Animê Bizarre

14 Dance, voe, seja feliz.


-Você está atrasada!

-Eu sei, eu sei. Vamos logo!

-É pra lá.

-Não, não. O colégio é pra lá!

-Eu sei, mas o carro está pra lá.

-Carro?

-Não acha que eu vim a pé, acha?

-Sei lá.

Andamos até um conversível prateado. Romeu abriu a porta para mim

-Entre! – Obedeci calada.

Ele rapidamente deu a volta e entrou no carro. Assim que partiu, percebi que ele amava velocidade. Tentei pensar em como pedir para ele diminuir a velocidade, mas, se por um lado eu queria isso, por outro, eu não queria me atrasar. Não dava para ver sua expressão, ele estava meio indiferente. Desviei minha atenção para seu cabelo. Voava ao vento. Tenho que admitir, ele estava lindo. E por sinal muito elegante. Só percebi sua expressão quando ele tirou os óculos e eu pude ver os seus olhos. Ele estava calmo.

Mas eu não estava tão calma assim. E fiquei ainda mais nervosa quando ele virou em uma esquina que eu não conhecia. O colégio não era para aquele lado.

-Pra onde você está indo? O colégio é para o outro lado!

-Eu sei. Nós não vamos para o colégio, temos que ensaiar primeiro, lembra?

-E onde vamos ensaiar? Você não tinha dito que o ensaio seria atrás do colégio?

-Mudei de idéia.

-Por quê?

-Ai, Hinata, não começa! Você mesma disse que não entra naquele matagal!

-E se eu mudar de idéia?

-Esquece, não vamos ensaiar lá.

-Me diga ao menos onde estamos indo.

-Me deixe dirigir, mulher!

Agora eu estava muito longe de estar calma. Pra onde raios ele estava me levando? Por que não me conta nada? E por que mudou de idéia?

A alguns quilômetros do colégio, tinha uma clareira. Provavelmente era uma das quadras da parte antiga do colégio. Dizem que aquela área é mal assombrada. Talvez fosse por isso que o novo edifício fica a alguns quilômetros de distância. Sem contar que o ex-colégio (se é que eu posso chamar assim) fica numa região um pouco mais alta do Monte de Evangelion. * (é isso mesmo, o colégio atual fica ao ‘pé’ do monte e o antigo fica no ‘quase meio’) * Só que, devido à vegetação, quase não dá pra ver o antigo lugar. Espero que o Romeu não seja maluco de querer ir ensaiar lá.

Romeu desceu do carro e eu deci logo em seguida. Andou em direção ao grande espaço que eu acho ser uma antiga quadra. Acenou para mim.

-Venha! É aqui.

-Romeu, aqui é perto demais do antigo colégio e... – ele não me deixou terminar.

-Não se preocupe, está tudo bem. Se você quiser, a gente dá uma olhada no que resta do edifício só pra garantir que não tem ninguém.

-De jeito nenhum! Estamos sós em um lugar desconhecido! Não vou até lá.

-Não é tão desconhecido assim. Se não eu não saberia como chegar aqui.

-Qualquer um saberia se perguntasse para os alunos mais antigos que chegaram a conhecer os estudantes daquela época!

-Deixa de ser medrosa, vamos ensaiar logo.

-Aqui?

-Não. Aqui logo ficará escuro, vamos para o pátio.

-Mas nem amarrada eu entro lá! Aqui está bom!

-Hinata, você VAI!

-NÃO VOU!

-Quer apostar?

-Manda ver!

Romeu segurou minhas pernas e jogou o meu corpo em seu ombro. Eu relutei, mas não adiantou. Tentei de tudo, bati em suas costas, tentei morder o pescoço, chutar, mas nada deu certo. Fiquei desesperada! Eu estava indo para um lugar antigo, desconhecido e mal assombrado com o tapado do Romeu. Ele só pode estar doente para me obrigar a entrar naquela tranqueira!

Entramos pela antiga secretaria. Estava tudo empoeirado e no pior estado que se possa imaginar. Sem contar que eu juro ter visto baratas correndo pelo chão. Naquele lugar, não me surpreenderia se não tivesse só baratas. Romeu me pôs no chão.

-Romeu! Aqui eu não fico e aqui ninguém me obriga a ficar.

-Então você escolhe, ou me segue, ou tenta voltar sozinha.

-Mas de jeito nenhum, você vai voltar comigo porque foi idéia sua vir aqui e foi você que pediu pra dançar comigo! Ah, claro, eu deveria ter pensado nisso! Você foi tão carinhoso ao pedir pra dançar comigo. Devia ter segundas intenções como me matar por exemplo.

Quando me virei para olhar para Romeu, ele já estava no meio do corredor. Logo eu ficaria sozinha naquele lugar empoeirado e sombrio. Não tive alternativa, fui atrás do Romeu. Se eu tentasse voltar, naquele escuro, por aquela estrada, sozinha e a pé poderia ser pior.

-Romeu! Espera! Onde você está indo?

-Venha, deixe de preguiça.

-Como você vai saber onde é o pátio se a própria secretária está irreconhecível?

-Eu dou o meu jeito.

-Romeu...Para. – parei no meio do corredor, Romeu já estava no final dele e iria virar à esquerda. Abaixei a cabeça e olhei o que se podia chamar de chão. Lancei um olhar triste ao assoalho. Cruzei os braços sobre o busto e firmei minhas mãos por volta do meu corpo. Romeu já tinha desaparecido de minha vista. Pude sentir isso.– por favor, para... – falei desnivelando minha voz num tom de choro. De nada adiantava, ele não podia me ouvir.

Bem, aqui estou eu, sozinha. Meus pensamentos completamente aturdidos. Meu corpo, completamente desobediente aos meus comandos. Agora eu estava num subconsciente, aflita. O que pensar? O que fazer? Pra onde ir? Foi então que eu levantei a cabeça. Olhei para o corredor adiante. Nenhum sinal do Romeu. Agora eu já estava decidida, iria fazer algo. Andei até o final do corredor e virei à direita.

Por que à direita? ‘Raciocínio simples’, eu pensei, ‘se é pra morrer prefiro fazer isto sozinha e por escolha própria! Não vou ficar seguindo ordens do Romeu, afinal, a morte é minha, me deixe ao menos decidir!’ Continuei pelo corredor da direita. Não tinha nenhum ruído, nenhum cheiro além o da poeira, nenhuma brisa que estimulasse o meu corpo a correr ou a gritar. Até que uma mão fria cai por sobre o meu ombro, me deixando imóvel.

-Hinata! Onde você pensa que está indo? Era pra me seguir! Não seja teimosa, deixe disso.

-Romeu, me deixa em paz, eu quero ir por aqui.

-Você também decorou um caminho?

-O que?

-Você sabe algum caminho que nos leve ao pátio por este corredor?

-Não, e por que saberia?

-Então por que quer ir por este corredor?

-Por que eu quero morrer sozinha, ta ligado? Você pode ter me trazido até aqui, mas a minha morte escolho EU, muito obrigada!

-Do que você ta falando? Você não vai morrer, deixe de cisma! –falou em tom de sarcasmo-Eu sei para onde estou indo, procurei na internet a planta deste edifício e registrei o caminho mais curto.

-Pra que o ensaio tem que ser aqui com tantos lugares melhores lá fora?

-Confia em mim Hinata, por favor, confie em mim. Vai ficar tudo bem! Eu prometo – Romeu falou com uma voz cativante, pegou a minha mão e me levou para a esquerda. Até aí tudo bem.

Conseguimos fazer a velha fiação funcionar. O pátio estava iluminado e menos horripilante do que antes. Tinha uma vasta área para nos movimentarmos livremente.

-Vamos lá Hinata, não é tão difícil. Só tem que prestar atenção. Vamos de novo, desta vez lembre o passo.

-Eu to tentando!

-Que dificuldade tem? É só virar e cruzar no final. Se apóie em mim, vamos!

-Calma! Repita o passo mais uma vez, eu preciso visualizar.

-Hinata! Você não está dançando como da outra vez na aula de jazz!

-É né, que diferença do estúdio de dança pra esse lugar tão reconfortável.

-Fica falando mal do edifício para você ver! Os espíritos que moram nele podem acabar não gostando disso!

-Ai, vira essa boca pra lá!

-É brincadeirinha, vamos, anime-se – Romeu chegou perto de mim e me olhou como se estivesse implorando algo – dance, voe, seja feliz! Liberte-se! Assim você não sai do zero. Esqueça o ambiente, concentre-se em mim.

E então aconteceu... Eu me libertei. Dançamos perfeitamente. Estava muito divertido agora que eu já sabia os passos. Romeu me reconfortou muito ao falar a frase típica do professor ‘dance, voe, seja feliz!’ e ainda fez o favor de completar com ‘liberte-se’.

A música parou e finalizamos a coreografia junto com a música, exatamente no mesmo instante. Estávamos rindo.

-O que acha de repetimos pra ver se está tudo ok?

-Pode ser – Romeu mexeu no celular para achar outra música.

De repente um estranho ruído desperta nossa atenção. Entreolhamo-nos e ficamos em um breve silencio.

-O que pode ser isso? – perguntei.

-Não sei. Talvez a fiação não agüente muito. Eu tenho umas lanternas no carro.

-Não acho que seja a fiação. Veja que a luz não sofreu nenhuma alteração.

-Então deve ter vindo do colégio – olhei apreensiva para Romeu. Ele entendeu o que se passava em minha mente – Mas esse monumento é antigo. Deve ter ratos e baratas por aqui. Quem sabe não seja isso?

-Não acho que esse barulho seja de ratos!

E novamente, o ruído se repetiu.