Ela se virou, segurou Lucas com força e saiu rapidamente pela casa. O menino percebeu de onde herdara tanta velocidade. Quando deu conta, estavam no meio da floresta, fora de sua cidade.
— Eu quero que você corra o máximo que puder ok?
— Mas, mãe...
— APENAS FAÇA! – Gritou a mulher. O menino calou-se. – Eu te amo filho...
— Também te amo mãe! – A mulher sorriu, virou-se e correu na direção em que viera. Lucas pensou em ir atrás de sua mãe, mas ela mandara correr. Estava com medo de que acontecesse algo de ruim. Estava com medo de perder seus pais. Virou-se para o outro lado e correu o máximo que pôde. Corria sem fazer barulho algum. Assim que chegou ao lado de um riacho, parou para beber um pouco d’água. Estava exausto. Abaixou e aproximou a boca do rio. Antes de colocar uma porção de água na boca, escutou passos atrás de si. Virou rapidamente, encolhendo-se o máximo para ficar fora da visão de quem fosse. Era ele.
— Sei que você está por aqui! – O homem falou rindo. – Seu pai e sua mãe... Que perda de tempo. Eu apenas queria você! Mais nada! Porém não me deram outra escolha e agora estão mortos! – Lucas sentiu o sangue fugindo de seu rosto. Aquilo não podia ser verdade. Seu coração esquentou. Algo estava tomando conta de si. Não conseguia controlar. O rosnado escapou de sua garganta, seus caninos ficaram maiores. Apoiou-se no chão com as mãos ficando em posição de ataque. Outro rosnado forte fugiu de sua garganta. Seus olhos tornaram-se avermelhados, as lágrimas escorreram levemente sobre suas bochechas. Um uivo ecoou na floresta escura e sombria. O homem virou-se para o riacho e viu um lobo preto, de olhos avermelhados com os caninos a mostra, muito afiados por sinal. Ele soltou uma gargalhada alta.
— Não acredito! – Falou entre os risos. – Garoto, garoto, se soubesse o quão é difícil te localizar, iria preferir ficar escondido. – Voltou a rir. O lobo apenas rosnou ferozmente. – Venha comigo, garoto e a morte de seus pais não terá sido em vão. – Lucas uivou mais uma vez e avançou contra o homem, que apenas negou com a cabeça antes de acertar-lhe um forte chute no rosto, fazendo-o cair no chão violentamente. Levantou rapidamente e sentiu uma pontada forte percorrer o corpo. – Não adianta! Eu sou muito mais forte do que você. Não quero acabar com você, apenas... – Não terminou a frase, pois o mais novo avançara mais uma vez. Sem esforço, o homem acertou-lhe um chute nas costelas, lançando-o n’uma árvore próxima. O homem caminhou até Lucas e pisou na região do tórax, fazendo-o ganir. – Chega de brincadeiras, preciso, por enquanto, de você vivo. Venha... – Quando agachou para pegar o corpo do garoto, ele mordeu sua mão com força, fazendo-o gritar de dor e logo em seguida chuta-lo para longe. – Seu... Maldito! – Lucas estava com a visão levemente turva, mas teve a leve impressão de ver sombras negras circulando aquele homem. – Eu juro que estava tentando manter minha calma com você, mas isso... – Mostrou enormes furos na mão. – Isso foi a gota d’água. Eu vou acabar com você. – Começou a marchar em sua direção. Sem forças, Lucas esperava seu fim. Mas algo estranho aconteceu. Sentiu o corpo erguer e ficar sobre as suas patas traseiras, mas ainda em sua forma de lobo. Uma corrente quente preenchia suas veias e um rosnado cortante escapou de sua garganta. Abriu seus olhos e encarou o espantado homem a sua frente. Antes mesmo de pensar em fazer algo, suas pernas avançavam contra ele. Novamente o rosnado escapou de sua garganta e então um brilho forte iluminou toda a floresta por alguns segundos e então Lucas apagou.
Ao abrir os olhos, Lucas estava de volta à sua forma humana. Estava caindo de bruços no chão, com o rosto grudento devido ao sangue que secou. Sua costela pinicava e suas pernas não funcionavam como deveria. Não lembrava o que havia acontecido, apenas daquele monstro que atacara sua casa. Ergueu a cabeça e tentou identificar onde estava. Estava em um campo bem aperto e com a grama bem aparada. Não ficava longe da cidade. Já havia ido ali brincar diversas vezes com os outros garotos da cidade. Quando a visão começou a se estabilizar, seu coração acelerou. Uma fumaça negra pintava o céu na direção de onde era sua cidade. Mesmo com o corpo protestando, postou-se de pé e começou a correr naquela direção. Mesmo o corpo implorando por descanso e água, Lucas mantinha seu ritmo até o local da fumaça. Aquilo poderia ter sido apenas um sonho. Apenas sua imaginação. Não queria acreditar que sua família estava morta. Quando chegou próximo aos portões de entrada da cidade, seu coração acelerou e apertou. A placa de saudações da cidade estava destruída no chão e o arco de madeira do portão de entrada estava aos pedaços, sendo sustentado apenas por um pedaço de madeira que ligava na parede que cercava a cidade. Os enormes portões de ferro também estavam destruídos. Quando atravessou o portão, seus olhos começaram a lacrimejar. Os soldados, que guardavam o portão, estavam mortos, deitados sobre poças de sangue. Sentiu uma vontade enorme de vomitar, porém respirou fundo e se manteve firme. Precisava chegar até sua casa. As diversas lojas, tavernas, padarias estavam totalmente destruídas e, aparentemente, saqueadas. Algumas pegavam fogo, outras já haviam sido consumidas pelas chamas. Corpos de homens e mulheres espalhados pela cidade traziam calafrios para o garoto. Avistou sua casa de longe e finalmente cedeu sobre os joelhos. Ela estava completamente destruída. Não conseguia mais conter as lágrimas, que começaram a deslizar pelo rosto sujo e pegajoso. Com dificuldade, levantou e apressou o passo para dentro da casa. Tudo lá dentro estava revirado ou quebrado. Subiu aos trancos e barrancos pela escada, evitando os enormes buracos causados pela queda de parte do telhado e tentou sentir o cheiro os pais, mas devido à fumaça, era impossível sentir qualquer odor que não fosse de madeira queimada. No andar de cima, correu para o quarto dos pais e não havia nada lá. Nem mesmo o sinal do corpo deles. Apenas rastros de sangue pelo chão de madeira. Um uivo feroz escapou de sua garganta. A dor e a raiva espalhavam-se pelo corpo do garoto. Posicionou com as mãos no chão e sentiu o corpo arrepiar. Seus olhos se tornaram vermelhos e aos poucos, a pelagem negra foi surgindo pelo seu corpo. Estava de volta à aquela forma. Aquele Lobo Negro. Correu até seu quarto e saltou pela janela. Seu corpo aterrissou sem dificuldades e começou a correr. Não havia sobrado ninguém. Não havia sobrado nada naquela cidade. Não havia motivos para ficar ali. Precisava encontrar aquele homem. Precisava entender o que e porque ele havia feito aquilo. As lágrimas escapavam de seus olhos e se perdiam no vento, antes mesmo de escorrer pela pelugem dele. Ele apenas queria encontra-lo e acabar com tudo aquilo.
Havia passado uma semana, e Lucas ainda com sua forma de Lobo Negro. Desde o encontro com sua casa, não conseguira voltar a forma humana. Provavelmente devido a dor e a raiva que cobria seu coração. Andava cabisbaixo e sem rumo, quando avistou um lago extenso, cheio de peixes. O estomago do garoto falou por ele. Durante essa semana, ele havia comido apenas aves pequenas e frutos. Aproximou-se sorrateiramente do lago, um peixe avermelhado, grande o bastante, nadava perto da margem. Lucas preparou seu pulo, quando uma ave enorme fez um rasante e pegou o peixe. O lobo tombara para trás, devido ao susto. Levantou espantado olhando para a ave que saboreava o peixe. Lucas soltou um rosnado baixo. O animal olhou assustada para o lobo. Foi então que, aos poucos, a ave transformou-se em um garoto. Os olhos do lobo arregalaram-se. O garoto tinha a pele branca, cabelos claros e parecia do mesmo tamanho que ele, em sua forma normal. Não aparentava ser mais velho. A surpresa foi ainda maior, quando sentiu os caninos diminuindo, seu focinho sumindo, ficando de pé. Estava de volta a sua forma humana.
— Wow! – O garoto a frente de Lucas exclamou. – Você se transforma em um lobo! – Falou sorrindo. – Legal! Não vi muitos lobos por essa região! Eu me transformo em um gavião!
— Eu vi! Você roubou meu peixe! – Resmungou Lucas emburrado.
— Não existe “Meu” na floresta! – O garoto disse com suavidade. Lucas soltou um leve rosnado. – Qual é o seu nome? Mogli, o menino lobo? – Perguntou divertido. Lucas soltou o ar pelo nariz.
— Lucas Mota... E o seu?
— Eduardo Lima! Mas alguns me chamam de Du! – Estendeu a mão para o garoto que apertou logo em seguida. Lucas sentou na borda do rio e contemplou os peixes. Com uma velocidade incrível, pegou um e tirou da água. – O que faz por aqui? Você não mora nessa cidade! Nunca te vi aqui!
— Eu... – Encarou o peixe e seus ombros murcharam. — Sou da vila Lewt. – Falou antes de jogar o peixe de volta n’água. Perdera a fome.
— Lewt? Ouvi dizer que a vila fora atacada e não havia sobrado nenhum sobrevivente. – Encarou o garoto. – É-é verdade?
— É... – O moreno levantara e secou as lágrimas que começaram a escorrer.
— Desculpe, não queria ser intrometido! É que fica bem distante daqui. Quando a noticia chegou, já haviam passado alguns dias e mesmo que fossem até lá, seria tarde e...
— Ok, eu entendi. – Lucas cortou-o encarando-o. – Um homem... Um monstro... Não sei qual definição dar aquela aberração... Ele simplesmente surgiu em minha cidade e destruiu tudo. Inclusive meus... – Não conseguiu terminar a frase, devido à um forte soluço que escapou de sua garganta.
— Sinto muito... – O silêncio reinou. Apenas o soluço do garoto lobo preenchia o local.
— Em qual cidade estamos? – Perguntou Lucas, quando finalmente acalmou.
— Dyrtez!
— Você mora aqui?
— Não exatamente! – Respondeu. – Tenho alguns familiares. É uma vila de Falcões. Eu sou um gavião, lembra? – Lucas deu de ombros. – Eu moro em uma vila distante daqui! Meu pai era uma pessoa muito malvada. Ele não me deixava usar minha transformação, porque ele não se transforma. Apenas minha mãe se transformava. E ele diz que foi culpa disso que ela... Enfim, morreu. – Lucas encarou o garoto. – Relaxa, foi quando eu nasci. – Lucas apenas concordou com a cabeça. – E então, resolvi fugir de casa em busca de alguma aventura.
— Parece divertido!
— Sim! – Alongou os braços. — Bom, vou indo! – Levantou em seguida. – Foi um prazer!
— Espera! – Lucas levantou n’um pulo. – Eu posso ir com você?
— Claro! – Falou sorrindo para o moreno. – Será que consegue me acompanhar? – Disse sorrindo, então transformou-se em um gavião. Lucas sorriu e concentrou-se. Aos poucos as garras foram aparecendo em suas mãos, seu pelo foi aparecendo, mudando a posição para quadrúpede. Abriu os olhos, se transformara em lobo. Sorriu e rosnou para a águia. Du voltou ao normal.
— Uau! – Falou espantado. – Olha como você está agora! – Disse chamando para olhar seu reflexo na água. Lucas olhou e tomou um susto. Seu reflexo não era medonho. Seus olhos não eram vermelhos e nem sua pele era preta. Ele virara um belo lobo. Seu pelo acinzentado, olhos azuis claros e focinho esbranquiçado. Admirou o seu reflexo por um instante então uivou. Um uivo de felicidade. – Certo, duvido me alcançar! – Transformou-se em Gavião novamente e voou cortando o céu. Lucas rosnou rapidamente e começou a correr. Era veloz, muito mais veloz. Podia escutar o Pio da ave como se estivesse ao seu lado. Corria com uma velocidade incrível.
Após algumas horas correndo, Lucas parou ao lado de uma pedra e sentou. Du pousou ao seu lado. Transformaram-se em humanos novamente.
— Wow, você é rápido! – Du comentou alongando os braços. Lucas sorriu.
— Você também não é nada devagar... Só ganhou por que você não cansa correndo! – Respondeu enxugando o suor da testa. Espreguiçou e apoiou-se na pedra fechou os olhos e cochilou.
***
Lucas abrira os olhos, estava deitado em uma cama. Espreguiçou. Quatros anos haviam se passado. Olhou pela janela, estava em uma vila que ele e Du conheceram poucos meses depois. Seu nome era Dervez. Toda vez que precisavam de um lugar para ficar e estavam perto da cidade, dormiam por lá. Lucas estava com doze anos, enquanto Du estava com treze. Uma ave pousou no parapeito da janela.
— E ae Du... – Lucas falou entre bocejos. A ave entrou e pousou na cadeira, transformando-se em humano. Ambos estavam maiores e claramente com mais massa muscular. Mesmo com doze anos, Lucas estava realmente alto e definido, assim como Du. Treinavam dia e noite para aprimorar sua habilidade de luta.
— Que cara de sono hein?
— Não enche! Fui dormir muito tarde por causa do treino! – Resmungou Lucas deitando a cabeça no travesseiro.
— Se você continuar assim, você vai acabar quebrando o corpo inteiro. – Du falou com um sorriso torto. – E vai continuar apanhando de mim.
— RÁ! – Lucas se sentou e encarou o amigo que sorria confiante. – Você deve sonhar com isso.
— Só estou constatando fatos!
— Sua habilidade de luta é horrível. Você não consegue me vencer! – O lobo falou abrindo um sorriso que mostrara seus caninos afiados.
— Ah, é? – Du saltou da cadeira na direção do amigo. Entre risos e socos, começaram uma pequena guerra no quarto.
— VOCÊS DOIS! – Escutaram e logo a porta se fechou. Lucas parara o punho que estava indo em direção o rosto do amigo e olhou para naquela direção. – Chega, não é?
— Desculpe Senhorota Rose! – Lucas falou empurrando o amigo para o lado, derrubando-o no chão e logo sentou na cama.
— Vocês não têm jeito! – A garota resmungou. Rose era uma adolescente, filha da dona da Pousada. Ela tinha a pele branca, um leve toque de bronze. Seus olhos verdes e seus lábios vermelhos e carnudos eram chamativos e seus belos cabelos ruivos. No dia em que chegaram à cidade, estavam famintos e sem um lugar para descansar. Então, Irina, mãe de Rose, os acolheu e os levou até a pousada. De início, seria apenas aquela semana. Porém, eles mostraram ser bem prestativos com os serviços da Pousada e com a segurança do local que Irina ofereceu um quarto com a condição de que eles prestariam serviços para ela. E foi assim que conheceram Rose. Lucas sorriu e aproximou da garota. Mesmo com três anos de diferença, Lucas era bem maior que a garota.
— Qual é Rose! – Sorriu maliciosamente. – Estávamos apenas brincando! – Falou puxando a garota pela cintura, fazendo-a arregalar os olhos.
— Mas que... Me solta, garoto! – Falou ruborizada. O moreno riu alto. Soltou a menina e voltou para cama. A garota, após recompor-se falou rapidamente. – O almoço está quase pronto. Vocês comerão por aqui?
— Eu não! – Respondeu Lucas. – Eu vou caminhar um pouco! – Piscou para Rose e foi até a janela que Du entrara. – Já volto.
— Ei Lucas! Não faça isso! – Gritou a garota desesperada.
— Relaxa Rose! – Deu uma nova piscadela e pulou. A ruiva soltou um grito de desespero e correu para a janela. Du ria divertido sentado na cadeira. Lucas caíra em pé, sorriu para a menina e correu com uma velocidade incrível em direção a floresta. Rose virou horrorizada para Du.
— O que ele é afinal? Estamos no terceiro andar!
— Relaxe Rose! – Du falou revirando os olhos. – Ele está bem, não? Então ‘tá tudo ok!
— Homens! – Rose resmungou assim que fechou a porta.
***
Lucas correra tão rápido que o vento ricocheteava em sua pele. Porém ele sequer sentia. O cheiro de carne fresca invadiu seu nariz. Lambeu os lábios. Mesmo a comida da Pousada sendo deliciosa, o prazer de lutar pela própria comida e comer carne fresca era incomparável. Os meses que ele e Du passaram na floresta, aprimoraram sua capacidade de caça. Transformou-se em lobo, que agora era muito maior que quatro anos atrás. A mesma cor, os mesmos olhos, porém maior. Lucas chegou a um vasto terreno e fechou os olhos. Sentia o cheiro das presas. Uma gazela passara correndo em sua frente. Abriu um sorriso e preparou o ataque. Contou mentalmente até três e correu. A gazela sentira o perigo e começara a correr. Lucas estava alçando a sua preza com facilidade. Pulou e abriu sua enorme boca, porém, acertou algo no meio do caminho. Lucas caiu para um lado e o que quer que tenha atingido caiu para o outro, enquanto a gazela afastava feliz consigo mesma por ter escapado de dois predadores. Lucas levantou irritado e procurou o que havia lhe acertado. Era um filhote de leão branco. Lucas rosnou ferozmente e ficou em posição de ataque. O leão mostrou os dentes, como se sorrisse ironicamente. Rugiu, tentando intimidar o lobo, que apenas mantinha os olhos vidrados no leão. O moreno transformou-se em humano.
— Vem, pode vir leãozinho! Pode vir que eu... – Parou de falar quando o Leão transformou em um garoto. O garoto tinha cabelos grandes. Tinha a pele um pouco mais clara que a de Lucas, olhos castanhos.
— Ah, quer dizer que você também é um humano.
— Não, ainda ‘tá olhando para um lobo! – Respondeu Lucas irônico. – Prazer, Lucas Mota
— Petrus Marques... – Encarou o moreno. – E obrigado viu... Aquele animal era meu...
— Não existe “meu” na floresta... – Lucas falou com um sorriso torto. Petrus riu pelo nariz. – O que você faz por aqui?
— Acho que o mesmo que você... Caçando?
— Ok, minha pergunta foi retardada. – Admitiu. – Digo... Você mora por aqui?
— Eu sou de uma vila próxima...
— Da vila Dervez?
— Não, próximo a ela... – Respondeu indiferente. O garoto aparentava uns dez anos. Lucas revirou os olhos.
— Ok! Você vá caçar por lá! Eu caço por aqui! Ok? – O outro apenas deu de ombros antes de transforma-se em leão. Lucas virou e transformou-se em lobo e voltara a caçar.
****
Já era tarde, Lucas entrara sorrateiramente pela porta principal. Apesar de não fazer barulho ao andar, as portas pareciam berrar a noite. Quando estava prestes a subir a escada, a luz atrás de si acendeu.
— Onde esteve a tarde toda? – Rose perguntou em uma voz cansada. Lucas virou assustado.
— Quer me matar do coração, Rose? – Perguntou com um rosnado fraco dentro do peito.
— Me responda! Onde esteve? Eu estou com sono e fiquei aqui esperando você até agora! – Bocejou.
— Esperou por que você quis! – Deu os ombros. – Você sabe que eu chego tarde às vezes. E não pedi que me esperasse.
— Eu apenas me preocupei com você! – Falou raivosa. – Quer saber, não me interessa onde esteve! Não me interessa nada! Eu vou dormir! – Falou indo em direção da escada, fazendo barulhos, que Lucas nunca fizera. Começou a subir as escadas. Quando estava um degrau acima do de Lucas, ele a segurou. – Solte-me!
— Olhe pra mim! – Pediu com suave.
— Para que?
— Olhe! – Ordenou. Ela cedeu os ombros e virou-se. Seus olhos tinham algumas lágrimas. Ele sorriu. – Desculpe... Não pretendia te fazer chorar! – Subiu um degrau. Realmente, Lucas era muito alto para sua idade. Sentiu o coração dela disparar dentro do peito. Sorriu, seu estomago embrulhou. Aproximou de Rose, que tinha os olhos vidrados no garoto. Uma ultima lágrima escapou dos olhos dela e ele a limpou. – Não chore mais... – Ele aproximou dos lábios dela.
— E-eu vou... – Não conseguiu terminar a frase. Estavam tão próximos de um beijo, quando alguém abriu uma das portas da pousada no andar de cima, fazendo com que os dois se afastassem rapidamente. Lucas engoliu o riso e encarou a ruiva em sua frente que encarava o chão com o rosto da cor de seus cabelos.
— Rose? – Sussurrou o nome da amiga. Assustada ela olhou para o amigo. Lucas não evitou o riso. Ainda mais ruborizada, a ruiva se ajeitou melhor.
— Boa noite, Lucas! Não volte tarde novamente, ok? – Falou apressadamente tropeçando nas palavras.
— Boa noite, Rose... – Falou rindo. A garota fechou a cara e subiu correndo para seu quarto. O moreno após alguns segundos subiu rapidamente para seu quarto. Enfiou-se debaixo das cobertas. Antes de pegar no sono, pode escutar Rose resmungar “ O que quase acabou de acontecer? ”, e então adormeceu. No outro dia, acordou com uma águia bicando a janela. Resmungou e rosnou para Du que bicava a janela.
— Que saco... – Abriu a janela. – Por que você não entra como uma pessoa normal enquanto eu durmo?
— Porque não somos pessoas normais! – Du respondeu indiferente. – Se você não quer ser acordado, comece a acordar cedo. Simples!
— Ok, mas me viu dormindo, poderia...
— Lucas, presta atenção... – Du falou irritado. Lucas notou apreensão no rosto do amigo.
— O que?
— Uma vila próxima daqui foi atacada!
— O que? – Lucas levantou n’um pulo. Seus olhos se tornaram medonhos. – Qual? Foram eles? Tem mais alguma informação?
— Lucas, me escuta! — Eduardo falou e o moreno se calou. – Não sei o que é, não sei o que foi! Mas a vila foi arrasada. Alguns se refugiaram aqui. E não me lembro do nome da vila... Mas é próxima.
— Temos que ir até lá...
— Se eles estiverem por lá?
— Ótimo, descobrimos o que são eles e o que eles querem! – Segurou a cadeira que havia em seu quarto e apertou de leve. — E o porque que mataram a PORCARIA DA MINHA FAMILIA! – Gritou. A cadeira em suas mãos rachara levemente. Eduardo lançou um olhar de pena para o amigo. – Não. Pare. Não quero pena. Quero só... – Parou de falar.
— Ok, nós vamos. Acha melhor arrumar todas as nossas coisas?
— Eu não sei, Du. Não sei. Eu só quero ir até essa vila.
— Certo, certo. – Cedeu os ombros. – Vamos! – Quando Du abriu a porta, Rose estava parada em frente ao quarto. Ela soltou um leve grito quando os dois amigos apareceram na porta. Os olhos pularam de Du para Lucas. Notou apreensão do mais claro e os olhos sombrios do moreno.
— O que houve?
— Precisamos resolver umas coisas. – Lucas respondeu.
— Algum problema? – Parecia preocupada.
— Nada que preocupe você. Relaxa, está tudo bem. – Tentou tranquiliza-la. Ela mordeu os lábios levemente. – Vamos Du.
— Até mais, Rose.
— Até... Ei, cuidado! – Pediu. Os dois apenas acenaram com a cabeça e voltaram a descer as escadas. Assim que saíram da pousada, correram para o meio da floresta.
— Mostre o caminho. – Pediu para Du. O rapaz concordou com a cabeça e tornou-se naquele enorme gavião. Lucas fechou os olhos e concentrou-se. Havia aprendido alguns modos para controlar a raiva. Às vezes não funcionava, pelo alto nível de stress. Quando abriu os olhos novamente, já havia se transformado naquele belo lobo acinzentado. Escutou o piar de Du e começou a correr na direção. Em poucos minutos um cheiro forte de mato queimado invadiu suas narinas e pode avistar fumaça subindo. Apressou sua corrida. Viu a sombra do Gavião cruzar as arvores. Quando estava próximo a entrada da vila, algo lhe acertou em cheio no focinho. Lucas gemeu de dor e rolou para trás. O sangue escorria de seu focinho sem parar. Um guarda com uma lança caminhava apressadamente em sua direção. Rapidamente virou humano e ergue os braços.
— Quem é você e o que quer aqui? – Perguntou com feracidade. Du apareceu correndo logo atrás de Lucas.
— Sobos da bila Derbez... Estabos aqui para ajudar. – Lucas tentou falar, mas com extrema dificuldade, pois o sangue o atrapalhava.
— Dervez? Desde quando é uma Vila de Lobos?
— Não é! – Eduardo se pronunciou. – Eu sou um Gavião. Viemos de longe e estamos apenas nos aventurando pelo mundo. Acredite em nós, não oferecemos perigo. Sequer temos armas!
— JAMES! POR AQUI, MAIS FERIDOS! – O guarda olhou para trás e logo voltou os olhos para os garotos.
— Droga. Eu manterei meus olhos em vocês. Um deslize e eu perfuraremos vocês sem pensar duas vezes. – Os dois concordaram e o homem virou e começou a correr em direção ao companheiro. O mais claro retirou um pano do bolso e amarrou na cabeça dele, para que sangramento parasse. O moreno agradeceu-o e então entraram correndo na vila. A cena que viram talvez fosse melhor se não tivessem visto. Muitas pessoas sangrando no chão, algumas mortas, destroçadas pelo chão. Outras choravam ao lado do corpo de alguém e reclamava com os céus. De repente, Lucas avistou um rosto conhecido.
— Petrus... Petrus! – Correu até o garoto que estava sentado ao lado de dois corpos. Seu corpo estava coberto de cortes profundos e segurava um pano sobre o ombro. Não tinha sequer uma expressão no rosto do menino. – Hey... Você...
— Vai embora.
— Petrus... Eu sinto...
— NÃO, VOCÊ NÃO SENTE! – Ele gritou e logo se arrependeu.
— Han, você não me conhece, mas... – Du fora cortado.
— VOCES POR ACASO SABEM O QUE É PERDER ALGUÉM? EU PERDI MEUS PAIS! VOCÊS ENTENDEM ISSO? MEUS PAIS! EU NÃO TENHO MAIS NINGUEM AGORA. E VOCÊS MIMADINHOS ACHAM QUE É FACIL. – Du torceu o rosto e espiou para Lucas. Os olhos dele estavam avermelhados. – ENTÃO PAREM... – O moreno o cortou.
— Cale a sua boca. – Petrus olhou espantado e furioso. – Você não sabe o que EU passei. Você não sabe o que eu tive que aturar. Eu tinha apenas oito anos quando meus pais foram BRUTALMENTES assassinados e por muito pouco eu não fui também. – Petrus engoliu seco. – Seus pais morreram? Pois é, levante e supere. – Rosnou friamente. Du ameaçou interromper, porém Lucas ignorou. — Eles não voltarão mais e você vai ter que viver com isso. Acredite, dói... Mas uma hora passa. – Levantou e lançou um ultimo olhar para o garoto machucado. – Agora pare de ser um bebezão e levante-se. Você, ao menos pode enterrar seus pais. – E saiu andando pela cidade. O garoto mantinha um olhar espantado, mas algumas lágrimas saltaram de seus olhos.
— Ei... Sou Eduardo Lima, mas pode me chamar de Du... – Abaixou ao lado de Petrus.
— Sou... – Respirou fundo tentando impedir as lágrimas. – Petrus Marques.
— Você pisou na bola. Falou mais do que devia. Lucas foi um pouco rude... Mas é assim que ele lida com algumas situações. Estamos aqui porque achamos que são os mesmo que atacaram e mataram os pais dele. Você consegue se lembrar?
— Eles estavam vestindo uma manta preta... – Falou cabisbaixo.
— Foi a mesma descrição que Lucas deu. Conseguiu algum detalhe? Nem que seja um sorriso?
— Não. Apenas a manta e uma espada que emanava uma luz negra. – Du olhou confuso. – Eu posso estar louco, também.
— Não... É só estranho... Nunca ouvi nada igual.
— São eles... – Escutaram atrás de si. Viraram e Lucas caminhava segurando um cantil contendo um pouco d’água. – Os corpos estão cobertos com aquele cheiro. – Entregou o cantil à Petrus, que aceitou timidamente. – Eu acho que é apenas um grupo de Assassinos.
— Eles estavam procurando alguém... – Petrus falou após engolir uma bela quantidade de agua. Lucas e Du trocaram olhares rápidos antes de ajoelhar na frente do garoto.
— E quem era?
— Eles disseram algo sobre Príncipe Liam... – Petrus falou e os dois encararam sem entender. – Eu me pergunto que Príncipe seria esse e porque ele estaria n’uma vila tão... Pobre.
— Eles só disseram isso? – Questionou Du.
— Eu vou ser sincero, lembro-me de mais alguma coisa... Mas... É muito difícil de lembrar. – As lágrimas voltaram a escorrer dos olhos dele.
— Por favor, Petrus... Tente fazer um esforço. – Lucas pediu tentando não se frustrar.
— Eu não lembro! – Resmungou choroso.
— Droga. – Levantou frustrado ajeitando o pano em sua cabeça, pois o sangue começara a escapar pelas laterais. — O que diabos esses Assassinos querem?
— Sr. Marques! – Giraram o pescoço e notaram a aproximação de um dos Guardas da vila. – Esses garotos estão incomodando? – Petrus levantou os olhos e negou com a cabeça.
— Eles estão me ajudando, Erik. Não se preocupe. – O Guarda encarou os outros dois e confirmou com a cabeça. Lucas, então, notou um papel amassado na mão do Guarda.
— Isso é alguma pista? – Questionou apontando para o papel. O outro confirmou com a cabeça desamassando-o. Lucas e Du arregalaram os olhos. Havia um desenho quase que perfeito de um Lobo Negro com os olhos vermelhos e um símbolo extremamente similar ao que Lucas tem no centro do peito. Uma lua com dois pontos entre as pontas.
— Sim... Um dos feridos disse que um dos Encapuzados, antes do ataque, fez algumas perguntas sobre o “Príncipe Liam” e mostrou o desenho perguntando se haviam visto esse lobo ou esse símbolo, pois havia informações de que fora avistado um lobo nessas características pela região. Ela negou e ele foi embora. Poucas horas mais tarde, a cidade foi atacada por pessoas igualmente encapuzadas... Ei, tudo bem? – O Guarda falou encarando Lucas que estava totalmente pálido e parecia que desabaria em poucos segundos. Du amparou o amigo.
— Ei, Lucas. Respira. – Petrus encarava sem entender e o Guarda estranhou. – Conhece a vila Lewt? – O Guarda arregalou os olhos. – Ele é de lá. Foi o único sobrevivente daquela noite. E acreditamos que tenham sido os mesmo Encapuzados. Foi por isso que viemos até aqui. Iriamos tentar confrontar ou pelo menos tentar entender o que aconteceu.
— Eu sinto muito garoto. – Guarda falou fazendo um leve gesto. – Não sabia que você era um sobrevivente daquele massacre. – Lucas nada respondeu apenas, vagarosamente, com a cabeça. O homem virou-se para Petrus. — Precisamos tirar os corpos daqui, Sr. Marques. Eu ajudo você. – O mais novo apenas confirmou com a cabeça. Erik acenou para um grupo de curandeiros que apressaram o passo com a maca de pano e bambu. Colocaram os corpos dos pais de Petrus sobre a mesma e caminharam para longe, com Petrus e Erik atrás. Du encarou e conseguiu decifrar o pensamento do garoto.
— Lucas, pare... Não é sua culpa.
— Du se você não é estúpido, você viu que aquele desenho é muito parecido comigo, inclusive aquele símbolo... – Lucas puxou a gola da camisa, revelando o símbolo. – Sou eu! Que outro lobo negro você viu aqui nos últimos dias? – Du permaneceu em silêncio. – É tudo culpa minha! Ele está atrás de mim! – Olhava-o com cara de desespero. – Eu... – Recebera um soco no rosto.
— Pare de ser covarde. – Reclamou. – Se ele está atrás de você, vamos encontra-lo primeiro.
— Mas, ele ataca e some igual vapor. Como podemos vencer algo assim?!
— Vamos treinar Lucas. TREINAR! É assim que iremos vencer.
— Parece que não está sozinho... Ele deve ter um exercito. Somos só nós dois.
— Talvez três... – Indicou Petrus que estava dando uma ultima olhada no corpo dos pais, que eram carregados. – Ele também perdeu a família. Acha que não seria uma boa ideia traze-lo junto conosco?
— Não sei. – Revelou preocupado. – Não é certo colocar mais gente em perigo.
— Parece que todos estarão em perigo se não fizermos nada.
— Gente... – Petrus chamou aproximando. – Eu não sei se vocês querem ou permitem... Mas... Eu quero respostas. Quero encontrar esse... Maldito... Eu quero descobrir o que ele quer.
— Também queremos.
— Posso me juntar a vocês? – Encarou os dois. – Se a resposta for não, eu vou sozinho.
— Você acha que está preparado?
— Sinceramente? Não sei. – Petrus deu de ombros. – Mas não tenho motivo para ficar parado aqui. Prefiro acreditar que estou fazendo algo de útil.
— Não quero colocar a vida das pessoas em perigo, mas se esta realmente disposto a vir. Seja bem-vindo. – O mais novo apenas acenou com a cabeça. – Desculpe, não temos nenhuma cerimonia.
— Droga, esperava bebidas e mulheres nuas. – Os três riram levemente.
— Você não é novo demais para essas coisas?
— É, você ‘tá certo. – Bufou irritado. Os guardas da cidade começaram a pedir ajuda para recolher os corpos e tentar arrumar a bagunça. Os amigos então resolveram ajuda-los.
***
Já era bem tarde quando voltaram à pousada. Haviam combinado de se encontrarem no vasto gramado onde Lucas e Petrus trombaram pela primeira vez pela tarde, assim que o funeral dos pais do menino acabasse. Assim que subiram o ultimo degrau da escada, a porta do quarto de Rose se abriu. Rose, Du e Lucas cambalearam para trás por conta do susto.
— Vocês querem que eu morra? – Rose perguntou com o coração acelerado.
— Eu que pergunto isso! – Lucas rebateu. – Não é a primeira vez que você tentar me matar do coração.
— Estão bem? Soube da vila... Vocês foram até lá, não é?
— Sim.
— O que há de errado com vocês?
— Também gostaríamos de saber. – Falaram juntos.
— O que vão fazer?
— Provavelmente iremos embora amanhã à tarde. – Lucas sussurrou, quando escutou alguém resmungar dentro de um dos quartos. Rose arregalou os olhos.
— Por que? Vocês... Moram aqui! Não podem ir embora, de repente!
— Claro que podemos. – Rebateu Du. – E se não se importa, vou me deitar. – Desejou boa noite e entrou em seu quarto.
— Eu também vou.
— Você realmente pretende ir amanhã? – Insistiu Rose. Lucas riu levemente.
— Sim, eu preciso. É importante.
— Ok. – Sua voz soou triste. – Boa noite... – Então entrou em seu quarto. Lucas suspirou cansado e fez o mesmo. Pulou na cama. Em poucos segundos, já estava na imensidão de sua imaginação. Os corpos e o sangue derramado atormentaram sua noite. Ao raiar do sol do dia seguinte, Lucas já se encontrava de pé. Tivera diversos pesadelos e depois não conseguira dormir. Todos seus pertences já se encontravam devidamente empacotados em sua mochila de pano. Vasculhou o local com os olhos a procura de mais algum pertence e não encontrou. Contou suas moedas no pequeno saco guardado no bolso e concordou que seria o suficiente para não morrerem de fome durante alguns dias. Vestiu-se com uma camisa de cor vinho e um moletom preto. Calçou seus sapatos gastos e saiu silenciosamente do quarto. O local já estava funcionando freneticamente. Os desabrigados da vila atacada estavam famintos e a cozinha trabalhava a todo vapor. O cheiro de batata doce com carne de pavão invadiu os sentidos de Lucas, fazendo seu estômago implorar por aquele alimento. Ele precisava sair para comprar alguns suprimentos para a viagem. Porém, seu estômago falou mais alto. Assim que entrou no Salão, todas as mesas estavam ocupadas. Outras mesas menores haviam sido improvisadas para dar lugar para mais refugiados. Alguns moradores da pousada ajudavam a alimentar outros que estavam em estado de choque, já outros afastavam-se dos refugiados. Lucas enfiou-se no fim da fila para receber seu prato. Quanto mais perto ficava de receber sua comida, mais difícil ficava de controlar seu estômago. Amyu, uma mulher de quarenta anos e trabalhava na cozinha da pousada, olhou para Lucas e sorriu antes de servir o prato do garoto.
— Muito obrigado. Eu e meu estômago agradecemos! — Sorriu para a mulher que acenou com a cabeça em resposta. Como o Salão estava lotado, seguiu para a recepção e se acomodou n'um banco no canto da sala. Rose desceu as escadas com seu vestido até os joelhos, tão vermelho quanto seu cabelo e avistou-o. Aproximou e se jogou ao lado dele.
— Oi. — Falou entre bocejos. De boca cheia, o garoto apenas sorriu em resposta. — Minha mãe precisou correr no armazém para procurar alguns remédios, plantas medicinais. Há muitos feridos por aqui. Vou ficar responsável por aqui enquanto ela usa seus conhecimentos em Medicina.
— Que legal. Você tem facilidade com o público. Conseguirá tomar conta. — O moreno falou, antes de dar uma nova colherada de seu ensopado. Quando estava terminando de comer, Du entrou pela porta e o avistou.
— Eu tive uma ideia. — Se jogou ao lado de Lucas. — Petrus disse que não muito longe daqui, há uma vila de lutadores. Eles podem nos ajudar a aprimorar nossas técnicas antes de tomarmos qualquer atitude impensável. — Du retirou a tigela das mãos do amigo e começou a comer o resto que ainda estava na tigela, ao som dos protestos do outro. — Além disso, não sabemos nem por onde começar. Treinar será de grande ajuda.
— Você sabe se lá existe treinamento com armas? — O de pele mais escura perguntou, frustrado por ter perdido o restante de seu almoço. — Estava pensando que poderíamos aprender a usar Espadas, adagas e Arco e Flecha.
— Não é uma má ideia. — Jogou a tigela vazia no colo do amigo. — Sabemos que Harold fábrica arcos e flechas magníficas. Assim como Fraya fabrica espadas e adagas bem resistentes.
— Acho que pelas vezes que fizemos serviços para eles, devem considerar algum desconto. — Lucas se postou de pé. — Vou falar com Fraya e você vai até a fazenda de Harold. — Du concordou e levantou. — Tem dinheiro com você?
— Sempre! — Sacudiu o saco de dinheiro pendurado na alça de sua túnica. — Eu vou direto encontrar com o Petrus para irmos para o enterro. Se você chegar por lá e não estivermos, só seguir para o cemitério. Sabe onde é? — Lucas confirmou. — Ótimo. Te vejo lá. — Então, Du sumiu entre a maré de gente que ali se encontravam. Caminhou até a cozinha e deixou seu prato. Recolheu suas coisas. Despediu-se rapidamente dos funcionários da pousada até encontrar Rose.
— Você vai voltar, não é? — Abraçou o amigo.
—Claro. Aqui é meu lar. — Acariciou os cabelos ruivos da garota.
— Escutei sobre a vila dos lutadores... Meu pai costumava ir para lá, mas eu não o acompanhava. Gostaria de poder te indicar o caminho... – Lamentou. Lucas riu.
— Você já fez e está fazendo o bastante. Eu devo muito a você. — Beijou o topo de sua cabeça e se afastou em direção a porta. Não muito longe da Pousada, estava a Casa de Fraya, o Ferreiro. O homem corpulento, cabelos até o meio das costas, ruivo e uma barba cheia cobriam algumas cicatrizes das centenas de queimaduras que o homem tinha. Ele martelava com força o pedaço de metal que ardia em chamas. Faíscas voavam perigosamente na direção de Lucas.
— Ora, ora, se não é o moleque. — Fraya falou enxugando o suor da testa com o antebraço. — O que você quer?
— É ótimo vê-lo também, Fraya. — Ironizou o mais novo. O ruivo afastou da fornalha e da bigorna e caminhou para dentro da casa até uma bancada de madeira — Tenho algumas moedas de prata comigo. — Jogou seu pequeno saco lotado de moedas. — O que eu conseguiria comprar com isso? — O homem avaliou o saco, seu peso e coçou a longa barba.
— Acho que posso te arranjar uma espada resistente.
— Não consegue acrescentar umas duas Adagas? — Perguntou esperançoso e o homem encarou-o emburrado. — Qual é, Fraya. Quantos serviços eu e o Du fizemos para você? Merecemos um desconto. — O homenzarrão grunhiu e afastou-se da mesa. Vasculhou em sua vasta estante de espadas forjadas, avaliando uma a uma. Escolheu e a colocou na mesa. Agora procurava alguma Adaga no baú lotado. Assim que a encontrou, colocou junto a espada no balcão.
— Isso daqui é o que posso oferecer. São extremamente resistentes e corta o com muita facilidade. — Ergueu a espada e fez rápidos movimentos com a mesma. – E as adagas são boas para um ataque surpresa. Fáceis de sacar, arremessar e principalmente perfurar. – Colocou as adagas sobre o balcão, vasculhou dentro de uma bolsa de couro e retirou um cinto.
— Esse cinto é feito com couro de touro. Firme. Para você ou a pessoa que for usar encaixar suas adagas. – Indicou os pequenos bolsos na lateral do cinto. – E para o Espadachim que for usar essa espada. – Retirou de baixo do balcão uma bainha que por fora era um couro duro e por dentro forrado por pelo. – É uma bainha feita com couro de urso e pelo de lobo. Vou te contar que meu caçador teve um trabalho para conseguir esse couro de urso.
— E é você mesmo quem costura?
— No começo não. – Falou guardando o saco de dinheiro. – Sempre levava para Mirna, a Costureira do centro da cidade. E após alguns dias aprendi a fazê-los. E não é muito difícil. Com prática, você aprende rápido. – Lucas sorriu observando a espada. – Algo mais que precisa, moleque? Preciso voltar ao trabalho.
— Não, por agora só. – Agradeceu o homem, que voltou ao seu posto inicial e recomeçou que estava fazendo enquanto Lucas dava meia volta e caminhava em direção ao centro da cidade. Precisava comprar alguns alimentos e, se possível, alguma barraca. Assim que chegou ao centro da cidade, o movimento era constante. Avistou o letreiro da Costureira, que fornecia as cabanas, entre as tendas de frutas e apetrechos vindos de outras terras. Durante o percurso até a Costureira, comprou diversas frutas e iscas para pesca. Quando finalmente chegou ao destino, mastigava com vontade uma maçã bem vermelha e doce, vinda de Loyrt. Entrou pela porta, e o sino sobre sua cabeça anunciou sua entrada. Uma senhora de cabelos extremamente grisalhos, com aparência conservada apareceu de trás do balcão.
— Oh! Olá Lucas! – Sorriu quando o garoto aproximou. – Fiquei devendo algumas moedas para você, correto?
— Você pode me ajudar com outra coisa, Mirna! Não se preocupe. – Aproximou-se do balcão. – Preciso de alguns sacos de dormir e se possível uma tenda média. E então ficaremos quites?
— Claro, Lucas, claro! – A mulher sorriu amorosamente. – Quantos sacos você precisa?
— Consegue me fornecer cinco? – Ela entrou em uma sala que estava atrás de si e voltou minutos depois com o pacote de sacos de dormir, envolto na tenda, formando um tipo de sacola.
— Aqui estão. Seus cinco sacos de dormir e sua tenda. Todas feitas com pele de Cervo. Quente e extremamente confortável. Principalmente para dias frios! – Lucas pegou no balcão e amarrou com um barbante em sua mochila de pano. – Sabe, algumas pessoas já estão fabricando mochilas de couro. Você deveria dar uma olhada.
— Isso soa um pouco caro para meus ouvidos. – Falou fazendo a mulher soltar uma alta risada. – Nos vemos novamente um dia, Mirna!
— Boa viagem! E não se perca! Sempre que voltar, apareça por aqui para me dar um alô!
— Pode apostar que virei! – E então, saiu pela loja, escutando o sino anunciar sua saída. Estava preparado. Precisava encontrar os amigos o quanto antes. Assim que passou pelas barracas de frutas, começou a correr. Quase não sentia os pés tocarem o chão.
****
Du e Petrus estavam no local marcado. O enterro seria no cemitério logo a frente, daqui a alguns minutos. O mais novo estava com sua mochila de pano nas costas e um cinto com duas adagas enferrujadas, enquanto o mais alto estava com dois arco e flecha pendurados no ombro e duas aljavas, lotadas de flechas, presas as costas.
— Acho que ele se perdeu. – Du falou, notando a demora do amigo.
— Ou ele decidiu ir sem nós.
— E ir sem um arco e flecha? – O mais alto falou mostrando as armas nas costas. – Duvido. – Du olhou para o amigo e Petrus mantinha o olhar triste. O de cabelos mais claros tocou em seu ombro. – Sinto muito pela sua perda.
— É, eu também. – Sorriu franco para o outro. Bem de longe, avistaram a figura de algo correndo na direção deles.
— Já não era sem tempo! – Du comemorou, quando o amigo parou em sua frente.
— Muito atrasado?
— Um pouco. – Du sussurrou para o amigo, enquanto seguiam Petrus – Os corpos dos pais dele já estão ai. Ele veio mais cedo com os corpos e já deixou tudo preparado para a partida. Não quer se estender aqui. Quer finalizar o quanto antes. – Na linha de visão dos três, havia um arco com flores, demarcando a entrada do cemitério. Para cada lado do arco uma imensidão de cerca de madeira. Atravessaram-no e a diversidade de túmulos foi se revelando. Alguns mais simples e outros com adornos e flores. Avistaram um grupo de poucas pessoas. Petrus apressou o passo até esse grupo e cumprimentou um por um. Haviam por volta de dez pessoas. Alguns vizinhos e colegas de trabalho do pai dele.
— Esses são Lucas e Du... Meus companheiros. – Os dois apenas acenaram com a cabeça para o grupo. O coveiro, que dormia apoiado na pá, finalmente acordou e coçou a garganta. Petrus analisou uma última vez o corpo dos pais deitados sobre aquele pano branco. Ambos sem cor e sem nenhum tipo de calor humano. As pessoas ao redor choravam copiosamente. Petrus apenas mantinha silêncio.
— Quando o Senhor quiser. – O coveiro falou. O menino acariciou o rosto dos pais e confirmou com a cabeça.
— Adeus mãe. Adeus pai. Estaremos juntos sempre. E eu prometo vingar vocês. – As lágrimas escaparam de seus olhos. Levantou e afastou dos corpos. O coveiro e mais duas pessoas colocaram os corpos dentro do buraco e começaram a cobrir de terra. Petrus ajeitou sua mochila e caminhou para a saída do cemitério, com os dois em seu encalço.
— Sinto muito. – Foi o que Lucas conseguiu dizer ao garoto que apenas balançou a cabeça sem encara-lo. Entraram de volta na floresta.
— A Vila que falei fica ao leste. – Apontou para a direção. – Se seguirmos por aqui, chegaremos a uma clareira, onde podemos passar a noite e amanhã continuar a caminhada. – E então, voltou a puxar a fila. Lucas e Du apenas encararam um ao outro e seguiram o mais novo.
— Petrus, nós realmente entendemos e sentimos sua perda. – Du começou cautelosamente. – Mas temos que nos precaver.
— Sim, não podemos sair à tona atrás do cara. Ele tem gente. Muita, pelo que parece. Temos que ir passo a passo. Eu consigo compreender sua dor. Eu passei pela perda dos meus pais e ainda por cima eu sequer pude ver o corpo deles. Acredite, eu fiquei com raiva durante muito tempo. Ainda tenho, mas eu soube canalizar ela para, no momento certo, fazer a coisa certa. Às vezes não dá certo e eu quero ir atrás dele. Mas eu nem sei quem é ele ou o que eles são. – Petrus apenas ouvia e não respondia. – O que eu quero dizer é. Não devemos tomar atitudes cegas.
— Eu entendi, ok? Só preciso de um tempo. – Petrus retrucou irritado e Lucas apenas bufou. Caminharam por algumas horas e o sol já estava se escondendo por de trás das montanhas, dando lugar a enorme lua amarelada no céu. Finalmente chegaram à clareira em que Petrus havia comentado.
— Vou caçar alguns peixes. – Du falou e se transformou.
— Vou procurar alguma carne por aí. – Petrus também se transformou e saiu por entre as árvores.
— Ok, eu fico aqui arrumando e tomando conta das coisas de vocês. Babacas. – Resmungou o moreno. Abriu a pequena sacola que Mirna havia feito com a tenda e os sacos de dormir e começou a montar. Recolheu alguns gravetos na floresta e diversas plantas do topo das árvores. Montou a estrutura da barraca e jogou a tenda por cima dela, formando assim o abrigo deles que era suficientemente grande para, no máximo, quatro pessoas. Forrou o chão com as folhas recolhidas e estendeu os sacos de dormir, juntou as coisas dos outros dois, incluindo os arcos e flechas e colocou dentro da barraca. Retirou sua espada das costas e sua adaga e pousou-as em cima de seu saco de dormir. Recolheu mais alguns gravetos e acendeu uma fogueira. Du apareceu por entre as árvores sem camisa, com quatro peixe gorduchos dentro de uma trouxa, feita com sua camisa.
— Foi até que fácil pega-los. Acho que estou cada vez melhor com minha caça. – Sorriu satisfeito o mais alto.
— É, de nada por ficar aqui cuidando de suas coisas enquanto... – Petrus também aparecera carregando um cervo. – Vocês dois faziam a parte legal que é caçar.
— Você reclama de mais! – Du falou tocando o ombro do amigo. – O importante é que estamos todos juntos e devemos trabalhar em equipe.
— Cadê aquela sua adaga? – Petrus indagou. – Preciso tirar o couro desse cervo.
— E fatiar esses peixes. – Completou Du. Lucas levantou-se e pegou a adaga. O mais novo parecia ter bastante experiência com aquilo, pois conseguiu retirar tudo sem machucar a carne e n’uma velocidade incrível. Du fatiou os peixes e colocaram sobre uma estrutura de madeira acima da fogueira para frita-los.
— Não use todo o peixe. Vou recolher alguns cogumelos. – Falou o moreno para Du. Levantou e adentrou na floresta. Devido a diversos serviços prestados aos comerciantes de Dervez, sabia identificar as raízes e cogumelos comestíveis e os que poderiam ser letais. Recolheu algumas dessas raízes e diversos cogumelos e averiguou as árvores, procurando por alguma parte do tronco mais arredondada para utilizar como tigela. Conseguiu achar apenas duas. Estava com fome o suficiente para que não conseguisse pensar com clareza. Voltou para a clareira e ambos saboreavam as iguarias. Recolheu um pouco de água nas tigelas de madeira e colocou sobre o fogo. Em poucos minutos ela já estava borbulhando. Acrescentou pedaços de peixe e cervo na água e logo em seguida algumas raízes e cogumelos. Um cheiro delicioso começou a invadir a narina de todos e Lucas sorriu satisfeito.
— Isso daí eu quero. – Du falou ameaçando pegar a tigela, quando Lucas colocou a adaga próximo a seus dedos.
— Nem pensar. Tire esse dedo imundo daí. Você acabou com meu ensopado lá na pousada. Agora você fica sem. Essas são pra nós dois aqui. – Disse piscando para Petrus que riu alegremente. Du fechou a cara e levantou-se.
— Não estava com fome mesmo, vou me deitar. – Então sumiu dentro da barraca. O silêncio reinou enquanto ambos saboreavam o ensopado.
— Obrigado, Lucas. – O garoto falou de repente. – É bom saber que, algum dia, esse vazio passará. Eu não imagino como deve ser não poder se despedir dos pais. Mesmo que eu não tenha dito nada para eles enquanto vivos, sei que me ouviram.
— Com certeza ouviram. – Lucas concordou e então sentiu o vazio invadir seu peito. – Sabe. Não é fácil. Não será menos doloroso quando você lembrar. Só que você aprenderá a viver com o sentimento. A dor não será presente o tempo todo. Mas ela estará aí. – Parou um momento encarando o ensopado. – Sim, eu sequer puder dizer adeus ou tocar o rosto deles mais uma vez. Eles... – A garganta secou e os olhos ameaçaram encher. Coçou a garganta. – Eles desapareceram sem deixar rastros. Eu não quero simplesmente acabar com esse homem. Eu quero que meus pais descansem em paz. Não posso trazê-los de volta, mas posso dar paz a eles. Mesmo que eu morra no processo.
— Você não vai. Daremos um jeito no babaca. – Ambos riram. Terminaram o ensopado. – Bom, eu vou me deitar. Amanhã teremos mais caminhada.
— É, eu acho que vou ficar um pouco mais aqui fora.
— Ok, boa noite. – E Petrus sumiu dentro da cabana. Lucas soltou o ar pesado pela boca e encarou o céu.
— Ele procura por mim. Ele matou gente por minha causa. O que eu devo fazer? – O silêncio era torturante. – Pai, mãe? O que eu devo fazer? – Uma fina lágrima escorreu de seus olhos. – Eu vou impedir que ele continue matando gente inocente. – Sua dor rapidamente se transformou em raiva. Seus olhos, outrora castanhos, começaram a ser dominados por uma cor mais escura. Ele permaneceu ali o resto da noite.
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