Angel's Hell

1 Capítulo 01: Um ponto de luz na escuridão.


Notas iniciais
Hello, Mishamigos! Eis aqui o capítulo inicial da nossa jornada. Espero que gostem, boa leitura!

HOJE

— Você sempre será o meu maior erro, a minha maior falha. Eu jamais vou me perdoar por não ter salvo você — Dante Wilborn escorregou o dedo pela lápide fria, sentindo-a contra sua pele.
Contornou pela escrita do nome e sobrenome, levando a mão em seguida para a testa, tremendo e se esforçando para não chorar. Não mais.
Ele se levantou e caminhou pelo cemitério pálido e sombrio, por todos os mortos até a saída, pensando como pôde deixar tudo isso acontecer.

ALGUNS ANOS ATRÁS

Dante estava sentado em um dos bancos de pedra do pátio circular da escola. Era um ambiente ao ar-livre, com poucas sombras criadas pelas árvores ao redor. O piso era de cerâmica e o lugar devia equivaler à uns 20 metros, aproximadamente.
Jovens circulavam por ele conversando e aproveitando o intervalo, cada um concentrada em seu mundinho.
Na mão de Dante estava as Vantagens de Ser Invisível, um dos seus livros favoritos que havia pegado emprestado da escola. Já estava lendo de novo pela quarta vez. Uma das suas principais características era ler o mesmo livro várias vezes para saboreá-lo melhor. Adorava demais esse livro, apesar de que refletia uma vida que ele nunca teria: uma vida com amigos, diversão e amor. Parou de ler quando inconsequentemente levantou a cabeça e viu, do lado oposto ao seu, um grupo de cinco garotas com o mesmo livro que ele lia nas mãos.
Ficou por uns segundos observando aquela cena. Elas debatiam e conversavam sobre o livro, possivelmente. Desde Teresa, ele nunca mais havia conversado com ninguém sobre livros. Bem, na verdade sobre nada. Mas vendo aquela cena ele desejou poder ir lá e falar com elas, ter alguns amigos. Só que sua timidez era extrema, a ponto de não conseguir começar uma conversa sem se atrapalhar. Também, por que alguém conversaria com ele? Não passava de um garoto antissocial e repulsivo.
Ficou as observando até que uma garota ao seu lado comentou:
— Pervertido — E foi embora.
Ele suspirou e se levantou, pronto para ir para outro lugar onde não pudesse ser visto. Mas então ele pensou em Celeste e como poderia superá-la. Reuniu toda a sua força de vontade e caminhou em passos lentos até as garotas.
Rezava para não aparentar estar nervoso com o roer de unhas ou os ombros encolhidos. Provavelmente estava suando muito. Seus pensamentos corriam à mil, ele não podia acreditar que caminhava em direção a um grupo de garotas. Antes que pudesse realmente processar o que estava fazendo, Dante já tinha parado perante elas.
As garotas pararam de conversar e olharam para ele. Mais de perto agora o garoto pôde ver que elas deviam ser da sua idade, mas da outra turma do segundo ano. Ele respirou fundo e tentou começar.
— Eu... É... E-estava pensando... Que, que, talvez... — Sua voz falhava e a cada palavra ficava mais baixa, como se tivesse medo de ser ouvido.
Suas mãos tremiam, o corpo todo tentava fugir dali, sabia que devia fechar os olhos para não continuar o contato direto (isso o intimidava), mas ficou tentando falar mais e mais.
— É que... É que vi, vi vocês... Com, com... — Tossiu e apontou lentamente para as cópias de as Vantagens de Ser Invisível que estavam em suas mãos — E-eu... Bem...
Uma das garotas soltou um riso fraco mas voltou a mesma expressão séria das suas amigas, encarando ele. Dante parou de falar e encolheu ainda mais os ombros, recuando alguns passos e se virando para ir embora.
Antes que pudesse estar longe o suficiente ouviu uma das garotas rindo e comentando:
— Que cara esquisito.

Dante passava pela porta da sala de aula. pronto para sair da escola, quando alguém tomou o livro da suas mãos e ficou folheando-o.
Era Daniel Jackson, o capitão do time de hóquei da escola. Não passava de um rapaz corpulento mas extremamente musculoso, baixo e calvo, com um queixo quadrado e um olhar assassino. Vestia a camisa cinza com preta do time, acompanhado por dois de seus companheiros que usavam a mesma roupa, cujo um morava com Dante.
— "Aceitamos o amor que achamos merecer" — Leu a frase do professor Anderson, a qual Dante adorava. — Que merda é essa? — Ele cuspiu e jogou o livro no chão.
Dante se apressou para pegá-lo enquanto os rapazes riam às suas costas. Tinha um apreço indescritível para com os livros, ficando extremante cuidadoso. Os considerava seus únicos amigos, onde ele podia fugir para um mundo melhor quando as coisas piorassem na realidade.
— Você é ridículo, Dante — Daniel comentou enquanto Wilborn tentava se afastar devagar. Mesmo se quisesse não poderia confrontar Daniel, seria espancado.
Além que não tinha força de vontade para conseguir impor uma briga. Conflitos sempre o assustavam, pois sabia o que nascia deles.
Antes que pudesse ficar longe suficiente dos rapazes, Dante deu de cara no chão, chocando todo o seu corpo no piso de cerâmica. Daniel estava perto dele, gargalhando como nunca. Obviamente ele havia empurrando o garoto. A dor correu por todo o seu crânio.
Acostumado com a humilhação constante ele apenas se levantou e foi embora, apressando o passo para sair da escola.
Quando estava lá fora, viu que começara a chover. Milhares de gotas gélidas caiam e o céu escondia qualquer luz, indicando que o Sol não apareceria tão cedo.
— Maravilha — Murmurou para ninguém em especial.
Todos os alunos estavam entrando no carro dos pais ou dos amigos e indo para casa. Dante seria o único a pegar chuva, a estar em uma situação ridícula. Um resumo claro da sua vida.
Ele guardou as Vantagens de Ser Invisível na bolsa, relutante pois poderia amassá-lo, e começou a longa jornada até o orfanato.
Avançou por uma esquina escura e saiu direto na Universidade de Toronto. Era o seu maior sonho estudar lá, aproveitar da melhor faculdade da cidade. Mas ele sabia que um dos melhores ensinos não estaria ao alcance das suas mãos, um fracassado como ele não conseguiria algo dessa proporção. Já havia aceitado, porém toda vez que passava pelo local a sua mente o torturava.
Ouviu um som de passos um pouco perto dele. Quando se virou, não viu nada. Agora som de passos à sua frente. No momento que olhou só estava a rua vazia. Começou a andar mais rápido.
Enquanto andava pelas calçadas de pedra, as roupas se encharcavam, o frio fazia sua mandíbula tremer e o cabelo grudava no rosto.
Dante odiava ficar sem distrações porque assim podia pensar no quanto miserável era sua existência. Não é como se alguém fosse gostar ou precisar dele, aprendeu que isso não mudaria após Celeste e Teresa.
Os olhos estavam ficando vermelhos com as lembranças, então apenas acelerou até que se viu de frente com um espelho de uma loja de conveniência.
O seu reflexo não era algo que quisesse ver. O blusão azul-escuro com mangas longas e a calça jeans estavam ensopados, assim como o próprio Dante. O seu longo e seboso cabelo escuro descia pelos ombros grudento, a pele pálida era a única característica física branca em meio a tanta escuridão. Apesar dos seus olhos serem castanhos-claro, de longe pareciam escuros. O único presente que já recebeu balançava no pescoço, uma dolorosa lembrança da perda da única pessoa que se importou com ele.
Dante abandonou a imagem da sua aparência abominável e continuou olhando para baixo, era um costume seu enquanto andava. Após uma longa caminhada abaixo do céu nublado e chuvoso, ele chegou ao orfanato Saint Agnes, ao lado da Igreja Glenview Presbyterian.
O orfanato era uma grande residência de dois andares e de carvalho, com janelas em todos os lugares. O telhado vermelho escuro era brilhantemente bonito, e a porta de madeira se erguia na sua frente.
Eles reformaram bem após a destruição, na opinião de Dante.
Atravessou os degraus da pequena escada e avançou pela porta. Se viu em um hall de piso também de carvalho, com paredes marrons e luzes em fileiras pelo telhado. Crianças corriam após chegar da escola pelo salão todo, se acomodando nos sofás e cadeiras do lugar.
Antes que pudesse subir para o seu quarto e trocar de roupa, irmã Aline, a freira do orfanato que havia chegado à duas semanas chamou sua atenção vindo de um dos corredores esquerdos.
Era uma senhora de idade ruiva com grandes olhos verdes e a roupa típica de freira. À princípio Dante pensou que ela iria reclamar por ele estar molhando o chão, mas logo percebeu que ela retorcia parte da sua manga, um gesto para quando estava nervosa.
Provavelmente foi obrigada a falar com Dante, tendo em vista que ninguém iria querer trocar palavras com uma pessoa como ele. O pensamento o deixou subitamente triste.
— Dante... Bem, é que você completou 16 anos semana passada, lembra? — Impossível esquecer, sendo que aquela data foi pra sempre marcada como o dia em que ele falhou. Dante assentiu. — É que o orfanato não pode mais manter você aqui, sabe, grandes custos e essas coisas. Esperamos a semana para saber se você apenas iria ou...
— Eu entendi, obrigado irmã — Foi só o que ele disse e subiu as escadas. Ficou surpreso pela súbita coragem de impor sua voz de forma tão abrupta, mas ele realmente já estava cansado de tudo isso.
De ser ignorado, menosprezado e rejeitado pelas pessoas do orfanato. No fundo só queria um amigo de novo.
Passou pelo pequeno corredor escuro e entrou no seu quarto, vazio no momento. O dividia com três rapazes, um deles sendo um dos garotos que estava com Daniel.
Era um quarto comum, com dois beliches, um de cada lado, um banheiro no final da parede direita e uma pequenina janela ao sul, a qual mostrava todo o céu escuro. Ele pegou sua mochila e começou a organizar seus poucos pertences: algumas roupas, um boné, escova, um segundo par de tênis e a foto dele com Teresa, que havia tirado há alguns anos. Toda vez que dificultava e ele se sentia sozinho olhava para ela, lembrando que alguém se importou com ele algum dia.
Tirou o cordão. Tinha uma corda de prata com uma cruz na ponta, incrustrada com uma pedra vermelha. Guardou cuidadosamente junto com a foto e deixou a mochila debaixo do seu beliche, indo tomar um banho pra enfrentar seu último dia no orfanato.

Já era noite, o céu estava claro com a passagem da chuva e a lua cheia iluminava ao longe. Fora um dia como qualquer outro: solitário, parado e depressivo.
Ele estava na porta do orfanato, olhando pela última vez o que foi sua casa a vida inteira. Gostaria de sentir saudades e ter mais lembranças boas, mas as únicas que tinha foram enterradas junto com a pessoa. Ele sempre almejou poder ir embora, mas estando naquela situação pela primeira vez estava assustado. Agora iria enfrentar o mundo sem ter pra onde voltar.
As ruas se mantinham sombrias e vazias, casas comuns se espalhavam de uma esquina a outra. As únicas residências diferenciadas eram o orfanato e a igreja. Dante observou o Glenview Presbysterian. Era um pequeno lugar negro mogno com uma torre acima, uma porta de carvalho e uma estrutura humilde.
Saint Agnes, por ser religioso, era parceiro da igreja, então em todo domingo Teresa levava Dante para conhecer "o melhor lado de Deus".
Dante aprendeu que a religião era bastante contraditória, mas tinha seu lado bom. Mesmo assim não se considerava exatamente alguém com religião.
Foi acordado dos seus pensamentos por um pigarreio.
Virou para frente e viu na sua frente Emily, uma das garotas do orfanato. Devia ter a idade de Dante, tinha um cabelo louro bem claro e olhos profundos verdes. Possuia feições delicadas lindas. Usava um casaco de seda rosa e carregava nas mãos uma pequena caixa.
— Olá — As palavras saíram docemente pelos seus lábios, enquanto encarava Dante com um olhar caloroso.
Apesar de se sentir desconfortável com contato direto, encarar aqueles olhos causou um enorme prazer nele. O sorriso de Emily inundou o coração de Dante enquanto ele continuava observando-a como um bobo.
Ela olhou pra caixa e disse timidamente.
— Eu soube que você vai embora do orfanato hoje, então... Eu queria lhe dar esse presente — Entregou a caixa para ele e se afastou rapidamente.
Dante sorriu, como não sorria há um bom tempo, e olhou o pequeno presente de despedida que segurava na mão. Era de madeira clara e tinha uma trava de ferro na frente.
Pensava que iria embora sem ninguém se importar, só comemorariam por se livrar dele, um ser tão repugnante. Não imaginou que alguém se despediria, muito menos daria um presente. Com uma enorme felicidade abriu a caixa, mas o sorriso morreu no seu rosto quando viu o que estava escrito com uma forte letra:
OTÁRIO.
Um barulho acima da sua cabeça chamou sua atenção, e quando viu estava completamente encharcado com água gelada. O frio invadiu seus ossos, o vento forte da noite causou arrepios tremendos em seu corpo e a mente distorcida de Dante tentava assimilar tudo.
Dois garotos riam da janela do segundo andar que estava no exato posicionamento de Dante. Seguravam um balde agora seco.
Emily ria ao longe, correndo antes dos monitores chegarem. Apesar de que Dante duvidava que eles iriam ficar do seu lado.
Ele apenas começou a caminhar tremendo e cabisbaixo, ouvindo o som das risadas ao longe.
Como ele pôde pensar que alguém o trataria bem de novo? Emily sequer olhou para ele durante todos esses anos no orfanato. Se arrependeu por ter tido esperança de que fosse receber um amor que não merecia. Ganhou um banho de realidade, ao menos.
Ouviu os aviões ao longe saindo do aeroporto Downsvlew. Fora isso as ruas estavam silenciosas, nem mesmo os grilos faziam barulho na calada da noite. Após passos e passos por ruas idênticas ele viu o Earl Banes Park, o parque que Teresa o levava. Era um grande espaço ao ar livre. com centenas de árvores ao redor. A única coisa não verde era o campo central limpo, a clareira, e caminhos que se arrastavam pelo local como trilhas até o centro. Ele começou a andar por uma dessas trilhas e o cheiro bom das árvores invadiu suas narinas, ajudando-o a relaxar a mente.
Dante se recostou em uma das árvores, pegando uma blusa e começando a se enxugar.
Sentiu os olhos marejarem e se segurou forte para não chorar. Seu destino era esse e somente esse: perecer na solidão e no doloroso vento da tristeza. Não podia ter fé que isso mudaria.
Quando já estava razoavelmente limpo, ouviu um som ao lado. Umas árvores adiante, observou movimentos. Ele se ergueu lentamente e tentou prestar atenção em mais barulhos ou passos. Nada. Começou a andar e, quando chegou perto da clareira, viu três homens adultos com roupas de couro e bandanas na cabeça tentando roubar uma garota.
Ela tinha o cabelo escuro e não devia ter mais que 18 anos. Seu corpo pequeno era coberto por camadas de roupas: camiseta, blusão e moletom, ambos cinzas mas em tons diferentes. Seus olhos eram de um marrom forte, só que eles expressavam somente medo, assim como seu rosto. Segurava de forma protetória uma bolsa de couro azul-escura.
Dante respirou fundo, apressadamente. Ele estava mesmo presenciando um assalto, nunca tinha acontecido antes. O pavor tomou conta do seu ser e as suas pernas tremeram. Engoliu em seco e um suor frio desceu pelo seu corpo. Instintivamente recuou alguns passos, então olhou para o rosto da garota mais atentamente. Uma expressão de terror estava clara, ela tremia tanto quanto Dante olhando para as faces dos seus ladrões. Encolhida e assustada, ela não tinha reação. Dante não poderia deixá-la ali, sozinha, perante àqueles homens tenebrosos.
— Ande, passe a bolsa — O do meio ordenou. Ele era musculoso e alto, tinha bíceps destacados nas mangas rasgadas da jaqueta e um cabelo louro que descia pela bandana — Vamos, não temos o dia todo.
A garota não reagiu, continuou olhando pra ele.
— Ah, sua... — Ele ergueu a mão para acertar um tapa nela, a moça imediatamente fechou os olhos para receber o impacto.
Sem saber o que estava fazendo, Dante correu até lá. Não iria conseguir chegar no exato momento de impedir que ele acertasse ela. O tempo parecia ter congelado, Dante não seria rápido suficiente para salvá-la. Foi quando um dos seus companheiros impediu o tapa.
— Não — Ele usava as mesmas roupas de motoqueiro, mas diferente do seu companheiro era mais baixo e magro, com fios de um cabelo negro grande escorrendo pelo rosto. Olhou para o parceiro com um olhar de alerta — Não podemos estragar a comida.
Então eles ouviram os passos de Dante. Os três se viraram, inclusive a moça, que ainda estava em choque. O terceiro ladrão era monótono também, mas provavelmente era careca, porque nenhum cabelo caia da bandana escura.
— Aí, rapaz, o que faz aqui? — Perguntou o do meio — Ande, saia. Aqui não é lugar para crianças.
Todos os ossos de Dante, toda a sua mente e seu corpo clamava para ir embora mesmo, mas ele se manteve firme, encarando os homens. Foi difícil olhar para aqueles olhos, porém ele conseguiu, tentando ao máximo não demonstrar medo. Mesmo que morresse, não importaria se a moça fosse salva.
— Vocês... Poderiam, por favor... — Usou todo a bravura que tinha pra falar algo, mas as palavras não saiam. — Poderiam... Deixar ela, ela... Partir?
Quando terminou seu coração acelerou tanto que doía, o cabelo escondia a face do pavor de estar lá.
O do meio, que falou com Dante, riu. Mas riu altíssimo, gargalhou bastante. O som inundou todo o parque, assustando alguns pássaros que estavam dormindo.
— Uhu, uhu... — Quando finalmente conseguiu parar estava ofegante e com uma expressão de divertimento — Isso foi o máximo! — Assumiu um sorriso psicótico — Garoto, nesse mundo não há lugar para heróis.
Então ele se virou e agarrou o pescoço da garota, a arrastando até uma árvore e a chocando com força.
— NÃO! — Dante gritou inconsequentemente e correu até eles.
Numa velocidade sobrenatural o de cabelos negros agarrou os braços de Dante às suas costas. Mas não tinha como. Um segundo atrás ele estava à frente de Wilborn com metros de diferença.
Porém Dante só se preocupava naquela cena. O homem arrastou a boca pelo pescoço da sua vítima que tremia e chorava, gemendo para ele parar. O desgraçado apenas ria e continuava beijando seu pescoço.
— Para, por favor... — Mais lágrimas escorriam do rosto dela.
Dante se debateu e tentou se soltar, remexendo-se rapidamente, porém as mãos do homem que o seguravam pareciam de aço.
O louro deu um beijo forçado na vítima que tremia inteira. Então ele voltou ao seu pescoço, mas dessa vez ele não a beijou.
Na penumbra Dante teve a impressão que dois dos dentes do homem viraram presas, como uma transformação. Antes que pudesse processar a ideia ele cravou-os no pescoço da moça. Ela gritou de dor estridentemente, um grito de puro sofrimento indescritível.
— Não! Não! — Dante começou a se debater ainda mais. A garota gritava alto — NÃO!
Mais gritos. Mais gritos. Lágrimas. Gritos. Dor.
Então o inexplicável aconteceu.
A íris de Dante assumiu uma cor avermelhada fluorescente, e foi como se ele apagasse, dando lugar a um outro alguém.
Tentou se soltar e dessa vez conseguiu.
— O quê? — Uma expressão de surpresa assumiu o rosto do homem que o segurava.
Sem saber o que fazia, Dante agarrou a cara dele.
Vapor começou a sair do rosto do homem enquanto o mesmo gritava intensamente, como se a mão de Dante fosse ácido.
Com uma força além do que tinha jogou-o no chão, apertando mais a sua face para machucar.
Os outros dois observaram Dante, enquanto a moça caía inerte no chão.
— Ele... — O louro comentou. A expressão de surpresa foi substituída por uma de raiva. Suas pupilas assumiram uma forma de olho felino, e suas íris amarelaram. Os lábios manchados de sangue não sorriam mais.
Ficou em posição de combate com as presas à mostra, assim como seu amigo careca. Numa velocidade que Dante mal conseguiu acompanhar eles estavam ao seu lado. As unhas que viraram garras tentaram cortá-lo, mas Dante, que não sabia o que fazia, apenas se abaixou e deixou que eles se chocassem. Ambos cortaram um ao outro, gemendo de dor após. Dante continuava inexpressivo, como se não fosse mais ele, e socou o careca com tanta força que ele foi jogado contra uma árvore à metros de distância.
Antes que Dante pudesse se virar o louro estava prestes a acertar um soco nele, quando o mesmo foi banhado por um líquido que veio da direita, no qual o fez recuar, surpreso.
Um homem apareceu como se tivesse saído as sombras. Usava batina de padre e carregava uma garrafa com o restante de um líquido amarelo que jogou no monstro. O padre devia ter uns 40 anos, aproximadamente, com um cabelo acinzentado e pele bronzeada. Apesar da idade e das roupas Dante pode perceber que seu físico era ótimo. O jovem Wilborn teve uma leve impressão de que ele era familiar.
Ele se pôs entre o monstro e Dante. Fez brotar da batina um isqueiro e o acendeu.
— Die omnium malorum in inferno ardere monstra — Nomeou essas palavras e jogou no homem.
Sua pele começou a incendiar imediatamente e ele se debateu no chão, tentando se livrar das chamas. Fazia de tudo: se jogava, corria, arrancava as roupas e rasgava a pele que já carbonizava. Dante percebeu que as chamas só queimavam ele, não afetando as árvores, ou o gramado e nem nada em volta.
Após alguns minutos de puro sofrimento o homem caiu com o corpo queimado, morto. O mais estranho, embora tudo que Dante viu se classificasse como absolutamente anormal, foi que o corpo dissolveu em sombras, como se ele derretesse em pura escuridão.
Os olhos de Dante voltaram ao normal e ele estava novamente consciente.
— Mas o quê...
O padre ofegante se virou para ele. Antes que pudesse fazer algo uma sombra passou por Dante e caiu em cima do padre. Era o monstro que o jovem Wllborn havia queimado com a mão.
Seu rosto antes desfigurado parecia que havia se regenerado. O monstro começou a rasgar o corpo do padre, abrindo a carne, expondo os ossos e banhando o chão com o seu sangue.
— Não, não! — Dante estava paralisado de medo e surpresa para fazer algo.
O monstro assumiu uma fúria animal, destruindo o pobre homem que não teve nem reação para se defender.
O careca, cujo Dante jogou na árvore, se levantou e foi junto com o seu amigo, pronto para destroçar o padre mais e mais.
— PAREM! — Dante gritou, e então todo o seu corpo assumiu uma cor avermelhada fluorescente, iluminando o parque.
Antes que qualquer um pudesse agir a cor expandiu-se de forma física do seu corpo, como um campo de energia ou uma explosão elétrica circular, que acertou os monstros, o padre, a garota e envolveu todo o parque, mas somente os monstros foram afetados.
Eles gemeram e caíram no chão, com os corpos saindo fumaça. Assim como seu amigo, dissolveram-se em sombras no chão.
Logo o campo vermelho que Dante criou sumiu e ele caiu de joelhos, ofegante, tentando processar tudo o que aconteceu. Quando estava prestes a pensar que isso não passou de apenas uma loucura sua, um gemido a frente chamou sua atenção.
Era o padre. Ainda estava vivo.
Dante correu até ele e se ajoelhou ao seu lado. Teve que se segurar bastante para não vomitar. O peitoral do padre estava totalmente aberto, a ponto de mostrar o coração batendo lentamente. Um dos pulmões sangrava, ossos mostravam-se quebrados e a carne exposta banhada com sangue dava um cheiro insuportável.
Dante apenas focou nos olhos do padre, quase os fechando. Sentiu vontade de chorar e pedir ajuda, mas não havia mais salvação para ele. Queria se desculpar, porém as palavras não saiam.
— Ten.. Tente... — O padre tossiu sangue e olhou diretamente nos olhos de Dante. O rapaz pediu para ele parar de falar, mas mesmo assim continuou com uma dificuldade impossível — Tentei... Che-chegar a tempo... — Tossiu mais sangue — Sal... Ve... Ela — Olhou para o lado.
Dante ergueu os olhos e viu que a garota atacada pelos monstros ainda respirava, apesar de estar pálida e sangue banhar o seu pescoço.
— Pe-pe... Gue — Dante se virou para o padre que pronunciou essas palavras e bateu na batina.
O rapaz apalpou junto e viu que o homem vestia uma calça por baixo. Levantou cuidadosamente a roupa e enfiou a mão no bolso, retirando de lá um pequeno papel manchado de sangue.
O padre tossiu mais um pouco, e focou seus olhos nas estrelas, não reagindo mais. Seu coração havia parado de bater. Os pulmões não se mexeram, nem fracamente.
Dante abaixou a cabeça e se permitiu deixar que as lágrimas escorressem. Não sabia porque chorava, era apenas um homem que ele não conhecia, mas a morte sempre foi inimiga de Dante. Ele apreciava a vida, o tempo que os humanos tinham para se levantar após uma queda e lutar para ser melhor, apesar de todos os seus pecados. A morte sempre acabava com isso, dando um ponto final à história de alguém.
Seus pensamentos foram interrompidos quando o corpo do padre começou a brilhar em branco. Não como o corpo de Dante, mais como se ele fosse envolvido por uma camada de luz. Logo a camada brilhou tão forte que Dante não conseguiu olhar, e quando a luz sumiu e Dante abriu os olhos, o padre não estava mais lá, nem o sangue.
A luta parecia nunca ter acontecido, e Dante pareceu nunca ter vivido essa situação infernal, que começaria sua jornada e que estaria para sempre em sua memórias.

Notas finais
Então, o que acharam? Críticas? Elogios? Sou todo "ouvidos"!