Por um momento, eu pensei que o mundo ao meu redor havia parado. Congelado em um interminável segundo. Milhares de coisas estavam passando pela minha cabeça agora, mas eu apenas conseguia me focar no anjo que estava a metros de distância de mim, me olhando.

Ele tinha o poder de controlar a tempestade. De controlar a fúria que ela exercia sobre aquele céu tão imerso. Eu enxergava Miguel agora, pois ele estava desprovido de toda a indiferença que ele estava mantendo com tanto cuidado. Ele estava selvagem, tão selvagem que parecia como um belo demônio parado em meio aquela chuva, pronto para atacar quem se opusesse a ele. Seus olhos estavam duros, raivosos, ameaçadores. E o seu sorriso — um sorriso maldoso, estava me desafiando a fazer qualquer movimento, a dar qualquer passo em sua direção. Mas eu sabia, eu sabia que fora por mim que ele havia ficado tão descontrolado. Fora por mim que ele havia matado aquele elfo, demonstrando assim o seu poder, um poder que eu nunca desconfiaria que ele obtivesse.

Eu estava com medo dele. Mas algo, bem no fundo da minha alma, me impulsionou a correr em sua direção. Eu vi surpresa em seus olhos quando eu o abracei.

Ele era quente, tão quente que me aqueceu completamente. O frio que eu estava sentindo, os pingos gelados da chuva que caiam sobre mim, não eram nada comparados a temperatura daquele peito desnudo, daqueles braços fortes que estavam me envolvendo agora. Eu me senti segura, tão segura como eu nunca estivera em toda a minha vida. E por um momento, eu senti a vontade ter os lábios dele juntos aos meus. Mas isso era errado, não era?

Eu percebi que eu não me importava com a resposta. Na verdade, eu não me importaria se o mundo acabasse agora, contando que eu ainda estivesse envolvida por Miguel.

- Annelise... – ele sussurrou. Seus braços se apertaram ao redor de mim, e o meu coração parecia que iria explodir em meu peito. Céus, o que eu estava sentindo?

Parecia que os pedaços do meu coração estavam se juntando novamente. E aquele mundo por um momento estava parecendo ter sentido. Ainda há como me recuperar, eu percebi, com a ajuda de Miguel. Eu suspirei pesadamente ao ele se separar de mim. Ele olhou dentro dos meus olhos, e eu não me importei se ele estivesse descobrindo cada um dos meus segredos, cada uma das minhas emoções. Ele acariciou o meu rosto, e os seus dedos estavam traçando o contorno dos meus lábios agora. Eu fechei os meus olhos, aproveitando cada segundo daquele momento.

Eu não queria que ele parasse, mas ele parou. E quando ele fez isso, quando ele parou de me tocar, eu senti um imenso vazio em meu peito. Eu abri os meus olhos, e percebi que mesmo ele não tendo mais um escudo ao seu redor, que me impedia de enxergar qualquer emoção que ele sentia, eu ainda não conseguia saber o que ele estava sentindo além da raiva, que parecia que havia se acalmado. Eu queria saber o que ele estava pensando, e eu queria saber cada um dos segredos que ele guardava.

― Nós temos que sair da Terra dos elfos agora. ― ele falou, sua voz era grave, carregada de uma emoção que eu não conseguia identificar qual era.

E então, sem mais nenhuma palavra, as asas que tanto me fascinaram quando eu as vi pela primeira vez, reapareceram de novo, em suas costas. Asas tão lindas, que ficaram ainda mais belas naquela chuva. Ele veio até mim, me pegando e me carregando em direção aquele céu sem fim. Eu recostei minha cabeça em seu peito, e eu percebi que havia um coração batendo ali dentro, um no qual eu não havia reparado na primeira vez que ele me carregou. As batidas eram lentas, e me acalmaram de uma forma sem igual. Ainda estava chovendo, mas não como antes. Pois parecia que quando Miguel se acalmou, aquela chuva também fez o mesmo. Fora como se fosse uma conexão.

Nós estávamos no profundo céu agora, e nuvens cinzentas estavam ao nosso redor. Eu bocejei, e percebi o quanto eu estava cansada...

...Eu não havia percebido em qual momento eu havia pegado no sono. Quando eu abri os meus olhos, vi que estava sozinha em um pequeno quarto. Pela janela, dava para ver a enorme lua estampando, juntamente com as brilhosas estrelas, a negritude daquela noite. Eu levantei-me, e quando eu abri a porta do meu quarto, levei um susto ao dar-me de cara com um corredor que continha uma fileira de portas, cada uma com um diferente nome escrito nela. Estranhamente, parecia-me como se isso aqui fosse um... Internato. Soltei um leve riso, realmente era impossível isso aqui ser...

... A porta a minha frente se abriu, e uma garota com o seu longo cabelo ruivo pareceu sorridente ao me olhar.

― Você é a tão famosa... Mestiça? ― ela piscou seus longos cílios, rindo ao chegar mais perto de mim. Eu realmente não estava entendendo nada.

― Acho que eu sou. ― falei confusa. Como ela poderia estar sabendo disso? Ok, muita calma nessa hora. Talvez ela não fosse tão normal quanto ela aparentava.

― Prazer, eu sou Luna. ― ela estendeu sua mão para mim, suas unhas estando perfeitamente pintadas com um rosa pálido. Eu apertei, e o sorriso dela alargou-se ainda mais em seu belo rosto de boneca.

― Bom... Onde que eu estou? ― perguntei, totalmente sem graça. Será que Miguel havia me deixado?

― Bem vinda ao Internato Nephilim.

― Internato Nephilim? ― eu perguntei totalmente descrente.

― Miguel me contou que vocês tiveram que sair da Terra dos Elfos. Eles são as únicas criaturas que ficam em plena harmonia quando estão juntos... Por isso que aqui tem muitas brigas. ― ela falou, e os olhos dela brilharam com uma maldade que eu não havia percebido antes.

― Nós estamos em alguma cidade... Hã, mágica? ― eu tive uma leve impressão que eu pareci uma idiota ao perguntar isso.

― Querida... A cidade dos elfos é dentro de uma floresta normal, que é inexplorada pelos olhos humanos. Agora, nós estamos na Grécia, precisamente na cidade de Atenas.

― Hm. E Miguel, onde ele está?

― Oh, querida, ele pediu-me para que lhe avisasse que ele fora resolver algumas coisas... Importantes. ― ela pegou no meu braço, me puxando por aquele corredor. ― Saiba que esse prédio é o das meninas! ― ela falou alegre, mudando de assunto.

A escada por qual nós descemos era de mármore, e deu diretamente a um grande espaço a céu aberto. Árvores enormes enfeitavam o cenário a minha frente, juntamente com a esculpida estátua de anjo sem uma asa. Eu avistei um prédio de dois andares, do outro lado do pátio, e presumi que fosse o dormitório dos garotos.

Eu estava entretida, analisando tudo detalhadamente, mas levei um susto ao escutar um barulho de explosão.

― O que foi isso?! ― perguntei alarmada.

Ela riu, e com a sua cabeça apontou para um local, onde dois homens estavam brigando.

― Os anjos estão mostrando como eles lutam. É um treinamento.

E então eu vi que ao redor daqueles anjos lutando entre si, havia vários adolescentes os olhando atentos, aparentando ter a minha idade e a de Luna.

― Você também terá que treinar Mestiça. Mas será com Miguel. ― ela falou, estranhamente olhando para o céu. ― E acho que será agora. ― ela completou.

Quando eu segui o olhar dela, eu vi Miguel vindo em nossa direção. Suas asas tão brancas estavam fazendo um magnífico contraste com aquele céu escuro. E uma forte ansiedade nasceu em mim, bem na boca do meu estômago.

Droga. Eu não poderia me sentir assim toda vez que eu fosse o ver.Quando ele pousou no chão de gramas tão verdes e bem aparadas, suas asas encolheram lentamente, sumindo por completo de suas costas. Ele colocou novamente a camisa que estava enrolada em sua mão e olhou para Luna ao terminar, dando um rápido aceno de cabeça.

― Já avisei para elas algumas coisas, Miguel. Agora, fica por sua conta. ― ela então olhou para mim, e deu-me um rápido beijo no rosto. ― Depois a gente se fala. ― ela saiu, indo em direção a atração que havia se tornado os dois anjos brigando.

― Miguel... O que aconteceu hoje...

― O que aconteceu ontem. ― ele me corrigiu.

Nossa, eu havia realmente dormido por um dia inteiro?

Balancei a minha cabeça levemente, e continuei: ― O que aconteceu ontem...

― Annelise, foi apenas um abraço. ― ele me interrompeu, dando de ombros. ― Não vai mais acontecer.

Estranhamente eu me senti um pouco... Decepcionada, ao ver que não significou nada para ele. Mas Miguel estava certo, não estava? Fora apenas um abraço.

Eu respirei fundo ao vê-lo dando as costas para mim. ― Me siga.

E então eu o segui.

Quando passamos perto da pequena multidão de alunos, eu ouvi baixas vozes falando: ― É ele. E a Mestiça...

Eu me senti completamente incomodada com isso. Todo mundo aqui sabia quem eu era?

― Todos sabem sobre o que ocorreu entre sua mãe e seu pai. ― pareceu-me que Miguel havia lido os meus pensamentos agora. Será que eu deixava transparecer claramente o que eu pensava? O que eu sentia? ― Ele ainda está sendo procurado pelos híbridos, juntamente com a sua família. ― finalizou, abrindo a porta do que parecia ser uma cabana. Quando adentramos, eu vi que o local era bastante espaçoso, e vazio.

― Vamos treinar agora.