Notas iniciais
Vou estar postando novos capítulos todos os sábados, sem hora exata. Ah, mais uma coisinha que vale adicionar: talvez tenham mínimas diferenças entre esse texto e o publicado no socialspirit, mas eu lhe garanto que é 100% de minha autoria.

Haviam algumas sacolas no banco de trás junto a nós.
— Clarity, mostre para sua irmã as coisas que compramos. — Karen disse dirigindo.

Clarity tirou de dentro de uma sacola alguns casacos e sapatos muito bonitos.

— Esses são os seus, peguei seu número. — pareciam bem caros.
— E as outras sacolas?
— São para mim. — ela deu ênfase em mim. Karen riu. — Seu quarto ficou intacto, mas o meu queimou por inteiro.
— Nossa. E vocês pegaram algo mais de casa?
— Conseguimos pegar suas coisas, algumas fotos e joias da mamãe e as coisas do banheiro. — ela puxou uma mala vermelha de baixo do banco, onde havia um compartimento que eu nem ao menos tinha notado.
— Meninas, acho melhor vocês dormirem para estarem acordadas na viagem de avião. A paisagem é estonteante! — Karen disse, sorridente.
— Para onde estamos indo?
— Aeroporto de Brasília.
— E nós vamos pegar uma avião para onde? — Clarity perguntou.
— Londres, é claro.

[...]

— Olha aquilo, Agatha! — Clarity apontava para um rochedo colorido.
— Uhum, muito lindo. — eu disse sem prestar atenção revirando a minha mala, em busca de um livro ou algo assim. Só roupas.
— Por acaso vocês pegaram meu celular e meus livros, certo? — Falei preocupada.
— Aha, ganhei! — Clarity disse, animada.
— Não acredito! — Karen disse em satisfação tirando 10 dólares do bolso.
— Vocês apostaram isso? — elas riram, Karen se manifestou.
— Suas outras coisas estão em outras sacolas. Não se preocupe, pegamos tudo. — ela voltou a ler seu livro assumindo de novo a posição correta.

Ninguém nunca tinha me falado dela, em toda a família. Ela nunca havia aparecido em nenhuma festa de final de ano, também não estava no álbum da árvore genealógica da família. Eu nunca tinha visto essa mulher em toda a minha vida! Quem assegura que ela é realmente minha tia? E se ela for uma criminosa sequestrando a gente? E por que diabos minha mãe não poderia cuidar da gente? O ar já não parecia mais presente e o ar condicionado já não parecia mais funcionar.

— Agatha? Você está bem? — Clarity perguntou. Essa palavra já é repetitiva demais em todos esses 2 dias fora de casa.
— Karen, você disse que seu sobrenome é Lawghintan?
— Sim, sobrenome de casado. Por que? — ela disse friamente sem tirar os olhos do livro.
— Ah, por nada.

O resto da viagem foi incrivelmente silenciosa depois que Clarity adormeceu. Claro, o avião inteiro estava conversando, batendo xícaras em pires, talheres nos pratos. Mas ainda assim, nos nossos assentos, era tudo muito quieto que até parecia que todos estavam calados. O alto falante fez barulho. O frio na barriga chegou. Estávamos pousando.

— Vamos andando meninas, temos um grande dia pela frente! — Karen disse quando pegamos nossa mala.

Chegando no estacionamento do aeroporto haviam vários carros estacionados, várias pessoas enchendo o porta-malas de bagagens, várias pessoas se abraçando.

— Coloquem as coisas no porta-malas e entrem no carro. — Karen andou até um Audi Sport Quattro Concept branco e abriu a mala do carro. — Eu preciso ir ver uma pessoa, não demoro mais que 10 minutos. — ela deu meia volta e andou a frente, até se misturar com as outras pessoas.

Vi Clarity guardando as coisas no porta-malas.

— Ei, espere, eu quero achar minhas coisas! — fui até ela. Ela levantou a cabeça lentamente, seu rosto estava molhado. — Clarity? Está chorando por que?
— Porque algo me diz que não voltaremos pra casa tão cedo.

[...]

Karen saiu do asfalto e entrou numa estrada de terra. Ela olhava o GPS confusa. Seu celular parecia de aço inox, um brilho incrivelmente prata, não tinha marca em lugar algum, eu nunca tinha visto um daqueles. Ela tirou ele do colo e colocou na orelha.

— EU ESTOU PERDIDA COM DUAS SANGUES MEDIAS! FILHAS DE JACOB! ONDE VOCÊ ENFIOU ESSA DROGA DE PORTAL? INÚTIL! — ela gritava com alguém. Jacob era meu pai. Clarity parecia não ligar e observava uma família de coelhinhos da janela. Do outro lado da linha, gritaram.
— SE VOCÊ NÃO SABE SEGUIR UMA DROGA DE MAPA, NÃO É MINHA CULPA.

Espera, como eu estava escutando o outro lado da ligação?

— JOSHUA EU PROMETO CARBONIZAR VOCÊ! — algo dentro de mim me dizia que ela não estava de deboche. Sua voz voltou a ficar calma quando olhou pra mim e viu minha cara muito simpática de “Clarity, corra, temos uma psicopata aqui”. — Como eu faço para chegar no portal?

Portal? O que é isso? Estamos em um reality show? Portais, sangues médias, carbonizações, pessoas queimadas sem nenhuma cicatriz ou arranhão se quer. Que droga de dia é esse?

— Vou mandar os Sinalizadores de Inverno até vocês. — A voz do outro lado da linha disse, deixando Karen brava de novo.
— Aquelas coisas são mais lentas que a Alexa nas provas da seleção. Não tem como mandar os Sinalizadores de Verão?
— Primeiramente, não ofenda minha garota. Em segundo se mandarmos os Sinalizadores de Verão eles morrerão e Thalia nunca aprovaria isso. E, se não está feliz com a eficiência dos Sinalizadores de Inverno reclame com Jacob, não comigo.
— Então mande logo essa coisa antes que Jacob venha busca-las pessoalmente.

Ela jogou o celular em cima do painel do carro com tanta força que eu achei que ele iria quebrar. Mas ao contrário disso, amaçou o painel do carro. Ela olhou pra mim, depois para Clarity.

— Não se preocupe, é sempre difícil.
— Claro, fico feliz em saber que tem gente que sofreu mais que eu em algo que EU NEM SEI O QUE ESTÁ ACONTECENDO!

Achei que ela iria explodir que nem fez ao telefone enquanto fala com esse tal de Joshua, mas apenas respondeu com sua pose responsável.

— Faça suas perguntas, prometo responde-las com sinceridade. Temos todo o tempo mesmo. — ela resmungou.
— Ok. Primeiro como minha mãe ficou toda ferrada e eu e minha irmã nem nos machucamos?
— Você não se machucou por que ficou pouco tempo no fogo, sua mãe ficou bastante. E sua irmã... — ela olhou para o banco de trás e mentiu. — Ela teve sorte.
— Eu sei que você está mentindo.
— Não estou te contando a verdade, mas também não estou mentindo. — confessou. — Eu não sei o que aconteceu com ela.
— O que meu pai tem a ver com tudo isso?
— Bem, tudo. — ela falava com tanta calma e eu tão confusa. Dava vontade de estrangular ela. — Acho que ele te responde melhor isso.
— Espera, eu vou vê-lo? — perguntei.
— Todos os dias.

Se eu fosse uma máquina, com certeza a seguinte mensagem apareceria: "o arquivo AgathaWinchester.exe parou de funcionar".