Angel Or Devil?
12 Capítulo 12
Notas iniciais
O sol estava se pondo no horizonte, e as ondas do mar davam uma bela paisagem para se observar. O cheiro da água salgada inundava minhas narinas, enquanto o vento envolvia-me, alisando a minha pele. Eu estava sentindo uma divina e pura paz, uma na qual eu nunca havia sentido em toda a minha vida.
― Filha... ― escutei minha mãe chamar-me, e quando eu olhei para trás, eu a vi sorrindo acolhedoramente para mim.
Só que quando eu iria correr para abraçá-la, a pele dela começou a se descamar, dando a forte impressão que ela estava em uma transformação. E realmente, ela estava. O céu que antes possuía uma brilhosa e aconchegante luz, agora exibia nuvens carregadas de uma melancolia horripilante.
Eu gritei, tentando correr para longe daquela praia, só que os meus pés estavam presos na areia, obrigando-me a presenciar aquilo tudo. As ondas que antes estavam calmas, agora poderiam engolir uma cidade inteira, dando-me um intenso medo.
― Preste atenção no que ela vai dizer. ― uma voz sussurrou em meu ouvido, e algo me dizia que eu já havia escutado-a antes. Mas da onde ela era?
Quando a transformação da minha mãe acabou, havia outra mulher no lugar dela. A mulher dos olhos cor de violeta.
Eu sabia que ela era a minha tia, mas eu não me lembrava de nada sobre ela. Eu não me lembrava de nada sobre a minha vida. Pois a minha mente estava nublada, e as minhas memórias haviam sido apagadas.
― Annelise. ― ela pronunciou o meu nome, se aproximando a passos lentos de mim. ― Você realmente está apaixonada pelo Miguel? ― ela riu, deixando-me angustiada com o som emitido. Ela estava tão perto de mim, que suas unhas estavam arranhando a pele do meu rosto agora. ― Seu pai não ficará nada feliz em saber disso.
― Eu não tenho pai! ― gritei, e ela abriu um largo sorriso irônico.
― Tem sim. E seu pai irá matar Miguel pelo o que ele fez! ― ela falou, irritada. Uma pontada de dor perfurou o meu coração ao ouvi-la falar com tanta firmeza. ― Tenha cuidado com quem está ao seu redor. ― o seu tom de voz havia mudado totalmente, se tornando sutil. ― Nós iremos te buscar.
E então, o mundo ao meu redor se balançava freneticamente, fazendo minha visão ficar turva.
Eu havia acordado.
Eu sentia o suor escorrendo pelo meu rosto, pela minha blusa. Minha respiração estava entrecortada, e parecia que o meu coração iria sair do meu peito a qualquer minuto.
O que Miguel tinha a ver com a minha família? Oh céus, ninguém poderia matá-lo. Ele era imbatível, certo?
Levantei-me da cama, e vi pelo relógio sobre a minha cabeceira, que era ainda quatro horas da manhã. Eu não iria voltar a dormir novamente. Não mesmo. Eu coloquei qualquer roupa que vi pela frente, e sai do meu quarto.
Quando eu cheguei ao enorme pátio, que parecia até mesmo com um campus, o frio daquela madrugada envolveu-me, fazendo-me esfregar minhas mãos uma na outra.
Encostei-me à árvore que ficava no centro do pátio, ao lado da estátua do anjo sem uma asa. Fechei os meus olhos, repassando o pesadelo que tivera hoje em minha mente. Medo invadiu-me quando me lembrei do que aquela vampira havia falado: Nós iremos te buscar. Havia uma promessa silenciosa embutida naquelas palavras. E se isso fosse realmente cumprido, não havia dúvidas que minha mãe seria morta, e toda a dor pela qual passei não serviriam de nada.
Suguei o ar gelado para dentro dos meus pulmões, e isso de certa forma havia me acalmado um pouco.
Eu teria que falar com Miguel. Teria que perguntar o porquê disso tudo. Será que aquela cabana seria o quarto dele? Ou apenas o local para os nossos treinamentos?
De onde eu estava não dava para vê-la por causa da longa distância, e então eu comecei a caminhar por aquela grama fofa, colocando os meus braços ao meu redor, para me aquecer.
Quando eu cheguei perto o suficiente da cabana, eu suspirei uma, duas, três vezes para tentar bater na porta. Hesitei. Estava sem nenhuma coragem para tal ato. Não sei por quantos minutos eu fiquei parada ali, esperando que algum milagre acontecesse para que eu perdesse esse maldito medo de tudo o que acontecia.
A porta se abriu sem que eu batesse, e Miguel apareceu sem camisa, olhando-me com aqueles tão profundos olhos azuis. Ele escancarou a porta, e deu para ver apenas uma cama de casal no canto daquela cabana, e um armário.
Ele deu-me as costas, e as marcas em verticais nas mesmas chamaram-me a atenção. Quando eu entrei, estava tudo escuro, mas ainda assim dava para ver claramente as coisas.
Miguel se sentou na cama, e os seus olhos não se desgrudavam de mim nem por um segundo. ― Por que ficou parada por tanto tempo lá fora? ― ele perguntou-me, e eu senti o meu rosto ferver. Ele havia percebido minha falta de coragem.
― Luna não dormiu aqui hoje? ― indaguei, enquanto eu me aproximava da cama.
― Isso não é da sua conta, Annelise. ― ele falou calmamente, e desviou do assunto ao prosseguir. ― Ainda são quatro horas da manhã, era para você está dormindo. – eu sentei-me ao seu lado na cama, ignorando o que ele havia falado.
― Obrigada pela carta da minha mãe. ― nós estávamos perto agora, tão perto que se eu me inclinasse um pouco eu poderia beijá-lo. ― Onde ela está?
― Não cabe a mim te dizer. ― ele falou objetivo.
― Mas cabe a mim saber. ― retruquei.
― Não basta a carta? ― ele perguntou, advertindo-me.
― Ok, Miguel. ― falei, me dando por vencida.
Era esse o momento de perguntar-lhe sobre a minha família, mas a coragem estava me faltando no momento. E se ele mentisse? E se a verdade fosse o bastante para eu aguentar?
O silêncio havia se instalado entre nós dois, e em vez de ele estar olhando para mim agora, ele olhava para frente, parecendo afundado em seus próprios pensamentos, que eram totalmente desconhecidos por mim.
― Era só isso que você tinha para falar? ― ele falou, e tudo o que havia acontecido àquela noite entre nós dois parecia estar esquecido por ele.
― Por que você é assim? Por que você não pode agir comigo do mesmo jeito que age com a Luna?
Não houve resposta, mas ainda assim ele estava olhando em meus olhos agora.
― Não precisamos ter nada, Miguel. Apenas amizade é tudo o que eu quero de você. ― mentira. Eu queria muito mais do que uma simples amizade com ele. Eu o queria como homem, eu queria sentir novamente os toques dele sobre minha pele, e sentir a língua dele em minha boca. Mas ele não precisava saber disso, ainda.
― Eu me pergunto o porquê de você ter mudado de objetivo ao vim falar comigo. ― ele falou, me ignorando.
― Não entendi.
― Você não veio aqui para falar sobre isso, Annelise. ― realmente, como ele poderia ser tão... Esperto?
Eu suspirei. Realmente não era a minha intenção falar sobre o nosso relacionamento. Se é que a gente tinha um, é claro. Mas ele me hipnotizava de tal forma, que eu não conseguia me impedir de sempre tentar rachar o muro que ele havia colocado entre nós dois.
Eu fiquei sem saber o que falar. Eu ainda não estava pronta para contar sobre os meus pesadelos para Miguel. Ainda mais um que envolvesse ele.
― Eu ainda não sei o porquê de vir falar com você. Parece que em uma hora você me quer, e em outra hora me odeia. ― levantei-me.
Quando eu coloquei os meus pés para fora daquela cabana, o grande pátio já estava com várias pessoas perambulando no mesmo.
Eu andei lentamente, e respirei profundamente ao lembrar-me que hoje havia duas aulas para eu ir. Eu estava tão imersa aos meus próprios pensamentos, que acabei por esbarra-me em um garoto, caindo no chão logo em seguida.
― Droga! ― murmurei, e quando eu olhei para o tal garoto, eu vi que ele era Pedro. Sua mão estava estendida para mim, enquanto sua feição parecia estar preocupada.
― Me desculpe. ― ele pediu, enquanto eu me levantava com a sua ajuda.
― Está tudo bem.
― Você é a... ― ele tentou lembrar o meu nome, em vão.
Eu sorri ao respondê-lo: ― Annelise.
― Oh, isso mesmo. Está indo para alguma aula agora?
― História do Mundo Místico, e Tiro ao alvo.
― Vamos junto comigo então? Eu também tenho essas duas aulas agora.
Nós caminhamos juntos, sem falar nada um com o outro. Eu fingi que estava olhando a Nephilim tapear o seu amigo, enquanto o mesmo a olhava com a cara emburrada. O silêncio entre mim e Pedro estava começando a ficar constrangedor.
― E então, obrigada por ontem. ― eu disse, quebrando o silêncio entre nós dois.
― Ah, eu não fiz nada realmente. ― ele riu, me olhando. ― Você é forte para ter feito Nate sentir pelo menos um pouco de dor. Na verdade, é difícil pegar algum Nephilim desprevenido.
― Ele mereceu. Mas... Ele terá aula com a gente?
― Acredito que ele esteja muito ocupado com outras coisas agora... ― eu senti uma pequena curiosidade agora.
― Que coisas?
― Hm. – ele tossiu, parecendo estar desconfortável ao continuar falar: ― Garotas.
Estranhamente senti uma pontada de raiva. Eu não gostava de Nate, mas ainda assim fiquei um pouco desapontada ao saber que ele estava com outras garotas.
Quando nós chegamos a um prédio, de três andares, eu presumi que ali fosse onde ficavam as salas de aulas.
Quando chegamos ao segundo andar, o corredor estava lotado, e foi uma dificuldade para ir para a sala que nós pretendíamos. A magia daqui era viva, tão nítida que parecia como se eu estivesse a vendo, a tocando com o meu próprio corpo.
A porta da sala estava com letras cintilantes, estranhamente saltando para fora da porta. História do Mundo Místico, era o que estava escrito.
Nós entramos, e Pedro se sentou ao meu lado.
A professora parecia uma louca com óculos tampa garrafa, e um sorriso sinistro no rosto. A cor das unhas dela era um vermelho neon, e eu fiquei surpresa ao ver tal cor trocando para um azul escuro. O que diabos era aquilo?
― Ela é uma bruxa. ― Pedro sussurrou ao meu lado. ― A maioria dos professores de aulas teóricas como essa, são bruxos. ― Realmente, eu não esperava por essa.
― Bom dia turma! ― ela falou, sua voz era esganiçada, e eu tive vontade de tampar meus ouvidos ao escutá-la. ― Nós falaremos hoje sobre a espécie de vocês. Sobre como é o poder de combate dos Nephilim, e como eles foram criados.
― Mas a senhora já falou sobre isso antes, Mervina. ― um aluno do fundo da sala gritou, fazendo-a dar uma endireitada nos óculos para olhá-lo direito.
― Lhe transformarei em um castor se continuar a perturbar minha aula. ― ela falou irritada para o tal garoto.
Eu tive uma forte vontade de cair na gargalhada agora.
E então, ela suspirou pesadamente ao começar a explicar: ― Na Bíblia os Nephilim denominam-se uma espécie mestiça criada por serem filhos de Anjos com Humanos. Mas na verdade, quem vos criou fora o próprio Deus, com o sangue de seus Anjos. Deus os criou para serem Caçadores dos Infratores, ou seja, caçarem aqueles que desrespeitam as regras imposta pelos Híbridos, no Mundo Místico. Os Nephilim não possuem vida eterna, mas ainda assim uma vida bem mais prolongada do que a dos humanos, chegando até duzentos anos de idade, sem envelhecer nem um pouco.
Demorou umas duas horas para acabar a aula, e eu estava quase dormindo acordada quando Pedro cutucou-me. Nós saímos da sala juntos, indo em direção ao pátio.
― Vai fazer alguma coisa agora?
Quando nós avistamos Aurora, ela pareceu-me que não havia gostado muito de ver Pedro comigo. Adelle estava junto a ela, mas a Laurie e o Demétrio não estavam lá.
Nós nos direcionamos a elas. ― Oi meninas. ― as cumprimentei. Aurora apenas deu um sorriso amarelo na minha direção, e fora beijar seu namorado.
Balancei a minha cabeça levemente tirando a minha atenção deles dois. ― Adelle, você conhece a família Fary?
― Alex Fary, seu pai, certo?
Respondi que sim com a cabeça.
― Oh, claro que eu conheço. Todos conhecem.
― Hm. Pode me contar a história? ― eu perguntei, e eu e ela fomos sentar no mesmo banquinho da noite passada, perto da árvore.
― Até hoje ninguém nunca conseguiu encontrá-los para puni-los pelas regras que eles quebraram. Dizem que eles são muito poderosos e extremamente perigosos.
― Hm. Mais alguma coisa?
― Não. Apenas sei isso.
Ri ao perceber que ninguém poderia responder-me isso além de Miguel.
Adelle não tinha aula de Tiro ao alvo, e eu tive vergonha de interromper Aurora e Pedro, para perguntá-lo se ele teria. A aula de Tiro ao Alvo ficava na cobertura do Prédio onde que se aplicavam todas as outras aulas.
Quando cheguei, fiquei raivosa ao ver Luna e Nate conversando animadamente. Pelo visto ele havia terminado com as tais garotas que Pedro havia me contado, e não perdeu tempo para procurar outra vadia.
― Annelise Martín? ― o professor veio falar comigo, com um forte sotaque russo. Ele parecia àqueles homens que comandavam os exércitos ao irem para guerra.
― Oi?
― O diretor Thomas me falou sobre você. Nessa aula, você aprenderá como utilizar as armas.
― Anne. ― Nate veio falar comigo, interrompendo o professor.
― Quer ensiná-la no meu lugar, Nathanael? ― perguntou de forma ríspida.
― Já que você me concede essa honra, vai ser um prazer ensinar a jovem moça. ― ironizou.
― Pois então, ela é toda sua! ― o professor falou se distanciando de nós dois.
Eu olhei para Nate, e sinceramente eu esperava que ele visse que eu estava com raiva agora.
― Você não pode parar de me perseguir por um minuto? ― indaguei, estressada.
― Eu estava aqui primeiro. ― ele falou, e pareceu-me que ele estava se divertindo com aquilo tudo. ― Aliás, eu te agradeço demasiadamente pelo soco que me deu no maxilar. ― oh, aqui estava ele, debochando de mim.
― Me deixe em paz e vá se divertir com as suas garotas, ou com a Luna. ― eu iria embora dali se ele não segurasse o meu braço, me impedindo.
― Está mesmo com ciúmes? ― ele estava sorrindo agora, o que apenas aumentava a minha raiva.
― Não. ― e me soltei, mas quando eu me virei, dando as costas para Nate, dei de cara com o Miguel escorado na parede, observando tudo.
Oh céus, a minha sorte é tão boa comigo, que eu sempre me ferro no final de tudo.
― Eu vim aqui te avisar sobre o treino de hoje. ― Miguel falou, em todo o momento fitando Nathanael. ― Mas pelo visto, você está ocupada.
― Não estou. ― respondi rapidamente. ― O professor me liberou mais cedo.
― Mentira. ― Nate se intrometeu.
Miguel se aproximou de mim, segurando no meu braço. ― Vamos. ― determinou, ignorando Nate.
Quando eu olhei além de Nate, Luna fitava-me parecendo estar tremendamente brava. Eu dei um sorriso cínico enquanto Miguel me puxava lentamente para fora dali. Era bom saber que ela estava com raiva, e eu estava torcendo para que ela estivesse se mordendo de ciúmes. E, certamente ela estava.
Quando chegamos à cabana, eu percebi que a cama e o armário haviam sido retirados, e no lugar agora haviam bonecos de pancada, aqueles que se usavam para treinamento de luta. Suspirei. Nunca gostei muito de educação física, ou qualquer outra coisa que exercite o corpo. Sempre fui demasiadamente preguiçosa.
Miguel estava de costas para mim quando ele retirou a camisa, dando para notar claramente os músculos que as costas dele tinham.
Oh céus, ele sem dúvidas alguma era irresistivelmente maravilhoso.
― Você não pode ficar com o Nathanael, Annelise. ― ele se virou para mim, me surpreendendo ao falar isso. ― Você esqueceu sobre o que os Híbridos te proibiram?
― Um beijo não vai matar ninguém. ― disse, tentando parecer inocente.
― Você sabe que vai. ― parecia-me que ele estava avisando-me de algo, me alertando.
― Somente se você contar para eles. Você faria isso comigo, Miguel?
Pela primeira vez eu o vi hesitar, e algo dentro de mim se remexeu ansiosa pela resposta.
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