Angel's Hell
3 Capítulo 03: Verdades Insanas - Parte 01
Notas iniciais
Se Dante tinha alguma dúvida sobre a existência de monstros, ela morreu naquele momento.
A janela foi quebrada, permitindo a entrada de vultos escuros que circularam por todo o quarto, deixando Sam e o garoto em uma completa escuridão.
Era como se as próprias sombras ganhassem vida e se movessem rapidamente entre os dois. Wilborn pôde ver relances de pequenas partes vermelhas nas trevas. Olhos?
Então, antes que pudesse fazer algo, sentiu cortes nascendo em sua pele. Coxas, braços, costas, rosto. Tudo estava sendo rasgado. As sombras avançavam para ele tão velozmente que não podia acompanhar, mas deixavam sua marca.
Se sentia em meio a uma tempestade violenta, onde partes da escuridão o cortavam. A visão estava oculta, mas pôde ouvir um grito de Sam e um estrondo no chão.
Queria correr para ajudá-la, para de alguma maneira salvá-la, mas sentiu um medo como nenhum outro na vida corroendo seus ossos. Talvez, somente talvez, sentiu algo tão intenso assim na morte de Teresa.
Então, abruptamente, as sombras pararam, e Dante estava olhando novamente para o quarto. Sam jogada no chão com a cadeira de rodas ao lado, sangrando por inúmeros cortes e se apoiando em um antebraço. O garoto estava recostado na parede, no mesmo estado.
Quando conseguiu controlar a respiração, virou o rosto para a direita e sentiu seu coração quase sair pela boca.
Um casal de monstros estavam parados, imóveis, encarando Dante e Sam com olhos vermelho-escuros, mas não como os de Dante na noite passada. Aqueles olhos carregavam um vermelho infernal, um brilho maligno.
Ambos usavam sobretudos negros, com calças de couro e blusas também escuras. Suas peles eram pálidas, bem mais pálidas que a de Dante. O homem de meia-idade tinha um cabelo curto e castanho que terminava em um topete. Já mulher, um pouco mais jovem, um cabelo loiro-avermelhado.
E, nas suas unhas enormes, sangue escorria.
O coração de Dante batia a dez mil por segundo, sua respiração estava descontrolada e tremia como nunca. Ele realmente sentia medo, muito medo. Um medo que jamais havia sentido antes.
O homem olhou para ele e sorriu, relevando suas presas em meio aos dentes brancos.
— Acharam mesmo que podiam se esconder da gente? — Perguntou, começando a caminhar e indo em direção a... Sam.
Dante se forçou com tudo que tinha para dar um passo em direção ao monstro, sabendo que cada célula do seu corpo implorava para que ele fugisse. Era realmente covarde.
Porém, antes de completar o passo, um vulto negro se moveu de onde a mulher estava e logo ela tinha a sua mão contra o ombro de Dante, o perfurando com suas garras.
Ele gritou estridentemente enquanto ela o colocava para baixo afundando mais a garra em seu membro, até ele estar sentado.
— Obrigado, Mia — O homem havia parado quando Dante ia fazendo um movimento inútil. Dessa vez notou um leve sotaque britânico.
Ele caminhou até Sam que encarava o monstro. Seu olhar era de puro ódio.
O britânico agarrou seu pescoço e a levantou do chão, criando pequenos riscos de sangue. Apesar da dor evidente, Sam mantinha o olhar imponente.
— Como... Nos acharam? — Sua voz estava trêmula por causa da falta de ar, mas conseguia murmurar algumas coisas — O cordão.. Devia... Esconder...
Dante sentiu o pingente com a cruz dado por Teresa tremer no seu peitoral. Havia colocado quando estava no hospital com Scarlett, como uma espécie de proteção religiosa. Como assim esconder?
— Seu namoradinho não lhe contou? — O homem avaliava com seus olhos vermelhos o rosto de Sam — Ele usou seus poderes. Isso... Chamou nossa atenção. Acham mesmo que poderiam matar três do nosso ninho e sair impunes?
Dante esperava que Sam tremesse, chorasse ou ficasse em posição fetal, assim como ele, mas ela não fez nada disso.
Ela sorriu.
Mas sorriu muito, muito mesmo. Como não podia gargalhar, abriu o maior sorriso que podia com seus dentes perfeitamente alinhados.
— O que era para ser isso? Uma ameaça? — Perguntou, esticando o pescoço para estar mais confortável a falar — Eu deveria sentir medo, não é? Desculpe, é que as vezes vocês, monstros, são tão clichês.
— Como é? — O vampiro agora parecia verdadeiramente com raiva.
Apesar de estar cara a cara com uma espécie de demônio assassino assustador que poderia cortar sua cabeça antes que ela terminasse de dizer "ai", Sam continuava forte, inalcançável, como se o medo não fizesse parte dela.
O vampiro a soltou no chão, levemente confuso com tamanha audácia.
— Desculpe, desculpe — Tentava se apoiar em um antebraço, mas a dor com certeza a atrapalhava muito. Porém ela não parava de rir. — Eu esperava mais do grande primo do Chupa-Cabra.
Mia continuava imóvel, parecendo ignorar as ofensas de Sam, mas o britânico parecia se irritar demasiadamente. Será que Sam estava ficando louca?
— Eu sou mais veloz, mais forte e mais ágil que você. Meus sentidos são tão aguçados que posso saber que seu coração está aceleradíssimo enquanto tenta me provocar. Eu poderia quebrar seu pescoço tão rápido que nem conseguiria piscar. Deve me temer, humana ridícula! Eu sou um deus perante você!
— Oh, com certeza, deve arrasar beijando uma garota com esse seu bafo de alho. — Sam ergueu os braços numa tentativa falha e sem lógica de acertar um tapa na panturrilha do monstro com a mão machucada, mas ele agarrou o membro, rangendo os dentes.
A ergueu até ela estar cara-a-cara com ele, imerso em fúria. Começou a apertar a mão de Sam, e sangue começou a escorrer mais enquanto ele espremia a sua mão, quebrando seus ossos.
Sam foi jogada no chão, com os dentes cerrados.
Dante sentiu seu coração pesar. Ele devia proteger Sam, guardar ela de todo o mal que o mundo pudesse oferecer. Esse era o seu dever como amigo, certo? Mas lá estava ela, jogada no chão, com a mão destruída e com uma dor insuportável e ele sequer podia sair do lugar.
Sam gemeu um pouco enquanto levava a mão ao peito. O vampiro a encarava com um olhar de desprezo indescritível e os punhos estavam tão cerrados que Dante não sabia se o sangue na mão era de Sam ou o dele próprio.
À qualquer momento a machucaria de novo, talvez bem pior.
Num ato irracional, Dante se manteve de pé, suportando a dor que sentia. Todos no quarto olharam para o rapaz espantados, talvez perguntando-se provavelmente como um idiota daqueles ainda teria coragem pra fazer qualquer movimento.
Sem saber o que estava fazendo ele deu um primeiro passo, lento e fraco. A vampira Mia mostrou as presas e garras, pronto para atacá-lo, mas seu parceiro ergueu uma das mãos para que ela esperasse, olhando para Dante, incrédulo.
— Leon, ele... — Mia começou, tentando argumentar.
— Espere! — Ele gritou e a mulher se encolheu. Ver o que o jovem faria superava o perigo que ele poderia representar, apesar de estar ridículo e acabado.
Pareceu uma eternidade, mas de passo em passo, lentamente, ele saiu da parede até estar de frente para Leon e com Sam atrás dele, a garota encarando suas costas com uma expressão de surpresa.
O coração de Dante parecia o motor de uma Lamborghini, a respiração acelerada de uma maneira indescritível. Mas mesmo assim ele se manteve, de alguma forma, firme encarando aqueles olhos vermelhos assustadores.
— Ora, parece que temos um herói aqui. — Leon comentou gargalhando. — Você quer ajudar sua namoradinha? Bem, pois arque com as consequências.
Mais rápido do que Dante pôde acompanhar, um vulto negro se chocou contra seu estômago e ele desabou, apertando a barriga em posição fetal. Ele sabia de alguma maneira que havia levado um soco, mas Leon ainda estava parado perante o jovem Wilborn.
A dor era imensurável. Todo o seu interior se remexia enquanto ele era consumido por um enjoo insuportável e a visão ficava mais e mais embaçada. Conseguiu ouvir um gemido de Sam, como se ela própria estivesse sentido o que Dante sentia.
— E eu nem usei 2% da minha força total — Afirmou Leon. — Agora, fique aí. Preciso cuidar da sua amada, cansei de prolongar a morte de ambos me divertindo com o sofrimento de vocês.
Assim que deu o primeiro passo, Dante começou a se apoiar no antebraço, o que fez com que Leon ficasse ainda mais confuso. Como ele poderia se manter acordado depois de ter levado um soco desses? A verdade é que nem Dante sabia. Ele só estava usando tudo que tinha pra não desmaiar.
Todos pararam e encararam o garoto, enquanto se levantava aos poucos. Logo estava em pé desequilibrado e nem um pouco firme.
Ele ergueu os braços como uma forma protetória para Sam, que estava atrás do rapaz e posicionando as pernas juntas e firmes. De alguma maneira, parecia Jesus na própria cruz, protegendo uma pessoa do mal, pronto para se sacrificar por amor. Provavelmente queria dizer que se Leon a matasse, teria que passar por cima dele primeiro, mas sequer conseguia falar algo.
Não sabia de onde vinha essa coragem e força de vontade, mas se permaneceu como um escudo para Sam.
Leon riu de escárnio.
— Não há lugar para heróis, garoto. — E, antes que Dante pudesse processar essas palavras, o vampiro havia cravado suas garras nos dois ombros de Dante, e o garoto caiu até estar de joelhos.
Pela visão periférica Dante percebeu que Sam remexia a mão boa dentro da sua roupa. Não sabia o que ela fazia, mas podia ser uma maneira de salvá-los. Ou ela apenas estivesse guardando a mão, por algum motivo ilógico. Toda a atenção dos monstros estavam em Dante, talvez não achassem importante usar seus sentidos em uma garota que nem poderia correr pra se salvar.
Quis usar seus poderes para matar eles e ajudar Samantha, mas não conseguia. Nem um resquício de luz ou olhos vermelhos.
Então, fez tudo o que podia fazer: virar um saco de pancada.
Forçou novamente a se levantar e encarar o monstro que havia soltado as garras dos seus ombros, que estava com um olhar de pura confusão e raiva.
— Por que você não desiste? — Completou sua frase acertando outro soco na barriga de Dante, e dessa vez o rapaz vomitou um pouco.
Desabou mais uma vez, pressionando o estômago. A dor era imensa, tremia intensamente, seu interior se remexia como um navio em uma tempestade.
— 3% — Foi tudo o que Leon disse. — Agora, fique no chão. — E tentou dar mais um passo para Sam.
Novamente e lentamente, Dante se ergueu, machucado e quase morto.
Pôde sentir o olhar de Sam contra ele, como se pedisse pra ele resistir mais um pouco.
Leon rangeu olhando para ele e, numa velocidade sobrenatural, acertou sua mão contra o rosto do garoto. Algo como um tapa.
Dante voou alguns centímetros e logo caiu com tudo no chão, a pele do rosto um pouco aberta com seu sangue escorrendo. Ardia, o vento queimava tanto que ele inconsequentemente deixou lágrimas caírem.
O olhar sinistro de Leon pairava sobre ele. Passou alguns segundos jogado no piso, fraco e destruído, mas respirou fundo e se apoiou nos antebraços.
— Porra, por que você não fica no chão? — Ele agarrou Dante pela camisa e o levantou abruptamente, olhando para ele com uma raiva tamanha, talvez pensando por que um verme como Dante apenas não morria logo.
— Não é do tipo que implora para não morrer? Ou apenas está machucado demais pra falar algo? — Leon perguntou. Dante suspeitava que a segunda opção, mas antes que pudesse processar, voltou a uma das suas memórias.
Estava perante uns garotos mais velhos no orfanato, com um outro atrás dele. Suas pernas tremiam, o coração batia forte e a garganta seca. Havia aparecido como um grande herói que ele não era se colocando na frente do menino que iria ser espancado, pronto pra sofrer no seu lugar.
O valentão-líder sorriu pra Dante e fechou o punho, começando a sessão de espancamento.
Estava de volta com Leon e Mia olhando para ele, totalmente concentrados no garoto.
Sangue escorria pela sua boca e feridas, a dor era tamanha na barriga que quase não conseguia sentir. Os olhos infernais frios do britânico incineravam gelidamente a alma de Dante.
Sua visão ficou mais turva que o normal, podia sentir que iria desmaiar a qualquer momento, mas então ouviu um grito perdido de Mia.
Logo Sam continha na mão uma espécie de esfera de vidro com um líquido que parecia água, sua mão espremida derramando sangue dentro, fazendo-a ganhar uma cor amarelada. Apesar de quase desmaiado, Dante conseguiu ver que ela sussurrou algumas palavras e deixou aquilo cair.
Dois vultos foram em direção a ela, mais especificamente da esfera, tentando impedir que ela tocasse o chão.
Enquanto Dante desabava por Leon ter soltado-o, observou lentamente as sombras velozes quase alcançando a esfera, mas eles não foram rápidos o suficiente.
Assim que tocou no chão, uma luz intensa dominou todo o quarto, desfazendo as sombras. Então, Dante adormeceu.
Acordou com vozes discutindo. Estava sentado e sentia um corpo recostado contra o seu. O doce cheiro de algo como cereja preencheu suas narinas. Tentou abrir os olhos e viu algo vermelho contra sua face.
O cabelo de Sam, talvez.
Prestou mais atenção na conversa. Soltavam palavras como "Melhor um hospital." e "Aeroporto Internacional, agora."
Focou os olhos ainda embaçados e percebeu que a pessoa que discutia com Sam estava a sua frente, sentada em... Um banco de motorista. Eles estavam em um carro. Sam, ao seu lado, continuava discutindo com o motorista, mas a conversa cessou quando ela ergueu a mão e remexeu algo verde entre os dedos.
Então, o motorista virou pra frente, seguiu seu caminho e Dante desmaiou de novo.
O rapaz agora acordara com movimentos, algo como balançando em pé. Pôde sentir um corpo contra o seu o carregando para algum lugar. Não era Sam, com certeza não. Ela não teria nem como ficar em pé para carregá-lo.
Silhuetas indefinidas de pessoas atravessavam por ele, como almas nos Campos de Asfódelos.
Também conseguiu definir que era um corpo masculino que o levava, apesar dos seus sentidos estarem consideravelmente inúteis.
Desesperou-se com a possibilidade de estar com um outro alguém que não fosse Sam.
Cogitou fazer algum movimento, mas em meio a multidão de fantasmas que o olhavam, o som melódico da voz de Sam invadiu sua cabeça enquanto a silhueta de alguém com uma cabeleira vermelha avançava sentada. Isso foi suficiente para acalmá-lo.
Rápidos flashes de uma conversa entre a possível Sam com uma pessoa sentada no que parecia uma bancada de atendimento foi cessada quando Dante conseguiu ouvir, ou achou que ouviu, a seguinte frase: "Salus est in via."
Dante conhecia um pouco de latim graças a Teresa o suficiente para entender uma palavra.
Salvação.
Sua visão, agora menos desfocada, viu que a mulher da bancada que estava atendendo no que poderia ser o aeroporto assumiu uma expressão nova. Algo como... Reconhecimento.
Todos no aeroporto ainda estavam observando Dante, Sam e possivelmente o taxista, que se ofereceu para levar Dante.
A mulher chamou um homem alto vestindo um uniforme azul (um segurança?) e rapidamente sussurrou algo no ouvido dele.
Dante foi pego por ele e carregado, atravessando a multidão estupefata. Apesar de ainda estar um pouco desacordado, Wilborn ouviu o barulho de aviões aumentando e presumiu que podia estar indo para a pista de voo.
Não viu o vermelho dos cabelos de Sam. A segurança da sua presença não estava mais ali. Ele sentiu seu coração pesar, mas torcia para ela ainda estar com ele.
Atravessava um espaço aberto com o segurança, com um céu cinzento acima dele. Silhuetas de aviões se moviam.
Quase recuperando a visão, Dante reconheceu o que parecia um hangar enorme, cinza e aparentemente velho.
Chegando mais perto um avião em especial chamou sua atenção.
Era branco e tinha umas iniciais gravadas dentro de um círculo azul desenhado: AE, com duas palavras minúsculas embaixo. Dante se esforçou pra desembaçar a visão e ver o que estava escrito: Argent Empreendimentos.
Então, Dante apagou.
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