Angel Being Pampered [Hiato]
33 Identidade Real
Notas iniciais
Allen estava sendo extremamente paparicado, mas até mesmo ele que sempre sorria nos momentos mais difíceis não conseguia disfarçar sua preocupação – ele sabia que estava em perigo e que podia perder o controle de si mesmo a qualquer momento; não facilitava muito o fato de todos os seus amigos do Host Club o fitarem tão atentamente, quase como se soubessem que ele não era exatamente ele nos últimos tempos.
O que deveria ser uma comemoração de Valentine’s Day acabou virando uma competição entre o Tamaki e o exorcista, que de alguma maneira improvável terminou com o Hani-sempai ganhando mais chocolates que os dois juntos. Mais um dia típico no Host Club, o que no fundo só deixavam o jovem mais deprimido.
A ausência de Lenalee e Kanda não passou despercebida pelo exorcista, mas no momento ele tinha questões mais urgentes do que pensar em como provaria que ele estava de volta. Mesmo sem poder se manifestar, durante dias ele ficou ciente de tudo que seu corpo fazia e com quem falava e isso trouxe a tona um questionamento que estava quase o matando:
Quem era Haruhi?
...
Lenalee ainda não conseguia entender como a passagem funcionava; enquanto eles mexiam a esmo em tudo aquilo que lembrava um botão ou alavanca, ao mesmo tempo em que consideravam seriamente a possibilidade de ela estar lacrada ou funcionar por comando de voz, a estante se moveu dando lugar a uma entrada estreita, porém mais do que suficiente para todos eles passarem. Desconfiados, todos cobriram os rostos com capuzes antes de se aventurarem no interior do túnel, pois era impossível saber se haviam câmeras.
Logo ficou claro que ela era utilizada com frequência: não tinha nenhum grão de poeira, teias de aranha... nem mesmo os ratos conseguiram acesso até ali. A iluminação era baixa, mas tanto as lâmpadas quanto a fiação eram modernas – o túnel era na verdade uma comprida e íngreme escadaria que descia se dividindo em uma série de caminhos.
Eles nunca conseguiriam explorar tudo a tempo.
Mas não desistiram; sempre em linha reta, eles passaram cerca de dez minutos descendo rápido e initerruptamente, como nada além dos sons de seus passos nos degraus e de suas respirações curtas e ofegantes. Um tempo curto e ao mesmo tempo longo, pois eles não podiam ficar naquela residência por muito mais tempo.
Finalmente chegaram no seu fim, agradeceram mentalmente estarem cobertos, pois estavam diante de uma porta de correr de metal frio e com mais de dois metros de altura; câmeras guardavam sua entrada e no canto direito havia um painel pequeno com botões contendo os números de zero a nove — o lugar tinha senha de acesso.
Uma pequena agitação se seguiu enquanto os Finders tiravam de suas roupas toda uma série de aparatos daquele século cuja utilidade, segundo os próprios, era justamente decifrar senhas como aquela. Nenhum deles funcionou. Boa parte inclusive entrou em curto circuito e o cheiro de queimado começou a impregnar as roupas de todos.
Resolveram então tentar apelar para senhas: tentaram tudo relacionado à família Suou, como datas significativas em seus negócios como a inauguração de suas escolas e hotéis, assim como números importantes para a Ordem, relacionados as Innocences, números de unidades espalhados pelo mundo(mesmo sabendo que o número podia ter diminuído ou aumentado no século XXI), entre outras teorias mirabolantes.
Sobravam apenas números relacionados aos Leverrier.
O problema era que ninguém conhecia muito sobre a misteriosa e mais poderosa família da Ordem; tudo que sabiam era que eles possuíam cargos em todo alto escalão, que nenhuma mísera decisão era tomada sem passar por eles e que no passado eles conduziram as mais chocantes e cruéis experiências com suas crianças ou parentes de outros exorcistas, na maioria das vezes acabando com exorcistas caídos ou jovens mortos.
Lenalee conhecia suas práticas mais do que gostaria de lembrar; naquele lugar abafado ela arfou com as lembranças pesadas de sua infância, que vinham numa torrente, a desorientando totalmente. Sentindo um aperto em seu ombro, ela virou e fitou a expressão fechada de Kanda, como se ele silenciosamente dissesse “não perca o controle”, acenando em agradecimento, ela começou a pensar, baseada em tudo que sabia sobre; antes de mais nada, eles exerciam tanta influência porque...
–Hev. – disse ela, assustando a maioria dos Finders, uma vez que estavam todos em silêncio pensando em alternativas.
–O quê? – perguntou o outro exorcista.
–Hevlaska, a compatível do Cubo – explicou ela – ela é uma Leverrier.
Os finders demoraram alguns minutos acessando seus arquivos em busca de informações mais completas; apesar de um pilar fundamental para todos, existiam poucas informações acerca da mais antiga exorcista, aquela que guardava e cuidava de todas as outras Innocences. Talvez pela milésima vez a menina se permitiu contemplar a rapidez e eficiência da tecnologia do futuro, algo que sem dúvidas facilitaria e muito a vida de bastante gente em seu próprio tempo. A comunicação era precária, mas eles passavam o máximo de informações sobre toda a sorte de teorias e equipamentos para a Divisão de Ciências, o que não deixava de ser um consolo – se eles falhassem, três das mais poderosas Innocences se perderiam, mas eles teriam conhecimento sobre medicamentos e armamento completamente novos.
Era tudo tão mais simples quando suas preocupações diárias eram a matéria, os dias no Host Club e as fofocas envolvendo Allen e Fujioka num romance gay (ele nunca se explicou muito bem, mas até ela achava que ambos tinham uma relação meio engraçada). Agora que as coisas estavam acontecendo pra valer, ela desejou pela milésima vez ser uma garota normal que estuda, conversa e come docinhos falando de garotos – então pensou em seu irmão e se sentiu terrivelmente culpada.
E ela não o veria tão cedo, pois ainda estavam longe de descobrir quem era o compatível misterioso.
–Achamos poucos dados, mas para tirar alguns números precisaríamos de mais tempo.
–Que tal a data de nascimento dela? – perguntou Kanda.
A garota se segurou pra não falar nada; datas de aniversário eram justamente o tipo de coisa que você nunca coloca numa senha, mas o amigo sem dúvidas era mais conhecido pela sua ferocidade do que intelecto brilhante.
Irritado com o silêncio ele chegou a informação no tablete do Finder mais próximo, então foi no painel e digitou ano, mês e dia; para o choque de todos ouviu-se um pequeno estalo e a porta se abriu.
Por um lado ela se impressionou; aquele era o tipo de senha tão óbvio que nenhuma pessoa sensata tentaria usar e justamente por isso era genial. Por outro entrou em estado de alerta, pois aquela era a prova definitiva que a família de Tamaki estava metida naquela história até o pescoço e que se alguém podia explicar porque nenhum deles conseguira contato com a Ordem naquele século, eram eles.
...
Ele ainda não acreditava naquilo. Se lembrava dos dias que passou controlado por Neah de forma vaga, imagens desconexas e desfocadas que na maioria das vezes mais o confundiam do o ajudavam quando tentava se concentrar nelas.
Mas de uma coisa estava certo: ele passou esse tempo consciente de tudo que seu corpo fazia e até foi obrigado a se impressionar com a facilidade com a qual o Noah tomou seu lugar na rotina sem causar grande estranhamento na maioria das pessoas – e era eternamente grato por aqueles que o conheciam o suficiente para notar que algo estava errado.
Era como se ele estivesse amarrado numa cadeira, forçado a assistir tudo de camarote e aguentar as provocações do ser intruso em sua mente; nesse ponto Conde, Road, Tyki, Neah, todos eles eram iguais, gostavam de provocar os outros. Em um desses momentos ele disse que Haruhi era um Bookmen.
Allen pensava em Lavi e no velhote rabugento Bookman e se sentia cada vez mais perdido. Não fazia sentido algum que Haruhi fosse como eles; se lembrava da casa dela, as diversas fotos da menina pequena, com o pai ou amiguinhos do colégio. Ela tinha identidade, ela fazia parte da História... como poderia registrá-la? Porém se lembrava da reação dela ao ver o Neah controlando seu corpo pela primeira vez – mais que qualquer um, ela sabia exatamente o que estava vendo e seu evidente alívio horas antes quando ele voltara a si era a prova final que precisava para ter certeza de que ela tinha algo de suspeito.
Mas antes, precisava encontrar seus amigos da Ordem e tentar da melhor maneira possível provar que ele era Allen novamente. Kanda também reconheceu o Noah rapidamente, então talvez não tivesse tanto trabalho.
Perdido em divagações, ele se espediu de todos e foi para um canto ligar para alguém busca-lo quando seu olho esquerdo ardeu como se alguém colocasse ferro em brasa nele. Ele se assustou, pois fazia tempo que sua maldição não dava as caras e se viu encarando cinco Akumas de Nível 3 enquanto mal conseguia lutar decentemente – seu corpo paralisou pelo pânico; se seu olho estava funcionando, ele devia ter sentido a presença deles antes.
Foi poupado de bolar um plano de fuga quando os cinco se dissolveram numa intensa chama; olhando para os lados, se deparou com a última pessoa que esperava encontrar ali.
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