Angelical

1 Diabo angelical - ÚNICO


Notas iniciais
Olá a todos! Vos trago uma songfic com uma música do Matanza, chamada Mulher Diabo. Me inspirei num triângulo amoroso entre Camus, Afrodite e Deathmask. Foi escrito pela madrugada e, por gostar muito da música. Se forem atirar pedras, apenas não acertem no meu rosto. Boa leitura! https://www.youtube.com/watch?v=rL17M3Fp7t0

“Eis que surge vinda de lugar nenhum

E o tempo vai fechando ao seu redor

Se já não vai nada muito bem na vida do bebum

Com ela aqui só vai ficar pior”

Duas da manhã.

Fulgor, música, gargalhadas, sons desconexos e ininteligíveis. O uísque descia por sua garganta queimando e lhe deixando com o sangue a correr veloz nas veias. Ficaria ali, sentado e bebendo, até amanhecer se fosse necessário.

Tudo isso era culpa da maldita mulher que havia o deixado. Nada poderia ficar pior, pois a vagabunda lhe deixara para viver com um engomadinho qualquer que tinha mais dinheiro e mais beleza. Mais charme? Nunca. Ninguém jamais ganharia do charme másculo e até, ironicamente, sádico de Ettore Mask.

Sempre fora aquele cara sarcástico, de sorriso de canto, que atraia olhares por ser o específico estereótipo de galã cafajeste com seus cabelos negros e arrepiados. Seu olhar sempre era ladino, como seu tom de voz. Seus movimentos, sua conversa. Mas nunca, em hipótese alguma, se amarraria a alguém... Ao menos era o que pensava. Quando finalmente se convenceu que amava, a maldita lhe larga a ver navios. Que se fodesse, afinal. Nunca precisou de mulher alguma para ser feliz.

“Eu te falo como é, você pára onde estiver,

Você fica totalmente sem ação.

Não consegue mais falar, como quem vê congelar

O momento em que ela entra no salão”.

Sentiu o mundo parar por um instante. A música já não tocava e o idiota ao seu lado já não resmungava incessantemente sobre coisas banais enquanto bebia. Exatamente tudo em câmera lenta, exceto pelos cabelos louros e ondulados se movimentando ao redor do corpo magro e definido. O andar concupiscente, os olhos azuis dentre a multidão lhe observando com astucia, chamando-o. Por fim, arrepiou-se por completo e por pouco não deixou seu copo cair no chão. Quis levantar-se e ir até lá, mas algo o prendeu como cimento.

Só viu os fios louros adornando a face angelical se aproximarem depois de determinados instantes agonizantes, sentindo-se queimar num desejo doloroso. Subitamente, o homem ao seu lado sumiu, dando espaço a criatura belíssima que, ao se aproximar, sentou ao seu lado. Ainda embasbacado, quis dizer algo, mas apenas pode abrir sua boca e encará-lo com cara de idiota. Andrógeno, belíssimo, seduzente, mas ainda sim era um homem, e que lhe chamava a atenção.

De fato, como se um vidro fosse estilhaçado, tudo voltou ao normal e o loiro permaneceu ao seu lado. Seu próprio copo de uísque foi ao chão, fazendo com que Ettore se sobressaltasse, arrancando um sorriso da criatura ao seu lado.

“E vai beber, vai cair, levantar

E começar a beber de novo.

Só com muito sacrifício

Chega em casa de manhã

Até aí tudo bem. Só que é todo dia sim, outro também”.

Virou-se e avisou, letárgico, ao barman que pagaria pelo copo desde que ele lhe desse uma dose extra. Manteve-se olhando para o lado com o canto dos olhos, bebendo o álcool com avidez. Estava enlouquecendo! Perdendo o juízo ao sentir desejo por um homem – ainda que lindo -, mas um homem.

— Noite bonita, não? – ouviu a voz melodiosa e todos os pelos de seu corpo se arrepiaram. Começara a reagir fisicamente ao desejo pelo rapaz. – Venho de longe para ver o céu daqui.

— Sim. – apenas pode responder simplesmente, enchendo a boca com uísque. Curvou-se sobre a bancada do bar, o perfume dele lhe chegando às narinas, embriagando. Puxou uma carteira de cigarros e, ao tentar acender um, o isqueiro quebrou em suas mãos.

— Poxa, que azar, não? – novamente o outro lhe fez arrepiar. – Aqui, tome. – e então lhe estendeu um isqueiro com as mãos delicadas chamando a atenção do canceriano com força bruta. Negou com a cabeça, desistindo de fumar, e então a carteira caiu dentro do copo de uísque, como se alguém lhe desse um tapa na mão.

O riso suave foi ouvido.

“E tudo isso é culpa da mulher diabo

Que me persegue a noite em tudo que lugar.

Mas se não fosse pelo chifre e pelo rabo, não iria me aguentar”.

Pediu mais um copo, depois de tirar a carteira de lá e dizer inúmeros palavrões em italiano, sob o olhar atento. Inquieto, nervoso e ansioso, não viu o tempo correr mais lentamente do que o normal. O silêncio pairava entre ambos, apesar de sentir o olhar sobre si. Por fim, virou-se e o encarou, surpreendendo-se. O loiro não o olhava, parecia distraído com o próprio drinque azulado. O observou e, quase instantaneamente, começou a despí-lo com o olhar, imaginando a pele clara e alva entregue a seus toques, as unhas longas lhe arranhando as costas e a voz suave gemendo seu nome e pedindo por mais.

O loiro sorriu ladino, para a surpresa do italiano, instigando sua imaginação aos lábios rosados e volumosos, desejando beijá-los e mordê-los, puxá-los e fazê-los tocar sua pele também. Queria ver, especificamente, aquela boca gemer seu nome e aquela face se contorcer numa expressão de prazer entregue como nunca quisera antes.

“Qualquer um se intimida se for pego em seu olhar,

Sente toda sua sorte se esvair.

Tava bem até ali e já começa a ter azar

Do seu jogo você pode desistir”

Virou-se para ele, por fim, mas antes que pudesse dizer-lhe alguma coisa, o jovem louro já estava de pé e de costas para si. Caminhava dentre a multidão, sinuosamente, com seus quadris ondulando e seus cabelos louros reluzindo. Desta vez, menos do que antes, tudo pareceu parar.

Seguiu o louro com os olhos até que descobrisse para onde ele ia: aos braços de outro jovem. Não mais alto, tão belo quanto ele. Ruivo, com frios olhos avelã. Envolveram-se num meio abraço e um sorriso se formou no rosto do louro, diretamente para o canceriano. Ambos, lentamente, saíram do salão.

O jovem moreno sentiu uma nuvem de azar se formar sobre si, seu coração sangrar mais e sua cabeça doer, e, por um instante, poderia jurar ter visto um par de chifres e rabo em cada um dos dois rapazes.

Só pôde voltar a realidade quando ouviu a música tocando ao longe, balançando a cabeça, confuso. Virou-se para pedir mais uma dose de uísque.

Então, de repente, a lâmpada acima de si estourou sem motivo algum antes de seu pedido ser feito.

“Ela vai embora deixando os bebuns pra trás

E o rastro de caos, de destruição.

Você olha esse rapaz arrasado, incapaz

De pensar em qualquer outra solução”.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!