Animal
9 Seduzir
Notas iniciais
– Derek – sua voz era um sussurro, mais um ofegar dolorido na verdade. Sim... – Derek! – um sopro mal contido, um gemido arranhando a garganta para poder chegar aos ouvidos apurados do lobo. Sim, Stiles...
– DEREK!! PARE!
Mãos trêmulas e cegas prenderam seus cabelos negros, puxando-os com força o suficiente para arrancar alguns fios frágeis. Rosnou, mas não conseguiu afastar as mãos a tempo de ter seu corpo lançado para longe com uma força sobre-humana contra a parede oposta à cozinha. Alguns pratos e utensílios pendurados naquela parede caíram, como dominós sobre sua cabeça, forçando-o a usar os braços para se proteger e escorregando a parede lisa até o chão. Ele ergueu os olhos depois de uns segundos para ver Stiles... seu pequeno e frigido, nada forte e sempre indefeso Stiles, um Stiles que nunca conseguiria empurrá-lo com aquela força contra a parede ou sequer impedi-lo de fazer algo com apenas seus punhos, ele viu aquele Stiles saltar atrapalhado da mesa pelas roupas desarrumadas, a bermuda escapar pelas suas pernas e quase o derrubar no chão, correr pela portinha dos fundos e, antes mesmo dele sumir de suas vistas, Derek já sabia que Stiles estava ajoelhado vomitando toda sua bile e estômago no gramado do jardim.
Em qualquer outra situação, qualquer uma mesmo, Derek provavelmente sentiria orgulho ou sequer uma mínima felicidade pela força do adolescente claramente provinda da sua recente ligação com o lobisomem. Quer dizer, eles ainda não estão ligados totalmente, e isso só deixava seu lobo interior agitado, mas essa pequena demonstração fazia-o sentir mais confiante... ao mesmo tempo... com receio de ter estragado tudo. Em qualquer outro dia, qualquer outra situação... talvez... mas não hoje, não agora, no momento ele estava mais preocupado com o fato de Stiles estar olhando para ele com os olhos cheios de água e pavor... além de nojo.
– Stil- — ele tentou se erguer, escorregando vergonhosamente em alguns cacos de porcelana, fazendo uma grande ferida começar a sangrar. Não se importou, voltando a se levantar de forma desengonçada. – Merda...
Ele podia ouvir os gemidos que se afogavam com os sons nojentos do garoto vomitando lá fora, ele sentia o cheiro ácido do vômito, ele ouvia os batimentos cardíacos falhos e errôneos, o ar gélido da cozinha agora vazia. Ele quis se bater com todas as suas forças. Em que merda ele estava pensando ao prensar o garoto na mesa e passar a mão pelo corpo dele? Porra, não tinha sumido todas as cicatrizes do estupro e seu lobo descontrolado já queria foder o rapaz? Quer merda ele estava pensando?! Não, era isso, ele não estava pensando! Era a porra do pau dele agindo, tomando o controle de seu corpo e fazendo-o querer tomar o corpo de Stiles.
Por hora, tudo o que ele podia fazer – além de se encher de socos mentalmente – era tentar amenizar a situação. Por isso ele se manteve firme sobre os vidros, não ligando para a dor, caminhando em poças vergonhosas de sangue até a pia. Um único relance pela janela e ele viu Stiles de joelhos sobre a grama do jardim, inclinado sobre seus joelhos e com a cabeça em direção à grama, ele tremia e convulsionava. Com um suspiro longo e paciente, Derek pegou um copo com água e um pano limpo da cozinha, com cuidado ele desligou o fogo e seguiu para fora.
Aos poucos que ele se aproximava mais do jovem adolescente, mais alterado seu coração parecia ficar, aflito pelo som dos soluços dolorosos que o abatiam, olhando os ombros magros tremerem e convulsionarem em um choro contorcido pela vergonha e o nojo. Nojo de Derek talvez? Nojo pelo que ele quase tinha sido obrigado a fazer... logo após Derek ter prometido que não seria como os outros, logo depois dele ter dado um grande passo... ele podia ver o tabuleiro de xadrez se partir ao meio e não só as peças negras serem atiradas para longe, como também as peças brancas se despedaçando e caindo para longe de seu alcance.
O jogo estava perdido para ele.
– Stiles... – chamou-o ao se abaixar atrás dele, o pano e o copo em mãos, mas sem tocar no adolescente. Deixou-o chorar, permitindo sentir como as lágrimas o atingiam no coração como várias adagas banhadas por Wolfsbane. – Stiles, eu...
– Me desculpe...
Piscou, endireitando a coluna e olhando diretamente para o menor encolhido, ouvindo de novo... “Me desculpe!”... e de novo, e de novo... um mantra fraco e rouco repetido por Stiles com o máximo de forças que podia.
– Stiles?
– Me desculpe, Derek... eu... – ele virou-se para o maior, seu rosto vermelho, o nariz e olhos inchados pelo choro, úmidos e rosto sujo de vômito. – Eu tentei... tentei suportar... mas... – ele abaixou o rosto, soluçando e tossindo pela violência do choro.
– Ei, ei... – rapidamente, Derek o ergueu com seus braços, puxando-o para perto de si e o fazendo se sentar confortavelmente entre suas pernas. – Não é culpa sua, seu tolo. – brigou, passando o pano pelo rosto do menor, secando suas lágrimas e usando a água para limpar seu rosto do vômito. Com cuidado, o máximo que ele podia, ele o limpou e o puxou para perto de si, mãos em seu rosto vermelho e olhos azuis grudados nos olhos avermelhados. – Não é culpa sua, me ouviu? — ele fungou e tentou desviar o olhar, mas Derek o sacudiu com força, fazendo-o arregalar os olhos pela violência. – Não é culpa sua! Eu... – agora era Derek quem desviava o olhar, um tanto vermelho.
– Você só queria transar comigo... – cortou Stiles, chamando a atenção de Derek, mesmo que perplexo pela sua frieza. – Eu... eu devia ser capaz de... – engoliu em seco – Mas não posso. Desculpe-me... eu não.... não posso ainda, não dá!
– Não, Stiles-
– Desculpe-me, Derek. Desculpe-me. – com o rosto tenso, os olhos congelados pelas lágrimas frias, ele se desvencilhou das mãos do lobisomem, suas mãos caindo na grama cada uma ao lado da cintura de Derek, ele escondeu o rosto em seu peito, sussurrando. – Eu não queria que fosse assim... EU NÃO QUERIA QUE FOSSE ASSIM!
– STILES! CHEGA! – rosnou alto, sua voz alterada, seu rosto contorcido em dor. Stiles não sabia, Stiles não podia controlar, mas ele o feria, de mil maneiras piores que as dores causadas por armas... eram dores escondidas, dores que não sangravam, mas que feriam em uma profundidade que nenhum remédio ou agulha poderiam chegar.
Exasperados, ambos esconderem seus rostos no corpo do outro. Derek com a cabeça sobre seus cabelos, Stiles com o rosto em seu peito. As mãos caídas na grama, as pernas entrelaçadas, assim como suas respirações e pensamentos.
Ambos pensavam que aquilo nunca poderia dar certo. Não daquele jeito.
Eles estavam desconectados.
Eles estavam desequilibrados.
Quebraram sua sintonia.
Arrancaram seu laço deles antes mesmo deles conseguirem completa-lo.
Estava tudo perdido...
– Não... – sussurrou Derek, seus braços finalmente respondendo ao comando de seu coração. Agarrou Stiles com força, puxando para seu colo, uma mão em sua cintura e a outra em suas costas. “Eu não vou deixar... eu não vou perder... não dessa vez... Nunca mais!” Repetia em sua mente, várias e várias vezes, cada vez mais alto, conforme seu abraço se apertava e seu coração fazia o mesmo. Ele não podia, ele não queria perder Stiles. – Stiles, eu te amo.
Tensão.
Muito medo e hesitação.
– Eu te amo. – ele disse de novo. – Eu te amo. – olhando em seus olhos sempre, repetia cada vez mais baixo as três palavras com um cuidado excepcional para que o adolescente não se sentisse pressionado ou intimidado a responder. Pelo contrário, seu desejo era fazer com que Stiles tivesse confiança em Derek, que ele pudesse fechar seus olhos e confiar naquelas palavras, naquela promessa de que Stiles era único pra ele.
Mesmo com seus erros, seus escorregões estúpidos de homem das cavernas, ele podia confiar em Derek e aceitar seus sentimentos, mesmo que confusos e ainda não concretos – mas um dia, um dia ele iria repetir essas palavras e seriam todas verdadeiras, totalmente verdadeiras. Até lá, ele iria segurar Stiles com seus braços, iria cuidar dele, iria dar carinho e um amor que Derek lutava para crescer entre eles. Até lá, ele beijaria Stiles, abraçaria seu corpo frágil com cuidado, poria sua cabeça cheia de pensamentos e duvidas sobre seu peito e as tiraria uma a uma, até que tudo que sobrasse entre eles fosse sua ligação de companheiros.
Ele moveu seus braços, puxando Stiles novamente, dessa vez seus joelhos, passando um braço por baixo deles e, em um impulso, ergueu-o em seu colo. E não o soltaria.
– Eu te amo... – sussurrou novamente, dessa vez bem perto de seu rosto, dando-lhe um beijo suave. Cuidadoso para não acordar ao mais jovem. Pôde sentir o receio de Stiles antes de dormir, a confusão e por baixo de tudo aquilo havia um pouco de desejo, não o desejo de luxuria, mas aquele desejo de querer ter, um desejo de que tudo aquilo seja verdade.
E Derek faria de tudo para ser real.
Para ele e para Stiles.
Pensativo, levou-o para dentro da casa, não se importando em passar por cima dos cacos de vidros no chão, nem de parar sobre eles, pois diante de si estava o xerife Stilinsk com um rifle em mãos apontado para sua cabeça. Podia sentir o cheiro de Woflbane nas balas de prata daqui. Não se preocupou, sabia que ele nunca iria atirar em Derek, ainda mais com Stiles em seus braços.
O rifle em riste, os olhos presos um no outro, o rosto duro e o coração agitado.
Ele não esperava pelo xerife tão cedo em casa.
Agora eles teriam de ter aquela conversa mais cedo do que ele esperava.
Derek fez um movimento mudo pedindo silêncio e apontou para Stiles em seu colo. O xerife demorou alguns longos minutos, o dedo tremendo no gatilho. Derek olhou duro para ele, apertando Stiles em seus braços antes de virar seu corpo de um jeito que o homem pudesse ver o rosto sereno do adolescente adormecido. Com um suspiro compartilhado, o rifle foi abaixado e Derek conseguiu passar para o andar de cima sob o olhar atento do xerife. Deitou Stiles em sua cama, cobrindo-o e passou uma das mãos em seus cabelos grandes.
– Dê-me forças, Stiles. – pediu antes de descer para o andar de baixo, cada passo parecia mais o som de tambores marcando seus últimos minutos de vida no corredor da morte. O que podia ser muito bem descrito a situação atual, levando em consideração que Derek estava indo para a cozinha, onde supostamente teria de explicar para o xerife da cidade – cá entre nós, muito bem armado com umas 20 balas de prata banhadas em wolfsbane – que seu filho era o companheiro de alma do alfa da cidade. Que eles tinham de se ligar em breve ou Stiles poderia correr perigo e que esse enlace significava Derek transar com seu único filho.
É. Derek iria morrer em breve.
O xerife havia puxado uma das cadeiras sobre os cacos de vidro, o rifle descansando perigosamente sobre a mesa com uma das mãos dele batucando seu cano impacientemente. Ele olhava em volta com uma calma e suspeita que somente olhos treinados para buscarem pistas em cenas de crimes poderiam ter.
Ele olhou para Derek.
Derek olhou-o de volta.
– Quanto tempo? – perguntou o xerife.
É. Talvez Derek não tenha de explicar muito.
– Vai fazer um mês na próxima lua cheia. – respondeu educadamente.
– Filho da puta!
Isso não quer dizer que Derek tenha mais chances de sobreviver àquela conversa.
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