Angel of Light
32 Trinta e Dois
Notas iniciais
Submeta-se, Stephen. A mudança é a chave. O tempo é mutável.
Desde que ouviu as palavras durante o sono, vindas a partir da voz da Anciã, Stephen teve dúvidas do que elas poderiam significar. O tempo estava em constante mudança, era claro, nem tudo é o que parece até que as ações escolhidas provoquem a mudança no estado das coisas. O que era hoje, poderá não ser mais no dia seguinte e assim por diante. No seu sonho a Anciã estava sentada com ele no salão do Kamar-Taj, lhe ensinando mais uma vez. Não poderia se dar ao luxo de devanear bastante sobre o que fosse isso, pelo menos não no momento atual.
O barulho do chuveiro do andar térreo do Sanctum de Nova York era moderado quando ouvido do lado de fora. Quando Wanda o chamou no quarto, rapidamente Black pulou por cima da sua barriga para ver o que a mãe dele queria de tão importante e isso ainda estava doendo um pouco. Agora o cachorro preto estava sentado e rosnando baixo para quem estivesse lá dentro.
“Quem é ele, de novo?”, perguntou irônico.
“O Punho de Ferro Imortal”, Wanda rebateu no mesmo tom. “Ele disse que veio de K’un-Lun. Você já ouviu falar de K’un-Lun?”.
“É uma cidade mística, uma das sete capitais dos céus. Acesso extremamente restrito, o portal só se abre a cada quinze anos”, disse aborrecido. “Se ele realmente fosse o Punho de Ferro Imortal, ele estaria protegendo a entrada de K’un-Lun, não perambulando por Nova York”.
“Ele também disse que era o Inimigo Declarado do Tentáculo”.
“Acho que não cheguei a ler sobre o Tentáculo ainda, preciso buscar fontes. Fora aqueles que os polvos têm, não vi menção nenhuma desse Tentáculo nos livros aqui do Sanctum”.
“Achei que você fosse Mestre das Artes Místicas”, ela riu. Notou como ela cobriu a boca e comprimiu os olhos, engolindo algum nó que na garganta se formava.
“Doutor e você sabe disso. Há algo de errado com você”, já havia notado como Wanda parecia diferente nos últimos dias. Se levasse em consideração tudo o que aconteceu no último mês e em como ela conseguiu dilacerar a vida de um anticristo, bom, era normal que ela estivesse tão diferente.
“Não há nada de errado comigo”, a voz dela embargada denunciava o contrário.
“É melhor irmos para a cozinha, antes que o Sr. Punho Brilhante apareça aqui e nos veja espionando o banho dele”, estendeu a mão para Wanda e ela aceitou. “Venha, Black, vamos ver o que o Wong fez para você jantar já que, aparentemente, ele gosta mais de você do que de mim”.
Andou lentamente com Wanda até a entrada da cozinha e viu a mesa posta com quatro lugares e a tigela de comida de Black ao lado da mesa para que ele pudesse jantar com eles também. Riu disso e viu o seu amigo já levando a panela com molho para a mesa. Pelo menos o jantar seria italiano.
“Farfalle, adoro essas gravatinhas”, riu enquanto se sentava.
“É molho de queijo, Wong?”, Wanda perguntou parecendo um pouco nauseada com o cheiro da comida.
“Você nunca ficou assim com o cheiro da minha comida, Wanda”, Wong reclamou.
“Eu só não estou muito bem, acho que precisamos para de comer no The Royal Dragon”, ela deu de ombros. Wanda estava definitivamente estranha.
“Com licença, mas aonde eu poderia colocar essa toalha de banho molhada?”, a voz masculina do garoto ecoou no corredor. Ele parecia envergonhado de ter feito uso dos aposentos do Sanctum. “Mais uma vez obrigada pela ajuda, Mestre Strange”.
“É Doutor Strange, garoto”, respondeu retornando ao seu estado inicial de aborrecimento. Movimentou uma das mãos e logo a peça felpuda desapareceu nas mãos o Punho de Ferro. “Venha, sente-se, você está com cara de que não come uma refeição decente há muito tempo”.
“Em K’un-Lun as refeições são perfeitamente balanceadas mesmo sem adição de carne, então eu diria que comia decentemente”, ele rebateu.
“Você pode se sentar aonde quiser já que só temos dois lugares disponíveis”, ironizou.
“Por que o senhor responde sempre assim?”, o Punho de Ferro rebateu.
“Com ironia? Acho que é uma reação natural do meu corpo a pessoas que batem na porta do meu Sanctum sem se apresentarem devidamente e sem apresentarem motivos plausíveis para justificar um pedido de asilo”, estava começando a abrir a ferida do rapaz, via nos olhos dele. “Eu preciso saber quem você é, só deixei você ficar porque eu confio no selo de aprovação da minha esposa”.
“Sua esposa? Ela não é meio jovem para ser casada com você?”, atiçou.
“E você não meio jovem para ser o Punho de Ferro Imortal?”, o rapaz atiçou de volta.
“Eu já disse, eu sou Danny Rand, o Punho de Ferro Imortal...”
“Protetor de K’un-Lun e Inimigo Declarado do Tentáculo, eu sei. Do meu casamento cuido eu, cuidado com a língua, garoto. E pelo que eu me lembre, os Rand morreram em um acidente aéreo nos Himalaias há quinze anos. Quando eu digo todos, quero dizer que o pai, a mãe e o filho deles não sobreviveram à queda do jato particular”.
“Se eu não tivesse sobrevivido, eu não estaria aqui”, agora o aborrecido era o garoto.
“Vocês dois querem parar com isso? Estão estragando o jantar!”, Wanda vociferou ao seu lado e segurando o seu braço. “Você disse que confiava na minha aprovação, então eu aprovo e comprovo que ele é quem diz que é, Stephen, eu sinto. Faça um pouco de esforço e deixe-o ficar aqui”.
Incrédulo, olhou para Wanda e viu nela algo diferente. Estava um pouco mais feroz que o de costume, chamando o garoto para ficar ali.
“Você sempre disse que o Kamar-Taj estaria lá para quem precisasse de ajuda. Você não me negou ajuda quando eu precisei”, Wanda falou categórica.
Não estava acreditando no que estava prestes a fazer, muito menos acreditava nas palavras que estava prestes a proferir.
“Você parece forte e bem treinado se é quem diz que é. Pode ficar aqui por um tempo até arranjar alguma coisa para você mesmo”, soltou.
“Muito obrigada, Mestre Strange!”, Danny vibrou à sua frente.
“É Doutor Strange, garoto! E mais três coisas: você fica longe das relíquias, você fica longe dos livros de feitiços e você fica longe da minha esposa. Fui claro?”, intimidou.
Danny assentiu com a cabeça. Wong ria servindo a pasta no prato dele. Precisava investigar sobre essa história toda do filho dos Rand ter sobrevivido. Se lembrava do acidente e nunca sequer ouviu falar de um garoto branco morando com os monges nos Himalaias.
[...]
Ainda tentava descobrir a que tinha que se submeter já que o tempo era uma espécie de chave e ele mudava. Nada disso fazia muito sentido.
Conseguiu ouvir o barulho do bebê dinossauro dentro do banheiro, ele estava vomitando a própria alma e o que tinha ou não no estômago. Wanda estava esquisita há semanas e já desconfiava do que poderia ser.
Wanda saiu do banheiro e notou como ela parecia pálida. Estava com medo de confrontar e ter uma resposta que não seria considerava a sua favorita para o momento. Só se sentou na cama e colocou as mãos nos bolsos do paletó. Em um deles, tocou o pacote plástico que tinha afanado da emergência do Metro-General.
“Você está melhor?”, perguntou.
“Sim, foi só alguma coisa que eu comi”, Wanda respondeu. Ela se sentou ao seu lado e descansou a cabeça no seu ombro. “Você já considerou parar de usar esse perfume?”
“Você sempre gostou desse perfume, Wanda, o que aconteceu?”, tinha que começar por algum lugar.
“Eu já disse que não foi nada, Stephen. É só um mal-estar passageiro”.
“Você já está com esse mal-estar passageiro há mais de uma semana, o que você está escondendo de mim?”, continuou.
“Não estou escondendo nada, por que isso agora?”, sentia como ela estava começando a ter o ânimo parcialmente exaltado. “Eu vou melhorar”.
“Se você estivesse com uma virose, você já estaria melhor. Se você estiver com uma intoxicação alimentar, você só vai melhorar com antibióticos. Vista-se, nós vamos para o Metro-General agora, as enfermeiras vão adorar conhecer você”.
“Stephen, eu vou melhorar...”, Wanda também estava tentando.
“Quando você for comigo ao hospital, descobrir o que você tem e receber tratamento, aí sim você vai melhorar. Ande, vista-se, eu vou falar para o Wong ficar com o Black até voltarmos”.
“Não precisamos de tudo isso, eu vou melhorar”, Wanda estava bastante teimosa.
“Eu tenho uma teoria”, disse. Tocou a embalagem do que mais temia usar mesmo sabendo que seria necessário. Tirou o pacote pequeno do bolso e mostrou a Wanda. “Você só precisa urinar nisso aqui”.
Estava se sentindo violentando Wanda por sugerir essa possível gestação. Tinha muito clara ainda a lembrança de ter visto o seu futuro com ela e ela estar grávida agora não fazia muito sentido. Era isso que a Anciã queria dizer com se submeter para ver o tempo mudar as coisas?
“Wanda...? Você vai fazer o que eu pedi?”, insistiu.
Relutante, Wanda pegou o teste de farmácia da sua mão e andou até o banheiro um pouco aborrecida. Aborrecida ou apreensiva. Tinha que esperar cinco minutos, então teria tempo suficiente para divagar sobre como a sua vida mudaria.
Ah, sim, queria poder dar um soco nas suas bolas por ter conseguido engravidar Wanda no primeiro semestre de casamento.
Algo não estava certo, sentia. Se havia visto o seu futuro com Wanda, como ela poderia estar grávida justamente agora? O tempo era uma coisa maravilhosa e perfeitamente mutável. Deveria ficar feliz mesmo ainda querendo mutilar a si mesmo. Tinha se apegado tanto à ideia do que viu tinha se esquecido de como as coisas poderiam tomar rumos diferentes no decorrer do trajeto. Mas se Wanda estava grávida agora, isso também poderia significar que algo aconteceria num futuro não tão longe assim. Pelo sim e pelo não, teria que descobrir o que fez a sua esposa estar assim.
Ouviu o barulho da descarga do banheiro e agora era só esperar.
Tocou o bolso interno do paletó e sentiu o seu frasco de calmantes. Não queria se dopar, mas sem isso não conseguiria dormir à noite assim como nas outras anteriores. Se serviu da água que estava na moringa em cima do criado-mudo da cama e engoliu um comprimido pequeno.
Olhou no relógio da mesinha: quatro minutos.
Respirou fundo, conjurou um chá ao lado do seu copo e começou a retirar as suas roupas. O seu ombro ainda estava dolorido e ainda estava se recuperando, não poderia se esquecer disso. Os flashes do que Rodrick lhe mostrou, as sensações... tudo ainda estava muito presente na sua vida. Todas as vezes que fechava os olhos espontaneamente, sentia que morreria com a possibilidade de ser assombrado por Donna de novo.
Olhou no relógio da mesinha: três minutos.
A sua mente continuava confusa sobre o agora. Conceitos como o antes, o agora e o depois eram relativos em se tratando do que poderia ver pelo Olho de Agamotto. Queria poder entender. Queria poder não pensar nisso agora. Queria poder aproveitar esse momento com Wanda. Desejava não ter mexido com a Joia do Tempo na manhã depois do seu casamento. Agora tinha dúvidas, tantas dúvidas.
Olhou no relógio da mesinha: dois minutos.
O seu coração estava para sair pela sua boca. Sentia um leve engasgo. Ah, a antecipação. Estava sofrendo por antecipação. Desabotoou lentamente a camisa social e a tirou para deixa-la junto do paletó no cesto de roupa suja depois. Tirou a camisa branca, desafivelou o cinto e abriu o zíper da calça social. Parecia que tudo estava lhe apertando e sufocando o seu corpo.
Olhou no relógio da mesinha: um minuto.
Passou as mãos nos cabelos e notou que elas tremulavam mais que antes. Com o seu emocional abalado desde a estranha morte de Rodrick Errol-Wing, nada mais parecia normal. Ele não falava, Wanda não falava, Wong não sabia de nada... era para ser fácil assim? Não deveria.
Ouviu a porta se destrancando, a do banheiro, e Wanda logo veio segurando a fita branca que deu a ela. O olhar baixo, os ombros caídos... ela já sabia! A garota se sentou ao seu lado e entregou o teste na sua mão. Um xis dentro de um círculo.
“Há quanto tempo você sabe?”, se atreveu a perguntar.
“Desde que o Danny veio pedir ajuda aqui. Cinco minutos antes, precisamente”, a resposta estava arrastada. “Você está com raiva de mim”.
“Não é raiva, nem frustração, nem nada disso, é só... sei lá, isso aconteceu tão depressa”, tentou justificar. “Eu já tinha notado você mais estranha, você nunca foi de dormir no meio da tarde e de repente eu ligo para cá e o Wong diz que você está tirando um cochilo na poltrona ou já está dormindo quando eu chego. Agora você está colocando para fora até o que não tem no estomago e isso é normal para o primeiro trimestre”.
“Você não está chateado comigo?”, agora ela perguntou.
“Eu estou surpreso e tentando não surtar, mas sigo bem”, riu para quebrar o gelo. “Por que você escondeu isso de mim?”.
“Porque eu achei que você ia surtar. Eu olhei na internet que não é bom contar a ninguém nas primeiras semanas”, Wanda divagou.
“Sério? Com um médico de verdade dormindo na sua cama todas as noites e você decide esconder dele e se consultar online? Nada de ruim vai acontecer com você”, prometeu.
“Ou com o bebê”, poderia corrigir, mas não parecia muito educado ou sensato incitar a raiva em Wanda. “Nós somos três agora”.
“Quatro com o Wong”, adicionou.
Wanda se deitou na cama e decidiu fazer o mesmo. “Você está feliz?”, ela perguntou receosa.
“Eu nunca me imaginei com uma esposa e aqui está você. Se eu nunca me imaginei com uma esposa, provavelmente eu não nunca me imaginei sendo pai ou algo assim. É tudo muito novo”, não queria preocupa-la.
“Você não me respondeu se está feliz”, Wanda pontuou.
Se virou para observá-la e percebeu que os dedos jovens acarinhavam o baixo-ventre timidamente. Temeroso e ainda um pouco trêmulo, fez o mesmo.
Pegou o seu celular de cima da cama e destravou a tela. Buscou o número de Billy. “O que você está fazendo?”, Wanda parecia confusa.
“Você precisa ir ao médico, Billy vai arranjar alguma coisa para amanhã ainda”, encontrou e discou.
Só esperava poder encontrar as respostas que procurava logo, tinha que desvendar tudo agora que descobriu a subjetividade dos próprios olhos. Se lembrou das palavras e se permitiu divagar sobre o paralelo entre elas e a sua atual situação.
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