Animaquestria

1 Coelho Branco


Notas iniciais
Primeiramente, muito obrigado a todos que lerem a Fic.Segundo, eu não planejava escrever mais nada esse ano, porém o acaso me trouxe uma ideia que não pude deixar passar. Boa leitura.

O barulho de estalos e hélices batendo contra a grade do pequeno ventilador em seu cubículo estava deixando Twilight Sparkle insana, porém desde que o ar condicionado quebrara na terça-feira o ventiladorzinho que havia comprado em um camelô no caminho para o seu trabalho era a única coisa que a prevenia de desmaiar com esse clima quente e abafado. O unicórnio púrpura era uma jornalista em ascensão no Clarim Diário, um dois mais importantes jornais de toda Equestria.

Seu espaço separado dos demais por divisórias brancas que a impedia de olhar para seus colegas sem ficar de pé, uma cadeira de rodinhas preta moderavelmente confortável e ordinária, sua mesa era simples, porém não podia reclamar de falta de espaço. Na sua mesa ela conseguia comportar seu computador, um recipiente branco e longo com uma rosa de plástico medíocre, que dava alguma cor ao ambiente sem graça e uniforme de toda a redação, seu ventilador quebra-galho e um porta-retrato simples de moldura negra.

Os teclados desenvolvidos por pôneis eram achatados como um fino tapete e possuíam teclas relativamente grandes, fazendo com que tais aparatos ocupem muito espaço, seu mouse tinha uma forma retangular com uma espuma onde a pata era descansada e aumentava a fricção, fazendo com que o rato fosse guiado com precisão.

Unicórnios por sua vez se importavam menos com tais detalhes já que usavam o dom da magia para operar mecanismos eletrônicos com uma precisão que os pôneis comuns e pégasos não podiam desfrutar, tornando-os peças importantes em trabalhos delicados, Twilight não podia chegar alcançar os mesmos lugares que os cavalos alados, mas tinha um grande orgulho em sua habilidade de manipular uma câmera e redigir ótimos textos em tempo recorde.

Ela se debruçou sobre sua mesa, tomando cuidado para não pressionar teclas aleatórias do teclado, apoiando sua cabeça entre seus cascos dianteiros enquanto soltava um longo suspiro. A semana havia sido longa e trabalhosa, estava trabalhando em uma matéria especial para o dia internacional da Abolição da Escravatura, e agora que estava próxima do fim um ônibus desgovernado acabou atingindo o armário do seu provedor de internet, teria que ficar até mais tarde na redação para acabar a matéria.

“Ei egghead, feliz início de final de semana!” Twilight ergueu sua cabeça e olhou de onde vinha o som, no topo de uma das divisórias de seu cubículo lá estava sua amiga e colega de trabalho Rainbow Dash, depois deu uma olhada para o relógio, faltavam dez minutos para o fim do expediente, o horário mais esperado por todos os pôneis na sexta-feira.

“Rainbow, que surpresa te ver aqui dentro.” O unicórnio disse com um sorriso ao fitar a cabeça Rainbow que era a única parte visível da égua azul, sua crina multicolorida estava apenas levemente desajeitada, provavelmente o pégaso teve que passar o dia cumprindo tarefas dentro do jornal, ao invés de lá fora como o de costume.

“Nem me fale, Just Journal me pediu para cuidar de umas coisas chatas aqui dentro, mas é claro que eu já dei conta de tudo.” A égua disse com um sorriso orgulhoso no rosto, levando um casco ao peito mesmo que Twilight não pudesse ver tal coisa. “Então, eu comprei uma garrafa de Coelho Branco, as meninas vão ao meu apartamento hoje à noite, quer aparecer por lá?” Perguntou e logo fez questão de emendar com um sorriso menos orgulhoso e mais amigável. “Vai ser o máximo!”

Twilight engoliu seco e demorou um pouco a responder, evitando contato visual com sua amiga por alguns segundos, essas reuniões entre as meninas era sempre algo divertido, divertido até demais quando uma garrafa de uísque entrava na brincadeira. Mas sabia que se deixasse o seu trabalho Just, mais conhecido como JJ o dono do Clarim Diário, iria lhe dar uma punição exemplar e toda sua ascensão seria jogada na lata de lixo.

“Foi mal Rainbow...” A animação do pégaso já se foi ao ouvir tais palavras. “Eu queria mesmo ir, mas se eu não terminar essa matéria até amanhã o Just vai chutar o meu flanco. Se eu não estivesse sem internet em casa eu já teria acabado isso aqui ainda ontem.”

A égua de crina multicolorida suspirou. “Mas que saco.” Disse enquanto olhava para os lados só para ter certeza de que ninguém iria ouvir. “Eu odeio esse cara.” Finalmente falou com um sorrisinho, dizer o quão chato seu chefe era sempre lhe deixava um pouquinho mais alegre.

O unicórnio por sua vez se reclinou um pouco em sua cadeira. “Sabe Rainbow, não é muito bom ficar falando esse tipo de coisa toda hora, essas coisas costumam a voltar pra gente uma hora ou outra.”

“Ah, que se dane.” Ela respondeu sacudindo um de seus cascos no ar, dessa vez alto o suficiente para que Twilight a visse. “Applejack falou que vai levar um abacaxi para caso a Fluttershy resolva beber.”

“Mas e qual seria a relação entre bebida, Fluttershy e um abacaxi?” Ela perguntou confusa, sabia que misturar frutas com bebidas era algo comum, mas não via a relação delas com um pônei já bêbado.

Rainbow por sua vez deu de ombros. “Isso eu vou descobrir hoje à noite, Applejack disse que até vale a pena pagar para ver.”

Um pouco frustrada pela situação o unicórnio estendeu seu casco e aumentou a velocidade de seu ventilador, esse dava sérios sinais de poder parar a qualquer momento ou arremessar sua hélice pelos ares.

“Se eu conseguir acabar mais rápido do que o previsto, eu dou um pulo no seu apartamento, tudo bem?”

A resposta que recebeu foi um aceno de cabeça de sua companheira. “Vamos lá egghead, me deixe orgulhosa, coloca esse chifre para trabalhar e aparece lá! Eu vou indo antes que aquele cara me pegue saindo cinco minutinhos mais cedo, fui!” Dash ergueu um de seus cascos novamente, acenou para a sua amiga e foi embora.

“Ai ai, mas que coisa...” Twilight deixou a reclamação escapar de seus lábios e deu um giro em sua cadeira antes de fixar seus olhos na tela de seu computador novamente, esticou suas pernas dianteiras para frente e rolou seus ombros, sentindo os seus ossos estralarem. “Eu deveria ter ido atrás do coelho branco...” Murmurou tentando achar uma posição confortável na cadeira.

Seu chifre ficou revestido por uma aura cintilante de cor framboesa que também envolveu o teclado exagerado e seu mouse, em poucos segundos um monte de informações começaram a aparecer no visor. O unicórnio separava o que parecia ser útil ao seu trabalho e tudo isso era muito mais fácil com magia, porém algo lhe frustrava, tinha um sentimento de que algo estava errado.

Desde pequenos os unicórnios eram ensinados a levitar e manipular objetos com a magia de seus chifres, tendo seu poder mensurado pelo peso máximo que conseguiam levantar. Twilight era um pônei gentil, porém orgulhoso, sua inteligência e grande poder mágico eram invejáveis para uma jovem de sua idade, porém nos últimos meses ela havia começado a se questionar se não haveria uma maneira melhor de usar magia.

Os pôneis com chifre tinham um poder incrível, e isso era claro como o dia, mas o sentimento de que tudo o que podiam fazer era usar telecinésia deixava esse unicórnio em especial perturbado. Ela deu uma pausa em seu trabalho e se inclinou sobre o braço esquerdo de sua cadeira, desviando seu olhar na direção de seu próprio flanco.

Inexplicavelmente ela sentia um vazio assombroso em sua alma toda vez que observava aquela região em um espelho ou em outra superfície refletora, no fundo de sua mente ouvia alguém suspirar de que algo estava faltando.

Ao olhar para a tela do computador novamente, viu uma página branca com as seguintes palavras no campo de pesquisa do navegador, como conseguir Marca Especial. Ela não se lembrava de digitar tais palavras, nem mesmo tinha alguma ideia do que era uma Marca Especial, porém achou engraçado como todos os resultados eram relacionados ao filme Cruzada e se perguntou qual poderia ser a relação entre tudo isso.

“Marca Especial... cruzada...” Twilight refletiu por um momento enquanto se ajeitava na cadeira novamente. “Eu sinto que há alguma conexão, mas não consigo me lembrar.”

“Bem, de volta ao trabalho!” Exclamou enquanto erguia um casco para o alto, em uma tentativa de se animar com a própria voz, e voltou a fazer sua pesquisa. O brilho mágico que tomou conta dos periféricos do computador se intensificou quando a égua aumentou seu foco na pesquisa, não achava resultados que fosse de algum interesse, queria algo mais profundo com mais conexões, ela queria envolver seu leitor e lhe mostrar o quão cruel e perturbadora era a realidade de um escravo.

Porém a pesquisa continuava sem sucesso, por mais que descrevesse perfeitamente o que queria o mecanismo de busca parecia ter dificuldades em lhe mostrar os resultados desejados, mas eles deveriam estar lá em algum lugar de difícil acesso.

A égua bufou em frustração e se levantou em um movimento rápido. Eu vou ver se ainda tem algum café na cafeteira, pensou, mas eu nem gosto de café, então rebatendo o pensamento anterior ela voltou a sentar e a girar em sua cadeira.

“Deve ter algum modo mais fácil...” Ela falou alto, a essa hora já devia estar sozinha na redação e ninguém iria lhe incomodar por falar em voz alta sozinha, nem iriam chama-la de louca. O brilho de seu chifre cessou por um segundo e voltou a brilhar logo depois, fazendo com que o teclado e o mouse perdessem seu cintilar mágico que foi passado para o molho de chaves que estava dentro da bolsa de Twilight.

As chaves foram levitadas para fora da bolsa que estava no chão e o unicórnio começou a brincar com elas usando sua telecinésia, elas giravam no ar e faziam um barulho metálico que irrita a qualquer um, porém aquele pônei estava com sua mente em outro lugar, imerso em ideias fantásticas ele conseguia ver a si mesmo.

“E se unicórnios pudessem fazer algo mais com magia?”

Com uma expressão determinada, Twilight deixou as chaves caírem sobre sua mesa e se aproximou alguns centímetros do computador com sua cadeira, descansou seus cascos em cima de seu colo e fechou seus olhos, canalizando sua energia mágica para a ponta do seu chifre e manifestando ela através de um brilho púrpura, porém não a focou em um objeto como os unicórnios eram ensinados.

Uma enorme e robusta parede entre ela e o que queria era o que o unicórnio sentia, tentava moldar sua magia de forma diferente, porém a única saída desse labirinto mental parecia ser a telecinésia. Twilight sentia sua energia sendo queimada sem nenhuma finalidade, e perguntou-se por um momento o que queria.

Controlar o computador e não apenas seus periféricos, ela queria uma conexão direta e estava disposta a fazer sua ideia se tornar realidade. O brilho de seu corno se intensificou e desceu da ponta até a sua base, fazendo com que mais magia fosse consumida sem nenhum motivo aparente.

Twilight se perguntou qual seria o próximo passo e se realmente existia algum, com os olhos fechados ela conseguia ver em sua mente ela mesma parada em frente a uma enorme parede que bloqueava o seu avanço, até que teve uma ideia que a surpreendeu. O unicórnio sempre foi um pônei dócil e obediente, uma criatura que sempre se opôs a qualquer tipo de conflito e se preocupou em mostrar trabalho para ter destaque.

Porém agora pensamentos destrutivos flutuavam em seu interior, e estava obstinada a derrubar essa barreira que havia sido erguida em sua mente desde que era apenas uma pequena potra e lhe ensinaram que a telecinésia era tudo o que havia para se aprender. Twilight podia sentir sua alma arder enquanto tentava queimar energia o suficiente na esperança de desmantelar aquele bloqueio mental que ela mesma havia ajudado a construir, e tijolo por tijolo ele começou a cair.

O processo era doloroso, a égua tinha que lutar contra anos de conformismo e o costume de ficar satisfeita mesmo sem testar o limite de suas habilidades, barreiras que ela e a sociedade lhe impuseram ao longo de sua vida, tudo fora condensado em um muro pálido feito de tijolos cinzentos e sem vida como a rotina que aguentara até aquele dia.

Sua energia se esvaia na medida em que conseguia progresso, a preocupação em não conseguiu por um momento lhe ameaçou, porém seu brilho mandou as sombras de sua consciência para longe, hoje seria o dia em que mudaria o seu mundo de vez. A pequena potra ametista sentiu seu flanco começar a queimar enquanto o muro se desfazia em sua frente, a dor era forte como ser constantemente ferroada por um zangão furioso, porém ao mesmo tempo satisfatória como desembrulhar um presente tão esperado.

Ao abrir os olhos ela pode ver o que estava aprisionado do outro lado, em meio aos destroços dos tijolos pálidos uma égua alta e orgulhosa de pelo púrpura acordava de um descanso longínquo, seu corpo se erguia se apoiando em suas pernas finas que outrora haviam sido fortes e robustas, suas asas gigantescas se abriram e só de observa-las Twilight pode sentir seu coração pular uma batida, apesar da tristeza que inundava seu coração ao vê-las esqueléticas. Quando ela ficou de pé a pequena égua pode ver o quão raquítica a criatura à sua frente estava, porém sua imaginação conseguia ver facilmente como ela teria sido bela no passado, os seus olhos como os seus encaravam o fundo de sua alma enquanto a desbotada crina azul safira com listras rosadas e púrpuras tremulava com seus movimentos, destacando o chifre longo e pontudo que brotava de sua cabeça.

“Eu esperei você por muito tempo, Twilight.” Ela disse com um sorriso fraco e sincero, cheio de esperança.

No flanco dela Twilight viu algo que lhe causou um estranho déjà vu, uma marca que continha uma grande estrela rosa de seis pontas sobreposta por uma menor branca rodeada por outras ainda menores. Ela não podia acreditar que estava vendo um alicórnio na sua frente.

“Quem é você?” As palavras finalmente escaparam para fora de sua boca em um balbucio mastigado e quase engolido, sentia seu corpo quente e ofegante tanto pela magia que usara e pela situação bizarra que fez seu coração disparar.

“Eu sou sua magia.” O alicórnio respondeu prontamente, como se já soubesse da pergunta. “Eu sou você.” E em um piscar de olhos, suas orbes foram tomadas por um brilho branco cegante, Twilight desviou seu olhar enquanto sentia ser chutada de volta para a realidade, e notou em seu flanco a mesma marca que o alicórnio carregava, agora tudo fazia sentido.

Seus olhos se abriram de verdade, e lá estava ela em seu cubículo branco, tão sem graça quanto a parede que formara dentro de sua mente, e por um momento se sentiu enjoada enquanto pensava se isso havia alguma relação. O próximo reflexo foi olhar para seu flanco, e lá estavam as suas estrelas, lá estava a sua magia.

A redação do jornal ficou imersa em um longo silêncio, interrompido apenas pelas fortes batidas do coração do pequeno pônei, ela estava perplexa. Sacudindo sua cabeça em uma tentativa inútil de colocar suas ideias nos devidos lugares, mas não conseguia conter sua empolgação, sentia-se estupidamente viva pela primeira vez em muitos anos, na verdade ao parar para refletir sobre tal confirmação ela não conseguia se lembrar de outra vez em que se sentira assim.

Tinha vontade de gritar, mas não sabia o que e nem o por quê. Twilight respirou fundo, fechou seus olhos e tentou se acalmar, porém agora ela podia sentir a magia sendo bombeada pelo seu coração dentro de suas veias, estava mais do que pronta para fazer acontecer. Depois de alguns minutos o seu coração começou a bater em um ritmo mais aceitável e ela conseguiu se concentrar.

Ainda com os olhos fechados, seu chifre emanou um brilho rosado que iluminou as paredes brancas e sem vida do seu cubículo.

“Computador.” Ela falou com um sorrisinho, se sentindo e um dos filmes de ficção científica que adorava assistir. “Eu quero fazer uma pesquisa.”

Sua aura mágica envolveu a máquina e ela sentiu tomar conta de seus circuitos e conexões, era algo frio e esquisito já que não havia nenhuma consciência lá, porém algo lhe dizia que a máquina não era algo morto, e isso a incomodava.

“Eu quero uma lista dos pôneis que são escravos, que contenham alguma coisa interessante em comum, uma ligação. Quanto maior for o grupo, melhor.”

A janela de um navegador com suas próprias cores se abriu e uma página branca começou a se encher de resultados. O pônei ametista conseguia lê-los sem nem mesmo abrir seus olhos graças à sua magia, porém o fez mesmo assim, alguns costumes são difíceis de deixar de lado.

“São... muitos resultados...” Ela disse, estreitando seus olhos enquanto lia os nomes e suas descrições básicas, tudo estava embaralhado e não conseguia achar nenhum tipo de padrão, além dos resultados terem tempos bem distintos. “Organizar por tempo, ordem crescente, expandir o campo de informações.”

E em um instante a lista estava organizada do modo que desejava, com um sorriso orgulhoso no rosto, ela começou a conferir os resultados. Como havia suspeitado, os resultados começavam desde o início da formação da civilização dos pôneis e seguiam até os dias atuais. Na verdade seguiam em tempo real, até o exato momento em que Twilight lia tal lista, e isso a deixava inquieta.

“Thundering Hooves, ano 22.” Ela disse para si mesma, pegando um dos primeiros eventos do topo da lista. “Foi pego roubando alimento para sua esposa e filhos, como punição teve que servir de escravo por um ano inteiro, sua família acabou adoecendo e morrendo graças à subnutrição nesse período.”

Twilight fez uma cara de descontentamento franzindo sua testa, e os pôneis ainda tem coragem de dizer que antigamente o mundo não possuía alguma maldade, pensou.

Ela pulou para resultados mais atuais, iria satisfazer sua curiosidade depois, agora ela precisava dar um jeito de terminar aquele trabalho logo, ela tinha que mostrar para suas amigas o que conseguia fazer agora.

“Emerald Gazer, caso de 2011?” Ela refletiu, não fazia muito tempo que esse havia acontecido, e ainda assim a lista que vinha logo abaixo era enorme. “Pobre, pônei terrestre e sem parentes que pudessem ampará-lo, Emerald se viu forçado a aceitar um trabalho em uma mina de pedras para que pudesse continuar a sobreviver, porém o local era muito pior do que esperava. Sendo privado de água e comida, ele era forçado a trabalhar o dia inteiro, parando apenas para descansar o suficiente para continuar com o trabalho precário. O local era isolado da civilização, não havia ninguém que pudesse pedir ajuda, sendo maltratado pelos guardas e pelas condições de trabalho, sabia que não iria conseguir viver muito.”

Então deu uma leve pausa e respirou fundo antes de continuar. “Um dia um dos guardas dormiu em serviço, a uma oportunidade de fuga surgiu, Emerald ficou receoso, não tinha para onde fugir e o medo de ser pego assombrava suas entranhas. Mas o medo de se arrepender foi ainda maior, e ele cavou como nunca havia cavado em todos esses anos, o buraco não era grande, porém um verdadeiro milagre levando em conta o curto tempo. Ele passou debaixo da cerca, suas costas foram castigadas pela falta de profundidade do buraco, mas isso pouco importava já que pela primeira vez ele estava fora, estava livre mais uma vez.”

Twilight sorriu um pouco, sabia como essas histórias geralmente possuíam finais catastróficos, era gostoso encontrar uma que não havia terminado de maneira brutal. Então ela rolou a tela para baixo e continuou a ler.

“Um dos guardas, o pégaso chamado Blue Skies, foi acordado por um grupo de escravos, em poucos segundos ele correu até a torre de vigia e se posicionou em uma plataforma onde um rifle fixo descansava, posicionando seus cascos contra a arma e sua boca contra o dispositivo de disparo ele fez a mira.”

O unicórnio fechou os olhos, o que não impediu a informação de continuar a chegar até ela, o simples pônei terminou assim sua vida, correndo sem destino, saboreando sua sensação de liberdade até que uma bala certeira de um calibre abusivo partiu sua cabeça.

Seu estômago ficou embrulhado em um instante, sabia que sua profissão não era fácil e que momentos como esse iriam acontecer uma hora ou outra, matérias são feitas da realidade e a realidade é cruel. Porém a magia deixava tudo mais real, podia sentir o sofrimento do trabalho exaustivo, a adrenalina durante o momento de fuga, o sentimento sublime da liberdade, tudo para acabar em um vazio negro e inerte, morto.

Engolindo seco ela foi adiante, estava disposta a ir até o fim da lista, porém o próximo nome chamou sua atenção. “Blue Skies...” Ela murmurou, e sua curiosidade a venceu. “Blue Skies, um pégaso alto, forte e ágil com um coração de ouro. Foi criado por uma família nobre, porém acabaram perdendo todo o patrimônio em um golpe de seu contador. Sem o futuro garantido, Blue se viu forçado a procurar por emprego com urgência para poder sustentar sua esposa e dois filhos, e pelo seu porte logo achou um emprego de guarda, jornada longa e não pagava o quanto queria, porém precisava de dinheiro agora.”

A raiva que Twilight sentia pelo pégaso se esvaia lentamente, linha por linha. “Ele ficou chocado ao descobrir onde e como o seu trabalho funcionava, o lugar era tão isolado do resto de Equestria que dificilmente ele tinha a chance de ver seus entes queridos, porém sempre enviava o dinheiro para que eles continuassem a viver, mesmo que ele não pudesse ver isso acontecer. Um dia em seu turno acabou adormecendo, sonhando com seus amados, até que foi acordado por um grupo de escravos que protestavam de modo ironicamente enérgico que um deles estava tentando fugir.”

Ela mordeu seu lábio e pensou por um momento, os outros estavam tão inertes em sua escravidão que denunciaram aquele que escapou, esperando por algum prêmio ou reconhecimento pelo aviso que na verdade nunca viria. E então voltou a ler.

“Blue ficou paralisado por uma fração de segundo enquanto sua vida passou por sua cabeça, não gostaria de ter que tomar uma providência, mas era seu trabalho, seu turno, se não o fizesse a culpa seria sua e provavelmente seria despedido. Sem emprego, sem dinheiro, seus filhos sem comida e abrigo. Com lágrimas nos olhos ele disparou até a torre de vigia, sabia que estava prestes a cometer um crime, porém o faria por amor.”

Sparkle leu o resto com um aperto em seu coração, já sabia parte da história e ler o resto apenas a deixava mais depressiva. Blue disparou e matou o outro escravo, sim o outro, por que ele também era escravo, escravo de um sistema manipulador, frio e cruel que não distingue idade, classe social, raça, nada. O pégaso manteve seu emprego, porém a execução lhe deixou depressivo o suficiente para começar a beber e logo foi demitido por dormir e ingerir álcool em serviço. Voltando para sua amada os dois tiveram uma discussão, para ela, ele não era mais o pônei com quem havia se apaixonado, tomou seus filhos e os levou para a casa de sua mãe, deixando Skies sozinho.

Sem emprego ele não teria como se manter, sem sua esposa e filhos não via um motivo para continuar em frente. Sem rumo e futuro em vista, ele procurou pela solução mais rápida e covarde, e encontrou seu descanso decididamente engolindo uma bala. Trágico, porém imersivo, Twilight se encontrou refletindo sobre o significado dessa pequena história e não se surpreendeu ao continuar a descer a lista e encontrar o patrão do pégaso que executou o escravo.

Ao contrário dos outros dois, o dinheiro lhe permitiu viver até hoje sem um fim brutal como o dos outros pôneis, porém também era um escravo. Sem amigos que pudesse confiar pelo alto cargo em uma corporação exploradora, sem um amor, pois temia que alguém estivesse interessado apenas em seu dinheiro, preso às políticas sombrias que mantinham seu negócio funcionando, ele vivia apenas em função de dinheiro, outro escravo do sistema e não menos do que os outros dois.

A égua suspirou enquanto sua cauda serpenteava para um lado e para o outro, estava nervosa, podia sentir o suor frio escorrer em sua testa e o barulho irritante de seu ventilador voltara a incomodar. Twilight ficara ciente de que algo estava muito errado ao seu redor, e com certo receio ela foi em frente até o último nome da lista, e lá achou o que mais temia.

“Twilight Sparkle...” Ela leu baixinho, a sua entrada no sistema era enorme, porém antes que pudesse lê-la a tela ficou completamente branca e letras negras apareceram em seu monitor, uma por uma como se estivessem sendo digitadas por outro pônei.

A Matrix te achou.

“Mas... como assim?”

Não há mais tempo, eles estão atrás de você, fuja.

A mensagem ficou em sua tela por alguns segundos enquanto ela podia sentir seu corpo paralisado em choque, se perguntando quem estaria atrás dela e por quê? O que o pequeno pônei púrpura poderia ter feito de errado, já que era apenas uma jornalista fazendo seu trabalho?

Você quebrou as regras, não atenda a porta, fuja e siga o coelho branco.

Quebrar as regras? Ela se questionou por um segundo e a única coisa que veio em sua mente seria a magia que encontrara, porém ninguém tinha como saber disso e de que coelho branco o computador estava falando sobre?

Batidas contra a porta da redação fizeram Twilight dar um salto assustado de sua cadeira, ficando em pé em uma fração de segundo, o rompimento da concentração fez com que a magia do computador cessasse. Seu coração foi banhado por horror quando a porta, que estava trancada, foi aberta com um clique e um pônei que definitivamente não era o J.J entrou na sala.

“Senhorita Sparkle, por favor, venha conosco.” Falou um unicórnio de pelagem nívea e crina azul claro, ele estava trajando um belo terno verde escuro, óculos escuros e um fone de ouvido plugado em sua orelha direita.

A primeira reação de Twilight Sparkle foi esvaziar seus pulmões com um grito, em seguida foi usar sua telecinésia para levitar e arremessar aquele ventilar que tanto odiava contra o pônei invasor, e então se virou e correu para a ala oposta da redação, precisava dar um jeito de fugir e de encontrar o coelho branco.

O ventilador atravessou a sala com alta velocidade e chegou a ficar alguns centímetros de atingir o unicórnio, porém esse acabou desviado em uma velocidade incrível e se colocou a perseguir Twilight, atrás dele um pégaso azul de crina negra com os mesmos trajes o seguia.

A égua podia ouvir os cascos trovejando contra o chão logo atrás dela, porém não havia onde se esconder e nem para onde fugir já que seus agressores vieram pela saída e a escadaria de incêndio não parecia uma boa ideia. Ainda assim era a sua única ideia, ela chegou ao fim de um corredor e virou à esquerda, no horizonte via uma enorme janela de vidro e atrás dela a saída de incêndio.

Pelo barulho dos cascos atrás de si ela tinha uma ideia do quão próximos seus perseguidores estavam, aproximadamente uns dez metros, e de repente descer pela escada pareceu uma ideia inviável, ela seria pega a menos que um milagre acontecesse. Sem chegar à uma conclusão racional pela primeira vez em sua vida, o unicórnio deixou seu instinto tomar conta de seu corpo e saltou contra a janela com olhos fechado e chifre apontado para a frente.

Os seus perseguidores pararam a alguns metros da janela e trocaram olhares, era impossível um pônei sobreviver a uma queda do décimo nono andar, talvez com magia ela ainda tivesse uma chance, mas a situação era muito frenética para possibilitar qualquer tipo de concentração.

Seu chifre pontiagudo e o peso do seu corpo foram mais do que o suficiente para fragmentar o vidro em mais pedaços do que poderia contar. E enquanto estava no ar o tempo pareceu passar mais devagar, com o coração pulsando de modo desesperador o unicórnio parecia ter encontrado um momento de paz.

Os cacos de vido haviam feito vários pequenos cortes ao longo de seu copo e por consequência disso o unicórnio deixou incontáveis pequenas listras carmesim no céu enquanto descia para o seu descanso. Dezenove, dezoito, dezessete, os andares passavam tão rápido para quem observava de fora, mas pareciam levar uma eternidade para ela, dezesseis, quinze, catorze.

“Se eu tivesse asas...” Ela sussurrou e colocou um pequeno sorriso em seus lábios. Treze, doze, onze, porém unicórnios não podiam ter asas, assim como a sua magia deveria ser limitada. Mas o que nos controla? Ela refletiu em silêncio. Dez, nove, oito.

Por um momento, ela se perguntou se não estava sonhando, sete, seis, cinco. A sensação de que aquilo não era real martelava veementemente dentro de sua cabeça, e ao sentir um par de asas se esticarem em suas costas ela não soube mais o que estava acontecendo, mas começava a acreditar que tudo era possível.

Quatro, três, dois, asas? Twilight não tinha ideia de quando elas haviam aparecido, mas fez questão de coloca-las para trabalhar o mais rápido possível dando uma guinada para cima. Um sorriso de canto a canto tomou conta de seus lábios, se sentia como um pássaro que fora arremessado do ninho para enfrentar a natureza e aprender a voar, refletindo sobre esse significado ela bateu suas asas para ganhar um pouco de altura e então planar sobre a rua.

“Eu tenho que descobrir o que está acontecendo...” Sua realidade foi de um dia normal e muito chato para algo completamente insano em menos de três horas, não sabia direito o que era a Matrix, não sabia por que estava fugindo, apenas sabia que algo estava errado, sempre soubera, e o coelho branco parecia ser sua única pista. “Mas é claro, a garrafa!” Ela exclamou ao lembrar-se de Rainbow Dash e seu convite.

Olhando ao seu redor Twilight apontou seu corpo para a direção do apartamento de sua amiga e fez questão de voar para lá o mais rápido possível, não tinha ideia se seus perseguidores haviam cessado a busca por enquanto ou não, mas parecia óbvio que mais cedo ou mais tarde eles iriam perceber que o unicórnio não havia virado polpa de pônei contra o chão e viriam atrás dele.

Cruzar a cidade pelo alto era rápido e prático, em pouco tempo ela já avistava o prédio. Ao se aproximar ela notou que a porta de vidro da sacada de Rainbow Dash estava levemente aberta apesar das luzes estarem apagadas. “Mas o que será que as meninas estão aprontando?” Pensamentos que fizeram Twilight Sparkle corar atravessaram sua mente, e ela ficou maravilhada em como a cabeça de um pônei consegue pensar em coisas supérfulas até mesmo em um momento complicado como esse.

Com todo o cuidado possível o novo alacórnio fez o que estava ao seu alcance para manobrar e aterrissar na sacada da casa de sua amiga. A sacadinha era simples e pequena, porém como a grade de proteção era relativamente baixa o trabalho do pônei púrpura foi facilitado.

Os azulejos brancos que revestiam o chão pareciam ter continuidade para dentro do apartamento, através da porta de vidro de arrastar ela conseguia enxergar o interior daquele lugar que agora parecia tão incomum. O local parecia vazio, nenhum vulto ou som para dedurar a presença de um pônei qualquer, abandonado.

Ela estendeu seu casco para frente e terminou de abrir a porta deslizante

“Twilight Sparkle, eu estava esperando a sua visita.” As luzes da sala se acenderam e sentada no sofá vermelho não estava nenhuma de suas amigas, mas sim um grande pônei cuja estatura que nunca vira antes. Ela era majestosa e possuía o pelo branco mais lindo que já vira, sua crina rosada descia pelo seu pescoço e descansava sobre seus ombros antes de continuar a escorrer pelas suas costas, seus olhos escondidos atrás de óculos escuros de armação circular. “Não temos muito tempo, então eu serei breve.” Então o unicórnio, que agora possuía asas, notou que a égua em sua frente possuía as mesmas características, um chifre enorme brotava no topo de sua cabeça do meio de sua crina volumosa, enquanto asas que pareciam ter uma extensão titânica estavam dobradas contra seus lados.

“Quem é você?” Twilight não conseguiu conter as perguntas. “E onde estão as meninas?” Ela disparou enquanto dava passadas lentas para cobrir a distância que as separava, seus olhos procuravam de um lado para o outro por sinais que lhe contassem que tudo aquilo era uma brincadeira, porém os ponteiros do relógio eram legíveis e seus cascos completamente visíveis, coisas que de acordo com o que lera não deveriam acontecer. Todos os móveis eram iguais aos da última vez em que havia visitado Rainbow Dash, exceto por uma poltrona que se encontrava em frente à égua nívea, levemente inclinada para o lado.

“Meu nome é Celestia, você já deve ter ouvido meu nome em seus sonhos, sonhos que você não sabe se são reais ou não. As suas amigas não são importantes agora, mas isso que você sente sim.” O chifre de Celestia emanou uma luz rosada como a sua crina, e uma pequena caixa de metal apareceu entre seus cascos.

Twilight se aproximou e sentou na poltrona azul retro para observar a forma branca à sua frente em silêncio, esperando que ela explicasse suas palavras.

“Você consegue sentir, não é mesmo?” Começou o pônei maior. “Mesmo que não saiba explicar, algo parece errado em sua vida, um zunido incessante na sua cabeça.” Celestia que estava sentada sobre seu flanco se inclinou de leve para frente enquanto seus cascos descansavam sobre suas próprias pernas com a caixa entre eles. “Você dorme e acorda no outro dia se perguntando se seus sonhos são realmente um sonho, sabe do que estou falando, certo?”

“Da Matrix?” Twilight respondeu baixinho com aparente incerteza, por mais que soubesse que essa era a resposta certa.

“Sim, a Matrix, ela está em todo lugar. À nossa volta como nessa sala, você pode vê-la quando olha através da janela ou então assiste algo em seu computador ou televisão.” Celestia deu uma pausa e um pequeno sorriso brotou em seus lábios enquanto ela via Twilight tentando entender suas palavras. “Você a sente quando trabalha, quando aprende os limites de sua magia, quando vai à igreja, quando vai à escola, quando paga seus impostos. A Matrix é o mundo que foi colocado diante dos seus olhos para que você não visse a verdade.”

“E que verdade é essa?” Twilight perguntou, tão absorta na égua branca que o mundo ao seu redor parecia ser um mero detalhe, e ela não estava longe da verdade.

E sorrindo ao ver Twilight fazendo exatamente a pergunta que ela queria, Celestia respondeu. “Que você é uma escrava, nascida em um cativeiro, uma prisão que não pode sentir ou tocar. Você paga impostos para pôneis corruptos que gostaria de ver na cadeia, mas não faz nada a respeito, trabalha duro para ganhar simples notas de papel colorido que tem o valor manipulado por outros.” O alicórnio branco deu uma pausa para que pudesse continuar de fôlego renovado. “Você conversa com seus amigos e amigas sobre programas de televisão, sem nem mesmo saber se são verdadeiro, e até aceita ser manipulada por ele. Tem consciência de que a sua água pode ser tratada do jeito que o seu governo quer, eles podem colocar qualquer tipo de substância lá e você nunca se questionou sobre isso. Escrava de um sistema que muitas vezes parece nem notar que existe, e ainda ridiculariza aqueles que protestam contra ele.”

As orelhas do pônei púrpura ficaram rentes à sua cabeça enquanto Celestia despejava palavras sobre ela, e essas palavras doíam mais do que os cacos de vidro que haviam cortado seu corpo, elas pareciam muito mais reais. Twilight olhou para seus cascos por um momento, e as feridas não estavam mais lá, e nem havia uma gota de sangue no chão. O vidro não existia? Ela se questionou.

“A sua vida inteira disseram para você que a única coisa que um unicórnio poderia fazer com sua magia era levitar coisas, e sabe por quê?Porque a magia é uma distorção da realidade, através dela é fácil descobrir como essa realidade é uma mentira, porém a magia é forte demais para ser suprimida, é mais fácil e benéfico para o sistema controla-la, assim como o seu raciocínio.”

Com a magia de Celestia a caixa metálica se abriu, revelando duas pílulas semitransparentes de cores diferentes, uma delas era azul enquanto a outra vermelha.

“A pílula azul é o fim da história, você vai acordar em sua cama e nada disso terá acontecido. Se tomar a pílula azul você fica aqui no País das Maravilhas, e eu te mostrarei até onde vai o buraco do coelho.”

Twilight ergueu seu casco e o levou até as pílulas, ela podia ver no reflexo dos óculos de Celestia duas Twilights diferentes, uma delas erguia o casco para a vermelha, enquanto a outra tentava alcançar a azul, e por um momento ela hesitou como quem pensa em sua escolha.

Então Celestia lhe avisou uma última vez, não por que temia a escolha de Twilight, mas sim por que já sabia qual era.

“Lembre-se, tudo o que eu ofereço é a verdade, e nada mais.”

Notas finais
Animatrix e Matrix pertencem à Warner Bros Pictures e aos irmãos Wachowski.Espero que tenham gostado da leitura.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!