Angel of Light
19 Dezenove
Notas iniciais
City of stars, are you shining just for me? Era noite já, Wanda havia chorado o que tinha e o que não tinha. Havia sido difícil coloca-la para dormir, não gostava de mexer com a cabeça dela pelo fato de ser tão instável. O caos quase não o deixou acessar as memórias calmas que ela tinha, tinha sido exaustivo. O meio da tarde tinha chego e com ele a sensação de finalização de um ano. O seu traje de treinos estava intacto, não queria sair e deixa-la sozinha. O que estava acontecendo com o seu eu? Estava há horas ponderando o que fazer a noite já havia chegado.
Victor voltaria com Glenda e as meninas antes do Ano Novo porque queria fazer algo na fazenda para elas. Ele perguntou se não poderia fazer mágicas para as duas e se sentiu completamente rebaixado, não era um mágico qualquer que fazia truques com cartas. Era um mago e possuía o Olho de Agamotto.
Olho de Agamotto não era seu, seu, mas gostava de se considerar guardião dele.
Desistiu de ir ao Kamar-Taj e resolveu ficar e esperar. Estavam perdendo treinos e logo seria cobrado por não estar ensinando Wanda devidamente. Ela era a sua única aluna e tinha negligenciado o treinamento dela por causas externas. Sem essas causas externas, ela não estaria segura agora. Precisavam voltar a praticar e não poderiam demorar, só tinha que arranjar tempo para essas atividades todas.
City of stars, there's so much that I can't see. A sua volta para o Metro General tinha sido agendada para o segundo dia do ano, estava ansioso. Queria voltar para o hospital, fazer o que sabia fazer melhor e isso incluía dar entrevistas a CNN sobre como salvou uma vida que estava condenada. Não teria esse glamour todo no seu escritório com consultor. Se dissesse a Wanda que ensinaria lá, ela não ficaria despontada. As suas mãos continuavam tremulantes e se recusava a ser o novo Jonathan Pangborn.
Ra-ta-tat of my heart, I think I want it to stay. Se sentou em uma cadeira ao lado da cama e olhou para Wanda. Ela ainda estava com o rosto um pouco inchado e coberta até o pescoço com a manta azul. Os cabelos dela estavam escuros, mas as pontas tinham um tom levemente aloirado, só percebeu agora. Isso talvez fosse resquício do que era antes de tudo.
I don't care if I know just where I will go 'cause all that I need, this crazy feeling. Hesitante, levou os seus dedos até os cabelos dela e tocou. Sentiu a faísca, isso nunca lhe teria acontecido. Era como se o corpo dela estivesse se defendendo de algo. Ao tocar a pele do rosto de Wanda, percebeu o quão quente ela estava, sem suar debaixo das cobertas. O corpo era uma máquina maravilhosa, qualquer coisa poderia tê-la deixado daquele jeito. Teria que dar um antipirético a ela para baixar a febre.
Saiu do quarto e foi até a estante de livros depois de atravessar o salão com as relíquias. O seu livro-cofre estava estável no momento, mas precisava se regrar quanto a isso. Vinte dólares seriam suficiente, tinha sorte de ter uma drogaria perto nessas horas. Nessas horas confiava na sua ciência para aplacar a febre de Wanda mais rapidamente. Colocou o dinheiro no bolso e desceu, Wong estava ocupado demais no Kamar-Taj.
Quando bateu a porta da frente do Sanctum ao sair, via como as pessoas o olhavam. Um maluco em roupas estranhas que mexia com satanismo. Isso na cabeça delas. Andar pelas ruas e ver os seus tijolinhos avermelhados pareceria algo tão insosso para o seu eu de alguns anos atrás. As árvores na Rua Bleecker estavam brancas de neve. Não nevava, mas o seu casaco no corpo era um motivo a mais para agradecer pelo calor pouco que ele poderia proporcionar no inverno de Nova York.
Chegou a CVS e bateu as botas no tapete que eles tinham colocado na entrada para isso. Odiava as sinalizações deles, eram horríveis e quase não levavam a lugar nenhum. Demorou alguns minutos até achar o que precisava e acabou levando dois chicletes que estavam perto. Não sabia como eles mantinham esse esquema assombroso.
Pagou as suas compras ao funcionário carrancudo e deu as costas a ele para sair. Estranhou, mas viu o carrinho de cafés e pães de Stépfan ainda aberto. Tinha lhe sobrado doze dólares, poderia se dar ao luxo de tomar um pouco do café importado dele.
“Dr. Strange, como vai?”, o homem lhe abordou.
“Ah, Stépfan. Bem e você?”, perguntou. “Eu quero um cappuccino com chantilly e pedaços de chocolate”.
Talvez essa fosse a sua chance de perguntar o que poderia ter acontecido a Wanda já que ela passou por Stépfan na volta para casa mais cedo.
“Eh... hoje pela manhã... você viu por aqui uma moça”.
“Tantas moças passam por aqui, doutor”, ele retrucou na ironia.
“Sim, eu sei, mas eu falo de uma em especial. Cabelos escuros, olhos claros, vestida de preto e que não precisa usar muitos casacos. Ah, ela tem um leve sotaque do Leste Europeu”, tentou fazer com que ele se lembrasse.
“Ah, sim, Wanda”, notou como ele pareceu feliz em se lembrar. “Uma boa moça, me lembra tanto Tatyana, a minha filha. Essa moça é minha conterrânea, da Sérvia. Bom, a Sérvia está se fragmentando agora”.
“Ela comentou algo com você?”
“Desculpe a intromissão, doutor, mas por que esse interesse repentino em uma moça que só veio até mim hoje? Ela é sua namorada?”, ele perguntou piscando enquanto batia o seu cappuccino no mixer.
“Ela é minha esposa. Mas quero que me responda como a viu hoje cedo”.
“Agora as coisas começaram a se encaixar... sabe, doc, na Sérvia nós cuidamos das nossas mulheres. Somos uma sociedade muito conservadora, queremos protege-las, mas isso não significa que ficamos o tempo todo atrás dos passos que elas dão. Vocês fazem filmes terríveis sobre nós!”, ele se exaltou.
“E vocês não fazem filmes terríveis sobre si mesmos? Até hoje não me recuperei de A Serbian Film. Só me responda, por favor, homem!”, insistiu.
“Ela só disse que tinha ido ver um amigo em Midtown. Ela estava calma quando passou por mim, batemos um pouco de papo e ela levou dois cafés pretos com um quarto de leite e canela dentro. Você é um cara estranho, doutor. São cinco dólares”, Stépfan entregou o seu cappuccino que novamente estava escrito Stépfen”.
Riu do homem e pagou com a nota de dez dólares. Pegou o seu troco e ele lhe agradeceu em palavras parecidas com as que Wanda falava e foi bebericando até chegar na porta do seu Sanctum.
Entrou e percebeu tudo ainda em absoluto silêncio. Deveria ter comprado um pãozinho para acompanhar o seu cappuccino. Os pãezinhos de Stépfan eram famosos por todo Village. Subiu as escadas e colocou o pacote pardo com a medicação no bolso do casado para poder buscar um copo com água na sua mesinha de centro. Abriu a moringa e colocou uma quantidade razoável em um copo para levar para o quarto.
Wanda não tinha amigos em Midtown. De fato, duvidava que ela soubesse onde ficava Midtown. Não gostava de duvidar, mas Wanda misteriosa e saindo escondida era pior do que da vez em que ela conseguiu ir a Long Island.
To look in somebody's eyes, to light up the skies, to open the world and send me reeling. Quando abriu a porta do quarto, viu que a cama estava vazia e grunhidos vinham do banheiro. Ela estava vomitando o que sequer tinha no estômago. Agora tinha certeza de que o quer que tenha em Midtown, foi isso que fez Wanda ficar desse jeito. Ouviu o barulho da torneira e logo depois a porta se abriu.
A voice that says I'll be here, and you'll be alright. Wanda parecia estar meio morta agora. A pele dela não estava nada saudável, parecia que ela tinha pego alguma coisa no estômago, mas sabia como Stépfan preparava o café, o via fazendo.
“Eu trouxe uma coisa para você”, disse a ela.
Se aproximou cautelosamente e pousou a sua mão esquerda no rosto dela. A febre não havia cedido nenhum pouco, então sabia que ela havia feito esforço para se levantar da cama.
“Por que você não toma um banho para relaxar a musculatura? O banho e o remédio vão fazer bem”, disse.
Wanda concordou sem dizer nada, só andou de volta para o banheiro. Parecia que o corpo todo dela doía pelo modo como andava.
A rush. Não sabia o que fazer. Bom, como médico sabia o que fazer e o que ela precisava para melhorar. Como amigo e companheiro não sabia mais o que fazer porque já estava lhe doendo vê-la assim. Estava parecendo que a dor dela estava se fazendo sua.
A glance. Tirou o casaco e deixou em cima da cadeira que estava sentado antes. Olhou pela janela e a noite ficava mais densa. Deixou os seus copos no criado-mudo ao lado da cama e seguiu Wanda para dentro do banheiro. A viu sentada na borda da banheira e olhava para o nada. Ela se assustou quando o viu. Passou para o lado dela e acionou o registro da água para a banheira começar a encher.
A touch. Tocou os ombros de Wanda e ela o olhou. Os lábios dela estavam começando a se rachar e a raiz dos cabelos começava a querer ficar oleosa. Se ajoelhou no chão e desabotoou no cardigã preto que ela usava. Tirou depois as outras duas blusas que ela vestia e desceu o zíper da saia. Wanda se moveu com um pouco de dificuldade para que pudesse descalçar as meias pretas. Ela deixou que mexesse no fecho do sutiã para tirá-lo. Os seios nus dela lhe excitavam, era verdade, mas não era momento para isso. Tocou o quadril dela para deslizar a calcinha vermelha para baixo. A viu nua e frágil.
A dance. Ajudou-a a se levantar e entrar na banheira. A água estava morna e ela ficaria mais confortável desse jeito. Pegou a mangueirinha cafona da banheira e acionou para molhar os cabelos dela, sentia que ela estava relaxando assim. A febre cederia e logo mais ela estaria bem de novo. Se levantou e foi até o quarto para buscar o antipirético que ela precisava tomar para baixar a febre.
Colocou o copo na mão de Wanda e abriu um comprimido da cartela de dez que tinha comprado. Ela engoliu com dificuldade e continuou lá sentada. A viu encostar a cabeça e fechar os olhos.
“Você não vai ficar aqui comigo?”, a ouviu perguntar com a voz falha.
“Mas eu já estou aqui com você. Eu não vou sair daqui até que você esteja com a pele enrugada”, riu.
“Eu digo aqui comigo”, ela se fez entender com enfatizou que aqui significava estar com ela dentro da banheira, cuidando dela.
“Você me quer aí?”, perguntou redundante.
“Sim”, foi o que ela respondeu.
Começou a desafivelar as suas roupas e tirar do seu corpo cada faixa de tecido cru que tinha ali. Descalçou as botas, tirou as meias, a roupa de baixo. Estava como ela, nu e vulnerável.
Just one thing everybody wants there in the bars and through the smokescreen of the crowded restaurants. Wanda saiu da posição que estava e se desalinhou para lhe dar espaço, teria que se sentar atrás dela. Sentiu a água morna na sua pele nas pernas e depois no quadril, por pouco não transbordaram a banheira por causa da massa dos dois corpos em um espaço tão pequeno. Ela se acomodou no seu colo e fez questão de pegar as suas mãos e fazer com que os seus braços se cruzassem na altura da sua cintura. Ela recostou as costas no seu peito e descansou a cabeça no seu ombro tal como estava minutos atrás.
Com as mãos ainda um pouco tremulantes conjurou velas grossas, o ambiente precisava estar convidativo e relaxante. Sentia que o corpo dela logo cederia a isso e a febre logo seria uma lembrança ruim dessa noite. Beijou a têmpora direita dela e começou a cantarolar algo que nem sabia que sabia. Já tinha ouvido vagamente essa música na playlist de Wanda, pelo que se lembrava estava cantarolando certo.
“Cidade das estrelas, você está brilhando somente para mim? Cidade das estrelas, há tanto que eu não consigo ver”, Wanda disse.
Riu e continuou, estavam tendo um bom momento.
“Eu precisava finalizar um ciclo para começar outro, Stephen. Foi só isso. Às vezes finalizar coisas dói, mas o sacrifício é necessário. Se não fosse, não se chamaria sacrifício”, ouviu. As metáforas, tudo ainda estava ali. Estava certo quando pensou que ela começaria a falar uma hora ou outra.
I felt it from the first embrace I shared with you that now our dreams they've finally come true. Não tinha má intenção nenhuma, só queria passar a mão pelo corpo dela para acarinhá-la, ajuda-la a não ficar mais tensa no momento. Passou a mão pela lateral do corpo de Wanda e sentiu que ela estava melhorando.
City of stars, you never shined so brightly. Há alguns anos não poderia dizer a si mesmo que no future estaria assim, acalentando uma pessoa. Também não estaria casado ou ainda não teria retomado contato com o seu irmão. Wanda estava começando a fazer a sua vida brilhar um pouco mais do que o de costume. Ela estaria bem logo, assim esperava.
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