Notas iniciais
Sim, o primeiro com o segundo porque achei que assim fez mais sentido :) O capítulo anterior foi a cena pós-créditos com algo mais :) Apreciem a leitura!

O palácio de T’Challa era tão grande que permitia que Wanda tivesse a sua própria ala. Isso a deixava mais tranquila, sabia que sozinha não poderia ferir ninguém. Passava os seus dias assim, sozinha no seu quarto. O rei de Wakanda parecia atordoado o tempo inteiro, havia dado asilo apenas a Steve e Bucky Barnes, mas não demorou muito para ser ver rodeado dos Vingadores como protegidos.

Steve a visitava duas vezes ao dia e lhe levava notícias sobre o que acontecia no mundo. Não tinha mais lar desde a infância e aquilo foi o mais próximo de família que teve depois de Pietro e dos pais. Os filhos de Clint estavam se adaptando bem à nova vida de terem que ir com a mãe às pressas para o país para fugirem. Tudo por culpa dela. Se não tivesse se descontrolado em Lagos, nada disso teria acontecido.

Respirou fundo demais que assustou Steve quando ele entrou no seu quarto. Ele fazia a sua visita antes do café da manhã e depois do jantar. Geralmente jogavam baralho ou liam alguma coisa. Hoje não seria diferente.

“Como dormiu?”, ele perguntou se sentando na sua cama. Já tinha tomado banho, escovado os dentes e se vestido nas suas cores tradicionais, o vermelho e o negro.

“Bem. Menos enjoada”, respondeu. Todas as vezes que a sua ansiedade batia à porta, colocava a refeição para fora porque o seu corpo rejeitava.

“Tem algumas coisas que eu gostaria de conversar com você, Wanda. Você se lembra de Thor, o nosso amigo de Asgard?”, ele perguntou.

“Sim, o cara grande com o martelo”, respondeu.

“Sim, ele mesmo”, Steve riu. Gostava da risada do seu amigo. “Ele está na Terra e pedi que levasse um recado meu a uma pessoa. Um homem que pode cuidar de você do jeito que você precisa para controlar os seus poderes”, ele disse depois de hesitar um pouco.

Então era isso, estavam simplesmente desistindo dela? Pensou que podia confiar neles como se fossem a sua família, Clint disse que poderiam. Engoliu o choro e sentiu-o sufocar a sua garganta. Os olhos marejados a incomodavam, mas se piscasse, as lágrimas cairiam e não sabia o que poderia ser pior nesse momento.

“Não estamos desistindo de você, Wanda, não pense nisso. Queremos você tão bem que não podemos deixar que você continue com medo de si mesma”, Steve disse pegando na sua mão. “Você precisa aprender a se controlar para que nada fuja da sua mente, precisa se sentir no poder. Ouvi dizer que esse homem pode ajuda-la”.

“Quem é ele?”, perguntou.

“O nome dele é Stephen Strange e ele é como você. Diferente. Só estamos esperando o retorno de Thor para sabermos se ele aceitou a sua tutela ou não. Se não, você continuará aqui e nada vai mudar, acredite em mim. Agora se calce, vamos comer com Clint e a família dele. O bebê Pietro parece gostar de você”, ele sorriu.

Nathaniel, ou bebê Pietro, merecia que ela fosse uma pessoa melhor, sabia disso. Calçou as botas que combinavam com as meias sete-oitavos escuras que usava. O lápis de olho borrado rente aos cílios inferiores deixava os seus olhos mais claros. Terminou de analisar o que via no espelho: tinha emagrecido alguns quilos, o seu cabelo estava pior do que há meses atrás (não sabia se poderia realmente piorar), manchas marrons estavam debaixo dos seus olhos pois não conseguia dormir direito já que os seus pesadelos a levavam para lugares que não queria acreditar. Parecia mais envelhecida. Não madura, envelhecida mesmo. Andou ao lado de Steve até o salão de refeições da sua ala e viu que Clint, Laura e as crianças já estavam lá.

Tinha medo de machucar Lila se ela a tocasse, mas sabia que a garotinha gostava de abraçar. Se sentou com os outros e ouviria as notícias deles já que Sam não demorou muito para entrar, assim como o homem que cresce e encolhe, o tal do Scott. Isso mais parecia uma reunião dos Vingadores desertores do que um café da manhã formal. Pela passagem secreta que havia na estante de livros, passaram Thor e T’Challa com feições duras. Eles se sentaram e logo as serviçais trouxeram comida para todos, uma típica mesa de café da manhã wakandana.

Alguns riam, outros permaneciam preocupados, a vida seguia agora em Wakanda já que o rei não os entregaria para as forças estadunidenses e de nenhum outro país. A guerra civil recém travada entre eles mesmos deixou cicatrizes mais profundas do que qualquer dano físico poderia. Wakanda significava lar agora pois era isso que estava sendo desde que Steve os resgatou.

Descobriu que Lila e Cooper começariam a escola na cidade próxima ao palácio e isso só fomentava a ideia de que era ali que ficariam para sempre já que um conflito global tão grande pelo passaram traz consequências devastadoras. Ouviu Sam dizer que estava interessado em uma moça que conheceu recentemente em uma noite que viajou até a cidade com Steve. Scott apenas disse que queria se comunicar com a filha. Todos foram deixando a mesa e alguns lhe ofereceram carinhos e afagos antes de sair. Todos pareciam ser muito atenciosos e isso a deixava constrangida.

Todos saíram, menos quatro.

“Eu já conversei com ela, Thor. O que o guardião disse?”, Steve perguntou.

“Disse que eu poderia levar a garota até ele assim que possível, mas que a mágica cobra um preço se usada levianamente”, o deus asgardiano disse.

“Não seria melhor que ele viesse busca-la?”, T’Challa perguntou. “Ela é uma de nós e está sob minha responsabilidade. Prefiro que esse homem venha busca-la”.

“Stephen Strange não é o tipo de homem que você quer aqui, T’Challa. Ele parece ter o ego tão inflado quando o de Tony”, Steve disse.

A simples menção no nome de Tony Stark a deixou desconfortável. Guardava rancor muito grande por ter sido posta em uma camisa de força e ele apenas olhou para dentro da sua cela com um olhar insolente. Não sabia o que se passava lá, na mente dele, mas desejava profundamente que ele estivesse em tanto conflito interno quanto eles próprios.

“Ainda assim, quero que seja desse modo. Se eu tenho a honra de vestir o traje do Pantera Negra, preciso ter honra suficiente para honrar os meus protegidos”, o rei falou em um tom com honra em demasia.

Clint se aproximou de onde estava sentada e se ajoelhou. “Queremos o que é melhor para você, Wanda. Se ficar longe daqui por um tempo para que possa aprender a fazer melhor uso das suas habilidades fará bem a você, você vai. Eu sempre visitarei você, assim como Lila, Cooper e Nathaniel. Não deve temer, você já passou por coisas piores”, o Gavião Arqueiro disse com uma mão na sua.

Não a tinham dado chance de fala até o momento e isso a deixou bastante ressabiada.

“Ainda serei uma Vingadora depois disso?”, perguntou a Clint.

“Você sempre será uma Vingadora, não importa o que digam ou que tentem fazer. Você tomou a decisão de ser uma lá em Sokovia quando tudo estava desmoronando”, Clint lhe abraçou tal como um irmão fazia. E sentiu ainda mais a morte de Pietro nesse momento.

“Então eu quero que esse homem me ensine”, disse por fim.

No fundo da sala, quando olhou, viu as expressões aliviadas de T’Challa, Thor e Steve, como se tivessem dizendo que tinha feito a escolha certa.

[...]

O Sanctum de Nova York parecia meio sem graça sem movimento. Já faziam alguns dias que o Deus do Trovão asgardiano o havia procurado. Talvez ele tivesse desistido da maluca ideia de levar a garota-problema dos Vingadores até ele para que ele desse um jeito na cabeça dela.

Wong estava com ele na biblioteca do Kamar-Taj e estavam pesquisando sobre O Martelo das Bruxas, por sorte tinham uma das poucas edições que ainda estavam em bom estado no mundo sem ser uma reedição de bolso que esteja à venda em bancas de jornais. Esse estava todo em latim e ainda era um manual contra a heresia na época do Renascimento. Se o que diziam sobre a garota fosse verdade, a instabilidade mental e tudo, ela definitivamente poderia estar possuída por um demônio do Mundo Antigo ou somente sofreu demais com os experimentos do Barão von Strucker.

A porta do Sanctum de Nova York se abriu dentro da biblioteca e isso denunciou que algo estava acontecendo por lá. Correu e entrou apenas para descer as escadas e ver Thor ao lado de outras duas pessoas, um grandalhão musculoso que reconheceu de figurinhas antigas como o Capitão América e um outro homem vestido de negro.

“A que devo a honra da sua visita, meu caro? De novo”, perguntou com certa insolência no tom.

“Você disse que Thor poderia trazer a garota, ela concordou em vir. Mas achamos melhor que esse primeiro contato entre vocês seja conosco por perto. O senhor pode vir conosco?”, o homem de negro disse. Ah, sim, se lembrou dele, era o tal Clint Barton, o Gavião Arqueiro. Ainda estava se familiarizando com os nomes. Wong tinha dito quem eram cada um deles e o que havia acontecido.

“E por que eu faria isso?”

“Porque pode ser mais seguro para todos, Sr. Strange”, mais uma vez sentia a necessidade de corrigir o homem, Thor, para Dr. Strange mas não o fez.

“Não sabemos como Wanda reagirá quando chegar mais perto de acontecer, pode ser que ela perca um pouco de controle. Já vimos acontecer e não é bonito”, Steve Rogers disse. “Venha conosco, mas avisamos que a viagem é um pouco longa”.

“Aonde estão hospedados, então?”, perguntou curioso. Se bem se lembrava, havia rumores de que o Rei T’Challa estava dando asilo a eles como fugitivos e enfrentando um verdadeiro tormento por isso pelo que Wong disse.

Não queria se exibir, mas agitou os dedos no ar e criou um portal para onde imaginou que eles estivessem escondidos, Wakanda. Conhecia pouco sobre o país, mas se lembrava de que ficava em algum lugar perto do Quênia. Queria acabar com isso o mais rápido possível, não deixaria que eles soubessem a real condição das suas habilidades. Pensou bastante na proposta feita por Thor nos últimos dias e se deu conta de que poderia aprender com a garota, estuda-la, saber como funcionavam as habilidades dela em contrapartida às dele. Ver esse encontro de duas magias completamente diferentes poderia ser bem interessante.

“Creio que este seja Wakanda, não?”, perguntou enquanto via os outros olhando com descrença no que ele tinha acabado de fazer.

O grandalhão asgardiano confirmou e foi o primeiro a entrar no portal já que estava acostumado como esse tipo de coisa por ser considerado um ser mítico, então mágica para ele era algo rotineiro. Entrou atrás dele e foi seguido pelos outros dois. Todos olharam maravilhados com o que viram.

“Como conseguiu nos trazer para a exata localização do Palácio de T’Challa?”, Clint Barton perguntou ao fundo.

“Eu já tinha visto em alguns livros de História e revistas de turismo o grandioso palácio do Rei de Wakanda. Não foi muito difícil presumir que estavam recebendo auxílio dele. Conseguiram me trazer até aqui, onde ela está?”, questionou.

Viu Steve Rogers subir os degraus para abrir uma porta de vidro que dava acesso ao interior da casa. Observou o resto da construção e aquilo teria facilmente quatro andares, algo em torno de cinquenta quartos. Aquilo era exagerado até para ele mesmo. Olhou mais acima para as janelas e viu uma figura feminina olhando pela fresta da cortina, parecia assustada. Quando percebeu que estava sendo observada, recuou e fechou-se de volta no seu quarto. Não demorou muito para que o Capitão aparecesse pedindo que ele entrasse junto com os outros.

Olhou maravilhado com aquele pedaço de História que passava pelos seus olhos enquanto ia para sabe-se lá onde dentro daquelas paredes. Sentado à cabeceira de uma mesa de reuniões estava o tal T’Challa, Rei de Wakanda. Era jovem ainda. Se aproximou e lhe foi dito para se sentar.

“Então esse é o homem?”, o rei perguntou e todos assentiram. “Espero que Wanda aprenda muito com você, principalmente na questão do controle sobre si mesma”.

Se perguntava como achavam que ele poderia ajudar alguém a ter controle quando ele mesmo não conseguia controlar os tremores das suas próprias mãos. Então aguardavam que operasse um milagre na garota, assim, tão ansiosamente.

“Eu darei o meu melhor para que a Srta. Maximoff logre êxito nas artes místicas tanto quanto eu tenho certeza que ela terá”, falou.

Uns olharam incrédulos, outros com indiferença. O principal era que ele conseguisse passar confiança para os outros e isso conseguia sempre quando se tratava de um caso assim, que envolvia a vida de alguém.

Steve Rogers saiu mais uma vez do convívio deles e uma onda de desconforto pairou entre os que estavam na sala. Ficaram em silêncio até que ele retornou acompanhado de uma garota de olhos estranhos. A observou com mais cautela e percebeu que a mesma pessoa que olhou para ele pela fresta da cortina; tinha o aspecto doentio e não precisava examiná-la com mais calma para dizer que estava abaixo do peso para uma garota da idade dela.

Sim, definitivamente estavam tomando-o por babá.

“Sr. Strange, esta é Wanda Maximoff. A que os jornais chamaram de Feiticeira Escarlate. Wanda, este é Stephen Strange, ele é como você. Em alguns termos, claro”, o Capitão apresentou os dois.

Wanda andou tímida até ele e lhe estendeu a mão para um aperto desajeitado. Stephen aceitou e logo que tocou a mão da garota viu porque eles o haviam procurado. A sua intenção não era ver o que estava dentro dela. Ainda não, pelo menos. Viu caos nela, caos e tempestade. Uma tempestade forte que precisava ser contida antes que pudesse causar mais estragos do que previa.

Uma garota como ela, que nasce sob a tempestade, definitivamente será o seu desafio a partir de agora.

Notas finais
Me deixem saber se gostaram :)