Angel Devil
16 Piercing na língua.
Notas iniciais
Boa leitura! ♥
– Vai para a Igreja hoje? — sua voz competiu com a música saindo nos
meus fones de ouvido.
– Não.
– Ninguém mais acredita que você esta com problemas de saúde.
Tirei meus olhos do desenho mal feito que eu tentava fazer na folha arrancada do meu caderno e um fone do ouvido, interessada no que ele tinha a dizer mais. — Irmã descobriu, a noticia se espalhou da escola para lá...Você sabe como isso funciona.
– Achei que você não ia à Igreja quando eu não estou lá.
– Mas eu vou, achei um novo jeito de imprecionar meus pais — deu um
largo sorriso, satisfeito. – Aprendi com você.
– Está dando certo?
– Sim. Ocupo meu tempo cobrindo os buracos que sua falta deixou. Os
caras estão adorando jogar basquete — eu tive que ri com essa também.
– Hm. Cuidado, isso pode acabar mal.
– A Irmã não é tão severa comigo. Estou jogando basquete a tarde toda. Existe algo melhor?
–...Então o mol do Oxigênio é? — mudei o assunto drasticamente, Diego
olhou feio para mim antes de mudar sua mirada para o caderno. O projetinho de bom-moço estava tentando me distrair, só que conseguiu por muito tempo.
– Você sabe a resposta.
– É você que deve descobrir — eu rebati.
– O quê que custa falar a resposta? Assim acabamos com essa tortura mais rápido.
Olhei para o teto recolocando meu fone e encolhi os ombros, deixando
claro que manteria a boca fechada daqui em diante.
Por causa das escapulidas dele estamos mais do que atrasados, para
piorar amanhã temos que entregar um trabalho de Quimica valendo ponto. Deixamos tudo para a última hora. Mas a culpa não é toda de Diego, eu também gastei meu tempo preocupada comigo mesma, enfrentando minha mãe e gente se sentindo no direito de intrometer na minha vida.
As coisas não melhoraram. Eu não tenho para onde fugir. E minha mãe
decidiu jogar sujo dessa vez, transformando meu castigo num impossivel meio de sobrevivência. Ela quer ouvir eu implorando por misericórdia, dizer que nunca
mais serei uma filha desobediente e voltarei ser escrava de uma vida que não me preenchia; sem começo, sem meio, sem fim.
Mas para a decepção dela não sinto saudades de nada que abandonei. Tudo é uma questão da borboleta sair finalmente do casulo e viver o que a natureza destinou para ela. Simplesmente isso. Mas até a largata termina seu processo de transformação tem que ter muuuuuuita paciência...
Diego foi até o balcão grampear nosso trabalho enquanto eu arrumava o resto das nossas coisas sobre a mesa. Nora, a bibliotecaria, mandou mais um daqueles olhares que somos obrigados a suportar por aqui, e despidimos sem deixá-la tocar no assunto. As pessoas desistiram em somente especular sobre nós e falar pelas costas, agora se sentem no direito de dar suas absurdas opiniões na nossa cara, como se tivessemos interessados nelas. Babacas!
Para eles, eu e Diego estamos namorando e pronto. Chamam isso de Um Milagre Na Vida De Melinda, já que na cabeça de cada um eu ia morrer virgem e de quebra ganhar uma estatua de barro com a minha caricatura. Não estou brincando.
Não há nada que podemos fazer contra isso, não vão enxerga o obvio, ou não querem enxerga para torna a escola um lugar mais divetido para eles, somente nos usavam.
– Eu devo pensar em alguma desculpa ou você já tem algo brilhante em mente?
– Diga apenas ''Ela não veio.'' Você não é obrigado saber tudo sobre mim.
– Não vai ser o sufiente.
Suspirei olhando o bico do meu tênis sujo.
– O sufiente sou eu lá, então...- dei d eombros — Não há desculpa que os façam te deixar em paz...
– E por que você não vai? Não olha assim para mim Melinda, eu sei que não quer mais nada disso, mas pense bem...Tudo o que você fazia antes não era para se esconder dessas pessoas?Agora quer toda atenção para si.
– Eu não quero porra de atenção nenhuma — resmunguei incomodada com suas palavras. — Eu apenas não consigo mais ser falsa. Como dizem: O leite já foi derramado, não tem mais volta.
Diego achou graça em aluma coisa, desarmando minha postura de ataque com seu sorriso amigavel. — Entendi baixinha infezada. Vou ficar respondendo ''Ela não veio'' quantas vez for necessario.
– Falando assim parece até uma tortura.
– Ah, não. Não é nem um pouco – ironizou, balançando a cabeça para mim. Foi minha vez de achar graça e dele de ficar irritado.
Caminhamos lado a lado até o portão do ‘’presidio’’, quando chegamos na calçada me virei para despedir do meu amigo, mas o encontrei olhando para outro lado com um certo interesse estranho, o cutuquei não entendo o que era.
– Você conhece aquela garota? — confusa com a sua pergunta procurei o que tanto observava, seguindo seu olhar na mesma direção. – Desde que chegamos ela não pára de olhar para cá...
– Vic? – o interrompi, murmurrando meio incerta.
A ruiva — encostada no capo do seu New Beetle preto — ao perceber que a vimos acenou, confirmando que não há problemas com a minha visão, era ela mesmo!
– Diego! – exclamei pronta para lhe pedir um favor antes de ir. – Se minha mãe, ou qualquer um, perguntar sobre mim diga que eu fiquei até tarde na biblioteca. Pode dar certo.
– Quem é ela?
Logico que ia ter um porém.
– É uma velha amiga, combinei de dormir na sua casa hoje para resolver umas coisas – sentir um pouco de remosso por mentir para ele, mas não é hora de perde tempo contando toda a historia sobre a Vic, talvez uma outra hora.
Diego intercalou seus olhores curiosos ora para mim/ora para ela do outro lado da rua, e acabou aceitando numa breve confirmação com a cabeça. – Otimo! – sorri lhe dando um beijo na bochecha, agradecida, e disparei para a rua, violando meu castigo de ir direto para casa depois da escola sem me importar.
– Quem é o Príncipe? – minha amiga perguntou quando entrei no carro, pulando a parte ‘’ Oi, tudo bem? Sentir sua falta. Quais são as novidades?’’.
– Príncipe?
– O cara tem a pele melhor que a minha!
– É apenas um amigo.
Na sua face apareceu a famosa expressão ‘’desde quando você tem um amigo?’’, mas preferiu não descobrir, dando partida no carro.
A medida que seguiamos pela parte mais viva de HB, onde as pessoas são de verdade, Vic tomou um caminho diferente. Pensei que iriamos onde os meninos sempre ficam, talvez encontrá-los em algum lugar, mas eu deveria ter dito à mim mesma que ela não é nenhuma ridicula obssessiva, tem sua vida a parte, coisa que minha cabeça não deixa eu fazer o mesmo.
– Teremos compania – explicou a mudança de rumo, parando enfrente uma loja de eletronicos e peças de carro.
Vic buzinou. Segundos depois três garotas saíram de um portãozinho ao lado, duas morenas em tons diferentes e uma loira platinada. Uma das morenas foi até a porta da loja e gritou uma rápida despedida, então ocuparam o banco de trás do pequeno carro, parando de tagarelar sobre quarto de hotel, alguma coisa assim, envolvendo mais pessoas.
– Meninas, essa é a Mel – Vic deu uma pousa rápida, e somente eu entendi a piada interna que insinuou sorrindo ligeiramente – E Mel essas são, Leticia, Tryce e Grazi.
Leticia é uma das morenas — cabelo negro, longo e liso, destacando sua pele pálida e os olhos azuis opacos. Vestia toda de preto; calça, blusa justa com um generoso decote, custurada na vertical por pequenas argolas prata. Botas, sem cadarços, a língua escapolia dobrada pra fora. E tem uma tatuagem colorida fechando seu ombro.
Tryce é a segunda morena — do cabelo castanho, todo desfiado e na frente puxava uma franja pontuda, tampando seu olho esquerdo constantimente. Junto com a Vic, é a mais montada; usava acessorios, roupas de bom gosto e bem maqueada.
Grazi é a loira platinada — sua raiz escura aparecia mais ou menos uns três dedos e o resto loiro era esticado sem corte. Tem a pele queimada de sol. Mostrava sua barriga magra numa mini-blusa soltinha com estampa da bandeira da Inglaterra, usava short jeans e também botas de cano baixo. O curioso era seu piercing no septo, enfeitando seu nariz grande.
Elas começaram a contar por onde andaram nesses ultimos dias. Eu não entendi muito bem, pois contavam como se Vic já conhecesse a maior parte da história, esquecendo de mim. Só sei que era sobre garotos, tour, momentos inesquesiveis, e sexo no bunk todas as noites.
Leticia perguntou sobre as novidades por aqui, estendendo a conversa sobre os meninos. Eu deixei de prestar atenção na estrada quando ouvi ‘’Synyster’’ sair da sua boca e em seguida:‘’ Tenho que terminar o que aquele guitarrista começou.’’
Eu afundei no banco, cruzando os braços com medo de ser evidente demais o incomodo que senti contra aquela conversa. As outras riam e brincavam, dizendo que Leticia está apaixonada pelo guitarrista.
Senti culpada por achar que devo intrometer neste assunto, se quer eu tenho direito de pensar nas piores maneiras de torcer o pescoçinho magrelo dela enquanto ouço detalhes da sua quase-transa. Bloqueei meus ouvidos, mas era tarde demais. Minha mente se tornou um nó sufocante, entre arrependimento e raiva. Arrependimento por deixar sentimentos que nutri por ele desde que aceita aquela carona crescer dentro de mim cheio de ilusões, rápido demais. Raiva porque diante do que ela contava a minha história virou um simples casinho bobo, cheio de sonhos infantis, apaixonite aguda como as adolescente da minha escola!
– Saca só – Vic bateu no meu braço, chamando minha atenção para sua língua fora da boca. – Em homenagem a nossa amizade. Tipo aqueles negocios de BFF – fez uma careta divertida, explicando qual é a do piercing.
– Um piercing na língua?– arqueei a sobrencelha, olhando cada pontinho brilhando nas línguas delas deslumbrada. –...Eu quero também.
As meninas soltaram exclamações aprovando-me, mas Vic apenas deu uma longa olhada para mim e voltou olhar silenciosa para a estrada.
Não retirei o que eu disse, porque é a melhor ideia do século! Um piercing na língua...Eu não serei mais um alienigina entre elas, ou pelo menos é meio caminho andado. Não teriam motivos de me chamar de Freira, pois Freiras não tem um foda piercing brilhando na língua. E Brian podeia me ver com outros olhos, como é acontece com a Leticia.
Eu também quero.
[...]
A nossa primeira parada em Los Angeles foi num barzinho estilo britânico, um Pub de mobilia morta e clientes entupindo a velharia. Descemos para o sotão por uma passagem estreita, no alto da entranda havia apenas uma placa torta ajudando iluminar o corredor com seus flashs em verde neon. Tattoo&Piercing. É este o nome do lugar.
E depois da porta, fomos recebidas por um som pesado explodindo nas caixas de sons pelo teto, eu procurei não olhar tudo feito uma turista boboca. Sei lá. É o tipo de lugar esquisito, estranho, sem noção, ou qualquer coisa fora do comum, que você só vai sendo amiga de alguém feito Vic.
– O que acha? – ela perguntou, me pegando no flagra.
Desviei os olhos das pinchações na parede e respondi baixinho: — Não sei.
Por causa do meu interresse ignorante por tudo fui deixada para trás. Observei atraves dos vidros limpos diferentes tipos de alargadores, piercings, e outros objetos, que nunca cheguei a ver ao vivo.
– Mel, vem aqui – a voz da ruiva atravessou a porta aberta e eu fui ao seu encontro com hesitação.
Do outro lado era mais uma sala porém maior, paredes de espelhos, e uma cadeira igual de dentista — mas vermelha — junto com uma mesinha branca no centro. Foi então que meus olhos cairam num estranho ser alto e magro de costas, conversando com Vic alheio a minha presença na sala.
– Senta aqui – ela deu um tampinha na cadeira de dentista – Não se preocupe, Toby não vai cobrar nada – franzi o cenho. Por que não iria? – Digamos que já fiz uns serviçinhos adiantados – respondeu como se tivesse lido meus pensamentos.
– Que serviçinhos? – insistir inocentemente.
O tal Toby soltou uma risada alta, meus olhos desviaram-se para ele novamente e não consegui mais parar de olhar.
Sua aparência combinava com tudo aqui. A blusa branca por debaixo de um colete jeans sem mangas, nem chegava cobrir o coz da sua calça apertada demais para um homem. Cueca preta aparecia quase toda. Coturnos sobre o jeans. O cabelo parecia fincos nascendo da sua cabeça e raspado nas laterias. E o rosto...É dificil de descrever, passava longe do padrão de beleza, mas há algo nele que...Não sei explicar direito, mas que atraí. Com certeza Toby deve ter uma longa lista de garotas que já transou na vida.
Ele colocou o seu material em cima da mesinha, senti um frio na barriga ao tirar a agulha do plástico, antes lacrado.
– Coloque a língua para fora – pediu falando comigo pela primeira vez.
Puxou minha língua com os dedos cobertos pela luva higiênica e ali passou uma pomada.
– Não dói tanto, não é? Você não tem um piercing na língua...- tentei adiar meu sofrimento.
Inesperadamente Toby trouxe seu rosto pertinho do meu, separou seus labios palido para mim mostrar sua língua movimento feito uma minhoca, disparando meu coração.
São dois piercing de uma só vez!
Calei a boca enquanto ele somente se afastou revelando todos seus dentes tortinhos num sorriso.
– Coloque a língua para fora – repitiu.
Dessa vez a prendeu com um certo pregador de ferro gelado, e o que veio a seguir me fez gemer, fechar os olhos com força e cravar as unhas no estofado da cadeira.
Naquele segundo pensei que perderia minha língua. Tentei reclamar mas foi rapido demais para consegui completar um palavrão, só sei que DOEU!
Não consegui colocar minha língua latejante para dentro, corri até o espelho na parede e fiquei assim, olhando fascinada o MEU piercing.
Vic deu um beijo na bochecha de Toby demoradamente — Você é bom nisso — e disse carinhosa. — Não abra muito a boca quando tiver perto da sua mãe, ela não vai notar, só não dar muito na cara – depois se aproximou de mim.
Suas palavras não causaram o efeito que deveriam, eu só fitava o objeto atravesado na minha língua pensando já no outro que eu poderia fazer, e outro, e mais outro...Sorri. Vic fez o mesmo, olhando nosso reflexo no espelho e me abraçou por trás, sussurrando — Boa garota — e depositou um beijo no meu pescoço.
– Espero não ter metido em problemas – já Toby levou a sério o que ela disse.
– As vezes você nem parece um Punk, sabia?
– Só não quero que reclamem no meu ouvido depois.
– Está tudo bem – mentiu.
O Punk acaba de furar uma garota menor de idade em um estudio provavelmente registrado. É caso de policia. Claro que nada está bem.
Girei sobre meus calcanhares na intenção de dizer alguma coisa para ele não se sentir ameaçado, mas aqueles dois começaram se beijar bem na minha frente. Daqui pode ver...Uma cena que eu preferia ficar sem assisti.
Felizmente o barulho do outro lado da parede junto com risadas escandalosas os interrompeu, Toby grunhiu indo conferi o que era a bagunça.
– Vic — comecei quando ficamos sozinhas — Eu deveria saber com quem você pega em cada lugar que fomos, assim daria um pouco de espaço. Não curto Voyeurismo, tá legal?
Ela soltou uma risadinha, sentando na cadeira a onde sofrir. — Relaxa, da proxima eu aviso.
– Terá proxima? – perguntei incredula – Cada ‘’ponto turistico’’ você tem um amante?
– Não vem com seus surtos de Freira! Não sou tão rodada como parece. Somente curtição, nada de amantes.
– Estou começando a achar que sou uma Freira mesmo...
– Por isso eu existo na sua vida, para lhe por juízo – retrucou seria, como se a parte da Freira fosse a coisa ruim na história – Vamos ver o que as meninas aprontaram, garota do cerébro deslocado.
Eu tive que ri do meu novo apelido. Trazia lembranças.
Na outra sala Grazi estava no chão catando cacos de vidros sobre um liquido incolor, as outras riam e xingavam Toby, que revidava estedendo a discurção boba.
– Não temos para onde ir – Vic entrou no meio, depois que ele mandou as meninas dar o fora.
– Tenho algo para vocês – ele disse ajudando Grazi pegar o resto dos cacos, saiu e voltou com varios papeis brancos nas mãos e os distribuiu.
– Doelo entre bandas! – Leticia gritou ao arrancar um antes mesmo de ler o que tem no papel.
Pensei que fosse algum flyer, mas no alto estava escrito Backstage pass e uma tirinha lacrada para colocar no braço com o nome da banda que eu não conhecia. – O estugio esta patriocinando?
– Se ele tem pass...Sua maconheira! E olha que eu sou a loira aqui...
– Ah Grazi, vai dar os seus X-burguers amassados que você chama de bunda!
E assim começou mais uma discurção.
[...]
Não sei o que eu fiz mas de alguma forma meus pedidos estavam estranhamente sendo atentidos. De novo. Acho que alguma força divina lá em cima finalmente ficou com muita dó de mim nesses utimos dias que passei sem na disso e resolveu colaborar, ou talvez são força lá debaixo, desviando meu santo caminho para lugares como este. O que é mais plausivel. Aqui eu não tenho salvação.
– JOHNNY! — Tryce gritou, tentando ser mais alta que o povo em nossa volta.
Por pura coincidencia um pouco metros, na nossa frente, quase sendo engolido pela multidão também estava nada mais e nada menos que pequeno Johnny. Eu sorri mais do que elas, indo abraçá-lo.
Depois Zacky apareceu, confirmando minha tese que todos deveriam estar aqui.
– Vocês acharam a desaparecida – Zacky brincou quando me abraçava. – Vamos lá pra cima.
– Antes vou atras de alguém e trocar este pass por álcool – Leticia teve a ideia, sumindo entre a galera. As outras foram juntos, a procura de bebida gratis enquanto eu subi com eles, interessada em outra coisa. Toda pessoa de cabelo cheio eu pensava que era ele. Virei a caçadora de cabeludos, mas nada de Brian ser um daqueles garotos.
Frustrada eu sorri e brinquei, sorri e brinquei, sorri e brinquei, mas acabei cansando disso, sentando num canto qualquer do camarote e joguei meus pés na mesa, sem mais saco para fingir que estou me divertindo.
Eu assistia as pessoas indo, vindo, procurando por diversão, e me obriguei interessar por pelo menos um carinha aqui para tentar esquecer. Mas não...Bufei impaciente comigo mesma, apertando meus braços contra meu peito como se eu fosse consegui segurar minha esperança falha.
E foi assim. Por uma hora e meia passei plantada aqui, mais meia hora de arrependimento fiquei também, segundos depois meus olhos tornaram-se desfocados e eu já não via as pessoas na minha frente, mergulhada nos meus proprios pensamentos teoricos sobre Brian e seu sumisso. Será que ele esta lá embaixo? Ou mais pro fundo? Talvez no palco? Está com alguma garota? Aquela Michelle conseguiu engolí-lo de vez?
Então despertei algum tempo qualquer flagrando um par de olhos azuis diretamente para mim. Chamei Jimmy com a mão, ele veio risonho com seu cabelo não-mais-loiro. Tirou minhas pernas sobre a mesa para passar e as colocou em cima das suas, me fazendo sorrir. Não falamos nada primeiramente. Eu voltei observar a galera com uma pontinha de esperança ainda batendo no meu peito, até Jimmy puxar papo e me salvar dessa:
– Veio para ficar sentada?
– Não — minha voz saiu vaga sem querer, entregando minha falta de animo.
– Então o que é?
Ela sabe o que é. Antes de qualquer resposta seus lábios curvaram num sorriso malicioso, eu estreitei os olhos. Jimmy está tentando fazer eu confessar em voz alta o quão quero seu amigo idiota aqui.
‘’ Nem morta! Não preciso daquele guitarrista mesmo...’’- pensei erguendo meu queixo para ele orgulhosa. Mas seu sorriso só cresceu.
Irritada por ser contrariada, roubei a bebiba brutalmente da sua mão num pedido silêncio para ficar na sua, e tombei minha cabeça para trás já no primeiro gole sentindo o quão eu estava com sede.
– Desculpa – pedi sarcastica, lhe entregando a garrafa vazia.
– Arram, sem problemas — disse da mesma forma. — Você está andando demais com Vic...tsc tsc tsc.
– Hã? – fingi de desentendida, mas não consegui esconder o sorriso igual de criança que acabou de fazer a melhor travessura do ano, mudando de humor rapidamente. – Gostou? – botei a língua para fora, agindo mais convencida do que meu rosto de boneca consegui ser.
Jimmy riu balançando a cabeça.
– Seria clichê dizer que você ficou mais linda do que já é? Os caras vão pagar para ter um beijo seu com esse piercing – fitou minha boca.
– Seria absurdo dizer que você está tentando dar em cima de mim?
– A culpa é do álcool – brincou levantando as mãos em defesa – Vou buscar mais. E ah, já ia esquecendo...Brian não esta em HB – e se foi, deixando-me cheia de mais teorias bombardeando minha cabeça.
Pra onde ele foi? O que foi fazer? Estava com alguém? Que dia? Quando volta?
Controlei minha face desapontada. ‘’O que você esperava dele afinal?’’ — acusando-me pois já deveria ter advinhado que algo assim ia acontecer a muito tempo, bem antes de entrar neste lugar.
Sair feito furacão do camarote, decidida aproveitar o tempo perdido naquele canto escuro como se hoje fosse minha última noite livre. Encarei cada rosto que virava na minha direção, na espera de algum cara me oferecer uma bebida. Foda-se Brian.
O primeiro que cruzou meu caminho puxei para mim, o levando até o bar. Virei o copo que o barman deixou sobre o balcão de uma vez, o álcool desceu rasgando e em repostas um calor que eu tinha esquecido de como era bom subiu, expulsando todos meus problemas neuroticos, anestesiando-me.
O estranho acendeu um cigarro, antes de dar a segunda tragada eu roubei da sua boca e levei até a minha. Ouvi seu riso rouco aprovando meu atrevimento, se aproximou deslizando suas mãos pela minha cintura sem permissão. Sua respiração neutra aqueceu meu pescoço, ele pressionou seus lábios ali, contra minha pele, fazendo um arrepio gostosinho passar pela minha espinha, mas não é o que eu quero hoje. O empurrei para longe de mim, soltei a fumaça no espaço que ficou entre nós, e fui até simpatica lhe devolvendo o cigarro.
– Isto fica comigo – avisei sem olhar seu rosto, levando a garrafa.
– Vadia – sorri com o elogio.
Era somente isso que eu queria dele. Fazer um babaca de otario como fizeram comigo. E até entendo Brian agora, não sabia que é tão bom brincar assim com uma pessoa...Ele, eu, estamos de parabéns.
Me enfiei na galera acompanhando a nova banda tocar, começando a dançar loucamente ao som da música que me proporcionou uma sensação incrível de prazer e liberdade. É isso. Liberdade. Dançar até meus pés sangrarem como nunca fiz.
Dessa vez não existia um ser humano capaz de me deter. Posso fazer o que eu quiser, rebolando como nunca rebolei junto com a batida. Liberdade, liberdade, liberdade! Meu coração entrou numa sensação extasiante, bombardeava adrenalina por todos meus poros, enquanto meus olhos encontravam com maior parte deles acompanhando meu corpo em cada movimento e correspondendo minhas encaradas. Sentia-me como estivesse acabado de chegar ao mundo, tudo era tão prazeroso, novo, empolgante que deu vontade de gritar. Foda-se se estou parecendo uma pirada jogando o cabelo pros lados, passando a mão pelo meu proprio corpo, mechendo meu quadril exageradamente com uma garrafa na mão. Porque é essa Melinda que deveriam conhecer. E eles iram.
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