Angelina & Lúcifer
2 A Maldição
Notas iniciais
A Maldição
“À mulher ele disse: “Aumentarei muito as dores da sua gravidez; em dores você dará à luz filhos, e terá desejo de estar com seu marido, e ele a dominará.”
(Gênesis 3:16)
O céu estava totalmente azul, fazia calor e Lúcifer usava uma camisa preta folgada demais. Sua pele estava cada vez mais vermelha, mas tudo o que ele queria era se afastar por um momento. Se afastar dos pais e das pessoas e ir para seu cantinho favorito, que — diga-se de passagem— era um beco com cheiro de urina e lixo, onde ele podia beber muito refrigerante e ler alguns livros velhos com finais tristes.
Mas esse dia foi diferente, pois quando virava a esquina, alguém se chocou contra ele. A cabeça coberta de cabelo volumoso bateu na altura do seu peito.
Era uma menina.
Uma garota muito bonita.
Tinha o rosto parcialmente escondido pelos grandes cabelos crespos, mas ele podia ver os traços fortes que ornamentavam a expressão dela. Uma boca bem desenhada, um nariz grande e redondo e os olhos negros que se destacavam naturalmente.
— Está tudo bem? — perguntou Lúcifer educadamente.
— Óculos — disse a menina se abaixando e apanhando o objeto que, provavelmente, caíra durante o incidente.
— Você não respondeu...
— Estou — falou firmemente, destruindo uma possível primeira impressão de Lúcifer sobre uma garota frágil. Ou ela apenas não quisesse falar com ele. Ele já estava acostumado com a rejeição.
— Que bom — disse Lúcifer sabendo que seria ignorado pela garota. — Desculpe, sei que não deveria estar falando com você.
— Por quê? — perguntou ela. — Eu te conheço?
Lúcifer ficou feliz por não ser reconhecido como O-Satanista-Das-Trevas. Se sentiu tentado a sorrir.
Ela voltou a olhar para trás, agora com os óculos repousados perfeitamente sobre seu nariz.
— Eu preciso ir — disse a menina. — Desculpe-me por esbarrar em... Ah, não, eles estão vindo.
— Quem? —perguntou Lúcifer.
— Preciso ir — repetiu ela antes de começar a correr.
Lúcifer decidiu que seria estranho ir atrás dela e resolveu continuar o caminho.
No meio da estrada só viu duas pessoas, especificamente dois garotos que andavam rapidamente enquanto conversavam. Eles usavam ternos e gravatas, o que era estranho para um dia de calor. Não demorou muito para Lúcifer entendê-los como religiosos.
Ele também imaginou se Angelina correu dessa dupla de adoradores de Deus. Talvez ela não gostasse muito da ideia de ouvir uma mensagem da bíblia.
Lúcifer também não gostava, mas pensava que fosse o único.
Angelina tinha certeza que os dois tinham desistido de perseguí-la. Ela não escutava mais os passos dos meninos e sentiu-se aliviada por isso.
Diminuiu o ritmo da corrida e retomou o fôlego, começando a caminhar lentamente. Então sua mente começou a trabalhar. Lina começou a pensar em sua situação e não conseguiu segurar as lágrimas.
Fazia vinte anos que sua avó decidiu entregar a vida para Deus. Ela era viúva e queria se ocupar com coisas que valeriam a pena. Vendeu tudo o que um dia pertenceu ao avô de Angelina e se mudou para uma casa emprestada pelo regente da igreja.
Tudo estava indo bem até que a mãe de Lina engravidou e deixou a filha para sua mãe criar. Esse neném rejeitado era ela própria que, ainda pequena, foi entrega à avó que a aceitou com carinho.
O regente, que equivale a um pastor, padre ou ancião, também tinha um filho. Ele cresceu junto a Angelina e sempre fora possessivo com relação a ela.
E, agora ambos com dezesseis anos, ele a atormentava junto ao seu amigo.
Angelina perdeu as contas do número de manchas roxas que havia ganhado recentemente.
Barulhos de passos dominaram sua cabeça e ela expulsou os pensamentos. Quando viu a imagem dos dois garotos na sua frente, xingou-se mentalmente por ter diminuído a velocidade. Depois pediu perdão a Deus mentalmente pelo linguajar.
— E aí — disse Pedro, filho do regente. Ela era o mais alto e tinha olhos escuros e cabelos bem curtos. Era normalmente o "líder" enquanto João, seu amigo, só escutava.
— Oi — disse Angelina desanimada com a visita dos dois.
Pedro semicerrou os olhos e andou na direção de Angelina.
— Parabéns por conseguir aquele cargo — disse o garoto suficientemente perto para Angelina ver maldade no olhar negro e profundo do rapaz.
Havia uma diferença entre os olhos negros dela e o dele. As pessoas costumavam dizer que ela tinha um olhar bondoso, mas essa não era uma característica do olhar de Pedro.
— Obrigada — disse Angelina limpando a garganta.
— Você sabe que eu o desejava — disse Pedro. — Queria muito aqueles privilégios... Você não parece se importar com eles.
— Eu me importo — disse Angelina perdendo sua coragem ao ponto que olhava para o maldoso Pedro.
— Mulheres não deveriam conseguir o que você conseguiu. Elas são imcapases de liderar. São pecadoras.
— Todos nós somos pecadores. — Angelina sentiu a parte de trás da cabeça tocar uma parede enquanto recuava. Agora Pedro a tinha presa. Ele a cercou com os braços musculosos.
— Somos pecadores por causa de uma mulher — falou Pedro enquanto cerrava o punho e direcionava para o rosto de Angelina. — É uma pena que vá doer...mas você merece. As mulheres foram amaldiçoadas pelo próprio Deus. E isso faz parte da maldição.
Angelina fechou bem os olhos para que não visse o punho do garoto vindo na sua direção.
Lúcifer tinha chegado ao seu beco favorito, mas resolveu não ficar lá, pois o lugar que costumava ficar vazio, estava ocupado por um casal de mendigos.
O garoto ficou desapontado, mas pensou em outros lugares possíveis para se estar além daquele beco escuro com cheiro de xixi.
Caminhou bastante sentindo sua pele cada vez mais quente. Logo depois deu meia-volta, pensando que encontraria lugares melhores do lado oposto do bairro.
Enquanto andava, viu dois garotos correndo e os reconheceu. Tinha os visto uma vez: eram os religiosos que aquela menina supostamente fugia.
Mas isso não importava. Importava?
O caso era que Lúcifer tinha achado ela bonita. Sua pele escura parecia feita de chocolate amargo. Ele amava chocolate amargo.
Enfim.
Quando a garota tinha saído de sua mente, ele adentrou um lugar calmo. Era um beco entre casas velhas e, aparentemente, abandonadas. Lúcifer tirou um livro da mochila que carregava e sentou-se sobre umas caixas. Resolveu pegar um dos refrigerantes.
— Saia de cima de mim, Pedro!
Lúcifer arregalou os olhos. Ele tinha escutado algo. Lógico que tinha. Mesmo não sendo Pedro, levantou-se na esperança de escutar novamente o pedido abafado.
— Me tire daqui!
Lúcifer percebeu que o som se originava das caixas. Então, com rapidez, começou a retirará-las do lugar e viu quem falava.
No chão com os cabelos cacheados rodeando sua cabeça e uma corda amarrada no pescoço estava a garota.
A garota com pele de chocolate amargo.
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