Animos

3 Capítulo 3


A burocracia é um pesadelo nacional, na verdade, um pesadelo mundial. Ninguém gosta de ter que ficar esperando por uma vaga em um hospital ou que a polícia apure o caso para ver quem matou o marido da sua vizinha.

Sanders, ta aí cara? Ele demora pra responder....

Como toda coisa neste planeta, podemos burlar a burocracia também. Mas o que eu quero dizer é que não é bem o sentido real da burocracia, mas sim o “esperar que algo seja feito”.

Seu primo conhece o garçom de um restaurante no centro da cidade, e por isso ele não recebe uma hambúrguer com saliva do cara puto que trabalha dez horas diárias, procurando descontar toda a raiva que ele tem da vida de merda dele em cada hambúrguer que é servido.

Seu tio conhece o dono de uma loja de roupas caras, e por isso ele recebe quinze por cento de desconto quando ele compra ali. Ele recebe esses quinze por cento de desconto não por apenas comprar somente naquela loja, mas ele conhece o dono.

Sanders, atende esse telefone, filho da mãe...

Não é trapacear na vida e nem ser malandro, é ser esperto. Quando você é esperto, você se dá bem. É a lógica da vida, sempre foi, sempre será.

- Erik! A quanto tempo que nós não nos falamos, cara!

Preciso que você me ajude com algo. Digo, não é uma mudança ou algo pra um sábado de sol.

- Claro, vou te ajudar. — Ele aceita ajudar sem questionar muito, como um bom amigo faria. Mas é claro que ele tem que saber onde está se metendo. — Não posso ter nenhum detalhe sobre isso antes?

Não posso falar muito disso por telefone. Vamos para o bar, nos encontramos lá em vinte minutos.

- A proposta melhorou, hein? Ele ri. O senso de humor nunca faltava em Sanders.

19 minutos e quarenta e dois segundos.

Subo as escadas e troco de roupa. Coloco um par de calças jeans, uma camisa básica cinza e uma jaqueta preta de couro por cima. Pego minha carteira, meu celular, meus fones de ouvido e vou para a garagem. Na garagem encontro meu tesouro. Meu carro. Mas não é qualquer carro. Ele está coberto com uma capa, para não sofrer com possíveis goteiras e sujeiras. Os moradores do prédio devem se moer de curiosidade para saber o que eu guardo ali. Malditos invejosos.

Eu só saio de táxi. Na verdade, muitas vezes tenho o privilégio de ter um mexicano sem escolaridade dirigindo pra mim. Não pense mal do Fernandes, ele é gente boa. Ele sustenta apenas ele a mulher, diferente da cunhada, que tem quatro filhos morando com ela em Miami, e que tenta conseguir o máximo de dinheiro como diarista.

Quando retiro o pano, um sorriso vem ao rosto ao ver a lataria amarela daquele Camaro em perfeito estado, polido e limpo. Uma das coisas mais emocionantes quando se compra um carro é sentir o cheiro dele. O cheiro do couro, o cheiro das peças novas, do motor limpo que nunca sentiu uma gota de combustível causar uma explosão nos canos.

Aquele carro amarelo com faixas pretas vindas da frente do automóvel indo até a traseira era o sonho de qualquer adolescente. Entro no carro, giro a chave e o ronco do motor me fez sentir com 20 anos novamente, como um jovem que tinha acabado de ganhar o seu primeiro carro e queria correr a toda velocidade pelas estradas interestaduais, dirigindo a toda velocidade pelo deserto de Las Vegas para se deitar no capo e apreciar o luar e as estrelas. A tempos que não me sentia tão bem dentro de um carro. Sai da garagem de casa e fui para o pub em que me encontraria com Sanders. O homem que cuida da garagem teve três segundos de brilho nos olhos ao finalmente ver o que tinha por debaixo da capa.

Cheguei dez minutos antes da hora marcada para poder analisar o local. Não poderíamos ser vigiados e nem ter nossa conversa ouvida por algum gorila de Maxwell. Me sento em uma mesa com estofamento clássico, vermelho e duro, mas um duro que chega a ser aconchegante. Estou perto da janela, o garçom vem até minha mesa e peço um chope, olho pela janela. Começa a chover. Fico olhando em volta em busca de alguma face suspeita, mas aparentemente nada relevante.

Um cara vinte e quatro anos com uma toca preta, cabelos pretos, calça jeans apertada, uma camisa da banda The Killers e uma bolsa com alça, tomando uma cerveja que ninguém mais toma e lendo algo em seu Kindle. Ele olha pra mim, e quando vê que foi descoberto, desvia o olhar pro seu e-book.

Sanders chega em um táxi, sem guarda-chuva e apenas com um sobretudo preto por cima do terno. Os cabelos castanhos e espetados, a barba feita e a pele jovem mostravam um homem comum de trinta e cinco anos, mas os olhos castanhos não eram normais. Aqueles olhos castanhos caçavam, vasculhavam o ambiente em que ele entrava como uma onça-pintada vasculha uma vasta floresta tropical em busca de uma presa.Esses olhos castanhos já viram muita coisa.

Pessoas morrerem,

Guerras começarem,

Guerras terminarem,

A mulher dos seus sonhos.

Isso é algo que eu não me impressiona quando vejo acontecer, já que um homem como Sanders foi treinado para planejar planos de assalto e defesa em questão de segundos. Tudo o que aquele homem vê serve de estratégia. Este homem é uma máquina criada pelo governo. A máquina de guerra, a máquina que nos protege.

Sanders se senta em minha mesa. Nos cumprimentamos com um aperto de mão, pedimos uma rodada de chope e vamos direto ao assunto. Eu conto sobre tudo, desde Springfield até a invasão no dia anterior. Vejo que ele presta muito atenção e pergunta detalhes que eu consigo lembrar perfeitamente, como se estivesse vendo um filme na minha cabeça. Ele puxa um bloco de notas e anota tudo o que acha ser essencial para trabalharmos em um plano de ataque. Ressalto os detalhes sobre Maxwell. Sobre os documentos, as falcatruas, o desvio de tráfego personalizado e sobre Nikolai. Quando termino de contar, ele solta um leve suspiro e me diz:

- Olha, Erik, não estamos lidando com criminosos de beco de Nova York. Nos dois sabemos que foi Maxwell Stormer, o respeitado e influente diretor da sua unidade. Você deve saber que você irá se envolver em uma briga que já está ganha pro lado dele — ele continua, mesmo sabendo que eu já imaginava que ele fosse dizer tudo isso. — Você também sabe que isso provavelmente acabará em sua morte e na morte da Julie. A expressão de Sanders ao concluir a frase diz tudo. Se eu fosse combater Maxwell, não seria nada fácil. Ele tinha o controle de uma parte do governo, além de suas influências em outros setores.

Mas não se você me ajudar! Eu sei de tudo. Eu acabei de te contar, cara, para de ser estúpido. Nos últimos meses descobri certas coisas sobre Maxwell estar envolvido com Nikolai Butko e algumas empresas, como eu disse. Se eu conseguir pegar eles e mostrar a todos quem eles realmente são, será perfeito. Eu não estou sonhando alto, sei que posso conseguir.

- Erik você sabe que essas pessoas são poderosas...você sabe que não pode chegar na Animos com uma pistola e simplesmente atirar em Maxwell e achar que tudo ficará bem, por que não ficará. Ele não é a Animos, ele faz parte dela, e isso que ele faz com o Butko envolve outras pessoas, é algo maior que a gente, maior que Julie.

Eu tenho que salvar Julie! Esquece as balas, os seguranças e vamos lá agora. Vamos explodir tudo.

- Ok, e acredito que você saiba ao menos onde ela está, certo?

Ainda não..mas iremos descobrir agora, eu digo. Vou ligar pro escritó...

Acredito que você também saiba como passar pelos seguranças, apagar o registro das câmeras de segurança, saiba a rotina dos guardas...

Não vêm me dizer o que fazer, caralho! A gente descobre com o tempo, ok? Mas isso é algo que não temos de sobra.

Pego meu telefone, digito os números e aguardo alguém atender. A secretária atende, eu peço para que ela transfira a ligação e diga que quem está ligando é Erik Thurman. O inimigo. Quem vai destruir aquele prédio. A ameaça. E depois de seis segundos:

- Erik! A quanto tempo não nos falamos. Você desapareceu em Springfield. Tempos difíceis, não é mesmo? HAHA!

Eu me controlo pra não mandar esse cardíaco ir pra puta que pariu, só por que estou no pub.

- Vejo que você anda muito exaltado Erik...aliás, Julie está bem, ainda não torturamos ela. Quem sabe mandamos um dedo da mão dela daqui a um dia.

Eu juro que irei até seu escritório e colocarei cinco balas nessa sua cabeça. Desgraçado, depois de tudo o que meu pai fez por você...

- Cuidado com suas palavras, agente Thurman, elas podem custar a vida de sua parceira. Mas vejo que você quer realmente salvá-la, então vamos fazer o seguinte: amanhã as quatro horas em ponto no aeroporto John F. Kennedy, Terminal 5. E é claro, apenas você, sem companhias.

Nos encontraremos lá então? — eu pergunto. — E como saberei que Julie está viva?

- Não seja tolo, Erik, apenas não seja.

Maxwell desliga o telefone e minha cabeça entra em um turbilhão de pensamentos. Sanders diz que vai me ajudar e começa a planejar como iremos amanhã. Ele diz que dois agentes disfarçados estarão me vigiando e que ele irá supervisionar tudo de uma van no estacionamento do aeroporto. Mesmo contando com a experiência de Sanders em campo, ainda tenho em mente que Maxwell irá trazer um bom pessoal para o aeroporto amanhã. Depois de terminar a terceira rodada de chope, vamos para minha casa para podermos nos prepararmos.