Angel of Light
22 Vinte e Dois
Notas iniciais
Loki estava sentado na sua nova poltrona de couro. Não era couro de verdade, mas foi o máximo que conseguiu barganhando com um dos vizinhos de Selvig. Um pouco da sua manipulação e logo a poltrona estava esterilizada e no seu quarto. Pegou uma caneca de chá e decidiu ver o que Stephen e Wanda estavam fazendo.
Não se surpreendeu com a cena como a primeira vez, eles estavam ficando bastante atirados um com o outro. Era normal em um casamento, a sua mãe uma vez disse.
Mãe.
Frigga era a sua fraqueza, a lembrança dela. Wanda seria mãe dali a alguns anos, de quatro crianças com aptidão para lidar com o poder das Joias do Infinito.
Agora Rodrick precisava ser rápido ou Wanda logo descobriria quem ele era a partir do livro que ela estava estudando.
[...]
Quando viu Victor na cozinha no dia seguinte de ter feito coisas muito suspeitas com Wanda, na casa dele e que um dia foi dos pais deles, procurou não olhá-lo nos olhos. Não tinha como olhar para ele depois que Amy bateu na porta do quarto que estava dividindo com Wanda e perguntar se ela estava machucada. O seu irmão respondeu à filha que Wanda estava sentindo muitas dores na noite anterior. Precisou sair fugido antes que Victor o confrontasse e pedisse que não fizesse mais aquilo debaixo do seu teto.
Na chegada ao Sanctum, Wong o olhou severo por ter se ausentado por muito tempo. Não deveria estar tranquilo, deveria estar se preocupando com o treinamento de Wanda e o perigo em potencial que poderia vir de Rodrick. Não tinha como esconder os jornais de Wanda já que ela era tão independente que comprava os seus próprios. O seu temor era ela querer investigar aquilo se ambos tivessem certeza de que ele era uma entidade daquelas.
Também sabia que era o seu primeiro dia de volta ao hospital. O primeiro dia de volta, o dia que todos o veriam depois de alguns meses relativamente sumido. Não via alguns deles desde o último baile beneficente que participou. Precisava tirar isso da cabeça pois isso trazia de volta memórias de Christine Palmer e não queria que ela povoasse os seus pensamentos, ela não merecia.
Wanda colocou no bolso do seu casaco o cartão do metrô que ela usava para dar as suas escapadas. Foi para o trabalho de metrô como qualquer outro funcionário do Metro General. Ainda estava se reacostumando com o transporte púbico cheio àquela hora da manhã.
Ao chegar, passou bons minutos olhando para a entrada de emergência simples do hospital. Tinha sido contratado por um terço do que ganhou um dia e sabia reconhecer que o conselho havia sido inteligente ao associar o seu nome novamente ao local. Aqueles que o reconheceram ao passarem, não o cumprimentaram, isso era resquício do que havia sido um dia ali. Estavam com medo ou vergonha alheia? Não sabia perceber, mas Wanda saberia lhe dizer exatamente o que cada um sentia e tinha consciência de que isso estava se amplificando nela.
Ergueu a cabeça, empurrou a porta de vidro e entrou. Andou até onde poderia registrar o seu ponto diário e pressionou o polegar no relógio da parede. Sabia que caminho tomar, só nunca havia tomado antes, não era preciso. A porta branca com placa sinalizava que ali era o vestiário. Tinha direito a um armário grande para colocar as suas coisas. Abriu a porta de metal do seu armário e a muda de pijama cirúrgico o deixaria igual a todos. Igual a Nick West, igual a Christine Palmer. Hora ou outra encontraria com ambos já que agora era a sua emergência agora.
“Não achei que o veria tão cedo, Strange”, a voz ensossa de West falou. “Bem-vindo de volta?”, o deboche veio em pergunta.
“A vida dá muitas voltas, West. Eu só acabei no ponto que comecei. Ou comecei no ponto que acabei? Não entendo os ditados”, mentiu, debochando junto dele.
“Ainda prepotente”, o outro médico falou.
“Como vai Christine e o filho de vocês?”, perguntou.
O rosto de Nick West estava frio. “No que diz respeito ao meu filho e à minha namorada, você não tem nada a ver. Estamos entendidos?”.
“Mais do que entendidos, eu não tenho porque me preocupar com vocês. Tenho uma emergência para tomar conta”, respondeu. Poderia ter dito que tinha o seu lado do multiverso para tomar conta também, mas dessa vez deixaria West se contentar com esse pouco de vitória.
Trocou de roupa e Wanda tinha razão quando dizia que azul lhe favorecia. As suas mãos ainda estavam tremulantes, o ato de calçar o seu próprio tênis de volta era árduo. O seu novo jaleco estava em um cabide de plástico dentro do armário e estava meticulosamente passado. Dr. Stephen Strange, seria chamado mais uma vez de Doutor Strange por todos e sabia que isso parecia ser mais certo do que Mestre Strange. Só parecia não importava porquê.
O estetoscópio foi colocado no bolso junto do seu celular, um bloco de notas e uma caneta esferográfica. O seu crachá foi posto no bolso jaleco junto do bipe que não usava há anos. Sabia que a sua responsabilidade era a emergência, mas ainda era cedo e o plantão não havia começado direito, poderia dar uma voltinha da galera da Neurocirurgia antes de ir para casa, para ver o que realmente gostava de ver.
O cheiro característico de hospitais parecia uma droga, estava sentindo mais uma vez parte daquilo e se sentindo inebriado, pertencente. Afastou a manga do jaleco, viu no relógio que Wanda havia lhe dado como presente de Natal e suspirou por conta do horário. Mais um pouco de devaneios e se atrasaria para esse primeiro dia.
Andou não prestando muita atenção até que esbarrou em alguém e sentiu o líquido quente que essa pessoa bebia se chocar contra a sua roupa. Aquilo estava muito quente.
“Strange”, Christine Palmer falou. Quando a olhou, viu a barriga saliente de cinco meses de gestação. “Eu não estraguei as suas roupas, é só água quente, eu ia tomar um chá”, ouviu.
“Até”, tentou finalizar, mas Christine o segurou pelo braço.
“Não tivemos chance de conversar, você não foi muito razoável quanto a isso”, ela disse.
“Quanto a você?”, perguntou. “Quanto ao seu filho com Nick West? Acho que fui bastante razoável em só ficar com os vinte dólares que você esqueceu na minha casa”.
“Me desculpe”, ouviu Christine pedir.
“O que eu puder desculpar, está desculpado. Agora chega, por favor. Mantenha a sua Regra Strange porque eu mesmo manterei distância de você”, disse duro.
O trunfo do seu casamento com Wanda seria usado depois, por agora Christine não merecia nada mais que as frias cortesias de uma relação de colegas de trabalho que não se conheciam. Se todos os dias fossem assim, torcia para que os plantões terminassem logo pois voltar para o Sanctum, para Wanda, ainda era algo que lhe fazia bem.
[...]
Como poderia deter alguém que poderia lhe matar durante o sono? Que poderia lhe paralisar e plantar uma cena que o despedaçaria para que a sua vontade se esvaísse e a sua alma ficasse mais propensa à morte?
Viu no Bulletin as reportagens de Karen Page sobre uma séria de mortes infantis em Hell’s Kitchen. Todas as vítimas eram crianças no intervalo de uma morte por semana. Não entendia porque faziam isso com crianças. Eram crianças, não tinham a maldade do mundo, que tipo de perigo poderiam oferecer?
A primeira morte havia sido de uma tal Elena Trovejo, moradora de um prédio perto em uma das ruas principais, venezuelana. A segunda havia sido Marcos Kokama, um menino brasileiro. A terceira havia sido G’Boya Thum, wakandano. Crianças pequenas, refugiadas de países que viviam cenários políticos desastrosos e precisavam recomeçar a vida. Se fosse uma criança, tivesse os seus pais e Pietro ainda e estivesse fugindo da guerra civil que assolava o seu país, também poderia ter sido uma vítima desse assassino.
Karen Page havia escrito que ele assinava os seus crimes como Mestre dos Brinquedos e deixava uma miniatura de animal entralhada em madeira com o seu codinome na cena do crime. Parecia tão fácil e acessível, não entendia muito de investigação forense ou qualquer outro tipo, mas parecia que ele estava brincando com todos.
Respirou fundo e recolheu o jornal, depois juntaria esse aos outros e começaria a tomar notas. O modo de operar desse tal Mestre dos Brinquedos não parecia ser ordinário, poderia ser algo relacionado ao próprio Sanctum. Ainda era uma aprendiz, sabia, mas poderia fazer alguma coisa se se mantivesse em silêncio absoluto. Com Stephen de volta ao trabalho, teria tempo de sobra para investigar o que quer que seja que esse assassino esteja fazendo.
Se sentia um pouco culpada por fazer Stephen retornar ao trabalho mesmo sem poder. Era exigência do governo que ele trabalhasse já que não poderia até obter o seu visto de permanência. Ele parecia ansioso e estranhamente satisfeito por estar se arrumando para sair, estava voltando a fazer o que gostava mesmo sob tais circunstâncias incomuns. Ele tomou café da manhã entusiasmado, sentiu, e saiu de casa mais entusiasmado ainda. Só não sabia o quanto disso era saudável para ele, para o relacionamento deles.
Subiu até o seu quarto e pegou o livro que estava trancado dentro do criado-mudo. A capa era hostil, escrita em grego e não sabia ler aquilo, mas o conteúdo dentro era totalmente em inglês. Quem traduziu aquilo manteve uma capa bem própria à original, então. Tinha um marcador de literatura de fantasia na página em que havia parado. O seu caderno de anotações vermelho e a caneta de bichinhos que havia ganhado de Natal de Amy e Donna. Estava perto de ter que devolver aquele livro e temia que ele sumisse da estante de Wong.
Na página que abriu, viu a variedade de habilidades que os Divididos poderiam ter e citava alguns que haviam feito parte da História do mundo.
Citações sobre o reinado de Eduardo da Inglaterra e alguns outros nobres britânicos e asiáticos lhe levava mais ainda a crer que poderia estar interagindo com um desses Divididos e não sabia. Precisava estudar um pouco mais sobre a colonização britânica na Ásia para poder entender como eles conseguiram atravessar o mundo em tão pouco tempo. E também precisava estudar se todos os que existiam, se existiam muitos, faziam parte a mitologia judaico-cristã.
O trabalho de uma vida e isso cansava antes mesmo de começar a trabalhar.
Se levantou, foi até a geladeira e abriu o eletrodoméstico. Estavam quase sem comida e estava com fome. Olhou para o relógio na parede e viu que era quase hora do almoço. Já que Stephen almoçaria no trabalho, guardaria as suas forças para fazer o jantar e ficaria com a preguiça no momento. Pegou um resto de torta de chocolate que Glenda havia mandado e ninguém saberia que aquilo seria o seu almoço, nem Wong contaria a Stephen. Pegou um garfo na gaveta de talheres e deixou o que estava nas suas mãos tremularem quando sentiu a energia que rondava o Sanctum mudar.
Sentiu a mudança de temperatura no ambiente, a cozinha ficou um pouco mais fria, como se tivessem aberto uma das janelas. Deixou a sua comida em cima da mesa e seguiu a mudança sem conseguir encontrar um fim ou começo para ela. Poderia ter sido apenas uma impressão do lugar, ainda estava se acostumando com as relíquias e a energia que cada uma possuía já que a cozinha ficava exatamente embaixo da Sala das Relíquias. Deveria subir para ver se estava tudo bem por lá?
Subiu as escadas determinada e caminhou até a Sala das Relíquias. Estava tudo certo lá, inclusive a rede de rubis estava no lugar. Se alguém leigo roubasse o Sanctum, faria um bom dinheiro com aquela rede, os rubis ainda lhe pareciam verdadeiros.
Desceu para a cozinha e se achou um pouco tola ao imaginar que algo poderia estar acontecendo. Tocou as paredes levemente e sonhou com a sua torta de chocolate. Era uma delícia e logo estaria nos seus lábios, só não era tão bom quanto beijar Stephen. Esperava que ele pudesse estar em casa logo para poder beijá-lo e, quem sabe, fazer amor mais um pouco como haviam feito durante quase toda a noite. Ela e Stephen estavam começando a se construir juntos e sabia que tudo seria mais fácil assim. Era a sua vida assim.
Ao colocar o primeiro pé na cozinha, percebeu que não era tão tola assim. O livro sobre os Divididos havia sumido de cima da mesa assim como a sua torta de chocolate. No lugar, em cima do seu caderno vermelho, havia uma boneca de madeira no seu formato e pintada nas cores do traje que usou algumas vezes quando ainda era uma Vingadora. Nos pés havia uma plataforma retangular que continha o seu nome escrito em sérvio. Abaixo, o nome que menos esperava. Quando leu todas as letras, deixou o brinquedo cair no chão e se pôs a chorar silenciosamente.
Mestre dos Brinquedos.
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