Angelus

2 Capítulo 2 - Revanche


– Vamos rapazes, vamos terminar com isso! – Disse um dos agressores. – Peguem o saco.

Dois garotos mascarados e encapuzados foram até um cadillac negro e abriram o porta malas de onde haviam tiraram os outros objetos para espancar Raphael. Tiraram um saco grande, provavelmente para embrulhar o corpo do garoto. As luzes começaram a falhar e o vento soprou forte e gelado carregando folhas e alguns detritos.

– Devíamos queimá-lo. – Uma voz abafada pela máscara sugeriu.

– Podemos fazer isso depois de empacota-lo. Está ouvindo aberração? Vamos transformá-lo em torresmo. – Disse outra pessoa.

– Porque você veio em? — Falou alguém acocando-se perto de Rafa – Veio para destruir nossas vidas não é? Está só esperando o momento certo de agir e nos afundar no caos, mas eu não vou deixar que isso aconteça. – Era uma voz masculina bem madura — Livrarei essa cidade de seus demônios. – Os outros responderam “amém” enquanto a entidade se levantava e sacava uma pistola. Agora dava para reparar... Ele tinha uma cruz dourada no pescoço.

O homem apontou a pistola para a cabeça de Raphael, destravou e posicionou o indicador no gatilho. — Livrai-nos de todo o mal... – E atirou.

A bala cortou o vento violentamente rumo ao crânio de Raphael.

Subitamente parou a poucos centímetros do alvo e estabilizou-se girando em torno do próprio eixo.

Todos ficaram assustados. De repente, Raphael ergueu-se sem se apoiar em nada, tinha um misto de expressão séria e psicótica. Pairou seu olhar sobre os homens, em seguida levantou os antebraços deixando parcialmente os braços próximos ao corpo e abriu as mãos com as palmas viradas pra cima. Todas as armas, instrumentos e objetos que foram ou seriam usados para tortura-lo, saíram do chão, das mãos e das roupas do agressores e ocuparam o espaço aéreo em volta de Raphael enquanto a ventania intensificava, confusa.

– Amém. – Raphael disse, cínico.

Com um giro dos braços em volta do corpo, os instrumentos foram atirados contra os agressores apavorados, que começaram a gritar e murmurar. Propositalmente nenhum os acertou de forma grave, apenas causaram ferimentos e arranhões.

Rafa começou a avançar em passos firmes enquanto os medrosos tentavam fugir. No desespero alguns caíam, outros o tentavam repelir com coisas como “saia de perto de mim” ou “afaste-se demônio”, mas os ouvidos de Raphael pouco se importavam com essas coisas, seus olhos eram focados e assustadores. Enquanto caminhava, os objetos que ele havia arremessado, voltavam e eram arremessados de novo em um vai e vem macabro, um rebuliço desesperador de instrumentos mortais. Acertavam os alvos nos braços, no rosto, nas pernas, por todo lugar. Os fazia sangrar. Só não os matava. Marchava com segurança em direção ao homem que o havia tentado balear como se ele fosse um troféu que o esperava no final de um corredor, era seu alvo principal. Mesmo assim ninguém podia fugir do local, pois mesmo que corressem muito, quando chegavam a certa altura em sua tentativa de escape, se deparavam com um bloqueio telecinético.

Raphael então chegou bem próximo do tal homem. Ele estava assombrado, apoiado no cadillac mantinha as mãos sobre o rosto e mandava o garoto manter distância apresentando seu crucifixo. Raphael gerou um sorriso em sua face séria e com um sinal de mãos ele derrubou todos os outros criminosos (bem machucados, mas não o suficiente para morrer) e trouxe todas as armas para o redor do indivíduo, as manteve flutuando apontadas para seu alvo, olhou de leve para baixo admirando o crucifixo e, sem toca-lo, arrancou-o de seu detentor e fez a corrente planar até o seu pescoço trancando-se atrás, na nuca, entre os cachos castanhos. Depois voltou a olhar para o homem com pânico na expressão e sorriu mostrando bem os dentes dessa vez. Conseguia sentir o medo exalando, o suor exagerado, o choramingar. Levantou vagarosamente os braços fazendo a artilharia vibrar no ar, pronta para atacar.

Do nada afastou-se dando as costas, andando apressado e deixando as armas caírem. Cessou qualquer influência sobre qualquer corpo. Todos se apressaram para correr, desengonçados.

A certa distância, Raphael virou-se bruscamente flexionando o joelho e estendendo os braços. Tudo foi pelos ares, pessoas, armas e até o carro deu diversas voltas e explodiu.

Acabou.

Raphael respirava ofegante observando à meia luz amarela das chamas o que havia feito. Até que a adrenalina abaixou e os hematomas voltaram a doer, despencou de dor e ficou acanhado no chão comprimindo a barriga.

Jonas despertava atordoado e passava a mão pela cabeça. Olhou ao redor confuso e impressionado, até que viu Rapha contorcendo-se de dor a um intervalo de onde estava.

– RAFA! RAFA! – Exclamou e levantou-se apressado para ajudá-lo. – O que houve? – Ajoelhou perto do amigo, passando uma mão por um ombro e estendendo a outra.

– Eu consegui Jonas! – Disse entre caretas olhando para o outro.

– Conseguiu o quê?

– Controlar Jonas, eu consegui. – E urrava.

– Espera, se acalma. Como assim? Do que cê tá falando? O que aconteceu aqui?

– Foi eu, droga. Eu... eu... – E desmaiou.

***

Cantar de pássaros, dança de galhos, a luz da janela batendo em seu rosto, forçavam Raphael a acordar. Abriu os olhos com dificuldade, tinha dor de cabeça e sentia uma rocha sobre o seu corpo. Tentou se ajeitar na cama, mas toda posição era desconfortável e a luz parecia estapeá-lo, virou a cabeça para um lado e outro, percebeu que estava no seu quarto, estava confuso, sentiu algo no pescoço, levou a mão até a região e percebeu o objeto metálico, o crucifixo que tirara de seu agressor. Não tinha sonhado. Porém tinha de confirmar uma coisa.

Ele estendeu o braço devagar em direção a estante do outro lado do quarto, próximo a porta. Um livro se moveu. Raphael tremeu um pouco a mão em seguida e todas as coisas da estante avançaram deixando seus lugares e pararam de forma precisa em seguida, rígidas no espaço.

– Filho? Como você está? – Disse Clarice atrás da porta.

– Ah! Sim, eu tô bem. – E o rapaz devolveu os objetos da estante que devagar retomaram suas posições.

– Filho, está tudo bem mesmo? Eu ouvi um barulho. – Falava dos livros se movendo.

– É... Está tudo bem mesmo, estou um pouco dolorido, m-mas já levanto. Só um minuto.

– Então tá. – Disse a mãe, voltando para a cozinha.

– Uaaaaaau! – Raphael sussurrou animado.

O garoto desceu em cinco minutos.

– Bom Dia Família!

– Faeeel! – A priminha do rapaz correu para abraça-lo – Cê tá dodói?

– Não Sophie, eu estou muitíssimo bem! – E a abraçou com força.

– Tá feliz filho? Nem parece que tá todo machucado.

Raphael apresentava outro semblante esta manhã, uma aura que não fluía dele a muito tempo.

– Machucado? Quem aqui tá machucado? – Brincou pegando um pão e o devorando. – Beijo mãe, tô indo!

– Indo pra onde?

– Escola ué? Tô atrasado.

– Na-na-ni-nanão. Você vai sentar essa bunda na cadeira, comer direito e ficar em casa para descansar. – Ordenou

– Pra que isso? Eu tô ótimo, nem sinto mais nada!

Clarice fez uma cara de brava que Raphael ignorou, deu-lhe um beijo na testa, catou suas coisas e saiu.

– Tchau, tchau, tchau!

Próximo à praça onde Rafa estacionava, havia faixas de contenção em preto e amarelo e um aglomerado de pessoas. Raphael parou a moto antes e desceu, foi se aproximando com o capacete na mão, fingindo-se de curioso, quando na verdade sabia de todo o acontecido. Sentia vontade de rir.

Um homem bastante ferido e com um braço quebrado, falando com a polícia o viu chegando e o apontou. – Foi ele! Isso tudo é culpa dele!

A população virou-se para o garoto, surpresa. Raphael engoliu em seco. Eles o olhavam de cima a baixo com estranhamento e nojo. Enquanto alguns cochichavam entre si, eles começaram a se exaltar como aldeões que ilustram filmes de Idade Média se revoltando contra um monstro. Logo estavam a protestar, xingar e até arremessar coisas no rapaz, deixando-o constrangido e sem ação.

Vem alguém ali.

– Que que tá havendo aqui?!

Notas finais
Pessoas, preciso de críticas construtivas ;) Deixem seu comentário, digam o que acharam, o que vocês esperam... E se estão gostando, aguardem o próximo capítulo, posto até o fim da semana. Afinal, cadê é o pai do Rafa, gente? º0º