Às vezes tem momentos na vida, que você insiste em se iludir ao achar que tudo de ruim irá passar. Essa forma de pensar é apenas um jeito de melhorar o quão ruim e danificada você está. Pois nada irá passar sem deixar marcas, umas tão profundas e tão irreparáveis que vão te machucar pelo resto de sua vida. Outras tão pequenas, que com o tempo ficaram guardadas no fundo da sua alma, intocadas. Eu nunca mais seria a mesma. E sabia disso tão bem, que cada vez ficava ainda mais nítido a cada passo que eu dava agora.

Estava escuro, tão escuro que fora preciso que Miguel segurasse minha mão, guiando-me entre aquelas passagens tão desconhecidas. A mão dele era quente na minha, mas não era somente aquilo que estava me acalmando naquele momento. A cada encostar de braços que ele me dava, eu sentia-me ainda mais segura. Mas como eu poderia me sentir daquele jeito, se eu nem ao menos o conhecia direito? Se fora ele um dos motivos para eu estar aqui agora, sem a minha mãe?

Barulhos de pingos caindo ao chão preenchiam o silêncio, e era bom sentir o frio envolvendo-me. Um feixe de luz se mostrou no fim da passagem, e fiquei ansiosa ao pensar no que poderia acontecer dali em diante. Pedras de diamantes era a causa da luz que eu havia visto. Milhares de diamantes estavam incrustados na parede daquele grande espaço que se parecia com uma imensa sala vazia no meio de uma caverna. A criatura parou, e eu pude perceber que Miguel havia ficado tenso ao meu lado.

― O conselho. A lei. As regras. ― eu senti algo me tocando, e pude perceber que eram luzes negras que se pareciam como serpentes se alongando pelo meu corpo. Um medo intenso e sem tamanho tomou-me por inteira.

Lembranças de quando eu era criança, lembranças que nem ao menos eu me lembrava, repassaram-se na minha mente.

― Mãe, ta doendo. ― falei manhosamente, apontando o meu dedinho machucado para ela.

Ela sorriu, e acariciou minha cabeça. Pegou o meu dedinho em suas mãos, e lambeu o sangue do pequeno machucado, beijando-o em seguida. ― Agora vai passar minha linda.

A pequena ferida já não existia mais, eu estava sarada.

― Katherine Martín, abençoada por Deus com o dom da cura. ― Disse uma das criaturas. E as lembraças prosseguiram.

― Filha, eu já falei para não fazer isso.

Eu pulava no sofá, e ria demasiadamente ao sentir o vento no meu rosto.

― Mamãe, isso é bom. Por que quer que eu pare?

Ela me olhou com cara feia, e em seguida me tirou do sofá, pegando-me no colo.

― Por que você irá se machucar, criança.

― Mas você irá me curar se isso acontecer. Você sempre cura. ― falei inocentemente.

― Envolveu-se com Alex Fary, um romance proibido, para nós Híbridos. ― Aquela voz horrenda sussurrava com um narrodor em minhas lembraças.

E então, eu voltei ao foco, aturdida ao entender tudo o que estava acontecendo.

Outras mais criaturas saíram das paredes daquela caverna, causando assim uma intensa vontade de fugir.

― Infração e desrespeito as leis que nós opusemos. ― outra criatura estava falando agora, só que essa estava a minha frente, tão próxima a mim que eu senti um frio sem igual tocando-me o rosto.

― Não tema Annelise Martín, você não tem culpa alguma. ― a criatura a minha frente tocou o meu rosto, sua mão escura com unhas pontiagudas arranharam-me.

― Miguel Bertocchi a treinara, ficando ao seu lado até que você desperte. ― outra voz ecoou naquela caverna, dando-me calafrios. ― Sua mãe será perdoada se você obedecer nossas leis, Annelise.

― Só depende de você. ― escutei um grunhido baixo, de outra criatura.

― Não poderás se relacionar com mais ninguém, Annelise Martín.

Escutei uma risada, tão maléfica que tremeram minhas pernas.

― Intocada pelo amor você permanecerá toda sua eternidade, pagando pelo pecado de sua mãe e de seu pai.

Sussurros ao vento eu escutei, mas não consegui reconhecer o que eles significavam.

― Treine para que consiga sobreviver aos seus poderes. Seja forte para suportar todas as suas dores. E preste atenção, Annelise, pois sua existência está rodeada de mistérios que somente você poderá desvendá-los. Agora vá e descubra a si própria.

Eu não esperei Miguel guiar-me para fora dali. Eu corri, mesmo parecendo que tinham fendas em meus olhos, impedindo-me de enxergar qualquer coisa a não ser a escuridão daquela caverna. Eu corri, mesmo estando com as minhas pernas tremulas, mesmo estando sem forças o bastante para tal ato.

As lágrimas jorravam de meus olhos agora, e eu senti um ódio insano tomando-me. Eu nunca mais choraria novamente. Nunca mais eu deixaria essas malditas lágrimas molharem o meu rosto novamente. Nunca.

Fora então que eu esbarrei em algo duro, mas quente. Eu deveria saber que Miguel seria muito mais rápido do que eu, e me alcançaria facilmente. Será que não dava para ficar sozinha pelo menos um minuto? Pois eu não queria que ele visse mais de mim do que ele já havia visto. Eu não queria que ele conhecesse todas as minhas fraquezas, e eu não queria parecer ainda mais fraca do que eu aparentava.

Eu estava raivosa pelo fato de minha mãe não ter-me contado nada de seu dom. Eu estava com ódio porquanto seria eu a quem pagaria pelos erros dela e do meu pai.

― Annelise. ― ele pronunciou o meu nome pela primeira vez, seu tom era calmo, mas ainda assim era tão profundo que me tirou de meus devaneios. ― Vamos embora daqui.

Ele segurou o meu braço, e me guiou novamente, lentamente por aquelas passagens que eu não conhecia. Estranhamente, parecia que ele estava tendo cuidado ao me tocar. Cuidado para não me machucar ainda mais.

Eu fechei os meus olhos, e tive saudade da minha vida normal. O passado nunca mais voltaria, mas eu sabia que as lembranças dele me perseguiriam, me atormentando com cada momento que eu havia passado não sendo uma aberração, e nas oportunidades que eu havia tido em mãos. Mas eu tinha que aceitar quem eu verdadeiramente era. Eu tinha que treinar mais e mais para salvar minha mãe. Para salvar a mim mesma.

Eu teria uma eternidade pela frente, e eu não poderia ficar desperdiçando-a. Eu tinha que aproveitar cada segundo desse novo mundo, cheio de mistérios e magias, onde tudo podia acontecer. Só que como eu iria fazer isso, se parecia que pedaços afiados de vidros perfuravam o meu coração já quebrantado?

Como eu poderia aplacar o ódio que eu estava sentindo pelo simples fato de ter que passar a minha eternidade inteira sozinha por um erro que eu não havia cometido?

E o que eu faria com a dor que estava me despedaçando por dentro a cada minuto que passava?

Deus, por que você não está olhando mais por mim?

Notas finais
E agora? Como será? O que vai acontecer com Lise? Será que ela vai desobedecer as ordem dos híbridos? Só acompanhando para saber :)