Anger

1 único


1.

Parecia que todas as imagens estavam no slow motion. Todas elas passavam devagar e Sanji conseguia ver nitidamente as gotas saltarem daquela boca fedida e pararem na sua cara. Era de tamanha violência o jeito que aquele cara transmitia sua mensagem para o seu receptor. Infelizmente, esse receptor era o loiro, que franzia o cenho com desprezo por ver aquela cara feia em vez do rosto de uma bela dama. Quem dera se fosse uma mulher o repreendendo no lugar de Patty! Uma mulher sádica com um chicote! Mas era Patty e seu dedo indicador, exatamente na altura do rosto do loiro!

Patty dizia mil palavras em que Sanji fazia questão de ignorar todas, apenas mantinha a cara amarrada e o olho descoberto pela franja fixo sem pestanejar. Era a sétima vez que aquele idiota chamava sua atenção naquele turno. Mas que porra! Qualquer movimento que fizesse, Patty aparecia do nada e dizia que tudo era culpa dele! Qual era o problema com esse cara?!

— Entendeu, Sanji?!

Terminou, inspirando profundamente, estava esgotadíssimo e torcia muito para aquele tarado ter o ouvido.

Sanji revirou os olhos e saiu da cozinha lotada do restaurante. Simplesmente não ouvira nada do que Patty dissera e por isso não sabia o que tinha feito de errado dessa vez. Se é que fizera algo de errado, ele sabia muito bem como Patty gostava de persegui-lo. Tinha alguma tara por ele?

"Que saco..."

2.

Não parava de sangrar. O dedão do pé de Sanji não parava de sangrar mesmo o garoto estancando com toda sua força. Apesar de que nessa época sua força não era muito grande, na verdade era bem pequena, como suas mãos pressionadas ao seu pé. Era apenas uma criança que Zeff não tinha piedade em mantê-lo sob um treinamento desumano. Seu dedo sangrava e ao fundo ouvia a voz de Zeff ecoar.

"Use isso para colocá-lo no lugar antes que caia."

Olhou a linha e a agulha jogadas na sua direção, teria que se virar com aquilo ou perderia seu dedão. O velho deu as costas e partiu. Odiava aquele tom despreocupado de Zeff, que se mantinha até mesmo quando estava prestes de perder um dedo.

Assim como odiava os treinamentos naquela floresta com seus animais surreais, e como odiava ter que cuidar de seus próprios ferimentos...

Queria matar aquele velho. Mas apenas chorava, pois acima de tudo queria um abraço.

3.

— O que faz aí parado, sobrancelha enrolada?

Zoro se aproximou de Sanji, que estava na mesa da cozinha fitando um ponto aleatório por mais de três minutos.

— Ham? — Piscou os olhos com força e virou o rosto para o esverdeado, brotado ali do nada. Porém, notou pelo relógio pendido na parede que já havia passado da meia-noite. — Nada... Apenas me lembrei de algo... — Murmurou e ouviu um burburinho do deck do navio, todos estavam comemorando a virada e ele estava ali com Zoro. Uma péssima companhia para aquela hora.

Zoro riu.

— É também daqueles que recorda do passado só por causa dessa época do ano?

Sanji grunhiu ao perceber o tom debochado daquele idiota, que agora estava sentado com seus coturnos sobre a mesa.

— E se eu for? Qual é o problema, marimo?

— No que pensava?

Sanji franziu sua sobrancelha enrolada com aquele interresse repentino do esverdeado por sua pessoa. Tateou seus bolsos a fim de acender um cigarro, mas largara seu maço em outro lugar. Merda! Teria que ficar perto de Zoro sem poder fumar, já sentia o estresse dominando. — Ora, apenas estava me lembrando de pessoas que eu odeio muito.

— Um pensamento que combina totalmente com hoje. — Zoro foi irônico e Sanji meneou a cabeça, concordando. De fato, o que dissera foi estranho, quando deveria estar espalhando amor e não rancor. — E chegou a pensar em mim?

Sanji riu. — Você chegou antes que isso acontecesse.

O marimo, então, tirou seus coturnos da mesa e se inclinou para o lado do loiro, que estranhou aquela investida repentina.

— Não sei se vai me odiar mais ou não, mas acho que vai pensar muito em mim a partir disso...

Levemente tocou nos lábios rosados do cozinheiro, mas pôde sentir o gosto de cigarro e alguns pêlos ralar sobre sua pele morena. — Feliz ano novo.

E claro, Sanji pensaria muito em Zoro. Odiaria muito Zoro. Mataria Zoro se pudesse. Reviveria Zoro para matá-lo de novo até. Mas, sabia que não o odiava tanto assim, nem mesmo Zeff e Patty. Até porque esses caras foram importantes na construção de seu caráter. Portanto, puxou o kimono do moreno, quando esse se afastou, e envolveu seus lábios nos dele para mais um beijo.

Porém, mais sedento.

Notas finais
feliz ano novo, pessoal do Nyah!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!