Angel's Hell

2 Capítulo 02: O passado nunca morre, ele sempre ressurge.


Notas iniciais
Olá de novo, Mishamigos! Bem, aqui está o segundo capítulo da jornada de Dante. Nele conheceremos uma nova personagem que será de suma importância pra história Caso encontrem algum erro podem apontar que eu conserto na hora! Boa leitura

Dante observava a mulher a quem havia ajudado, cujo nome fora revelado como Scarlett. Ela estava deitada no leito do Hospital Geral de Toronto, um espaço branco com uma televisão à frente da cama e uma cadeira ao lado, onde o jovem descansava.
Após o choque de todos os acontecimentos ele resolveu se concentrar no mais importante: salvar a moça.
Com a ajuda de alguns homens que apareceram pouco tempo após o acontecido, levaram-na até o hospital mais próximo da praça que pudesse atendê-la e, graças ao excelente atendimento de Toronto que identificou a vítima e algumas mentiras de Dante, ela já estava repousando com o pescoço enfaixado.
Enquanto o garoto observava e assimilava tudo, Scarlett tremeu as pálpebras e abriu seus olhos marrom-escuros.
— Você... — A mulher observou Dante e tentou se erguer.
— Hey, você deve descansar — Wilborn tocou em seu ombro pra tranquilizá-la e incentivá-la a ficar na cama com um tom dócil. — Você passou por muita coisa ontem. Precisa ficar bem.
Normalmente Dante sequer cogitaria tomar a iniciativa de falar com uma garota e muito menos tocá-la, mas se fosse para ajudar alguém, ele não mediria esforços e tentativas.
Scarlett desistiu e manteve os olhos fixos no teto branco com um olhar perdido, provavelmente relembrando os horrores que passou. Uma gota escorreu do seu olho esquerdo e Dante sentiu um peso no coração. Odiava ver os outros sofrendo, gostaria de poder confortar a todos e ajudar, mas não podia se iludir novamente pensando que seria capaz disso. Teresa foi um exemplo.
— Obrigada... — Scarlett murmurou baixo. — Você salvou minha vida, muito obrigada. Se aquele homem usasse a faca mais um pouco com certeza arrancaria minhas cordas vocais. Obrigada por ter impedido.
Dante não sabia o que responder. Tinha certeza que havia visto presas no homem louro, e não uma faca.
— Ora, nossa paciente acordou. — Um médico negro e alto adentrou o leito, com uma prancheta nas mãos, um jaleco e um sorriso amigável. — Você teve sorte, senhorita Scarlett. Esse jovem estava passando bem no exato momento em que estava desacordada. Trouxe para cá e já deu seu relato à polícia sobre os possíveis assaltantes. Acho que realmente tem um anjo da guarda forte.
— É, eu tenho...- Ela riu fracamente para Dante, que se despediu e saiu do hospital.
Ele havia salvo Scarlett, havia salvo uma pessoa! Sorriu para si mesmo, imaginando qual orgulhosa Teresa estaria.
Mas ao mesmo tempo, deixou aquele padre morrer. Dante deixou chegar pelas mãos de monstros macabros a morte de uma pessoa. Como poderia se perdoar por isso? Não poderia mudar que era fraco e falho. Não seria o herói que sua segunda mãe gostaria que ele fosse.
Pegou o papel amarelo do bolso da calça, não mais com o sangue do padre, que sumiu quando o mesmo virou luz, e leu o que estava escrito lá:
Avenida Central, número 215.
Dante realmente queria saber o que estava havendo, apesar de que ele poderia encontrar algo desagradável.
Remexeu o papel entre os dedos por um tempo, quando respirou fundo e decidiu ir até o lugar, que ficava perto do hospital.
As ruas da avenida eram movimentadas e com imensos prédios espalhados, mas com casas antigas juntas aos centros comerciais. Dezenas de pessoas corriam apressadas, cada uma concentrada em seu mundinho.
Uma das casas se localizava em uma esquina. Tinha tijolos cinzas e duas janelas antiquadas, com um teto avermelhado. À frente da casa havia uma calçada cinza a qual Dante havia parado, subindo alguns degraus e parando de frente à porta de carvalho.
Quando focou melhor, viu nela o número 215, como suspeitava.
Relaxou a cabeça, decidiu ser corajoso por Teresa e o padre e tocou a campainha. Enquanto esperava algo acontecer pôde ouvir o som de acordes de uma guitarra perdidas dentro da casa.
Esperou mais monstros como aqueles aparecerem, talvez em uma maior quantidade, ou até outros monstros. O que ele viu foi tão surpreendente quanto.
Uma garota em uma cadeira de rodas atendeu, com o som de Comatose, da banda Skillet tocando na rádio. Ela era ruiva e mais velha que Dante, com o cabelo liso que acabava onduladamente. Tinha grandes olhos verdes expressivos e uma pele branquíssima. Vestia moletom verde e usava um óculos de armação negra. A cadeira de rodas era composta por um aro de aço e couro negro.
— Sam? — Perguntou o garoto, extremamente atordoado.

Seis anos atrás, a criança Dante sentava no banco da frente na igreja Glenview Presbysterian. Teresa estava ao seu lado, com a clássica batina de freira e os olhos castanhos focados no altar composto por uma enorme cadeira marrom-escura atrás.
Dante observava timidamente a igreja lotando aos poucos, até que viu uma garota ruiva de olhos verdes entrando acompanhada de um homem jovem de cabelos curtos também vermelhos e uma barba bem aparada.
Ela devia ter uns dois anos há mais que Dante, mas era mais baixa que ele. Estava com uma cara emburrada e zangada.
Andou passos apressados até um dos bancos atrás de Dante e se sentou, cruzando os braços com uma fúria evidente. O homem sentou ao seu lado sorridente.
— Vamos, Samantha — Ele pediu gentilmente — Sorria mais um pouco.
— Eu não quero ficar aqui, papai — A garota revidou — Quero voltar pra casa, para os meus amigos.
O seu pai deu um sorriso triste e se virou para a frente, desistindo de argumentar com a filha.
Dante se virou e puxou a batina da mulher ao seu lado.
— Teresa — Chamou com a sua irritante voz — Aquela garota é bonita, né?
A freira riu e afagou a cabeça de Dante.
— Pode me chamar de tia Teresa, rapazinho. — Ela pediu num tom de repreensão, mas obviamente era brincadeira.
— Está bem, desculpe. — Dante se repreendeu mesmo assim. Tudo que ele não queria era deixar tia Teresa chateada de maneira alguma.
Ela olhou intensamente com seus olhos claros para ele e deu o seu sorriso que enchia o coração do jovem Wilborn.
— Ela realmente é bonita — Avaliou a garota chamada Samantha — Parece ter um gênio difícil, mas poderia ser uma boa amiga. Que tal ir falar com ela quando acabar a missa?
Dante corou instantaneamente. Mesmo naquela época ele tinha problemas em se socializar, tanto que nenhuma criança brincava com ele por achá-lo um esquisito.
Olhou para frente e apenas esperou o padre, pensando no que devia fazer.
Após a oração acabar, todos estavam do lado de fora conversando. Tia Teresa acompanhava de mãos dadas Dante até o orfanato Saint Agnes bem ao lado.
Quando passavam pela calçada Wilborn viu Samantha recostada num carro grande negro, um 4x4. O pai estava junto a ela, conversando com um homem.
Dante olhou para tia Teresa e não precisou dizer nada. A mulher sabia exatamente o que a criança queria, e riu, caminhando até lá.
— Bom dia — Se apresentou simpaticamente aos dois homens — Sou a irmã Teresa, e esse é Dante.
Dante se escondeu atrás dela, com vergonha de todos aqueles olhares sobre ele.
— Oi, meu nome é Cal. — Anunciou o homem que conversava com o pai de Samantha.
— Olá, Teresa. Olá, Dante — O pai da garota era tão simpático quanto a freira — Meu nome é James, James Sullivan. Essa é a minha filha, Samantha. — Impulsionou a garota para frente contra a sua vontade.
Dante encarou aqueles olhos verdes chamativos em meio à face séria.
Dante não sabia o que falar, mas sabia exatamente que naquele momento, uma grande amizade nasceria. E ele estava certo.

Ainda atordoado e boquiaberto encarando Sam dois anos mais velha desde a última vez que se encontraram, ele ficou imóvel.
— Dante? — Ela pareceu então notar o que acontecia — Meu Deus, é você mesmo?
Ele começou a gaguejar e enrolar com as palavras, encarando aqueles grandes olhos verdes. Assim como se encontraram pela primeira vez quando ele tinha dez anos, não sabia o que dizer.
Então Dante sentiu a mão de Sam segurando a sua, e uma arrepio intenso percorreu todo o seu corpo. A mão dela era extremamente aconchegante.
Ela tomou o papel amarelo de sua mão e o analisou. Ainda observando-o, disse:
— Espera aí. Se você está aqui, isso quer dizer que... — No reflexo das lentes, Dante pode ver seus olhos começarem a lacrimejar.
Ela entrou dentro da casa e deixou Dante do lado de fora, tentando entender o que estava acontecendo. Achou melhor entrar.
— Com licença. — Pediu.
Comatose instantemente parou quando ele adentrou a casa. Estava num pequeno corredor de madeira clara com uma escada na esquerda, que dava para um segundo andar e uma porta à direita. Perto da escada uma outra porta estava aberta e levava a uma sala de estar, espaçosa e convidativa.
Dois sofás vermelhos estavam um de frente ao outro, e uma mesa de centro estava entre ambos. O piso era de madeira clara e vigas sustentavam o teto. A cor das paredes era de um verde-claro. No final da sala, mais uma porta, provavelmente de carvalho, residia aberta, mostrando uma cozinha branca. A casa era decorada por pinturas de santos, Jesus e Maria, que Dante reconheceu.
Sam estava à frente da mesa de centro, observando por uma enorme janela na parede esquerda o céu sem nuvens.
Lágrimas escorriam e caiam em suas pernas, enquanto ela amassava o papel amarelo que havia pego de Dante.
Tirou o óculos e limpou os olhos, engolindo em seco.
— Sente-se.
Dante obedeceu, permanecendo em silêncio. Jogou a mochila ao seu lado no sofá. Somente nesse momento percebeu realmente que Sam estava em uma cadeira de rodas e as paranoias sobre o motivo de ela ter parado lá consumiram a mente de Dante. Ela poderia ter sofrido um acidente de carro, ou alguém poderia ter machucado-a, ou ela poderia ter tido alguma doença que resultou nisso, ou...
— Pare de me olhar assim.
— O quê? — A voz fria de Sam o acordou dos seus pensamentos.
— Você está me olhando da maneira que todos olham. Com pena.
Wilborn não teve reação. Apenas ficou boquiaberto enquanto Sam colocava os óculos novamente. Poderia ter dito uma frase bonita, uma mensagem filosófica ou apenas "desculpa", mas disse algo muito inteligente, do tipo:
— Você está numa cadeira de rodas.
Claro que ele apenas quis expressar o choque da sua única amiga em vida fora Teresa (Celeste não conta) estar paraplégica, mas isso não impediu Sam de dar um riso fraco.
— Não, eu só estou esperando você sair para poder me levantar dessa cadeira e dançar alguma música. — O sarcasmo estava óbvio, e Dante a encarou. Havia esquecido dessa sua característica.
— O que aconteceu? — A voz de Dante estava trêmula e ele arranhava as coxas, um ato de nervosismo.
Sam pareceu ter recuado, entrando em um modo defensivo que Dante conhecia muito bem.
— Uma longa história — Cortou. — Por falar nisso, me conte como descobriu que eu moro aqui e... Sobre o que aconteceu com Michael, o padre que lhe entregou esse papel. — Sua voz falhou quando disse o nome dele.
Então Dante começou. Apesar de ser praticamente íntimo de Sam, anos sem vê-la tornou difícil conversar normalmente. Gaguejava, falava baixo, se reprimia quando Sullivan o observava com aqueles intensos olhos verdes. Mas por fim, conseguiu. Não sabia se Sam acreditaria em tudo que relatou, mas confiava nela.
Esperava que Sullivan chorasse, ou se fechasse mais para o garoto ou talvez até mesmo o culpasse, o que seria compreensível, tendo em vista que ele não pôde ser útil novamente para alguém, mas ela apenas atravessou a porta no final da sala e foi para a cozinha, deixando o garoto sozinho.
Não sabia o que ela estava fazendo, mas o tempo livre o ajudou a organizar seus pensamentos.
Depois de dois anos enfim ele encontrou Sam de novo, e ela estava paraplégica. O que diabos aconteceu? As paranóias começaram a rodar pela sua mente de novo e dessa vez foram complementadas com a ideia de que ele deixou Sam ir para uma cadeira de rodas, mais um fracasso para a eterna lista de Dante. Acordou com a garota chegando na sala.
Deixou na mesa de centro uma bandeja recheada por biscoitos de chocolate e uma caneca de chocolate quente.
Wilborn olhou para Sam, surpreso.
— Pelo que me contou da história, não come desde que saiu do orfanato.
Sorriu, agradeceu e então começou a se alimentar. Só então percebeu o tanto de fome que tinha.
Saboreou as gotas de chocolate banharem sua língua enquanto mastigava a crocante casca do biscoito. Tomou um longo gole de chocolate quente, hidratando-se e esquentando seu corpo.
Sam o observava comer com um pequeno sorriso no rosto, mas com o olhar perdido.
— Fazem dois anos, Dante.
Ambos se encararam e ficaram um bom tempo olhando um para o outro. Dante voltou a comer.
— Quando Teresa morreu, você parou de ir a igreja, nosso único ponto de encontro verdadeiro. Eu queria te apoiar e estar ao seu lado, mas você escolheu passar por isso sozinho. Tentei te visitar, porém as freiras disseram que você não queria visitas.
Cabisbaixo, comeu mais dois biscoitos.
— Passou-se semanas, até o dia em que meu pai resolveu voltar novamente para Vancouver e eu não pude sequer me despedir de você.
Mais um biscoito comido. Um gole do chocolate quente.
— Eu queria ter estado contigo, porém você não deixou, e desde então nunca mais nos falamos. Nossa promessa foi quebrada.
Mais três biscoitos comidos. Um longo gole do chocolate quente.
— Eu não estive junto com meu melhor amigo no momento em que ele mais precisou...
Dante quebrou um biscoito, fazendo um "crack" que ressoou por toda a sala.
Por um instante, o silêncio predominou e Dante limpou os olhos.
— Quando... Quando eu aprendi a... A-a lidar com esse vazio, eu voltei a ir na Presbysterian tentar te ver, mas você havia voltado para Vancouver, e eu perdi a você também.
Dante sabia o que veria a seguir. Sam assumiu uma posição ereta e engoliu em seco.
— Bem, você deve estar cheio de perguntas sobre ontem a noite. A primeira informação que precisa digerir é que aquele padre era Michael Murdock, o homem que assumiu a adoração na igreja poucas semanas antes de Teresa morrer.
Dante sentiu as engrenagens rodando. Por isso o achou familiar na noite passada. Havia presenciado algumas adorações daquele homem, mas isso ainda não justificava o que e como ele fez aquilo com os monstros.
Sam não pareceu se importar em explicar essa parte.
— Uma pergunta: aquela mulher que você encontrou ontem, Scarlett, algum motivo por que Michael pediu para salvá-la?
Dante abriu a boca. Não havia pensando nisso.
— Acho que por que ela ainda estava viva, provavelmente?
Sam assentiu.
— Então ela não é uma... Ok.
— Uma?
— Ah, sim. Voltando a explicação, o que você viu ontem... — Sam respirou fundo, parecendo que diria aquelas mesmas palavras do padre Michael e Dante romperia em chamas — Eram vampiros, servos da Escuridão.
O jovem Wilborn não ria muito, mas naquele momento teve que resistir ao impulso. Não deu certo.
Sam o fuzilou com aquele olhar de "estou falando a verdade, bastardo, e se você não acreditar em mim eu arranco seu fígado."
Dante parou de rir.
— Espera aí — Ele teve alguns segundos para processar — Você está falando sério mesmo?
— Eu pareço estar brincando? Não foi um truque da sua mente. As presas, a velocidade, a super força, a ferocidade... Isso são características vampirescas. Vampiros da classe mais fraca de todas, mas sim, com certeza vampiros.
Dante empalideceu mais do que o normal. O coração pareceu inflar e ele não sabia o que pensar. O medo começou a corroer seus ossos.
Por um instante cogitou que Sam poderia estar louca, mas de todas as pessoas que ele conheceu, a mais racional foi ela. Sam não brincaria com algo assim. Será que...
— Mas você quer dizer... vampiros do tipo vampiros?
— Não, vampiros do tipo lobisomens. Qual é, Dante!
— Desculpe.
Sam revirou os olhos e prosseguiu:
— Todos esses mitos como Drácula, relatos de pessoas que foram atacadas por "monstros sugadores de sangue" etc. são resultantes de uma verdade absoluta: os demônios caminham entre nós. Vamos lá, Dante. Você não sempre quis acreditar no místico? Por isso tem tanta fé na existência de Deus? Então, aceite que as sombras também são reais.
Dante não sabia como reagir. Ele confiava em Sam, mas aquilo era inacreditável. Talvez assim como a maioria das pessoas ele apenas queria negar a verdade para poder tentar viver em paz, ignorando a realidade.
— Isso explica eles tentando se alimentar de Scarlett, como eles enfrentaram você e tudo mais. Sei que é muito pra processar, sei que não nos vemos há dois anos e tem muitos fatores que te impedem de acreditar em mim, mas temos que ir. — Ela parou de falar e moveu a cadeira de rodas rapidamente para o pequeno corredor de entrada. Parou diante da escada.
Sam tentou subir mas empacou, obviamente.
— Merda. — Murmurou.
Dante agarrou os dois apoios de mão da cadeira de rodas e a ajudou a subir.
— Obrigada — Sam estava com uma expressão séria, mas corada.
— Por... Que... Você... Mora... Numa casa... Com escada? — Dante perguntou a cada subida de degrau, até chegar ao final, com os braços queimando por dentro e ofegando. Estavam em um corredor com um piso de madeira marrom-claro, paredes brancas e duas portas no final, uma de frente para a outra.
— Quando vim morar com Michael, essa era a casa que ele morava há tempos, não podia fazê-lo mudar por minha causa.
Então Sam morava com o padre Michael? E disso veio mais questionamentos. Onde estava o senhor James? E para onde Sam queria que Dante fosse? O que estava acontecendo, Deus?
Quando os braços aliviaram viu que Sam atravessava uma porta de madeira.
— Calma aí — Dante teve que apressar o passo para tentar acompanhá-la. — Você não me explicou sobre o que eu fi...
Antes que terminasse a fala, Sam estava em um quarto com a parede cor marrom e uma janela ao sul. No lado esquerdo tinha uma cama e do outro um guarda-roupa escuro, com uma mesinha do lado. E ela tirava o moletom, revelando as costas brancas nuas.
Dante recuou alguns passos para fora do quarto e encostou na parede direita, tentando acalmar o coração. Começou a suar um pouco e tremer. A situação teria sido engraçada se Dante não estivesse prestes a ter um ataque cardíaco. Não é todo dia que ele vê costas nuas. De. Uma. Garota.
Por um instante todas as dúvidas foram substituídas por constrangimento, vergonha e um calor infernal.
— E-eu.. Po-posso entrar? — Tentou perguntar quando estava mais calmo.
— Hãn... Claro — Respondeu Sam.
Lentamente adentrou e encontrou a sua amiga com uma camisa verde e uma jaqueta de couro negra. Estava fazendo as malas.
— Sam... Para onde vamos?
Ela continuou a arrumar as coisas, pensativa.
— Sam?
— O que você fez com os vampiros... Foi impressionante — Ela começou — Não só por ter feito aquilo, mas o nível... Foi assustadoramente poderoso.
— Mas... O que eu fiz? E o que o padre Michael fez com aquele... Vampiro?
Sullivan parou de arrumar as malas, suspirando. Olhou para Dante com aqueles olhos que diziam que uma verdade mais louca que a existência de vampiros seria revelada ao jovem Wilborn.
— Michael era um santo.
Um silêncio reinou sobre o quarto e Dante olhou para todos os lados.
— E... — Tentou assimilar o que ela estava dizendo.
Sam revirou os olhos.
— Um santo é uma pessoa que após viver um trauma terrível consegue superá-lo com a "força de Deus" e fica suscetível a fazer algumas... Coisas. — Ela arrastou a cadeira de rodas até perto da janela e fechou as cortinas. — Todas aquelas histórias que ouvimos na igreja sobre pessoas que conseguem superar os limites humanos e se tornam algo quase divino, são reais. Feche a porta — Pediu.
Dante obedeceu relutante.
Logo o lugar estava totalmente escuro. Viu Sam pegar algo na mesa perto do guarda-roupa e viu ela arrastando pela mão com força, ouvindo um leve gemido.
Impulsivamente foi até Sam, preocupado. Pegou sua mão e pode ver na penumbra sangue escorrendo. Na outra, uma faca.
— Tem algum esparadrapo aqui? Temos que enfaixar isso.
— Calma — Sam libertou sua mão de Dante. — Eu estou bem.
Então, na parede, começou a passar ela, fazendo algo... Como um desenho?
No escuro não tinha como identificar o que ela estava desenhando, mas fez movimentos circulares com a mão e uma espécie de "N".
Ela juntou as duas mãos como se fosse rezar, pronunciou algumas palavras quase inaudíveis e chocou a sua mão com força no desenho de sangue.
Uma luz intensa então começou a brilhar de onde o sangue de Sam estava pintado. Era tão incandescente que consumiu todo o quarto e Dante teve que fechar um pouco os olhos.
Logo Sam tirou a mão da parede e a luz morreu.
Acendeu uma luz elétrica e encarou Dante, segurando a mão cortada.
— Você é uma santa.
— Eu sou uma santa.
— Você tem habilidades sobrenaturais.
— Eu tenho habilidades sobrenaturais.
— Como iluminar um quarto com seu próprio sangue.
— Como iluminar um quarto com meu próprio sangue.
Dante sentou na cama por alguns minutos, tentando processar mais esse fato, enquanto Sam enfaixava a mão com um esparadrapo que pegou no seu armário.
— Vampiros, santos, eu em uma cadeira de rodas... Sei que é muita coisa pra engolir. Mas tudo o que precisa realmente acreditar, Dante, é que não foi sua culpa.
O garoto olhou abruptamente para ela.
— Eu te conheço, vi no seu olhar. Não admitiria isso para mim, mas se culpa por Michael ter morrido. Bem, olha a novidade cabeção, você não podia ter feito nada. — Logo Sam se arrependeu dessas palavras.
Dante abaixou a cabeça e apertou a palma da sua mão, tentando se acalmar. Até Sam sabia que ele era falho, quem poderia ir contra isso?
— Me desculpe — Sam começou, com uma culpa explicita — Eu não quis dizer isso. É que... Você não tem controle das suas habilidades fornecidas pela sua natureza, que é a de um... Mas olha, eu acredito em você — Sam pegou a mão de Dante e o leve contato fez ele se arrepiar completamente. A mão de Sam era tão calorosa.
— Eu... Eu não fui capaz de salvar ele, não pude retribuir o favor. Assim como foi com Teresa — Dante sentiu seus olhos lacrimejarem.
— Isso é uma baboseira — O rapaz olhou imediatamente para ela, e Sam estava com aquele olhar de repreensão — Odeio quando fala como um derrotado. Você pode escolher deitar em posição fetal e se considerar alguém falho, ou pode se levantar e tentar ser uma pessoa melhor. É tudo sua escolha. Não existe isso de destino, você escolhe estar no chão ou não.
— Mas por mais que eu tente... Por mais que eu lute pra ser alguém melhor, para ser uma pessoa boa, para ser um herói... Parece que é em vão. Parece que sempre serei... isso.
Sam o incinerou com aqueles olhos verdes intensos.
— Não é questão de ser algo ou não, Dante. Você não pode alterar o passado, mas pode definir o futuro. Claro que quando lutamos por algo, caímos e falhamos — A voz de Sam estava trêmula, e por um instante Dante suspeitou que ela choraria — Mas faz parte. Só que sempre temos que nos levantar, porque é isso que nos diferencia, isso que nos torna humanos: a capacidade de nos erguer e continuar tentando.
Dante riu, e soltou sua mão da Sam, limpando o rosto. Sam agora era uma motivadora?
— Se lembra da nossa promessa, não é? Que estaríamos pra sempre juntos nessa. De passo em passo...
— Para sempre e sempre — Dante completou a frase, sentindo um vazio dentro de si ser preenchido, uma solidão sendo esvaída e um futuro de luz aparecendo à frente.
— Eu tenho super-poderes, então? Sou um santo também? — Perguntou ansioso para mudar de assunto.
Sam respirou fundo, ajeitando o óculos.
— Você ainda não se acostumou com essa ideia, mas monstros são reais. E você também é um.
Então a janela foi quebrada em mil pedaços, trazendo consigo a morte inevitável para os dois.

Notas finais
E então? O que acharam? Não esqueçam de comentar ♥ obrigado por lerem até aqui. Nos vemos no próximo capítulo, kathaw!!