A hora fatídica se aproximava. Os segundos eram pontuados no peito. Deveria ter voltado para casa logo que percebeu o engano que cometera, mas sendo tarde, sabendo de sua importância para o time de futsal do sexto ano, tivera que prosseguir. Sua vergonha seria exposta, seu segredo revelado. Agora se arrependia.

Mesmo sendo sua matéria favorita, na aula de matemática, não soubera resolver qualquer problema. A lógica se embaralhava, os números perdiam seu sentido, tudo era tragado pelo redemoinho em sua barriga. Tudo a sua volta, tragado. E não soubera responder quando o perguntaram o porquê.

Agora, minutos do horário do recreio, quando eles se preparariam, lastimava todo vão esforço. Mais uma vez aflorava, em sua cabeça, todas as desculpas dadas; eram todas as mentiras contadas; eram todas as vezes em que impediu que vissem. Se ele pudesse fugir, se pudesse escapar. Olhou para fora, pela janela da classe, ansiando a liberdade. Se pudesse escapar... E olhou para o professor, como se naquela testa enrugada o plano já estivesse traçado e muito bem. Correria? Não, sairia de mansinho sem ser percebido. Mais de um plano concebeu, todos imbecis; os concebeu num estado incrédulo, semiconsciente de que nunca tentaria.

Penetrou-lhe a alma, o som daquele sino, o martelo anunciando o veredito. Com o calafrio percebeu a verdade indiscutível: não podia fugir. Resolveu encarar a situação como homem. Foi um cavalheiro que tremia dentro de sua armadura, imperceptível ao espectador. Calado e resignado que subiu as escadas rumo a forca. À sua volta, os risos e a futilidades ofuscando sua seriedade, sem que ela fosse percebida.

Depois, um saci pulava, se curvava tentando alcançar o outro pé. Garotos pegavam luta num canto. Mais de uma conversa se ouvia, se unia. A algazarra era grande e dominadora. Victor fitava tudo e nada percebia, indiferente, não pertencia. Quando um som o despertou do sonho, se arrependeu, levantou seu olhar antes fixado nas chuteiras que devia calçar, e percebeu o que indagava a voz.

— Que há com a você hoje, Vitor?

O murmúrio de vozes concordou a estranheza.

— Se apronta logo, já temos que sair.

Tendo a voz o apontado, tornou-se alvo dos olhares, da curiosidade. Poderia ter calçado seu tênis despercebido, agora veriam o defeito, fariam chacota dele; já acontecera com outros por outros motivos mais banais. Trêmulo tirou um sapato. Ocultou, atrás do pé calçado, o apenas de meia. Foi nesse ponto, esquadrilhando cada rosto, que seus olhos finalmente perceberam o mundo. Com uma nitidez impressionante, perceberam. Um menino comia os cantos dos dedos, olhando, de cabeça baixa, hesitante a sua volta; A feição dominadora de um segundo que observava outro a se trocar; E foi-lhe pesada, a morte nas faces de mais um. O mais importante, porém, se deu quando fugiu ao chão. Ali avistou um Mickey nas meias de um e, nas meias de outro, um furo, furo esse com o dobro do tamanho daquele que ele, Vitor, ocultava atrás de um de seus calcanhares.

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