Angel of Light
42 Quarenta e Dois
Notas iniciais
Abriu os olhos ainda se sentindo meio tonta. Olhou para o teto do quarto com a visão levemente embaçada pelo sono forçado e piscou algumas vezes para se situar. Viu pela janela que já era noite, ou ainda deveria ser noite, isso não importava muito nesse momento. Se apoiou nos cotovelos com as poucas forças que ainda lhe sobravam e sentiu o seu estômago se revirar como já estava sendo desde que voltou do hospital. O médico havia dito que se sentiria assim nos primeiros dias, assim como deveria continuar usando absorventes externos por alguns dias só por precaução e era melhor que não mantivesse relações sexuais por um mês. Os antibióticos já estavam começando a fazer efeito já que começava a sentir o gosto metálico na boca. Ninguém disse que seria fácil, mas ninguém nunca disse que seria tão difícil assim.
Se sentou na cama e continuou com as cobertas grossas lhe cobrindo. Por baixo delas, tocou o seu baixo ventre e sabia que não havia mais nada lá. O Dr. Speight foi bem claro que existiam chances reais de que pudessem engravidar novamente dali a alguns meses, mas que deveriam manter a calma nesse primeiro momento. A sua cabeça ainda estava enevoada graças a medicação para dormir que estava fazendo uso.
Se lembrava da mulher, mas não se lembrava muito do que havia acontecido depois. Se lembrava que havia sonhado e depois já havia acordado em um leito no Metro-General com Stephen ao lado da sua cama. Havia ficado desesperada ao saber que tinha alguém crescendo dentro de si, mas não esperava que saber que não estava mais grávida fosse fazer um estrago muito maior na sua vida. Piscou algumas vezes e sentiu o seu rosto molhar graças às lágrimas caindo. Respirou fundo. Sabia que já era hora de sair da cama e do quarto, três dias já era algum tempo.
Primeiro um pé e depois o outro para fora da cama, se apoiou no criado-mudo apenas por precaução já que as suas pernas ainda estavam um pouco trêmulas. Se esforçou e se levantou ainda sentindo um pouco de tontura. Sentia o cheiro de chá vindo de fora do quarto, era chá de camomila. Não precisou caminhar muito longe para notar que Stephen ainda estava no quarto, camuflado, sentado em posição de lótus perto de uma estante com roupas. Ele havia afastado a mesinha de centro e havia colocado o seu tapete de meditação para que não incomodasse o seu sono pesado na cama. Se aproximou um pouco e o observou: as mãos ainda tremulavam, era claro, era uma sequela do que havia acontecido com ele; ele tinha olheiras mais profundas das últimas noites em claro e ainda usava uma pequena tala no nariz e descobriria como ele havia conseguido desloca-lo.
Pigarreou e se sentou ao lado dele, trançando o seu braço no dele e apoiando a cabeça no ombro dele. Ele não poderia faltar, não agora. Sentiu quando ele beijou a sua cabeça e entrelaçou os seus dedos nos dele.
“Você acordou melhor?”, ele perguntou. Percebia a voz cansada dele.
“Um pouco, ainda é tudo muito novo para mim”, disse sincera fazendo alusão à nova antiga situação que se encontravam. “Nós precisamos conversar, Stephen”.
“Eu sei e concordo. Temos muitos assuntos pela metade, de ambas as partes”, ele concordou. Stephen se soltou e se colocou de frente. Com cuidado, ele tocou a sua perna. “Você quer começar?”
“Pode ser”, pensou em qual pergunta faria primeiro, eram tantas na sua cabeça. “Eu me lembro de uma mulher aqui no Sanctum e depois eu acordei no hospital com você. Quem era ela?”
“O nome dela é Illyana, A Bela. Ela não é daqui, é de uma dimensão chamada Dimensão Abissal. Você compreende o conceito de inferno judaico-cristão?”, afirmou para ele. “Ela é filha do Rei do Inferno e irmã do figurão de lá e... era também mãe de Rodrick Errol-Wing.”
“Eu sempre pensei que ele fosse filho de algum demônio raso que havia conseguido sair de lá, não que fizesse parte da família real”, se espantou.
“Nem eu sabia até que ela falou. Acho que precisamos conversar sobre a morte de Rodrick e sobre o que aconteceu com Illyana”, o sentiu firmemente desconfortável nessa situação, mas compreendia que manter certas coisas para si mesmos só havia causado mais problemas do que haviam dedos nos pés e mãos. “Ela disse que Rodrick foi obliterado da existência. Você conseguiu o que todos no mundo há milênios ansiavam por conseguir”.
Fechou os olhos, não iria querer vacilar agora. “Você estava suspenso no ar, flutuando, em transe... e ele estava torturando você”, respirou fundo. “Ele disse que você estava sonhando”.
“No fundo, Illyana e Rodrick tinham mais em comum do que somente o sangue, ela falou o mesmo sobre você”, Stephen suspirou. “Você quer saber com o que eu sonhei?”
“Se você contar, eu vou ter que contar também?”.
“Sim, meu amor, é uma via de mão dupla”, era a primeira vez que ele a chamava assim. “De um segundo para o outro eu não era mais eu, mas ainda era eu. Quando eu acordei, eu vi a Donna do outro lado. Eu vi a Donna no dia que ela morreu. Só que eu estava acordado e o sonho ficou se repetindo e se repetindo... até que eu vi você. Você estava no meu sonho e você me tirou de lá”.
“Eu pensei que ele havia dado a você um sonho diferente”, confessou.
Ouviu a porta ser aberta levemente e logo ouviu o barulho de unhas batendo no chão. O focinho gelado de Black cutucou o seu braço e não pode evitar sorrir com ele do seu lado. O cão preto se deitou no chão e colocou a cabeça no seu tornozelo para depois se render com a barriga para cima, pedindo uma carícia. Tocou o seu amigo e ele bocejou depois de lamber os seus dedos.
“Com o que você sonhou?”, Stephen perguntou.
“Pietro. E Sokovia. Parecia que eu tinha dez anos de novo e tinha neve nas ruas igual tem agora. Nós estávamos todos juntos lá, tudo vívido... até a bomba”, disse.
Tinha vivenciado, mais uma vez, o sentimento de perda nos bombardeios de Starigrado. Não era como se não os tivesse visto em sonhos durante os anos posteriores, mas, assim como Stephen havia dito, era mais vívido, como se fosse de novo a Wanda criança, a mesma que esperou ser resgatada com irmão sob os escombros do prédio com um míssil no rosto esperando para ser detonado a qualquer momento. Sentiu o calor das suas lágrimas no rosto e logo Black também começou a lamber o seu rosto depois de levantar do seu colo.
“Por que tudo isso aconteceu, Stephen?”, já havia uma pergunta rodeando os seus pensamentos, mas precisava... não sabia do que precisava, talvez nem precisasse ouvir algo assim.
“Você... é poderosa demais. Mesmo sem sabermos a real extensão dos seus poderes, provavelmente Rodrick pensou que você conseguiria fazer isso se tivesse um artefato adequado nas mãos. A rede de cabelos de Lucrécia Borgia era um artefato infernal e muito poderoso, faz sentido”, Stephen parecia escolher as palavras que usaria em todos os momentos. “Você conseguiu um feito formidável, não ia demorar muito para que essa notícia se espalhasse por onde tivesse existência de vida”.
“Illyana queria vingança, então”, confirmou. Não imaginava que algo assim pudesse acontecer, mas também assumir que Rodrick era filho de chocadeira tinha sido bem tolo da parte de todos. Sentia um nó se formando na sua garganta e uma pergunta se formando na sua cabeça. “Stephen... o que aconteceu comigo... não foi natural, não é?”
Stephen olhou para baixo. Ele brincou com os dedos um pouco e agora, sim, estava na cara o quanto ele estava se esforçando para não dizer nada que não soasse exatamente o sentido que ele pretendia. “Não, não foi”.
Stephen levantou o olhar e também sentia como ele estava se sentindo. E também havia algo mais. Desde todo o começo, há algumas semanas, já o havia percebido diferente diante das mudanças que estavam passando. Entretanto, pela primeira vez durante todo esse tempo, parecia que estava vendo o que havia dentro dele já que estava tudo tão às claras.
“No começo, quando você me entregou aquele teste de farmácia, eu pensei que você tinha odiado saber que nós não seríamos mais dois. Eu passei bastante tempo pensando que você não queria isso”, confessou como um suspiro.
“Existem coisas que eu não contei a você porque eu não pensei que tomariam a proporção que tomaram”, o ouviu simples.
“Você sabe que eu sempre vou ouvir você”, afirmou.
Havia chorado na primeira noite no hospital. O seu quarto estava longe do berçário e este era um procedimento padrão para mulheres após um aborto espontâneo ou com bebês natimortos, era para que não se abalassem mais ainda. Stephen tinha assinado os papeis para autorizar uma curetagem e Billy explicou que não sentiria nada e que logo poderiam voltar para casa. Também havia chorado na noite anterior e provavelmente choraria nesta e em muitas outras. Para alguém que tinha se acostumado muito rapidamente que seriam pais e agora teriam que se desacostumar que isso não aconteceria mais dali a quase cinco meses.
“Eu mexi com o continuum”, Stephen falou. Black saiu do seu colo e depois se engraçou no colo de Stephen. “Eu fiquei curioso sobre nós dois”.
“Você usou o Olho de Agamotto”, falou convicta. “Você realmente nos viu juntos?”
“Com quatro filhos à tiracolo”, ele riu fraco, abafando o riso no choro que agora caía leve.
“E nenhum deles era o que estávamos esperando”, constatou. “Nós não tivemos a chance de saber o que seria”.
“Illyana me disse que seria uma menina”.
Ouviu a voz dele dizer com dor. Estava claro como ele parecia torturado por este conhecimento e como estava ferido ao dizer que teriam tido uma garotinha. A seu modo, Stephen estava sofrendo tanto quanto ela e isso mostrava o quanto era infundado o discurso de que uma mãe nascia quando se descobria grávida e um pai, apenas quando segurava o filho nos braços. Stephen não precisava disso.
“O que mais aconteceu?”, questionou.
“A minha pequena aventura criou linhas de tempo alternativas a nossa. Não faço ideia de quantas realidades consegui criar ou modificar, mas Illyana disse que foram muitas. Em algumas você ficou comigo, em outras com Scott Lang e outros Vingadores”, o seu coração se aqueceu ao perceber que sempre estaria com aqueles que eram a sua família. Não conseguiu algum alívio nisso. “Com essa eu aprendi que não posso continuar brincando com coisas sérias”.
“Você ainda não falou nada sobre a garota que caiu do teto. Quem é ela? Ela parecia te conhecer”, se recordou da garota.
Notável era o desconforto de Stephen com essa parte da conversa. “O nome dela é Luna. Luna Maximoff. Em uma realidade paralela a nossa, ela é sua irmã mais nova”. Tentou processar a informação, não era minimamente possível que tivesse uma irmã além de Pietro, parecia tão errado. “A realidade começou a convergir com a nossa e... boom!”
“Eu fiquei com você na realidade dela?”, perguntou.
“Ela não chegou a dizer isso, você me tirou do Limbo dos Sonhos antes que eu pudesse perguntar. Mas, pelo que eu percebi da expressão surpresa dela ao contar que você era casada comigo... então creio que não”, ele coçou o nariz. “Me perdoe por...”
“Entrar na minha cabeça sem que eu soubesse?”, questionou.
“Tecnicamente, o Limbo dos Sonhos não é na sua cabeça... está mais para uma divisão da Dimensão dos Sonhos que se conecta à sua psique”, ele a corrigiu. Está tudo bem agora, eu acho. Nós tínhamos que destruir a rede de cabelos para que a conexão cessasse. Tenho que admitir que Danny foi muito útil com aquele punho dourado”.
“Então tudo acabou?”.
“Sim, Wanda, tudo acabou”, ele falou suspirando.
Se levantou um pouco e continuou sentindo um pouco de tontura, tinha se levantado rápido demais. Se sentou na cama e Stephen pegou Black no colo fazendo o mesmo. Ele colocou o cachorro na cama e logo percebeu a bolinha se formando perto da beirada. Stephen se sentou na cama encostado na cabeceira e logo o sentiu tocando o seu braço. Ele abriu as pernas e lentamente se acomodou por lá. Sentiu os braços dele envolvendo a sua cintura apertadamente. Uma voz que diz ‘eu estarei aqui e tudo ficará bem’.
“Zofia”, disse ele. “Zofia é Sofia e Sofia significa sabedoria”.
“Zofia é um ótimo nome”, concordou. “Zofia Strange”.
Entrelaçou os seus dedos nos do de Stephen e o ouviu suspirar, chorando, enquanto apoiava a cabeça no ombro dele. Amy e Donna não teriam mais uma prima agora, só dali a outros anos. E entendeu a relutância de Stephen, ele imaginou que esse momento chegaria e que seria mais fácil se não estivesse tão emocionalmente conectado. Estava errado e Stephen sofria por isso. Não seria fácil para eles, mas tinha fé que logo a dor seria menos pior do que estava sendo agora. Parte da jornada era o fim, talvez esse fosse o fim da jornada que estavam vivendo e finais sempre davam sinais de recomeço.
“Eu nunca disse isso, mas eu amo você, Wanda”, o ouviu dizer. Não era preciso que dissessem, eles demonstravam e isso era mais verdadeiro do que qualquer palavra posta lábios afora.
“Eu também amo você, Stephen”, disse se aninhando mais ainda nele.
Recomeçariam e continuariam. Permaneceriam. E como Steve disse um dia sobre James Barnes, ela e Stephen estariam juntos até o fim da linha.
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