Angels
1 Prólogo
Há muito tempo atrás, ou, quem sabe, em um tempo que ainda está por vir, todos, no reino dos céus, e até muitos no reino das trevas, muito mais conhecido por inferno, festejavam, naquela data tão especial para eles.
Naquele dia faria um século desde que os seus inimigos tinham sido derrotados, faria um século que uma guerra em que demónios lutaram ao lado de anjos, pela primeira vez na história, tinha acabado, com a sua vitória. Por todo o lado só se ouviam risos e festejos, todo o reino dos céus estava na sua mais pura alegria e felicidade.
Mas no meio de tanta alegria também havia confusão. Os anjos mais novos, aqueles que não tinha visto ou vivido guerra nenhuma, não sabiam a razão de tanta felicidade, afinal, por motivos desconhecidos a muitos, apesar de poderem festejar era proibido falar da guerra e do seu motivo, a única coisa que os anjos mais novos sabiam era que os seus inimigos derrotados tinham sido seres com demasiado poder, seres que usaram esse mesmo poder para o mal e não apenas quase destruíram toda a humanidade, como todo o reino dos céus e demónios que não se juntaram a eles.
Muitos curiosos ainda procuravam por mais informações, mas todos os arquivos dos céus sobre a guerra eram restritos e nenhum dos anjos mais velhos parecia estar disposto a falar sobre isso, e, mesmo o templo, que tinha sido construído quando a guerra tinha terminado, tinha a entrada restrita, e apenas os anjos-mestre lá podiam entrar, dizendo que um grande mal residia ali dentro, e mesmo isso, apenas causava ainda mais confusão. Os anjos aceitavam sem fazer perguntas afinal todos sabiam que deviam respeitar os anjos-mestres, que eram anjos com contacto directo com Deus.
Mas parecia que nesse dia tão especial, dois anjos estavam a aproveitar a confusão, para desobedecer e entrar no tão famoso templo sem ninguém o notar. Ambos os anjos, do sexo masculino, pareciam já ter tido problemas naquele dia, pois as suas roupas estavam rasgadas e vários cortes eram mostrados nos seus corpos e asas. As suas caras sérias mostravam que o que eles estavam a fazer não era uma brincadeira ou uma simples curiosidade.
Ao entrarem no templo ambos olham de um lado para o outro, como se quisessem confirmar que não tinham sido seguidos e eram os únicos ali dentro. Depois dessa confirmação, ambos olham para a única coisa que estava dentro daquele templo, bem no seu centro, encontrava-se um vidro redondo, que ia do chão ao tecto, e onde só se podia ver a escuridão, mas no meio dessa escuridão, a voar por todos lados, eram visíveis várias bolas de luz, praticamente todas brancas, no entanto também era possível distinguir quatro com cores diferentes, azul, vermelho, verde e outra quase transparente.
— Ok, chegamos, agora é bom que tenhas um bom plano Nick! Chegar aqui era supostamente a parte mais fácil e olha para o nosso estado! – Exclama o anjo, com longos cabelos negros, encolhendo as suas asas feridas.
— Oh, pára de reclamar, há dias que não fazes outra coisa, e o plano é fácil, é só projectar a nossa energia e já está. – Responde o anjo loiro, esticando as suas asas, que pareciam ainda mais feridas do que as do amigo.
— Estás a gozar certo?
— Achas que eu gozaria com algo tão sério como as nossas vidas, e o destino não apenas no reino dos céus como também da Terra? — Oh não! Por favor diz-me que estás a gozar! Eu sabia que isto era uma missão suicida, isso está claro desde o inicio, mas, pelo menos, deixa-me morrer apenas depois de completarmos o nosso objectivo.
— Ah, Páris, deixa de ser dramático!
— Nick! É preciso a energia de dez anjos-mestre para os libertar, e cada anjo-mestre tem o dobro da energia de nós os dois juntos!
— Isso é verdade, mas, nós temos uma fonte de energia que equivale á energia de mais de mil anjos-mestres. – O anjo aponta para as várias luzes que voavam presas dentro daquele vidro. – Ou achas que eles não querem sair dali?
— Está bem, agora eu sei que tu estás a gozar, porque até o mais novo dos anjos, completamente ignorante sobre a história desta guerra, sabe que se eles pudessem usar a sua magia, eles já se teriam liberto á muito.
— Vá lá, Páris, será que sou eu que tenho de pensar em tudo aqui? – Ao ver o olhar irritado que o outro anjo lhe deitava, o Nick decide parar com a brincadeira, suspirando. – Eles não podem usar o seu poder por causa da barreira que envolve este vidro, e nós não temos poder para os libertar mas para destruir uma barreira? Eu acho que isso ainda aguentamos.
— Vamos dizer que isso resulta, Nick, o que eu duvido, pois nós estamos demasiado fracos, as coisas estão a ser mais dificeis que o esperado, mas vamos dizer que esse teu plano, ao contrário de todos os outros resulta, mal a barreira comece a enfraquecer todos os anjos e demónios, todos os reinos vão senti-lo, e virão a voar o mais depressa possivel, e mal cheguem aqui matam-nos eles continuam presos e nós morremos por nada… então, isto continua a parecer-te um bom plano? – O Páris mostra toda a sua irritação com aquele plano mal pensado, ele nunca esperaria que o amigo tivesse pensado tão mal nas coisas.
— Eu sei… Eu sei, Páris, mas nós temos de fazer alguma coisa, nós temos de emendar o mal que foi feito, mesmo não tendo sido feito por nós, mas foi muito injusto, muito errado, e se continuar assim a nossa raça… não, não apenas a nossa raça, mas sim todas elas, até mesmo os humanos serão destruidos… eu tenho de acreditar que estamos a fazer a coisa certa , Páris.
Em todo o tempo que o Páris conhecia o seu amigo, ele nunca tinha visto o Nick com aquele olhar, um olhar de tristeza, solidão, um olhar que exigia justiça por tudo o que a sua raça tinha feito naquela guerra. Olhar que ele tinha adquirido depois de descobrir a verdadeira história daquela mesma guerra que se comemorava naquele dia, ou melhor dizendo, depois de descobrir as mentiras criadas pelos mesmos, em que ambos ele e o Nick confiavam.
O Páris tinha que admitir a si mesmo que apesar de sempre ter reclamado do feitio brincalhão e da personalidade infantil do seu melhor amigo, e apesar de muitas vezes não ter entendido como é que ele conseguia nunca levar nada a sério, nos últimos dias ele trocaria tudo o que ele tinha para ver o Nick a sorrir de novo, com aquele sorriso inocente e ingénuo que era tão caracteristico dele antes.
— Oh, isto vai acabar tão mal…- Apesar da reclamação, o Páris fecha os olhos concentrando-se e um brilho dourado rodeia-o quando ele começa a mandar não apenas toda a sua energia como também a sua força vital contra aquele vidro redondo.
O Nick observa tristemente o amigo, antes de se concentrar e seguir o exemplo do outro anjo.
— Páris… desculpa… por te ter arrastado para isto.
— E tu achas, que eu ia deixar-te ficar com todo o mérito, sozinho? Se o nome da alguém tem de ficar para a história é bom que seja o meu e não nome de alguém como tu. – Responde o Páris, abrindo os olhos, com um discreto sorriso nos lábios.
O Nick não precisava de abrir os olhos para saber que o amigo estava com um sorriso nos lábios, ou que ele estava a fazer um esforço para não chorar, tal como ele.
— Eu suponho que não.
Sim, ele sabia o quanto o Páris se preocupava com ele, apesar de nunca o dizer, ele demonstrava-o mais vezes do que alguma vez admitiria, e o Nick seria eternamente grato por ter o seu melhor amigo junto a si naquele momento. Bem, talvez não eternamente, afinal quando um anjo morria, ele desaparecia completamente, por isso não existia eternidade, e sim, apenas uns últimos minutos para aqueles dois anjos.
Ambos os seres celestes abrem as asas enviando todo o seu poder de uma vez para libertar aquelas pequenas e frágeis luzes.
O vidro começa a rachar, e o próprio chão começa a tremer. As luzes presas dentro daquele vidro parecem brilhar com ainda mais intensidade, e em breve todo o reino dos céus sente algo errado a acontecer. Tanto os anjos e os demónios começam a preocupar-te com aquela perturbação nunca antes sentida, e essa preocupação só aumenta quando se apercebem, de onde aquele terramoto tinha origem.
Os anjos-mestres, aqueles que irradiavam poder, e com um leve brilho prateado á sua volta, rapidamente abrem as suas asas, tão brancas quanto a neve, e voam até ao templo, mas, infelizmente já era tarde de mais. Quando lá chegam, o vidro já se tinha rachado e partido completamente, as luzes já estavam dispersas e distribuidas por todos o tempo, e os corpos de dois anjos estavam caído, um ao lado do outro, ambos começando a desaparecer.
— Eu disse-te que resultaria, Páris! – Diz o Nick pausadamente, usando as poucas forças que tinha para conseguir falar.
— Ainda não resultou, idiota! Os anjos-mestre ainda as podem deter… — Reclama o Páris, fazendo tanto esforço para falar quanto o seu amigo.
— Sim, mas nós já não podemos fazer mais nada, já fizemos a nossa parte… agora é com ele.
— Mas se ele não conseguir a nossa morte será em vão… eu não quero que nenhum de nós tenha esse tipo de morte… algum último desejo?
— Último desejo, huh? Então eu queria vê-la…
— A tua mulher em humano?
— Sim… mas se eu tivesse mesmo um último desejo, o que eu realmente quereria seria, se eu alguma vez renascesse, eu adoraria ter-te como irmão… Obrigado Páris, por estares aqui comigo.
— Idiota… se tu fosses mesmo meu irmão, então eu nunca mais teria sossego na vida… nem na morte… mas, sim, esse seria um bom desejo, mas não importa que tenhamos o mesmo desejo, para nós não existe renascer, já não existe nada, mas se for desaparecer, então eu fico contente por ser ao teu lado Nick.
E assim, aqueles dois anjos desaparecem completamente, deixando para trás unicamente o seu desejo de a sua morte não ter sido em vão, que aquelas pequenas luzes conseguissem a sua liberdade mais uma vez. Mas aquelas mortes só seriam notadas mais tarde.
Nenhum dos anjos-mestres, nem dos outros anjos que tinham seguido os primeiros, passa da entrada do templo, ao verem aquelas luzes, aquelas almas, em liberdade e a voar por todo o lado, todos aqueles seres celestiais entram em pânico e começam a tentar apanhá-las com a sua magia, e não demora muito até que todas elas se encontrem dentro de uma barreira que o anjo-mestre Anophie tinha criado entre as suas mãos. Mas, infelizmente, uma daquelas luzes, a única que tinha um brilho verde vivo, consegue escapar da barreira e dos anjos que a tentam apanhar de novo.
Os anjos começam a voar de um lado para o outro em pânico, tentando encontrar a luz, que todos sabiam que nunca mais iriam conseguir encontrar ou apanhar. No entanto, no meio de toda a confusão, os anjos-mestres pareciam estar calmos e rapidamente se aproximam do seu companheiro Anophie, cercando-o.
— Calma! Calem-se! – Grita o Anophie, não aguentando mais os gritos preocupados que o rodeavam.
— Mas, anjo-mestre, uma delas conseguiu escapar! – Diz um anjo, respeitosamente e com medo dos mais poderosos da sua raça, que tinham os rostos transfigurados de raiva.
— Só um, sozinho não conseguirá fazer nada! Agora deixem-me concentrar!
O anjo-mestre fecha os olhos e concentra toda a sua energia nas almas presas dentro da sua barreira, que rapidamente se começam a agitar como se estivessem a sofrer, no entanto, antes do Anophie conseguir acabar o seu feitiço, uma bola de fogo voa até á sua mão, queimando-a, e enfranquecendo a sua barreira até esta desaparecer totalmente, e todas aquelas luzes, que estavam presas dentro dela, conseguirem fugir e desaparecer.
Todos os anjos olham para o responsável pelo fogo que tinha causado aquele desastre, e ao ver quem era o dono da bola de fogo, todos os anjos se esquecem da exitência das luzes por momentos, e, desta vez, até os próprios anjos-mestre empalidecem com medo.
Debaixo dos anjos, com pés bem fixos no chão, ao contrário de todos aqueles seres celestes com asas abertas a pairar no ar, estava uma criança, um rapaz que não tinha mais de nove anos, os seus cabelos pretos estavam demasiado compridos e despenteados, como se não fossem arranjados ou cortados á vários anos, as suas roupas estavam completamente rasgadas, e seria dificil olhar para o seu corpo e encontrar um bocado de pele que não estivesse ferida, a sangrar, ou com cicatrizes de ferimentos antigos, mas o mais estranho daquele rapaz eram os seus olhos que eram metade azuis e metade vermelhos.
— Tu! Impossivel! Tu estavas preso, e nem sequer deverias ter forças para conseguir abrir os olhos! – Grita o anjo-mestre ao lado do Anophie.
— Pois é. – A criança sorri arrogantemente. – Parece que nunca vos ensinaram que não se deve substimar os inimigos, além disso nem todos seguem as vossas ordens, alguns ainda conseguem ter cérebro para pensar por si próprios e ver quem são os verdadeiros demónios desta história!
— Tu! Tu atreves-te a chamar demónios a criaturas feitas por Deus? – Uma espada dourada, e tão fina que parecia ir dobrar-se ao mais pequeno toque, aparece na mão do anjo-mestre que se encontrava ao lado do Anophie.
— Criaturas feitas por Deus? Faz-me o favor Tomás, ambos sabemos que Deus nunca criaria alguém como tu, e se criasse então Ele não seria um grande Deus.
O Tomás não precisa de ouvir mais nada para atacar a criança, voando na sua direcção, pronto para o trespassar com a sua espada e sem ouvir o grito desesperado do Anophie para ele parar, finalmente entendendo o plano do rapaz. Mas já era tarde demais, a criança já se tinha desviado, no último momento, e a espada do anjo-mestre já tinha aberto uma passagem, que era parecida com um rasgão no meio do ar, de espaço-tempo.
— Água, leva os meus inimigos para longe de mim! – Grita o pequeno rapaz mal a passagem tinha sido aberta, e em menos de um segundo, um remoinho de água começa a formar-se debaixo do Tomás, levando-o para longe.
O Anophie voa em direcção da criança, tentando impedi-lo de passar pela passagem, mas é lento demais, e quando consegue passar pelo remoinho de água, já o seu inimigo tinha passado por aquele rasgão, que se tinha fechado logo em seguida.
Os anjos começam a gritar em pânico, enquanto que o Tomás se levantava, completamente encharcado, com fúria nos olhos por ter sido usado por aquela criança.
— Calem-se! – Mais uma vez o Anophie, permanecia calmo no meio da confusão, embora fúria pudesse ser vista no seu olhar tal como o Tomás. – Não está tudo perdido! Ainda há forma de evitar o pior! O festival está cancelado, todos os anjos devem ir para a terra, encontrá-los! Despachem-se.
Os anjos começam a tropeçar uns nos outros tentando obdecer ás ordens do anjo-mestre o mais rapidamente possivel.
— E, nós o que faremos? – Pergunta outro anjo-mestre quando se vê sozinho com os seus sete companheiros, incluindo o Tomás que já estava de asas abertas junto deles.
— Nós vamos reunir-nos com os demónios, por muito despresivel que isso seja, nós vamos precisar de toda a ajuda possivel.
Muito distante do reino dos céus, em plena Terra, na terra distante do Japão, tão fundo na floresta, que nenhum humano o conseguiria encontrar, estava um castelo, abandonado pelo tempo, parecendo que poderia ruir ao menor toque, no entanto o interior desse castelo, era o exacto oposto do seu exterior, estando em perfeitas condições, decorado com requinte, e um pouco desarrumado, mostrando não estar tão desabitado quanto parecia.
Um dos habitantes daquele lindo lugar, era uma linda mulher, de tamanha beleza, que não existiria homem que a visse e lhe conseguisse encontrar um único defeito, o seu longo e brilhante cabelo castanho-claro caia-lhe pelas suas costas naturalmente, os seus profundos olhos azuis-claros, capazes de seduzir qualquer um com um único olhar, tinham um brilho mais misterioso que quaisquer outros, o seu corpo que tinha as porpoções perfeitas sem um único sinal ou defeito, e nem as suas roupas velhas e sujas conseguiam diminuir a sua beleza. Essa mulher, chamada Iria, limpava a enorme sala daquele imenso castelo, quando se parece assustar, deixando cair o vaso que tinha no chão, partindo-o e espalhando a água e flores que ele tinha dentro. No entanto a Iria não se parece importar com a porcelana partida, nem com o facto de ter sujado o chão que tinha acabado de limpar, em vez disso ela corre, percorrendo as diversas divisões daquele castelo e subindo as escadas, até entrar no maior quarto que ali existia, o quarto do seu lider.
— Natsume! – A Iria quase arromba a porta, tamanha a força que a abre, enquanto lider do seu grupo, Natsume, vendo-o á frente de uma janela, que ia do tecto ao chão, a observar o pôr do sol, que fazia os seus cabelos vermelhos escuros brilharem, e o brilho de felicidade e ansiedade que parecia crescer nos seus olhos cor de mel de acentuar.
— Iria… porquê a pressa? – Pergunta o homem, virando-se para a mulher á sua frente, que tal como ele não aparentava ter mais de 18 anos, apesar de ambos já terem vivido mais do que desejavam, e visto mais do que conseguiam suportar.
— … Qual a pressa? – A mulher olha indignada para o seu lider e maior confidente, enquanto ele pouco o copo de cristal, cheio do liquido vermelho e viscoso que ele saboreava antes de ser interrompido. – Eu sei que estás fraco, Natsume, mas é impossivel não teres sentido aquilo!
— Tu realmente és uma idiota, Iria…
Um intruso aparece naquele quarto, entrando pela janela aberta, como se nada fosse, apesar de aquele quarto ser no último andar do castelo a mais de cem metros de altura. O rapaz estava de tronco nu mostrando os seus músculos definidos, e parecia ter acabado de vertir as calças. Todo ele estava sujo de lama, fazendo o seu cabelo preto parecer castanho, e os seus olhos se camuflarem com a sua pele, porém o capaz parece não se importar com isso e rapidamente se vai sentar na enorme cama que existia naquele quarto, sacudindo-se, como se fosse um cão, e sujando os lençois vemelhos.
— Ah, cala-te Roman, tu nem sequer sabes o quão importante isto é! És demasiado novo! E pára de entrar nos aposentos do Natsume assim! – A Iria olha irritada para aquela criança de 16 anos que parecia existir para a chatear.
— Tu és mesmo idiota! Só porque eu sou novo de mais para ter vivido a guerra não significa que não entendo, eu também sofri as consequência dela, acredites ou não.
O Natsume sabia que aquela discussão não iria acabar tão cedo, nunca acabava com aqueles os dois, e resolve sentar-se na sua poltrona, voltando a saborear aquele delicioso liquido vermelho, enquanto observava os seus dois companheiros, com um sorriso nos lábios.
— A única coisa que perdeste foi a liberdade, uma liberdade que tu nunca tiveste, então desculpa se eu acho que não sentes muito a sua falta. – O olhar perigoso que o Roman envia á sua companheira é o suficiente para ela ver que tinha passado dos limites, mas nem isso é o suficiente para ela recuar e admitir a sua derrota.
— Não fales do que não sabes, Iria. Além disso o que queres fazer? Ir atacá-los? Opores-te a eles? Revelar a nossa existência aos humanos? Revelar-lhes o nosso esconderijo? Faças o que fizeres tu vais apenas recriar uma guerra para a perder no momento seguinte, antes mesmo de o conseguires te mover! E tudo isso por causa dos teus sentimentos pessoais?
— Não queiras ir por aí Roman! – Ela sabia que o rapaz tinha dito aquilo apenas por vingança da sua resposta anterior, mas mesmo assim o seu sangue fervia de raiva por aquele idiota que não entendia nada. – Os meus sentimentos não são para aqui chamados, e mesmo que fossem, eu garanto-te que os consigo separar do meu dever. O que acontece é que ao contrário de ti, eu não vou, de maneira nenhuma ficar quieta a ver todos eles a ser presos de novo.
O Roman sorri sarcasticamente, quando a Iria carrega na palavra “todos”, como se isso o fosse alguma vez convencer de que ela estava a pôr os seus sentimentos pessoais de lado. Afinal ele entendia como era impossivel deixar o amor por alguém de lado, fosse qual fosse a situação, ainda mais na situação da sua companheira, agora que depois de mais de um século, ela poderia finalmente rever o único homem que ela amou.
— O Roman têm razão, Iria. – O Natsume resolve interromper aqueles dois seres, que de humanos nada tinham além da sua aparência actual. Ele era o lider deles á tempo o suficiente que daquela vez, se ninguém os travasse aquela discussão, viria a atingir, muito provavelmente, niveis catastróficos.
— O que… — A Iria vira-se surpresa para o seu lider, tal como o Roman. Aquela era a primeira vez que o Natsume dava razão ao mais novo, que costumava ser tratado como um bébé por aquele grupo.
— Mas… — Interrompe o Natsume, não estando com paciência para ouvir a indignação daquela mulher. – também não ficaremos quietos. Eu vos garanto que mais depressa sacrificaria a vida de todos nós do que deixaria eles serem presos de novo. Com isso dito, nós não os podemos proteger, não temos os meios nem a liberdade para tal, no entanto aqueles os dois, podem e vão protegê-los, tal como é o seu dever!
— E nosso dever é qual? Ficar quietos? – Pergunta a Iria, indignada, quase a deitar fumo pelas orelhas tamanha era a sua raiva.
— Acalma-te Iria. – A tom de voz do Natsume torna-se severo, assustando a sua companheira, sabendo que ele apenas usava aquele tom voz, quando deixava de ser o seu confidente e amigo, tornando-se unicamente no seu lider que esperava ser obedecido com total lealdade. – Eu já te disse que não vamos ficar quietos, porque mesmo que o devessemos fazer, ambos sabemos que não existe uma única pessoa neste grupo que fosse capaz de o fazer, mesmo que eu o ordenasse. Por enquanto todos nós devemos únicamente observar e lutar das sombras, esperar pela guerra começar e é imperativo que apenas revelemos a nossa presença no momento certo, até lá nós vamos ter outro papel, nós devemos resgatar aquele que não veio para este mundo.
— Finalmente! – Grita o Roman, com um sorriso na cara, completamente ansioso. – Isso significa que eu já posso ir, Natsu? Já? Já?
A Iria olha de um rapaz para o outro, completamente confusa, irritando-se ainda mais, afinal se havia algo que ela não aguentava era estarem a falar á sua frente de algo que ela não entendia.
— O quê? Ir onde? De quem estás a falar Natsume?
— O Roman esteve a fazer-me um favor todo este tempo, usando o seu poder, para proteger aquele que tem nas mãos o destino do mundo, aquele com o poder de destruir toda ordem celestial. Agora Roman vai com a Yume, encontrem e tragam o Kamui de volta. – Ordena o lider.
— O… Kamui… ele está vivo? – A rapariga estava perplexa, as palavras custavam a sair-lhe da sua boca, não acreditando no que tinha ouvido, nem querendo imaginar nas consequências que aquilo viria a ter se o Natsume estivesse certo, o que ela não duvidasse que estivesse, ele estava sempre certo.
— Ele está vivo, e nós vamos mantê-lo assim, mas Roman, se ele é crucial que ele aqui esteja antes de a guerra começar, ele tem de cá estar para o desenrrolar dos acontecimentos, para quando eles finalmente começarem a libertar o poder… tu e a Yume, não se podem demorar mais de 16 anos.
Há muito tempo atrás, ou, quem sabe, em um tempo que ainda está por vir, todos, no reino dos céus, e até muitos no reino das trevas, muito mais conhecido por inferno, festejavam, naquela data tão especial para eles.
Naquele dia faria um século desde que os seus inimigos tinham sido derrotados, faria um século que uma guerra em que demónios lutaram ao lado de anjos, pela primeira vez na história, tinha acabado, com a sua vitória. Por todo o lado só se ouviam risos e festejos, todo o reino dos céus estava na sua mais pura alegria e felicidade.
Mas no meio de tanta alegria também havia confusão. Os anjos mais novos, aqueles que não tinha visto ou vivido guerra nenhuma, não sabiam a razão de tanta felicidade, afinal, por motivos desconhecidos a muitos, apesar de poderem festejar era proibido falar da guerra e do seu motivo, a única coisa que os anjos mais novos sabiam era que os seus inimigos derrotados tinham sido seres com demasiado poder, seres que usaram esse mesmo poder para o mal e não apenas quase destruíram toda a humanidade, como todo o reino dos céus e demónios que não se juntaram a eles.
Muitos curiosos ainda procuravam por mais informações, mas todos os arquivos dos céus sobre a guerra eram restritos e nenhum dos anjos mais velhos parecia estar disposto a falar sobre isso, e, mesmo o templo, que tinha sido construído quando a guerra tinha terminado, tinha a entrada restrita, e apenas os anjos-mestre lá podiam entrar, dizendo que um grande mal residia ali dentro, e mesmo isso, apenas causava ainda mais confusão. Os anjos aceitavam sem fazer perguntas afinal todos sabiam que deviam respeitar os anjos-mestres, que eram anjos com contacto directo com Deus.
Mas parecia que nesse dia tão especial, dois anjos estavam a aproveitar a confusão, para desobedecer e entrar no tão famoso templo sem ninguém o notar. Ambos os anjos, do sexo masculino, pareciam já ter tido problemas naquele dia, pois as suas roupas estavam rasgadas e vários cortes eram mostrados nos seus corpos e asas. As suas caras sérias mostravam que o que eles estavam a fazer não era uma brincadeira ou uma simples curiosidade.
Ao entrarem no templo ambos olham de um lado para o outro, como se quisessem confirmar que não tinham sido seguidos e eram os únicos ali dentro. Depois dessa confirmação, ambos olham para a única coisa que estava dentro daquele templo, bem no seu centro, encontrava-se um vidro redondo, que ia do chão ao tecto, e onde só se podia ver a escuridão, mas no meio dessa escuridão, a voar por todos lados, eram visíveis várias bolas de luz, praticamente todas brancas, no entanto também era possível distinguir quatro com cores diferentes, azul, vermelho, verde e outra quase transparente.
— Ok, chegamos, agora é bom que tenhas um bom plano Nick! Chegar aqui era supostamente a parte mais fácil e olha para o nosso estado! – Exclama o anjo, com longos cabelos negros, encolhendo as suas asas feridas.
— Oh, pára de reclamar, há dias que não fazes outra coisa, e o plano é fácil, é só projectar a nossa energia e já está. – Responde o anjo loiro, esticando as suas asas, que pareciam ainda mais feridas do que as do amigo.
— Estás a gozar certo?
— Achas que eu gozaria com algo tão sério como as nossas vidas, e o destino não apenas no reino dos céus como também da Terra? — Oh não! Por favor diz-me que estás a gozar! Eu sabia que isto era uma missão suicida, isso está claro desde o inicio, mas, pelo menos, deixa-me morrer apenas depois de completarmos o nosso objectivo.
— Ah, Páris, deixa de ser dramático!
— Nick! É preciso a energia de dez anjos-mestre para os libertar, e cada anjo-mestre tem o dobro da energia de nós os dois juntos!
— Isso é verdade, mas, nós temos uma fonte de energia que equivale á energia de mais de mil anjos-mestres. – O anjo aponta para as várias luzes que voavam presas dentro daquele vidro. – Ou achas que eles não querem sair dali?
— Está bem, agora eu sei que tu estás a gozar, porque até o mais novo dos anjos, completamente ignorante sobre a história desta guerra, sabe que se eles pudessem usar a sua magia, eles já se teriam liberto á muito.
— Vá lá, Páris, será que sou eu que tenho de pensar em tudo aqui? – Ao ver o olhar irritado que o outro anjo lhe deitava, o Nick decide parar com a brincadeira, suspirando. – Eles não podem usar o seu poder por causa da barreira que envolve este vidro, e nós não temos poder para os libertar mas para destruir uma barreira? Eu acho que isso ainda aguentamos.
— Vamos dizer que isso resulta, Nick, o que eu duvido, pois nós estamos demasiado fracos, as coisas estão a ser mais dificeis que o esperado, mas vamos dizer que esse teu plano, ao contrário de todos os outros resulta, mal a barreira comece a enfraquecer todos os anjos e demónios, todos os reinos vão senti-lo, e virão a voar o mais depressa possivel, e mal cheguem aqui matam-nos eles continuam presos e nós morremos por nada… então, isto continua a parecer-te um bom plano? – O Páris mostra toda a sua irritação com aquele plano mal pensado, ele nunca esperaria que o amigo tivesse pensado tão mal nas coisas.
— Eu sei… Eu sei, Páris, mas nós temos de fazer alguma coisa, nós temos de emendar o mal que foi feito, mesmo não tendo sido feito por nós, mas foi muito injusto, muito errado, e se continuar assim a nossa raça… não, não apenas a nossa raça, mas sim todas elas, até mesmo os humanos serão destruidos… eu tenho de acreditar que estamos a fazer a coisa certa , Páris.
Em todo o tempo que o Páris conhecia o seu amigo, ele nunca tinha visto o Nick com aquele olhar, um olhar de tristeza, solidão, um olhar que exigia justiça por tudo o que a sua raça tinha feito naquela guerra. Olhar que ele tinha adquirido depois de descobrir a verdadeira história daquela mesma guerra que se comemorava naquele dia, ou melhor dizendo, depois de descobrir as mentiras criadas pelos mesmos, em que ambos ele e o Nick confiavam.
O Páris tinha que admitir a si mesmo que apesar de sempre ter reclamado do feitio brincalhão e da personalidade infantil do seu melhor amigo, e apesar de muitas vezes não ter entendido como é que ele conseguia nunca levar nada a sério, nos últimos dias ele trocaria tudo o que ele tinha para ver o Nick a sorrir de novo, com aquele sorriso inocente e ingénuo que era tão caracteristico dele antes.
— Oh, isto vai acabar tão mal…- Apesar da reclamação, o Páris fecha os olhos concentrando-se e um brilho dourado rodeia-o quando ele começa a mandar não apenas toda a sua energia como também a sua força vital contra aquele vidro redondo.
O Nick observa tristemente o amigo, antes de se concentrar e seguir o exemplo do outro anjo.
— Páris… desculpa… por te ter arrastado para isto.
— E tu achas, que eu ia deixar-te ficar com todo o mérito, sozinho? Se o nome da alguém tem de ficar para a história é bom que seja o meu e não nome de alguém como tu. – Responde o Páris, abrindo os olhos, com um discreto sorriso nos lábios.
O Nick não precisava de abrir os olhos para saber que o amigo estava com um sorriso nos lábios, ou que ele estava a fazer um esforço para não chorar, tal como ele.
— Eu suponho que não.
Sim, ele sabia o quanto o Páris se preocupava com ele, apesar de nunca o dizer, ele demonstrava-o mais vezes do que alguma vez admitiria, e o Nick seria eternamente grato por ter o seu melhor amigo junto a si naquele momento. Bem, talvez não eternamente, afinal quando um anjo morria, ele desaparecia completamente, por isso não existia eternidade, e sim, apenas uns últimos minutos para aqueles dois anjos.
Ambos os seres celestes abrem as asas enviando todo o seu poder de uma vez para libertar aquelas pequenas e frágeis luzes.
O vidro começa a rachar, e o próprio chão começa a tremer. As luzes presas dentro daquele vidro parecem brilhar com ainda mais intensidade, e em breve todo o reino dos céus sente algo errado a acontecer. Tanto os anjos e os demónios começam a preocupar-te com aquela perturbação nunca antes sentida, e essa preocupação só aumenta quando se apercebem, de onde aquele terramoto tinha origem.
Os anjos-mestres, aqueles que irradiavam poder, e com um leve brilho prateado á sua volta, rapidamente abrem as suas asas, tão brancas quanto a neve, e voam até ao templo, mas, infelizmente já era tarde de mais. Quando lá chegam, o vidro já se tinha rachado e partido completamente, as luzes já estavam dispersas e distribuidas por todos o tempo, e os corpos de dois anjos estavam caído, um ao lado do outro, ambos começando a desaparecer.
— Eu disse-te que resultaria, Páris! – Diz o Nick pausadamente, usando as poucas forças que tinha para conseguir falar.
— Ainda não resultou, idiota! Os anjos-mestre ainda as podem deter… — Reclama o Páris, fazendo tanto esforço para falar quanto o seu amigo.
— Sim, mas nós já não podemos fazer mais nada, já fizemos a nossa parte… agora é com ele.
— Mas se ele não conseguir a nossa morte será em vão… eu não quero que nenhum de nós tenha esse tipo de morte… algum último desejo?
— Último desejo, huh? Então eu queria vê-la…
— A tua mulher em humano?
— Sim… mas se eu tivesse mesmo um último desejo, o que eu realmente quereria seria, se eu alguma vez renascesse, eu adoraria ter-te como irmão… Obrigado Páris, por estares aqui comigo.
— Idiota… se tu fosses mesmo meu irmão, então eu nunca mais teria sossego na vida… nem na morte… mas, sim, esse seria um bom desejo, mas não importa que tenhamos o mesmo desejo, para nós não existe renascer, já não existe nada, mas se for desaparecer, então eu fico contente por ser ao teu lado Nick.
E assim, aqueles dois anjos desaparecem completamente, deixando para trás unicamente o seu desejo de a sua morte não ter sido em vão, que aquelas pequenas luzes conseguissem a sua liberdade mais uma vez. Mas aquelas mortes só seriam notadas mais tarde.
Nenhum dos anjos-mestres, nem dos outros anjos que tinham seguido os primeiros, passa da entrada do templo, ao verem aquelas luzes, aquelas almas, em liberdade e a voar por todo o lado, todos aqueles seres celestiais entram em pânico e começam a tentar apanhá-las com a sua magia, e não demora muito até que todas elas se encontrem dentro de uma barreira que o anjo-mestre Anophie tinha criado entre as suas mãos. Mas, infelizmente, uma daquelas luzes, a única que tinha um brilho verde vivo, consegue escapar da barreira e dos anjos que a tentam apanhar de novo.
Os anjos começam a voar de um lado para o outro em pânico, tentando encontrar a luz, que todos sabiam que nunca mais iriam conseguir encontrar ou apanhar. No entanto, no meio de toda a confusão, os anjos-mestres pareciam estar calmos e rapidamente se aproximam do seu companheiro Anophie, cercando-o.
— Calma! Calem-se! – Grita o Anophie, não aguentando mais os gritos preocupados que o rodeavam.
— Mas, anjo-mestre, uma delas conseguiu escapar! – Diz um anjo, respeitosamente e com medo dos mais poderosos da sua raça, que tinham os rostos transfigurados de raiva.
— Só um, sozinho não conseguirá fazer nada! Agora deixem-me concentrar!
O anjo-mestre fecha os olhos e concentra toda a sua energia nas almas presas dentro da sua barreira, que rapidamente se começam a agitar como se estivessem a sofrer, no entanto, antes do Anophie conseguir acabar o seu feitiço, uma bola de fogo voa até á sua mão, queimando-a, e enfranquecendo a sua barreira até esta desaparecer totalmente, e todas aquelas luzes, que estavam presas dentro dela, conseguirem fugir e desaparecer.
Todos os anjos olham para o responsável pelo fogo que tinha causado aquele desastre, e ao ver quem era o dono da bola de fogo, todos os anjos se esquecem da exitência das luzes por momentos, e, desta vez, até os próprios anjos-mestre empalidecem com medo.
Debaixo dos anjos, com pés bem fixos no chão, ao contrário de todos aqueles seres celestes com asas abertas a pairar no ar, estava uma criança, um rapaz que não tinha mais de nove anos, os seus cabelos pretos estavam demasiado compridos e despenteados, como se não fossem arranjados ou cortados á vários anos, as suas roupas estavam completamente rasgadas, e seria dificil olhar para o seu corpo e encontrar um bocado de pele que não estivesse ferida, a sangrar, ou com cicatrizes de ferimentos antigos, mas o mais estranho daquele rapaz eram os seus olhos que eram metade azuis e metade vermelhos.
— Tu! Impossivel! Tu estavas preso, e nem sequer deverias ter forças para conseguir abrir os olhos! – Grita o anjo-mestre ao lado do Anophie.
— Pois é. – A criança sorri arrogantemente. – Parece que nunca vos ensinaram que não se deve substimar os inimigos, além disso nem todos seguem as vossas ordens, alguns ainda conseguem ter cérebro para pensar por si próprios e ver quem são os verdadeiros demónios desta história!
— Tu! Tu atreves-te a chamar demónios a criaturas feitas por Deus? – Uma espada dourada, e tão fina que parecia ir dobrar-se ao mais pequeno toque, aparece na mão do anjo-mestre que se encontrava ao lado do Anophie.
— Criaturas feitas por Deus? Faz-me o favor Tomás, ambos sabemos que Deus nunca criaria alguém como tu, e se criasse então Ele não seria um grande Deus.
O Tomás não precisa de ouvir mais nada para atacar a criança, voando na sua direcção, pronto para o trespassar com a sua espada e sem ouvir o grito desesperado do Anophie para ele parar, finalmente entendendo o plano do rapaz. Mas já era tarde demais, a criança já se tinha desviado, no último momento, e a espada do anjo-mestre já tinha aberto uma passagem, que era parecida com um rasgão no meio do ar, de espaço-tempo.
— Água, leva os meus inimigos para longe de mim! – Grita o pequeno rapaz mal a passagem tinha sido aberta, e em menos de um segundo, um remoinho de água começa a formar-se debaixo do Tomás, levando-o para longe.
O Anophie voa em direcção da criança, tentando impedi-lo de passar pela passagem, mas é lento demais, e quando consegue passar pelo remoinho de água, já o seu inimigo tinha passado por aquele rasgão, que se tinha fechado logo em seguida.
Os anjos começam a gritar em pânico, enquanto que o Tomás se levantava, completamente encharcado, com fúria nos olhos por ter sido usado por aquela criança.
— Calem-se! – Mais uma vez o Anophie, permanecia calmo no meio da confusão, embora fúria pudesse ser vista no seu olhar tal como o Tomás. – Não está tudo perdido! Ainda há forma de evitar o pior! O festival está cancelado, todos os anjos devem ir para a terra, encontrá-los! Despachem-se.
Os anjos começam a tropeçar uns nos outros tentando obdecer ás ordens do anjo-mestre o mais rapidamente possivel.
— E, nós o que faremos? – Pergunta outro anjo-mestre quando se vê sozinho com os seus sete companheiros, incluindo o Tomás que já estava de asas abertas junto deles.
— Nós vamos reunir-nos com os demónios, por muito despresivel que isso seja, nós vamos precisar de toda a ajuda possivel.
Muito distante do reino dos céus, em plena Terra, na terra distante do Japão, tão fundo na floresta, que nenhum humano o conseguiria encontrar, estava um castelo, abandonado pelo tempo, parecendo que poderia ruir ao menor toque, no entanto o interior desse castelo, era o exacto oposto do seu exterior, estando em perfeitas condições, decorado com requinte, e um pouco desarrumado, mostrando não estar tão desabitado quanto parecia.
Um dos habitantes daquele lindo lugar, era uma linda mulher, de tamanha beleza, que não existiria homem que a visse e lhe conseguisse encontrar um único defeito, o seu longo e brilhante cabelo castanho-claro caia-lhe pelas suas costas naturalmente, os seus profundos olhos azuis-claros, capazes de seduzir qualquer um com um único olhar, tinham um brilho mais misterioso que quaisquer outros, o seu corpo que tinha as porpoções perfeitas sem um único sinal ou defeito, e nem as suas roupas velhas e sujas conseguiam diminuir a sua beleza. Essa mulher, chamada Iria, limpava a enorme sala daquele imenso castelo, quando se parece assustar, deixando cair o vaso que tinha no chão, partindo-o e espalhando a água e flores que ele tinha dentro. No entanto a Iria não se parece importar com a porcelana partida, nem com o facto de ter sujado o chão que tinha acabado de limpar, em vez disso ela corre, percorrendo as diversas divisões daquele castelo e subindo as escadas, até entrar no maior quarto que ali existia, o quarto do seu lider.
— Natsume! – A Iria quase arromba a porta, tamanha a força que a abre, enquanto lider do seu grupo, Natsume, vendo-o á frente de uma janela, que ia do tecto ao chão, a observar o pôr do sol, que fazia os seus cabelos vermelhos escuros brilharem, e o brilho de felicidade e ansiedade que parecia crescer nos seus olhos cor de mel de acentuar.
— Iria… porquê a pressa? – Pergunta o homem, virando-se para a mulher á sua frente, que tal como ele não aparentava ter mais de 18 anos, apesar de ambos já terem vivido mais do que desejavam, e visto mais do que conseguiam suportar.
— … Qual a pressa? – A mulher olha indignada para o seu lider e maior confidente, enquanto ele pouco o copo de cristal, cheio do liquido vermelho e viscoso que ele saboreava antes de ser interrompido. – Eu sei que estás fraco, Natsume, mas é impossivel não teres sentido aquilo!
— Tu realmente és uma idiota, Iria…
Um intruso aparece naquele quarto, entrando pela janela aberta, como se nada fosse, apesar de aquele quarto ser no último andar do castelo a mais de cem metros de altura. O rapaz estava de tronco nu mostrando os seus músculos definidos, e parecia ter acabado de vertir as calças. Todo ele estava sujo de lama, fazendo o seu cabelo preto parecer castanho, e os seus olhos se camuflarem com a sua pele, porém o capaz parece não se importar com isso e rapidamente se vai sentar na enorme cama que existia naquele quarto, sacudindo-se, como se fosse um cão, e sujando os lençois vemelhos.
— Ah, cala-te Roman, tu nem sequer sabes o quão importante isto é! És demasiado novo! E pára de entrar nos aposentos do Natsume assim! – A Iria olha irritada para aquela criança de 16 anos que parecia existir para a chatear.
— Tu és mesmo idiota! Só porque eu sou novo de mais para ter vivido a guerra não significa que não entendo, eu também sofri as consequência dela, acredites ou não.
O Natsume sabia que aquela discussão não iria acabar tão cedo, nunca acabava com aqueles os dois, e resolve sentar-se na sua poltrona, voltando a saborear aquele delicioso liquido vermelho, enquanto observava os seus dois companheiros, com um sorriso nos lábios.
— A única coisa que perdeste foi a liberdade, uma liberdade que tu nunca tiveste, então desculpa se eu acho que não sentes muito a sua falta. – O olhar perigoso que o Roman envia á sua companheira é o suficiente para ela ver que tinha passado dos limites, mas nem isso é o suficiente para ela recuar e admitir a sua derrota.
— Não fales do que não sabes, Iria. Além disso o que queres fazer? Ir atacá-los? Opores-te a eles? Revelar a nossa existência aos humanos? Revelar-lhes o nosso esconderijo? Faças o que fizeres tu vais apenas recriar uma guerra para a perder no momento seguinte, antes mesmo de o conseguires te mover! E tudo isso por causa dos teus sentimentos pessoais?
— Não queiras ir por aí Roman! – Ela sabia que o rapaz tinha dito aquilo apenas por vingança da sua resposta anterior, mas mesmo assim o seu sangue fervia de raiva por aquele idiota que não entendia nada. – Os meus sentimentos não são para aqui chamados, e mesmo que fossem, eu garanto-te que os consigo separar do meu dever. O que acontece é que ao contrário de ti, eu não vou, de maneira nenhuma ficar quieta a ver todos eles a ser presos de novo.
O Roman sorri sarcasticamente, quando a Iria carrega na palavra “todos”, como se isso o fosse alguma vez convencer de que ela estava a pôr os seus sentimentos pessoais de lado. Afinal ele entendia como era impossivel deixar o amor por alguém de lado, fosse qual fosse a situação, ainda mais na situação da sua companheira, agora que depois de mais de um século, ela poderia finalmente rever o único homem que ela amou.
— O Roman têm razão, Iria. – O Natsume resolve interromper aqueles dois seres, que de humanos nada tinham além da sua aparência actual. Ele era o lider deles á tempo o suficiente que daquela vez, se ninguém os travasse aquela discussão, viria a atingir, muito provavelmente, niveis catastróficos.
— O que… — A Iria vira-se surpresa para o seu lider, tal como o Roman. Aquela era a primeira vez que o Natsume dava razão ao mais novo, que costumava ser tratado como um bébé por aquele grupo.
— Mas… — Interrompe o Natsume, não estando com paciência para ouvir a indignação daquela mulher. – também não ficaremos quietos. Eu vos garanto que mais depressa sacrificaria a vida de todos nós do que deixaria eles serem presos de novo. Com isso dito, nós não os podemos proteger, não temos os meios nem a liberdade para tal, no entanto aqueles os dois, podem e vão protegê-los, tal como é o seu dever!
— E nosso dever é qual? Ficar quietos? – Pergunta a Iria, indignada, quase a deitar fumo pelas orelhas tamanha era a sua raiva.
— Acalma-te Iria. – A tom de voz do Natsume torna-se severo, assustando a sua companheira, sabendo que ele apenas usava aquele tom voz, quando deixava de ser o seu confidente e amigo, tornando-se unicamente no seu lider que esperava ser obedecido com total lealdade. – Eu já te disse que não vamos ficar quietos, porque mesmo que o devessemos fazer, ambos sabemos que não existe uma única pessoa neste grupo que fosse capaz de o fazer, mesmo que eu o ordenasse. Por enquanto todos nós devemos únicamente observar e lutar das sombras, esperar pela guerra começar e é imperativo que apenas revelemos a nossa presença no momento certo, até lá nós vamos ter outro papel, nós devemos resgatar aquele que não veio para este mundo.
— Finalmente! – Grita o Roman, com um sorriso na cara, completamente ansioso. – Isso significa que eu já posso ir, Natsu? Já? Já?
A Iria olha de um rapaz para o outro, completamente confusa, irritando-se ainda mais, afinal se havia algo que ela não aguentava era estarem a falar á sua frente de algo que ela não entendia.
— O quê? Ir onde? De quem estás a falar Natsume?
— O Roman esteve a fazer-me um favor todo este tempo, usando o seu poder, para proteger aquele que tem nas mãos o destino do mundo, aquele com o poder de destruir toda ordem celestial. Agora Roman vai com a Yume, encontrem e tragam o Kamui de volta. – Ordena o lider.
— O… Kamui… ele está vivo? – A rapariga estava perplexa, as palavras custavam a sair-lhe da sua boca, não acreditando no que tinha ouvido, nem querendo imaginar nas consequências que aquilo viria a ter se o Natsume estivesse certo, o que ela não duvidasse que estivesse, ele estava sempre certo.
— Ele está vivo, e nós vamos mantê-lo assim, mas Roman, se ele é crucial que ele aqui esteja antes de a guerra começar, ele tem de cá estar para o desenrrolar dos acontecimentos, para quando eles finalmente começarem a libertar o poder… tu e a Yume, não se podem demorar mais de 16 anos.
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