Animals

1 Animais


Notas iniciais
Olá! 8D Tudo bem com vocês? Então, people, essa fic me saiu como uma ideia que eu tive de "AI MDS, ISSO É PURO CA" logo depois de ter assistido ao clipe de Animals. O problema é que, no fim, a fic saiu talvez até um pouco mais dark que o clipe (muita presunção minha, masssss tudo bem). Gostaria de deixar avisado que ela é bastante tensa e que eu tive a intenção de fazê-la chocante, perturbadora. Espero que dê certo, HEHEHE >:D Por favor, leiam as notas finais! Boa leitura ♥

Eu já estava atrás dele havia muito tempo.

Muito tempo, e por tanto tempo tudo com o que pude me contentar foi minha imaginação. Já havia perdido a conta de quantos dias eu passei do lado de fora, obervando-o, quantas noites insônias gastei imaginando o som de sua respiração, o toque de seus lábios, o gosto de sua pele. A única real memória que eu tinha era a de sua voz, baixa e aveludada, hipnotizante assim como ele próprio. Ele, com os cabelos cinzentos e despenteados. Ele, com aqueles olhos castanhos tão, tão belos, que sob a luz do sol pareciam até mesmo vermelhos, com aquele brilho que me enfeitiçava.

Ele, que com apenas um olhar foi capaz de me levar à loucura.

Lembro-me de quando eu o vi pela primeira vez. Eu estava no trabalho, distraído, perdido na cacofonia da serra contra a carne, dos ossos sendo moídos. Ele entrara pela porta e, mesmo com o tilintar dos pequenos sinos, eu não o havia percebido. Até que sua voz chegou aos meus ouvidos. Aquela voz como nenhuma outra, tão forte, ecoando por meus tímpanos como tivesse sido feita especialmente para eles.

Mas suas palavras não foram destinadas para mim. É claro que ele não teria como me notar, lá no fundo do açougue. Nem virado na minha direção ele estava. Mas eu pude ver seu rosto, ah!, aquele rosto perfeito de linhas perfeitas, traços perfeitos, a silhueta perfeita que parecia emanar luz por entre os pedaços gelados de carne que pendiam do teto. Era quase um insulto vê-lo ali, naquele lugar tão sujo; aquela imundice profanando uma imagem tão bela que era a dele. Uma imagem tão, tão bela. Seus lábios articulavam as palavras em movimentos suaves, o pomo de Adão subindo e descendo ao dar espaço à voz. A expressão severa, desinteressada, dava-lhe um ar solene, mas eu sabia que, por trás dela, havia muito mais. Inúmeras expressões, inúmeros rostos perfeitos que só ele poderia fazer. Tão perfeito.

Só percebi que eu prendia a respiração quando a soltei audivelmente, num arquejo. Ele havia se movido: estendeu os braços para pegar o pacote que lhe haviam entregado e se virou para a porta. Nem por um instante havia percebido minha presença; nem quando entrara, nem quando saíra. Deixou-me lá, estupefato, imaginando como seria se seus olhos um dia viessem de encontro aos meus.

Desde o começo, ele estivera me provocando.

Não tive coragem de perguntar sobre ele mais tarde. Minha colega de trabalho, aquela que o havia atendido, não responderia, de qualquer forma. Eu teria de esperar. Ou ir atrás dele.

Descobri, passadas algumas semanas, que ele vinha todas as quartas feiras, exatamente, para fazer sempre o mesmo pedido. Sempre o mesmo pedido e sempre o mesmo ele, vindo até mim semana após semana para me provocar. Eu via em seu jeito de andar como sacudia levemente os quadris, como estendia os dedos finos e delicados em frente à luz da janela, como mordia o lábio continuamente para deixá-lo vermelho e inchado, só para mim.

Mas ele nunca me olhou. Nunca, em momento algum, havia ele olhado em minha direção. E isso me irritava. Pois ele sabia que, no momento em que me direcionasse o olhar, estaria perdido.

Se passaram mais semanas, e era eu aquele já completamente perdido.

Ele vinha sempre, sempre, sempre, toda vez, só para mim, e nunca foi capaz de me olhar. Ele estava me esnobando, rindo de mim, controlando-me com todo aquele jogo de sedução. Mas não por muito tempo. Porque eu iria atrás dele. Eu iria caçá-lo, comê-lo vivo, como um animal. Iria mostrar o erro que ele havia cometido em fingir me ignorar daquela forma, fazê-lo se arrepender com cada centímetro de seu corpo e implorar por meu perdão. E, ah!, só o pensamento de vê-lo de joelhos, com seus braços sobre mim, pedindo que eu o perdoasse... Ele certamente fazia isso de propósito. Para me deixar cada vez mais louco por ele.

Era no armazém dos fundos do açougue que ficavam pendurados os maiores pedaços de carne. Eu sempre havia me perguntado como seria estar ali, pendurado como um animal, preso, prestes a ser devorado. Mas agora, vendo tudo aquilo, o que me intrigava era como seria ele pendurado ali, à minha mercê, só para mim, só para mim, com os braços presos acima do corpo, expondo toda a beleza de sua alvíssima e delicada pele. Eu imaginava como seria o toque de meus dedos sobre seu corpo, contornando as suas curvas, sentindo as marcas, ouvindo sua respiração descompassada em meus ouvidos. Eu imaginava quão bom seria o cheiro de nossos corpos, grudados um no outro pelo suor. Quão bom seria o gosto de seus lábios enquanto eu os mordia e os clamava meus. Quão bom seria tê-lo só para mim.

Mas a carne crua não me satisfazia. A carne, os animais mortos pendurados pelo teto, eles não eram capazes de mostrar como seria. Não, a carne era fria sob minhas mãos, rígida, nojenta. O toque fazia com que sangue se despejasse sobre meu peito desnudo, deixando-me tão sujo quanto a própria morte. Não, não, não, só havia um alguém que pudesse ser perfeito naquelas correntes, e aquele alguém era ele. Ele, ele, só ele, apenas ele, mais ninguém, ninguém, ninguém!

Eu era um animal. Ele era minha presa. Minha deliciosa, perfeita presa.

Ah, quão vivo eu me sentiria com ele, nele, quão belíssima seria a sensação de tê-lo em meus braços, a visão das inúmeras expressões que ele confidenciaria apenas a mim, ouvir sua voz saindo doce da garganta, quão bom, quão bom, quão—

— C-ta? — chamou minha colega de trabalho, aproximando-se. O toc toc de seus sapatos ecoava em meio aos montes de carne. — Está bem aí?

Engasguei-me com o próprio ar de meus pulmões. Não tinha ouvido a porta do armazém se abrir.

— Estou — pigarreei, tomando cuidado para continuar fora de sua visão. Se ela me visse naquele estado, todo ensanguentado, seria desastroso. — Estava checando se estava tudo em ordem. Acho que me distraí.

— Sei — ironizou ela naquele tom de voz odioso. — Vou voltar para o balcão. Vê se se apressa. Daqui a pouco vem o... — O som de sininhos vindos da porta fez-se ouvir pelo armazém. — Ah, olha ele aí.

Pude ouvi-la se virando e caminhando de volta a seu posto.

— Ei, espera! — chamei de súbito, correndo em sua direção. Podia vê-la. Ela parou e se virou para mim, arregalando os olhos ao ver-me na bagunça em que me encontrava. — Mas o quê... Cadê sua blusa, o qu—

Ela estava no chão antes que pudesse terminar as perguntas, inconsciente. Não podia deixá-la ir ao encontro dele. Não hoje. Hoje era a minha vez.

Deixei seu corpo onde estava; não havia problema. Apressei-me em direção ao balcão, mas, antes, tomei o cuidado de pegar uma camiseta limpa e um avental e colocá-los rapidamente, tudo para disfarçar minha... aparência. Não queria assustá-lo.

— Boa tarde! — cumprimentei, terminando de amarrar o avental atrás das costas. Ele estava em frente ao balcão, a cabeça baixa, entretido com alguma coisa no celular. Não olhou para mim. — Em que posso ajudar?

— O de sempre, por favor — resmungou ele. Finalmente aquelas palavras, aquela voz maravilhosa era direcionada a mim. A sensação foi tão extraordinária que tive vontade de agarrá-lo e fazê-lo gritar logo naquele instante. Mas me controlei.

Aquele não foi o único presente que ele me daria naquele dia, porém. Perdendo o interesse que tinha em seu celular, ele levantou os olhos e olhou para mim. Ele finalmente, finalmente pôs seus lindos olhos sobre mim, e eu pude sentir suas íris castanhas contornando toda a parte visível de meu corpo, dos braços até a cabeça, depois focando em meu rosto. Eu podia jurar que havia um brilho a mais naquelas orbes.

— Onde está B-ko? — ele perguntou, ainda encarando-me.

O sorriso que eu usava ameaçou cair dos lábios. Como ele ousava falar dela agora? Logo agora que finalmente pudemos nos falar direito, agora que ele decidira parar de me provocar e finalmente me ver. Ele era mau. Muito, muito mau. Sabia que eu estava animado para vê-lo e tentava se fazer de desinteressando, atrás daquela colega estúpida. Ele era mestre em me tirar do sério. E eu simplesmente adorava aquilo. Tudo bem, sem problemas. Ele podia ficar à vontade quanto as outras pessoas por quem fingia se interessar. Eu não me importava. Afinal, ele poderia fingir o quanto quisesse, mas sabia que não poderia nunca fugir de mim.

— Ah, ela está checando algumas coisas lá nos fundos. Talvez apareça daqui a alguns minutos.

Ele anuiu.

— Sou C-ta, aliás.

— A-ya.

Ri.

— Eu sei qual é o seu nome. — Ele me olhou com as sobrancelhas franzidas, fingindo-se de confuso. É claro que eu sabia seu nome. Havia decorado cada letra, cada deliciosa sílaba no fundo de minha mente, para não esquecer nunca. Fora uma cena linda quando ele revelara seu nome pela primeira vez, jogando-o no ar com desinteresse, o som das letras se misturando com o da chuva fraca, tantos dias atrás. Por que ele continuava com aquela farsa toda? — B-ko me contou — menti, decidindo aderir também à encenação. — Faz bem saber o nome de nossos clientes.

— Ah, sim, claro. — A-ya murmurou, encarando novamente o telefone e dando o assunto por encerrado.

Apressei-me em preparar seu pedido para que pudesse voltar a falar com ele o quanto antes. Era ótimo não ter de esperar mais. Nosso jogo silencioso, em que ele me provocava até me enlouquecer, tomara agora um novo patamar. Agora eu não precisava mais observá-lo de longe, imaginar os detalhes que a vista não alcançava. Eu não tinha percebido antes, mas ele tinha pequeninas sardas no nariz, dando-lhe um toque de graça, delicadeza. Tão lindo. Nem mesmo as riscas de seus lábios ressecados conseguiam ser desagradáveis ao olhar.

— Aqui está. — Eu disse, entregando-lhe o pacote. Ele fez questão de não encostar os seus dedos nos meus quando pegou a compra e me entregou o dinheiro. — Volte sempre.

— Obrigado.

Se virou e saiu.

Eu observei enquanto seus cabelos balançavam na altura da nuca ao se virar, vi o quadril subindo e descendo ao andar e, quando ele passou pela porta, os sinos tilintando para anunciar sua saída, percebi que ele tomou o caminho da esquerda, passando em frente à janela que dava para o balcão. Ele era tão engenhoso. Tão calculista, pensando em cada passo, cada movimento para que fosse o mais provocante possível. Ele me tinha a seus pés. E eu não veria problema em beijar aqueles pés que um dia eu viria a pôr os olhos. Cada centímetro de A-ya, cada pedacinho dele fora feito especialmente para mim. Ele estava se resguardando especialmente para mim, para que eu pudesse finalmente enchê-lo de beijos, um dia. E eu iria. Com todo prazer, eu iria.

***

No final das contas, inventei a desculpa de que alguns ganchos no armazém estavam falhando e um deles acabou caindo e atingindo B-ko na cabeça. Eu estava tentando consertá-los, por isso estava coberto pelo sangue da carne. B-ko acreditou piamente como a tola que era. Ótimo. Menos trabalho para mim.

A-ya continuou a aparecer no açougue, é claro. Ele nunca deixaria de jogar nosso joguinho. Ele que começara com isso e o adorava. Eu era apenas o segundo jogador que teve a sorte de encontrá-lo e tê-lo para mim. Eu não deixaria que ninguém mais o tocasse, e ele também não. Era o nosso jogo: eu apenas dele, ele apenas meu. Eram as regras nunca ditas, porém entendidas, que ambos respeitávamos.

Ele veio novamente na semana seguinte, no mesmo horário, sem falhas. Eu, porém, não fui ao seu encontro dessa vez; preferi voltar a me esconder nos fundos, apenas observando-o. Tive medo que B-ko puxasse assunto para alguma conversa, como às vezes fazia, mas ela se manteve calada, abrindo a boca apenas quando necessário. Não entendi o porquê daquilo, mas não estava reclamando. Quanto menos contato os dois tivessem, melhor.

Assim que A-ya saiu pela porta, passei a me mexer. Bem como eu havia previsto, ele havia virado à esquerda, provocando-me ao caminhar em frente à janela. Eu, então, fui atrás. Mas não pela porta da frente, é claro. B-ko me veria e me impediria, além de que os sinos talvez alertassem o próprio A-ya. Não. Saí pela porta dos fundos, silenciosamente, e fiz o caminho que cruzaria a rua pela qual A-ya estava seguindo. B-ko não daria por minha falta e, se desse, eu não me importava.

Eu era um animal seguindo o rastro de minha presa.

De fato, encontrei A-ya calminhando com certa tranquilidade pela 23ª rua. Ele levava consigo o pacote com a carne comprada, prendendo-o debaixo do braço. Sua cabeça estava inclinada para frente enquanto ele mexia no celular. Ele era completamente lindo, mesmo numa situação tão banal como aquela. Tão, tão lindo! Ele era o único que conseguia fazer do ordinário, extraordinário. O único capaz de prender a minha atenção daquela forma, de dominar minha mente de maneira tão absoluta.

Eu o seguia de perto, passo a passo, tomando nota das ruas pelas quais passávamos, das lojas para as quais ele olhava, que não eram muitas. Prestava atenção nas pessoas que o rodeavam também; não poderia me dar ao luxo de baixar a guarda, afinal, um ser de tamanha beleza como A-ya deveria ser protegido. Eu deveria estar sempre ali, ao lado dele, protegendo-o. Ele era meu, só meu, e qualquer um que o tocasse pagaria o preço. A-ya era puro. Deveria ser mantido longe de toda a imundice das outras pessoas. Seria eu quem o protegeria de tudo aquilo.

Dado certo momento, entretanto, acho que ele me notou. Eu havia me descuidado, me aproximado demais, e acho que ele, ao observar uma vitrine, acabou encontrando meu reflexo. Fui rápido de me esconder sutilmente nas sombras de um muro. A-ya continuou andando, sem parecer dar muita importância à minha presença. Claro. Ele nunca demonstraria estar preocupado com qualquer coisa que fosse relacionada a mim. Era mais uma de suas maneiras de me provocar.

Ele virou mais algumas esquinas, desceu algumas ruas e atravessou uma avenida, até que parou em frente a um prédio. Era uma construção bonita, não muito alta, feita principalmente de tijolos marrons. Deduzi que tinha mais ou menos três andares e seis apartamentos, dois por andar. A-ya entrou no prédio e eu esperei do lado de fora, recostado no tronco de uma árvore. Alguns minutos depois, as cortinas da janela do segundo andar se moveram, revelando por um momento a figura daquele homem tão lindo. Eu mal podia esperar a hora em que ele me convidaria para uma conversa casual lá dentro. Uma conversa que acabaria bem. Muito bem.

Não permaneci muito tempo por lá. Agora que já sabia onde ele morava e conhecia o caminho, não tinha por que esperar uma semana inteira para vê-lo novamente. Eu poderia visitá-lo quando quisesse, evoluir nosso jogo quando quisesse.

Mas não, não. Ainda não era hora.

Desde então, comecei a visitá-lo todas as noites, levando comigo minha câmera fotográfica. A-ya era tão belo, tão, tão belo, que eu simplesmente precisava registrar sua beleza. E ele ainda tinha a audácia de me provocar ainda mais, posando para mim que, lá de baixo, o fotografava através da janela. Ah! As poses que ele fazia, os rostos, era tudo tão bem planejado, tão bem feito.

Aquelas fotos eram preciosas. Preciosas e minhas, só minhas, assim como ele próprio era meu, só meu. Minha única opção era de revelar as fotos sozinho, em minha própria casa, para que a beldade de A-ya não caísse nas mãos sujas de um atendente qualquer de reveladora. E, assim, eu revelava as fotos por mim mesmo, em minha casa, e minhas paredes passaram a ter a mais bela decoração de todas... Eu mal podia esperar pela noite em que ele viria para cá e, ah!, como era sofrido ter de me contentar apenas com a imaginação de seus toques. Só de pensar em como seria quando seu corpo estivesse se contorcendo sob o meu, seus lábios grudados em meus ouvidos sussurrando palavras chulas, com aquele seu sorriso torto que deixava tudo ainda mais excitante.

Ah, não. Ah, não, não, não, não! Eu precisava dele, precisava, precisava, precisava! Não aguentava mais esperar. Eu precisava tê-lo, tinha que tê-lo, fazê-lo ser realmente meu, só meu, meu e de mais ninguém. Meu, meu, meu meumeumeu! E as figuras nas paredes zombavam de mim, riam de mim, assim como ele mesmo fazia. Porque ele nunca se daria a mim, ele nunca deixaria de me provocar. Ele queria me deixar louco, louco, louco por ele até que eu não aguentasse mais e tivesse que tomá-lo para mim assim como o animal que eu era, os animais que éramos os dois. O predador e a presa. E ele era minha presa. Minha presa, minha, e eu a dele, simplesmente, inteiramente dele, dele, ele, ele eleeleele! O meu A-ya! Meu e de mais ninguém! Nem da B-ko, nem de ninguém. Meu. Meu. Meu.

Só meu.

Eu tinha de ir vê-lo, e agora. Simplesmente tinha e iria. Não me importava que estivesse chovendo. Não me importava que era madrugada. Eu precisava dele. Agora.

Saí de casa, andando o mais rápido que conseguia até onde ele morava. Não era tão longe. Eu sentia as gotas d'água caindo frias sobre minha cabeça, encharcando meus cabelos. Minha câmera pesava no bolso. Água e lama inundavam meus sapatos. Mas nada daquilo tinha importância. Eu só queria ele. Só pensava nele. E ele eu teria.

Assim que parei em frente ao prédio de tijolos, vi que a luz do segundo andar estava acesa. A luz do apartamento dele. E lá estava ele, em frente à janela, observando a tempestade. Seu peito estava nu. Mesmo com a chuva forte e o vidro molhado, eu conseguia ver como sua pele era lisa, imaculada, como seria linda quando eu a enchesse de marcas. A-ya era tão perfeito. Ele estava ali, oferecendo-se a mim. Era evidente que ele me queria tanto quanto eu; o sentimento era recíproco. E tudo o que eu pude fazer foi observá-lo, estupefato, da mesma forma que fiz da primeira vez que o vi. Tão lindo. Só meu.

Não sei quanto tempo se passou. Sei que eu me encontrava encharcado da cabeça aos pés, com frio, mas, ainda assim, não desejaria estar em outro lugar se não ali. A-ya, porém, pareceu despertar de seus devaneios, pois bocejou e se virou, afastando-se da janela. Suas costas eram tão belas como o tronco; ele todo era maravilhosamente belo, de uma forma que nunca deixaria de me surpreender. Era incrível.

Passaram-se alguns minutos e as luzes se apagaram totalmente dentro do apartamento. Permaneci grudado em meu lugar por mais algum tempo, até ter certeza de que ele já havia pegado no sono.

Então entrei no apartamento.

Não foi difícil. Eu já sabia que ele morava no apartamento da direita do segundo andar. Só isso foi necessário, na verdade.

A porta estava destrancada.

Ele era mestre em me provocar. Ele estava convidando o predador para seu ninho. Ele já sabia que não havia como se esconder, sabia que eu poderia encontrá-lo onde quer que estivesse, não importava quão longe. Estava se rendendo a mim. Estava me dando a vantagem no jogo.

Dentro do apartamento, foi fácil encontrar seu quarto. E, lá, não pude prestar atenção em nada senão em seu corpo delicado, esguio, deitado na cama e dormindo tranquilamente. Tão lindo. Tão perfeito. Vestido apenas da roupa de baixo, A-ya deixava exposto quase todo o seu lindo corpo, com exceção de uma das coxas, coberta pelo lençol. Eu me encontrava encantado pela visão de seu peito subindo e descendo lentamente, ritmadamente. Seus lábios entreabertos, vez ou outra liberando suspiros, eram hipnotizantes. As pálpebras fechadas, os cílios longos tocando as bochechas — tudo nele parecia feito para aquele momento, em que eu o observava e o desejava como nunca antes.

Eu estendi a mão, mas não tive coragem de tocá-lo. Não tive coragem de arruinar aquela cena tão pacífica. Apenas cheguei mais perto, aproximando meu rosto do dele, sentindo sua respiração quente misturar-se com a minha. A-ya era belo, tão belo... Meus olhos viajaram do rosto para seu pescoço longo e fino, para os ombros largos, para o peito liso e pálido, para os dois botões rosados que se destacavam. Os pequenos mamilos, enrijecidos pelo ar frio da noite. Seria crueldade deixá-los assim, frios do jeito que estavam. Então tive que esquentá-los.

Aproximei meu rosto de seu peito, controlando minha respiração para que se mantivesse silenciosa. Primeiro, meu nariz roçou em sua pele, levemente, e eu me enchi com o cheiro embriagante dele. Depois, com muita leveza para que A-ya não acordasse, depositei um beijo em um dos pontos rosados. Era tão delicado, tão frágil. Beijei-o mais uma vez, e outra, e outra... Lambi por curiosidade e senti o gosto maravilhoso que tinha. Era loucura, eu não conseguia mais parar. Com uma mão, eu cuidava do outro mamilo, esfregando-o com o polegar.

A-ya ofegou.

Eu não parei.

Continuei com minhas carícias, perdido em minha própria luxúria, sem me importar se A-ya acordara ou não. Eu queria devorá-lo por inteiro, pedacinho por pedacinho, até que ele gritasse por mim, implorasse para que eu o tomasse para mim, até que tudo o que ele conseguisse falar fosse sobre como ele era inteiramente meu.

Minha boca desceu, distribuindo beijos e mais beijos sobre sua barriga, deixando trilhas de saliva por onde minha língua deslizava. A-ya não tinha acordado. Ou já havia se entregado a mim. Fosse qual fosse o caso, eu não reclamaria. Continuei meu percurso com a boca, descendo cada vez mais. Era necessária muita força de vontade para não mordê-lo; ainda não era a hora.

Quando meus lábios tocaram o tecido áspero da cueca, tive de me conter. Mordendo o lábio e prendendo a respiração, afastei meu rosto de seu corpo e observei o rosto de A-ya. Suas bochechas estavam vermelhas, as sobrancelhas franzidas. Seus lábios entreabertos expiravam suspiros com mais frequência, mas os olhos continuavam cerrados. A-ya ainda dormia. Não era o momento adequado.

Mas eu não o deixaria ali.

Tirei a câmera esquecida de dentro do meu bolso do casaco e fotografei sua expressão. Não só ela como também todo ele. Eu precisava imortalizá-lo naquele momento. Não poderia perder aquela visão em hipótese alguma. Foto após foto, gravei todo e cada pedacinho dele, para que pudesse sempre relembrar a cena, tirar dela as mesmas e ainda outras sensações. Após um último clique focado nos lábios finos, guardei a câmera.

A cama de A-ya era relativamente grande. Magro como ele era, havia ainda espaço suficiente para mais uma pessoa. Para mim. Ele estava me convidando para deitar-me com ele. E é claro que eu não tive como recusar o convite.

Ouvi as molas rangerem sob meu peso extra, senti o colchão afundar. Me virei de lado, encarando a nuca dele. Plantei um único beijo delicado na curva de seu pescoço e depois contentei-me em observá-lo dormir. Foi um tanto incômodo no começo, visto que eu tive de lidar com um pequeno problema entre as pernas. Mas, depois, ocorreu tudo bem.

Tive que ir embora uma hora depois. Já estava ficando sonolento e não queria assustá-lo de manhã. Mas eu não via problema nisso. Apesar de lamentar-me por ter de deixá-lo, sabia que isso não era necessário de fato. Minhas fotos me consolariam, mais tarde.

***

A-ya gostava de frequentar um bar.

Descobri isso recentemente. Ele estava estranho, com uma atitude um tanto paranóica. Parecia estar sempre olhando por sobre o ombro, procurando alguém. Eu me perguntava se estaria alguém tentando adentrar nosso joguinho particular. Eu estava atento a isso. O jogo era só nosso. Era apenas A-ya tentando me enlouquecer e eu tentando caçá-lo. Só nós dois. Nenhum de nós aceitaria um intruso.

Nos últimos dias, ele esteve bastante naquele bar. Não era um lugar muito chique, mas tinha bebida boa o suficiente para que ele ficasse um tanto bêbado. Eu já estava cansado das fotos. Eu o queria de verdade, para mim, não apenas imaginá-lo. A memória da noite chuvosa apenas me deixava cada vez mais impaciente. Eu não conseguia aguentar mais. Eu havia tomado uma decisão. Não continuaria mais naquele jogo. Era divertido para ambos, sim, mas já estava na hora de chegar à sua conclusão. E chegaria. Ah, sim, chegaria.

Eu já estava atrás dele havia muito tempo. E, hoje, eu o teria finalmente.

A-ya entrou no bar e eu o segui, repetindo seus passos. Observei enquanto ele pegava um assento no balcão, coçando a nuca de maneira inquieta. Eu me aproximei. Supus que ainda estávamos naquele jogo de encenações, além do de caça, então comecei a interpretar. Era muito divertido também.

Coloquei um sorriso brilhante no rosto e sentei-me ao lado dele.

— A-ya! — exclamei. — Você por aqui. Tudo bom?

Ele pareceu se assustar com meu cumprimento. Achei a ação um tanto forçada, como se ele não tivesse percebido que eu estava sempre com ele, como uma sombra. Senti-me um pouco ofendido, até. Estávamos, sim, dentro dos personagens, mas não era necessário tudo isso.

— A-Ah, olá — respondeu-me ele, finalmente. — C-ta, não é?

— Isso mesmo — cantarolei, ainda sorrindo. — O que faz por aqui numa noite como essa?

— Eu que o pergunto.

Suspirei.

— Estou tirando uma folga do trabalho. Não aguentava mais o cheiro.

Ele soltou uma leve, porém linda risada por entre os dentes.

— Sei. Quer dividir uma bebida?

— Claro.

E então começamos a beber. Devo admitir que eu trapaceei. Bebi pouco, ao mesmo tempo que incitava-o a beber muito mais que o usual. Não o suficiente para que ele perdesse a consciência, certamente. Eu ainda venceria o jogo de forma relativamente justa.

Duas horas mais tarde, já estávamos completamente sem assunto, eu um tanto embriagado, A-ya quase sem poder se manter em pé. Me ofereci para levá-lo até em casa, proposta que ele aceitou sem pestanejar. Já havia aceitado a minha vitória. Agora estava na hora de me dar o prêmio que eu tanto merecia.

Chegamos em seu apartamento e eu tive que abrir a porta para ele, que mal conseguia segurar as chaves. Segurei sua mão com firmeza e guiei-a para a fechadura até a chave se encaixar. A-ya girou a maçaneta, entrou no apartamento e se virou para mim.

— Uh, é... Obrigado pela, uh, ajuda. — Começou a fechar a porta.

Eu o interrompi, abrindo a porta novamente e adentrando o apartamento. A-ya deu um passo para trás e eu fechei a porta atrás de mim.

— Já está na hora de acabar com o jogo, não é? — perguntei, aproximando-me dele. A cada passo para frente que eu dava, ele dava um para trás. Mas isso não durou por muito tempo. Logo suas costas estavam encostadas contra a parede e eu o prendia, bloqueando sua fuga com os braços, um de cada lado de sua cabeça. — Ora, vamos... — ronronei. — Já estou cansado disso.

— D-Do que você está falando...?

— Estou falando do nosso jogo — suspirei, inclinando-me para a frente para que pudesse sussurrar em seu ouvido: — Aquele em que você me provocava e eu corria atrás de você feito um cãozinho. Agora que eu o alcancei, quero meu prêmio.

O que escapou dos lábios dele, então, foi um grito, seguido pelo baque surdo de ambos de nós caindo no chão quando o derrubei. Um som tão belo, a melhor música que meus ouvidos já tiveram, um dia, sonhado em ouvir. Eu queria mais, mais, mais. Eu o faria gritar mais, tiraria dele todos os sons que poderia fazer.

No chão, A-ya tentava se contorcer para longe de mim, mas era inútil. Eu já havia segurado firmemente seus quadris, sentindo a curva suave sob meus dedos, a pele macia e quente esperando por meu toque sob as roupas. A-ya tentava debilmente empurrar-me para longe, jogando suas mãos fracas sobre meu peito. Eu ri. Ri de suas tentativas desesperadas de tentar continuar o jogo, tentar evitar minha vitória. Ri de como os lados haviam se invertido; antes, era ele quem zombava de mim, provocando-me tanto, tanto, se divertindo ao ver-me tão desamparado atrás dele. Agora que eu ganhara, ele não tinha mais como voltar ao seu lugar de conforto, longe de mim, zombando de mim.

Mas ainda conseguia me provocar.

A-ya ainda era capaz de me levar à loucura com os ofegos que deixavam seus lábios vermelhos, as bochechas coradas, as mãos que acariciavam-me o peito. Mas nada era melhor do que ver aqueles olhos brilhantes, os belíssimos olhos que expressavam todo o seu medo de perder para mim, o medo de ver-me sobre ele, dominando-o. Era como um animal encurralado. Minha presa. Minha, finalmente alcançada.

Ele soltou um misto de grito e choro quando minha boca tocou a pele exposta de seu pescoço, mordendo, lambendo. Seu gosto me fez suspirar. Ele era tão bom. Sua respiração em minha nuca, seu corpo mexendo-se, vivo, sob o meu, deixavam tudo ainda melhor enquanto eu percorria tudo o que conseguia alcançar com a língua, com os dentes.

Ele tentou pedir por ajuda, entretanto. Um pedido de socorro em notas agudas e estranguladas deixou sua garganta quando eu comecei a despi-lo de sua camisa social, arrancando alguns botões no processo. Aquilo me irritou. Eu já estava cansado de toda aquela encenação. Não queria mais brincar. Se A-ya ainda pensava que poderia evitar-me, continuar longe de mim, estava redondamente enganado. Ele não podia. Eu não deixaria que ele ficasse longe de mim novamente.

— Você não aprende, não é? — perguntei, afastando meu rosto de seu pescoço. Acertei-lhe o rosto com meu punho fechado, arrancando dele um ganido. Por um momento, ele parou de se debater contra mim, tremendo e encarando-me apenas. Senti meus lábios curvarem-se para cima frente àquela visão: ele havia se rendido como um animal encurralado que não tinha para onde fugir. E, realmente, não tinha. — Você não pode pedir por ajuda. Isso é trapaça — ronronei, envolvendo seu pescoço fino em minhas mãos e apertando lentamente. A-ya arquejou e seus olhos encheram-se de lágrimas. Eu queria mais daquilo, mais, mais, mais. — E você não pode se livrar de mim. Nunca.

A-ya começou a chorar abertamente, engasgando-se com os próprios soluços enquanto eu o estrangulava devagar, fazendo-o sentir o que ele mesmo havia feito comigo, tirando de mim todo o ar dos pulmões quando o via, todo o autocontrole que eu pensei que ainda tivesse. Suas mãos nas minhas, tentando enfraquecer meu aperto, eram quentes. Peguei-me imaginando como seria dentro dele, quão mais intenso seria o calor que eu sentia agora.

A-ya tentou me chutar, mas era inútil. Ele sabia que era. Estava fraco, com o corpo demasiadamente embriagado para que tivesse algum tipo de força física. Mal senti quando ele esfregou sua perna contra mim. Ah, ele era tão divertido! Vê-lo tentar me seduzir daquela forma, oferecendo-se a mim enquanto fingia me rejeitar. Era excitante.

Vi que ele começou a perder a consciência devido a falta de ar, então larguei seu pescoço. Ele passou a tossir, engasgando-se com o próprio ar que tentava desesperadamente respirar.

— Você não tem jeito... — murmurei, mais para mim mesmo do que para ele, que não me respondeu.

Não lhe dei tempo para tentar fugir novamente, passando uma mão por sob suas costas e virando-o, fazendo com que ficasse de costas para mim. Ele arquejou, tentando remexer-se para longe, outra vez mostrando a si mesmo quão inútil isso era. Com a mão firme, agarrei-o pelos belos cabelos cinzentos e o puxei para cima, deixando-o de joelhos. A-ya ganiu como um cachorrinho faria. Daquele ângulo, pude observar as lágrimas que escorriam por suas bochechas e caíam do queixo. Lindo, lindo, tão lindo. Eu queria ouvi-lo mais, vê-lo mais, prová-lo mais de todas as formas possíveis, até que não pudesse esconder nada de mim.

— Por favor — ele implorou com a voz trêmula e falha, tentando encontrar alguma forma de se apoiar melhor. — Não... Não...

Um arrepio fortíssimo percorreu todo meu corpo. Vê-lo daquela forma, perdido, desamparado, implorando por minha misericórdia... Era tudo demais para mim. Ele me enlouquecia, seduzia-me daquela forma quase natural para ele. Eu precisava tê-lo agora, senti-lo em mim, sentir-me nele, dominá-lo de todas as formas e fazê-lo inteiramente, completamente meu, meu, meu, meu meu meumeumeu!

Eu não concederia a misericórdia pela qual A-ya pedia. Não, não, de forma alguma. Eu iria tomá-lo para mim, fazê-lo meu da forma mais primitiva, mais carnal possível, mostrando a ele os animais grotescos que éramos, ele e eu. E A-ya não poderia negar as feras monstruosas dentro de nós.

Com a mão livre, aquela que não estava ocupada prendendo-o pelos cabelos, comecei a livrar-nos do empecilho que era sua calça. Sentindo o que eu fazia, A-ya passou a soluçar com ainda mais intensidade. Eu queria que chorasse. Queria que chorasse e sentisse toda a dor que eu lhe infligiria, para que as minhas marcas ficassem gravadas tanto em seu corpo quanto em sua memória, em sua alma. Dessa forma, mesmo que ele fingisse estar bem sem mim, seria uma mentira. Pois ele saberia que não poderia nunca ficar longe de mim totalmente.

Não que ele fosse ficar.

Suas vestes foram ao chão, a calça e a roupa de baixo. Pude então ver o belíssimo contorno de seu corpo, a forma perfeita de suas nádegas. Oh, como ele era belo, com sua pele tão pálida e fina daquela forma, uma ou outra marca aqui e ali. Eu precisava dele. Agora.

Fi-lo inclinar-se para a frente, o rosto indo em direção ao chão e o traseiro inclinado para mim. Ele tentou me impedir, debatendo-se e gritando enquanto tentava voltar à sua posição anterior ao empurrar-se para cima, mas eu não estava com paciência para aquilo mais. Assim, para que ele parasse de lutar, forcei sua cabeça para baixo, para o chão, num impacto audível e forte. A-ya parou de se debater. Entregou-se, enfim.

Livrei-me de minhas próprias calças e me posicionei. A-ya soluçou, todo o seu corpo tremendo. Contive um suspiro de excitação; ali estava meu prêmio.

O momento seguinte foi como uma explosão. Uma explosão de gritos, de calor, de prazer. A-ya gritou quando o invadi, chorando palavras de "Pare!" e "Dói!". Mas eu não podia ouvi-lo. Tudo o que eu conseguia sentir era o calor de seu corpo ao sugar-me para dentro, envolvendo-me por inteiro. O mundo não era nada senão ele à minha volta, seu corpo engolindo-me, meu membro pulsando dentro dele. E eu me sentia tão vivo! Eu finalmente o havia feito meu, tomado-o para mim da forma que ele tanto havia me seduzido a fazer. E agora ele era meu, meu, todo meu.

Eu podia sentir seu corpo se tensionando ao meu redor, ouvir a mistura de gritos e soluços e lamentos que deixava sua garganta sufocadamente, e era tudo tão bom, tão bom, tão bom. Nada poderia ser comparado àquilo, nem mesmo a melhor das fantasias que tive. Nada poderia se comparar ao calor, à sensação de domínio, de superioridade que eu tinha, pois eu havia vencido e o estava destruindo, quebrando-o pouco a pouco, cravando-me nele finalmentefinalmentefinalmentefinalmentefinalmentefinalmentefinalmentefinalmentefinalmentefinalmente.

A vitória era minha e com ela vinha todo aquele prazer louco, enquanto para A-ya, o perdedor, tudo o que restava era a dor, a submissão e os gritos, tão deliciosos aos ouvidos, que me imploravam para parar. Talvez a melhor parte fosse o fato de que ambos de nós sabíamos que eu não voltaria atrás. E ele, ainda assim, continuava no tolo esforço de pedir-me salvação, cravando as unhas no assoalho como se aquela fosse a última forma de agarrar-se àquela esperança inútil. Pobre A-ya, mentindo, se negando.

— É culpa sua — murmurei entre meus suspiros.

A-ya, com o rosto amassado contra o chão, sacudiu a cabeça em negativa desesperadamente, com os olhos apertados e o maxilar tenso enquanto as lágrimas transbordavam quentes de seus olhos. Ele tentou falhamente dizer algo por entre sua respiração descompassada, perdendo para os gemidos que deixavam seus lábios no mesmo ritmo de meus movimentos. Quando A-ya conseguiu, enfim, dizer palavra, sua voz não era mais que um fio, chorando palavras de "Não, não é..." e "Por favor..."

— É tudo culpa sua — repeti com uma risada fraca enquanto acelerava ainda mais minhas estocadas. A-ya gritou ainda mais para mim. — Foi você quem me provocou tanto... Você, você, só você, A-ya... A culpa é sua e apenas sua por me fazer chegar a esse ponto.

A-ya continuou chorando com soluços altos e eu, a ignorá-lo, desfrutando de todo o prazer que seu corpo frágil me oferecia. Aquele corpo tão belo que agora era realmente meu, feito especialmente para mim. Era tão bom, tão bom, tão, tão, tão bom! Tudo, absolutamente tudo com relação àquele momento era maravilhoso, extasiante; era como se toda a minha vida tivesse aquilo como único objetivo. E isso era bom demais.

Com um grunhido alto, puxando para trás os cabelos de A-ya, despejei-me dentro dele, que gritou uma última vez. Depois, tudo o que ouvi foi um chorar baixo acompanhado por soluços leves. Ele gemeu quando saí de dentro dele e ajeitei-me nas calças. Pobrezinho. Provavelmente se lamentava por achar que tudo havia acabado. Por achar que seu joguinho chegara ao fim e ele terminara como perdedor. Sorte dele então, pois eu não deixaria que as coisas terminassem por ali. Não, o jogo nunca acabaria.

Ele seria, para sempre, a minha presa.

Quando pus meus olhos em A-ya novamente, deparei-me com a mais bela visão daquela noite, de longe a mais excitante, que fez todo o calor dentro de mim se acender mais uma vez. Ele se arrastava para longe de mim, inteiramente trêmulo, com o rosto vermelho e inchado, algumas partes começando a adquirir uma coloração arroxeada. Sua camisa pendia dos cotovelos, não tendo sido totalmente retirada mais cedo. Uma mistura de meu próprio sêmen com seu sangue escorria lentamente de dentro dele, fazendo seu caminho pelo interior das coxas alvas até pingar no chão. A-ya era capaz de ser lindo de toda e qualquer maneira. Principalmente quando ele era aquela bagunça trêmula, deixado assim por mim.

Em nenhum momento, porém, ele desviou os olhos dos meus; esteve sempre encarando-me com aqueles olhos grandes e úmidos, preenchidos pelo medo, pedindo por mais. E ele teria mais. Porque agora era meu. Era a minha presa, o meu prêmio, conseguido após tanto, tanto esforço. Eu faria o que quisesse com ele. Eu o faria meu quantas vezes fossem necessárias até que tudo o que ele pudesse dizer fosse quão rendido a mim ele estava. Até que pudesse sentir seu cheiro a quilômetros de distância.

Até que eu arrancasse de dentro dele o animal que ele tanto se esforçara para arrancar de mim.

Notas finais
Antes de mais nada, o C-ta dessa fic é uma pessoa completamente louca e a realidade dele NÃO corresponde à verdade absoluta. Se você ficou confusx com alguma coisa, muito provavelmente é devido à instabilidade mental dele, sendo o narrador. (Mas, claro, se for confusão por causa de erros gramaticais, fique à vontade para avisar Q) Eu mais uma vez gostaria de deixar claro que isso não é DE JEITO NENHUM um incentivo a práticas como estupro. Essa fanfic foi feita como crítica ao fato de que muitas pessoas que sofrem de abusos são taxadas de culpadas quando, na verdade, estupradores e afins são OBVIAMENTE os reais culpados e pessoas nojentas e desprezíveis. Não importa se a vítima é homem ou mulher, jovem ou velha, usa roupas curtas ou não, a culpa NUNCA é dela. Alguns detalhes importantes que eu gostaria de mencionar: não sei se alguém percebeu, mas eu tentei usar "ver-me" o máximo que consegui, justamente por ser muito semelhante à palavra "verme", por razões óbvias. Também tentei colocar vários versos da música (em português, claro) ao longo da fic, para dar um gostinho, mas ainda assim acho que ficou pouco ;; Queria ter posto mais, mas não consegui ;w; Eu não sou boa de escrever em 1ª pessoa, então estive beeeeeeem fora da minha área de conforto pra escrever essa fic. Realmente espero que tenha ficado bom, porque eu me esforcei bastante TuT Ah, e aproveitando que eu já era outra que tava ficando doida enquanto escrevia a fic, eu fiz alguns testes, como o de ficar repetindo várias e várias vezes alguma coisa, para dar a sensação de rapidez e falta de ar (e quem sabe até tontura qq) e ainda ficar fazendo isso de meumeumeumeumeu, porque eu vivo lendo coisas assim em fics em inglês e acho MUITO legal, então por que não experimentar me português também? ewe Já tentei em a Torre de Babel e tive um feedback bem positivo sobre isso, então decidi usar e abusar aqui GDHJHFCDSN Also, foi mal pelo final SDGUHJVBCJNSD Eu tinha pensado numa coisa mais doida (featuring D-ne), mas ia ficar surreal demais e fora do foco. (*spoiler* seria uma cena do C-ta contratando a D-ne no açougue [porque a B-ko "sofreu um acidente" e a D-ne seria cúmplice {quem leu LL sabe que eu amo CD como cúmplices QQ}] e em algum momento a gente veria o A-ya pendurado que nem carne, como o C-ta queria no começo. Ok, seria louco, mas pfv, é muito nada a ver, vai *fim de spoiler*) Aliás, meu plano original nem era que a fic tivesse estupro, mas eu comecei a depositar tanta energia negativa na fic, de tanta coisa acumulada aqui no meu kokoro, que as coisas tomaram um rumo que... é. (Também não ia dar certo o C-ta ficar só fantasiando, fantasiando e fantasiando que nem o Adam no clipe, sry) Bem, acho que é isso. Por favor comentem a opinião de vocês, é muito importante para mim ;w; Eu estava há literalmente uns dois anos sem escrever absolutamente nada em primeira pessoa (com exceção de artigos de opinião para a escola, mas meh), então foi um grande choque para mim ter que escrever não só o conto, mas um fucking lemon em primeira pessoa e ver que eu sou um lixinho pra isso. Eu realmente me esforcei muito para que a narração estivesse no mínimo boa e gostaria muito de saber se ela realmente ficou aceitável ou não. (Já deu pra perceber que eu estou um pouquinho insegura sobre isso, né? sygvdhvjbfsdn) Tenho que admitir que eu pensei seriamente em desistir e fazer tudo logo em 3ª, que é a minha praia, mas, cara, Animals é cantada em primeira pessoa, seria ridículo fazer songific dela e escrever em 3ª. ... Ai como eu tô grossa, me desculpem SDGVHCJDSXNA Anyway, acho que vou parar por aqui (ou não). Espero que tenham gostado (e se sentido desconfortáveis, porque era esse o objetivo QQ) e até a próxima ♥ P.S.:¹ Eu vivo defendendo a ideia de que o C-ta nunca, N U N C A machucaria o A-ya intencionalmente e venho com essa? Pois é. Eu ainda defendo essa ideia com unhas e dentes (quem quiser conversar sobre isso é muitíssimo bem vindo a me mandar uma MP ♥), mas, no caso dessa fic (e de LL, pra quem leu, again), o C-ta está no seu "modo psycho", então eu abri uma enoooooooooooorme exceção. Eu me senti bem mal ao escrever a cena do estupro, porque, cara, CA é meu OTP amorzinho mais lindo que tem. Mas é como eu falei mais cedo, acabei depositando tanta energia negativa que o rumo que as coisas tomaram foi esse, e eu acabei aproveitando pra fazer essa crítica. Eu pensei seriamente em trocar os nomes e fazer uma original, mas é Animals, cara, é puro CA, não dava SDVGHJBCDSN Foi bem sofrido escrever tudo isso ;; P.S.:² ... Eu provavelmente vou me arrepender de ter postado isso e apagar muito em breve, então aproveitem a promoção, galera, é por tempo limitado DVGHJCSNASDBH //apanha
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!