Angel of Light
7 Sete
Notas iniciais
Estava gostando de ouvir música nos seus novos fones de ouvido, eles abafavam tudo o que estava no exterior e podia se concentrar na sua música e em suas anotações. Estava rabiscando desde as quatro da madrugada, não havia conseguido dormir muito bem. Sempre acordava suando frio e com aquelas três palavras ecoando na sua cabeça.
Para mim chega!
Não sabia o que isso poderia significar, mas pesquisaria. Algumas culturas acreditavam que o futuro poderia ser visto através dos sonhos, só não tinha certeza se poderia confiar no tal futuro que via.
Antes de começar os seus rabiscos, deu uma olhada no que a internet poderia fornecer sobre demonologia. Muitas das pesquisas citavam Ed e Lorraine Warren como autoridades na questão sobrenatural. Os mesmos Ed e Lorraine dos filmes que assistiu com Scott. O caso de Harrisville aparecia no topo da página de pesquisa, depois descia para o de Londres, o caso da boneca Annabelle e vários outros menores. Queria muito poder comprar o livro de Ed, O Demonologista, parecia ser bastante instrutivo. Levando em consideração que eles conseguiam lidar com seres não-humanos sem magia, talvez fossem realmente pessoas espetaculares.
Anticristo é um termo comumente utilizado para designar aquele que se opõe a Cristo. A maioria das pessoas, dentro e fora da igreja, acredita que ele virá para dominar o mundo.
Riu dessa parte. Tantas pessoas e coisas já haviam tentado dominar o mundo, o anticristo não seria o primeiro e muito menos o último a tentar fazê-lo. Deixou a caneta um pouco de lado e estralou os dedos, estava ali há mais tempo do que pensava. Já amanhecia do lado de fora das janelas e logo teria de retornar ao Sanctum para se trocar e iniciar para o treinamento.
Anticristo, para outras culturas alternativas ou ramificações da doutrina cristã, é representado apenas pelo filho de um demônio com um ser humano.
Finalizou as suas anotações até o momento e continuou ouvindo as suas músicas enquanto saía do Kamar-Taj, apenas para depois voltar. Subiu as escadas e nada de Stephen estar de pé ainda. Ouviu um barulho estranho vindo do quarto dele na noite passada e julgou ser apenas ele e a mulher da outra vez se divertindo. Nesse ponto Sam acertou no presente.
Olhou fixamente para os portais naturais que estavam na parede do fundo e cada um deles estava diferente. O primeiro estava branco de neve do Everest, o segundo estava amarelado pelas areias do deserto do Saara, já o terceiro estava verde pelas florestas tropicais da América do Sul. Sabia que não deveria mexer no que não devia ou sabia operar, mas quis ver o cinzento dos alpes sokovianos mais uma vez.
Hesitantemente, Wanda fechou os olhos e tocou o botão, girando-o para a direita. Quando abriu os olhos, foi como se nunca tivesse saído de lá, de Sokovia. Ainda falava em silêncio algumas palavras do seu idioma materno, não sairia de si. Todas as línguas eslavas eram parecidas e diferentes ao mesmo tempo, era normal algum desavisado confundir o que estava dizendo com sérvio. Os alpes continuavam belos, cinzentos. O Lago da Esperança continuava lá, límpido e reluzente.
De certa forma, o sentimento de observação passava quando estava presa na sua bolha musical. Tinha descoberto uma banda nova, estava ouvindo muito e uma das músicas deles dizia exatamente o que sentia.
Se virou e o seu coração quase parou quando viu a figura parada ao seu lado, observando aquilo tudo junto de si.
“Ah, meu deus, você quer me matar?”, perguntou enquanto tirava os fones de ouvido. De tão bons, não havia ouvido Stephen se aproximar, nem sentiu quando isso aconteceu.
“Absolutamente não. Só não achei que deveria interromper o seu momento. Está pronta para treinar? Ficaremos aqui hoje”, ele disse bocejando. Stephen não estava em condições de treinar, parecia que ele não havia dormido à noite e sabia que ele ficava mal-humorado quando isso acontecia.
“Eu só preciso me trocar”, disse.
“Ah, sim, você gosta de treinar naquelas suas roupas de ginástica. Sim, sim, mas não demore”, ouviu e saiu dali, indo em direção ao seu quarto para deixar os seus livros e mudar as suas vestimentas.
Já vestida, voltou para onde estavam e Stephen já estava sentado na poltrona. Ele fez para que se sentasse junto dele na outra poltrona e ergueu um campo azulado, muito claro, quase translúcido. Ele bateu com dois dedos naquilo e logo lhe pareceu vidro pelo barulho que fazia. Depois a cor sumiu, era como se nunca tivesse existido um campo ali.
“Acerte isso”, ele falou depois de se acomodar novamente na poltrona.
“Como?”, perguntou ainda sem saber o que ele tramava.
“Como quiser”.
Sentiu as estáticas se movimentando rubras nas suas mãos e atingiu o vidro. Ele não se trincou nem nada. Fez novamente. E novamente. E novamente. E nada.
“O que é isso?”
“Um escudo. Se treinar com afinco, poderá fazer um igual em pouco tempo. O objetivo desse escudo era mostrar a você que a magia serve para a sua proteção. Um dia a sua vida pode depender dela, assim como um dia já dependeu das suas outras habilidades”.
“E como eu aprenderei a fazer um escudo?”
“Do mesmo modo como aprendeu a fazer os seus escudos de energia. Com a mente. Você já sabe fazê-los, só precisa deixar que a outra magia aflore isso”, Stephen falou atravessando o seu escudo como se um vidro estivesse se partindo em mil pedaços. “Você tem o dia todo para treinar, acha que consegue dar conta?”
Não sabia se conseguiria de uma hora para outra, mas tentaria. Suspirou, o seu trabalho estava apenas começando.
[...]
Só queria poder se isolar um pouco, mas era impossível quando existia uma jovem que gostava de rock e o ouvia pesado em um dos quartos do seu Sanctum. A ouviu baixando as músicas de madrugada, quando não conseguiu pregar os olhos. Ainda conversaria com Wanda sobre a saída dela no dia anterior, mas agora não era o melhor momento para isso.
Tinha treinado com Wanda quase que o dia todo e pelo fim da tarde ela começou a dar indícios de que só conseguiria fazer um escudo pelo menos decente no dia seguinte. Isso não significava que ela estava estagnada por não conseguir isso em um dia, significava que estava fazendo progresso e que continuaria progredindo nos próximos dias. Para ela ainda era difícil separar o místico do poder que havia recebido da Joia da Mente e se ela, aos poucos, estava conseguindo entender que eram quase a mesma coisa e mesmo assim diferentes, era sim um progresso.
Não conseguiu comer nada naquele dia inteiro, o susto da noite anterior não havia deixado com que dormisse e talvez não o deixasse dormir novamente. Sentia uma dor de cabeça intensa e parecia que todo o seu rosto doía. Músculos e pele não lhe obedeciam quando queria descansar.
Serviu um copo de uísque barato. Sem gelo. Puro. Precisava que isso pesasse alguma coisa em si. Se arrependeria no dia seguinte, mas aquele uísque foi a única coisa que conseguiu comprar por vinte dólares. Os mesmos vinte dólares que Christine havia esquecido no criado-mudo do seu quarto antes de ela lhe contar o que aconteceu entre ela e Nick.
Achou que foi ingênuo até para ele mesmo acreditar que Christine e Nick não tinham dormido juntos. Agora uma verdade crescia em Christine e dali a sete meses daria o ar da sua graça no Metro-General Hospital na ala obstétrica. Se a conhecia bem, o nome dela estaria primeiro no registo de nascimento do filho dela, Palmer-West, embora não achasse que seria um bebê muito bonito já que conhecia bem a cara do pai.
Bebeu o conteúdo do seu copo na cozinha e já tinha passado da hora do jantar. Já tinha comido no Kamar-Taj com Wong e Wanda estava socializando um pouco com magos de outros países, ela precisaria desse contato. A interação era necessária para que tivesse um melhor aprendizado, as teorias de desenvolvimento e aprendizagem da educação diziam isso.
“O que houve com você?”, a única voz feminina daquela casa perguntou.
“A decepção nos atinge de modos diferentes”, filosofou.
“E quem disse isso?”, ela perguntou.
“Strange, Stephen. Com um copo de uísque cowboy nas mãos. Ih-há”, falou rindo, sendo sarcástico consigo mesmo. Ouviu Wanda rir também, gargalhar até começar a lacrimejar. “É verdade, Wanda. É o garoto de Nebraska falando agora”.
“Você veio para cá há muito tempo?”, a ouviu perguntar. Sinceramente, não queria falar de si, mas era melhor do que pensar em Christine.
“Quando vim fazer faculdade. Eu me apaixonei pela medicina aqui. Outros fatores fizeram com que eu me apegasse à área, mas em suma, sim, vim para cá com dezoito anos e a mala cheia de sonhos. Foi uma daquelas músicas que você ouviu que disse isso, não eu”, confessou.
“Você ainda tem família?”, ah, isso não teria mais fim.
“Não. Nenhum parente vivo”, foi a única coisa que respondeu.
“Não somos tão diferentes, então”, notou a amargura na voz de Wanda. Ela ficou alguns segundos em silêncio até ter forças para falar novamente. “Eu senti o Pietro morrer. Eu não sei como, eu só senti. Todas as balas que atravessaram o corpo dele, eu senti todas elas. Eu senti o coração dele parar de bater. Ele morreu na hora e salvou Clint e um garoto. Ele foi um herói, não eu”.
Não queria ter ouvido isso, só o fez se sentir ainda pior. A dor de ter recebido aquela notícia de Christine não foi um décimo se comparada à dor que a garota ao seu lado. Talvez instintivamente, passou o braço pelos ombros de Wanda e a trouxe para mais perto, sentindo o aroma de campo do shampoo dela. Fechou os olhos e sentiu um pouco do que ela sentia.
Dor.
Sofrimento.
Mágoa.
Ela sentia isso e mais, e ainda assim tinha espaço para pessoas queridas como o Capitão América, o Falcão, o Gavião Arqueiro, um outro homem de olhos azuis e uma garotinha. Até o deus asgardiano Thor estava lá. Sentiu um pedaço pequeno e ainda em expansão por Wong e um do mesmo tamanho por ele mesmo. O seu ego se inflaria por saber que era estimado por uma garota como Wanda. Apoiou o queixo na testa dela e apenas ficaram ali. Sabia que todo o seu tormento não se comparava ao dela.
“Você não pode sair e não me avisar. Você está de volta a Nova York, mas ninguém sabe disso. Se virem você, talvez não tenha chance de fugir. Eu nem gostaria que saísse, você não pode se expor, é como se não tivesse mais autorização para estar no país. Qualquer passo em falso, você pode ser deportada para eu não sei onde e você ainda não sabe fazer um portal de emergência. Não estou brigando com você, só acho que se está sob a minha responsabilidade, deve ter cuidado para que nenhum de nós seja penalizado”, falou.
Não obteve resposta. Wanda não se movia. Ela respirava suavemente e já estava no seu cochilo não sabia há quanto tempo. Suspirou, seria difícil subir com ela, segurá-la firme, as suas mãos não eram de confiança ainda.
A arrumou direito no banco de madeira da cozinha, no estilo de jardim, e a tomou nos braços. Ela se encolheu no seu colo, encontrando aconchego nos seus braços. Pelo menos ela conseguiria dormir. As escadas seriam um desafio, Wanda não pesava propriamente, mas era sim um peso a mais no seu corpo e estava com medo de desequilibrar. Bufou baixo e a sua capa de levitação fez todo o trabalho sem que mandasse. Flutuou até o piso superior e pousou com leveza, a sua capa era mais inteligente que ele próprio.
Continuou o seu caminho até a porta do quarto de Wanda e dessa vez a ordem foi clara para que a capa abrisse a porta. Entrou com cuidado e pousou Wanda na cama, deixando a garota lá. Ela tinha o hábito de jantar de pijamas e só agora entendeu o porquê. Tirou o cobertor dela de cima do sofá perto da janela e a cobriu. Por um momento percebeu que podia ter bons momentos com alguém mesmo passando por qualquer tipo de adversidade.
Desligou as luzes do quarto e saiu, indo direto para o seu quarto. Acabou que não precisou beber para afogar a mágoa causada por Christine. Tirou as suas roupas e antes de botá-las para lavar, percebeu que o aroma do shampoo de Wanda estava levemente impregnando a sua camisa.
[...]
Loki assistiu aquilo tudo com um sorriso nos lábios. Não foi preciso interferir dessa vez para que acontecesse. Foi naturalmente. Não incitou nada, nem os fez se aproximarem de um modo forçado. Eles já estavam desenvolvendo sentimentos um pelo outro e nem percebiam. Quanta tolice.
Agora era mais fácil, tudo o que precisava fazer agora era observar. E dar leves pitacos quando necessário, quanto menos interferisse, melhor. O filho de Christine Palmer havia sido complicado de arranjar, mas conseguiu uma brecha alterando as memórias dela e do outro homem com quem havia tido relações. Agora ela era uma peça descartada e não interferiria mais na vida do Doutor e da Feiticeira.
Stephen Strange era orgulhoso demais para voltar atrás.
Cobriu o seu orbe com o manto esmeralda e o escondeu dentro da gaveta funda na mesa do seu quarto. Thor ainda estava fora e demoraria um pouco para chegar, não sabia aonde ele havia ido, mas desconfiava que tinha saído para comer aquelas malditas shawarmas.
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