Angel Being Pampered [Hiato]
12 Extra: Outra Vida
Notas iniciais
A ideia desse especial veio porque comprei meu DGM 21 e fiquei toda sensível com o nosso adorado exorcista de cabelos negros.... acho até que ela daria uma boa One-Shot a parte, mas tenho preguiça de ter todo o trampa de arranjar uma sinopse e uma capa só pra uma coisa complementar a ABP.
Acabou ficando grandinho, tem um tom mais delicado e dramático, parecido com o das minhas outras fics... enfim, espero que gostem.
Kanda andava pelo centro a procura de um lugar decente para comer sobá, já que os restaurantes caros onde as pessoas de seu clube sempre iam só serviam cozidos e culinária ocidental; como era um membro ilustre e promovido a capitão no instante em que lutou pela primeira vez, era sempre obrigado a participar desse tipo de coisa.
Olhou ao longe, algumas quadras dali ele e moyashi tiveram de salvar Lena as pressas de um ataque de akumas. O ocorrido era de certa forma recente, mas parecia ter sido há tanto tempo atrás que seu coração involuntariamente sentiu um aperto – apesar de jamais admitir, até ele já sentia falta de... casa.
Acabou entrando em um lugar pequeno e confortável, onde apenas pelo cheiro já soube que encontraria o que queria; ele estava lotado e o exorcista foi arrastando os pés de má vontade para o andar superior. Não chegou exatamente a se surpreender ao constatar que não havia como fugir e que acabaria sim dividindo a mesa com alguém. Pelo menos era um sinal de que a comida era boa.
Analisando o lugar achou três opções de vagas para ele, que acabou indo se sentar de frente para uma jovem – com o colégio estava evitando garotas ao máximo, pois elas sempre ficavam histéricas e irritantes perto dele, mas como todos os lugares eram ao lado ou de frente a uma, escolheu a que lhe pareceu uma opção mais confiável.
Ela tinha traços tipicamente japoneses, mas com um leve bronze que a diferenciava dos demais, usava os lisos e repicados cabelos castanhos em um rabo, usava uma camiseta enorme e desestruturada deixando os ombros à mostra, além de tênis folgados como aqueles idiotas que usavam pedaços de madeira que os finders tinham lhe falado e ele não fazia ideia do nome; então ele lembrou: skatistas — de qualquer forma, continuavam uns idiotas que usavam madeira com rodinhas aos seus olhos. A garota não tinha nenhuma ao seu lado.
Como era de se esperar, ele nem ao menos pediu licença e se lançou em seu lugar, pedindo um sobá do jeito que gostava, com direito a raiz forte e lótus. A menina — cuja expressão desligada e sonhadora foi o fator decisivo que o fez sentar ali, para o ódio das demais garotas – só pareceu se dar conta da presença dele e do resto do mundo quando o prato de ambos chegou; para surpresa do garoto, haviam pedido a mesma coisa.
-A, me desculpe, não estava te ignorando não, estava pensando em algumas coisas. – disse ela.
-Hn. – ele continuava comendo.
-Bom, meu nome é Hasumi. Rairakku Hasumi. Todos me chamam de Hasu-chan.
-Hn. – ele continuava comendo, embora agora levemente irritado.
-Er... e você é...? – ele o olhou com os olhos brilhando de curiosidade, remexendo sua comida com a ponta do hashi.
-Tsc.
-Ok, Sr.Tsc tenha uma boa refeição. – disse ela alegremente, e começou a comer.
Ficaram um tempo em silêncio, até que ele soltou sem pensar:
-Você é diferente. – ela parou e o encarou por um tempo e depois olhou para si mesma.
-A isso? – disse ela indicando o braço – sou do Okinawa, aí não tem jeito.
Ele olhou para ela por uns instantes; não estava se referindo a pele e sim a personalidade, não , nem isso, era a... a aura que ela emanava. Mas também não queria conversar.
-Porque fica me encarando? – perguntou ela; só então ele se deu conta de que não tinha tirado os olhos da menina a sua frente.
-Não é da sua pele que falava – disse ele – mesmo porque conheço pessoas com uma pele bem mais escura que a sua.
-Sério? E da onde a pessoa é?
-Não faço a mínima ideia. – respondeu ele, com o cheff Jerry em mente; ele choraria se provasse daquele sobá. Kanda sem dúvidas voltaria ali sempre.
Depois disso voltaram a comer em silêncio. Kanda entretanto, não pode deixar de notar que a menina comia bem rápido e totalmente sem modos – depois de um tempo ela misteriosamente diminuiu drasticamente a velocidade e só voltou a comer de fato quando ele estava quase no fim, terminando exatamente junto com ele.
Cada um pagou o seu e saíram do lugar. Ela andava perto dele, mas um pouco mais atrás, como se não quisesse que ele achasse estranho e ao mesmo tempo perto o suficiente para os outros acharem que ambos andavam juntos. Ele a guiou até um beco escuro, pronto para acabar com o que julgava ser uma evolução e tanto do Conde: akumas que podiam comer comida humana nos disfarces.
Ele se virou rapidamente e a encarou.
-Diga de uma vez o que você quer. – vociferou ele. Ela sorriu.
‘É agora.’ Pensou ele se colocando em guarda.
-Eu quero... saber seu nome.
...
-Do colégio Ouran?! Aquele dos bilionários?! Sério mesmo??!
-Já disse que sim. – respondeu ele irritado, andando pelas seções até encontrar a certa; depois de arrancar seu nome, Hasumi passou a segui-lo bombardeando-o com perguntas.
-E o que estamos fazendo aqui? – ela olhava para os lados com crescente curiosidade.
-EU estou atrás de umas shinais novas. – se não fosse uma garota já teria batido nela e.... tsc, passou tempo demais com o moyashi e seus amigos loucos e hosts, estava até com ataques de cavalheirismo.
-Porquê?
-Porque quebrei todas as minhas! – disse ele mais alto do que pretendia, e as pessoas a sua volta o olharam assustadas.
-Se é do Ouran, porque você mesmo veio a pé até aqui comprar?
-Os fin... criados não querem me dar novas.
-Não entendo.
-Quebrei as antigas praticando neles. – ela não deixou de notar o uso de “neles” no lugar de “com eles”, propositalmente afirmado por ele a fim de assusta-la.
Não funcionou.
-Se você é tão bom – insistiu ela – porque não entra para o Clube de Kendô do Ouran?
-Sou capitão dele. – admitiu a contragosto.
-Nossa! Sério mesmo??! – ele bufou cansado.
-Tsc. Tem que falar “Sério mesmo??!” para cada coisa que descobre sobre mim?
-Talvez. – disse ela, fazendo-o a olhar de modo interrogativo – Se tudo que descobrir sobre você for tão interessante. – ele ficou em silêncio com essas palavras.
Depois de comprar tudo que precisava foi embora com a menina em seu encalço; involuntariamente ia soltando cada vez mais informações sobre si mesmo e ao mesmo tempo descobria coisas sobre ela.
Hasumi nasceu e viveu a vida toda em Okinawa e lá estuda em um colégio interno de elite que prepara jovens órfãos, que de outro modo jamais teriam as mesmas chances num orfanato. Ela gosta de se exercitar e realmente é daqueles idiotas que andam com os pedaços de madeira com rodinhas, embora seu principal hobbie seja pintar. Estava ali para buscar um novo aluno que morava em Tóquio e só voltaria para seu colégio em duas semanas.
No geral não passava tanto tempo falando com alguém, aliás, não passava tempo algum conversando. Mas não conseguia se esquivar totalmente dela; alguma coisa em seus olhos grandes e expressivos sempre o capturava e o hipnotizava no fluxo constante de perguntas e respostas entre os dois.
Ela parou em frente a uma estação e disse que dali iria voltar ao seu hotel.
-Quer... quer que eu a acompanhe? – era um fato, ele estava tendo ataques de cavalheirismo.
-Não precisa, é pertinho da outra estação – garantiu ela – mas tem uma coisa que só você pode fazer por mim.
-O quê? – ele se surpreendeu por estar ansioso para ajuda-la.
-Seu celular. Me empresta?
Quando ele o fez, ela digitou alguma coisa e logo uma musiquinha animada tocou; ele não sabia mexer muito bem no aparelho, preferia mil vezes se comunicar por golens, mas tinha certeza de que esse sonzinho não era o dele. Ela tirou um aparelho laranja e com vários penduricalhos de sua mochila e digitou alguma coisa, causando novos apitos – dessa vez ele reconheceu o toque de seu celular.
-Pronto. – disse ela – Agora eu tenho seu e-mail e você tem o meu. – a menina devolveu se celular, onde um emoticon feliz estava na tela piscando para ele.
-Hn. – disse ele apenas.
-Bom até amanhã, Yuu-kun!
-Amanhã? – perguntou ele exasperado, mas ela já tinha adentrado no trem.
...
E assim se seguiu uma rotina: todo dia, perto do horário do fim de suas aulas, ele recebia um recado dela dizendo onde estava e ele sempre ia encontra-la. Não adiantava mais fingir para si mesmo, pois até o exorcista amargo e teimoso sabia que Hasumi mexia com ele de alguma forma que lhe era impossível explicar.
Os dias passavam e ele estava cada vez mais acostumado, apegado até, a estranha menina alegre que surgira de modo repentino em sua vida, mesmo sabendo que aquilo era um erro. Não faltaram comentários sobre a estranha conduta do garoto no colégio e de alguma forma extraordinária as notícias de que ele se encontrava todos os dias com uma skatista chegaram aos ouvidos de todos e ele praticamente tinha de fugir das perguntas das alunas fofoqueiras. Hasumi sempre ria das queixas dele.
Os outros dois naturalmente ficaram sabendo do falatório, mas depois de uma única resposta grossa seguida de um olhar mortal eles deixaram o assunto de lado.
Finalmente o último dia que teriam juntos chegou, pois na manhã seguinte a menina partiria cedo para a estação onde encontraria o aluno novo. Eles andaram um tempo juntos e foram jantar no mesmo restaurante onde se conheceram.
Para as pessoas em volta, estava claro que aquele era um momento triste.
-Sabe Yuu – começou ela – no dia em que conheci você, tinha ido a uma vidente.
-Você já me contou isso Hasu. – respondeu ele, porém não no tom grosso habitual que dispensava a todos os outros.
-Hn – ela já havia pegado uns vícios de linguagem dele no curto período de convivência – eu sei. Mas nunca te contei o porquê de eu ir e as coisas que ela disse.
-As pessoas vão à videntes pra saber o futuro. – ela balançou a cabeça em negativa freneticamente, fazendo seu costumeiro rabo de cavalo parecer uma cauda mesmo. Kanda, por razões que ele desconhecia, achou aquilo imensamente bonitinho.
-Minha pintura sempre foi... meio sombria e por mais que eu tentasse não conseguia mudar isso, mas nos últimos meses as cores e formas explodiram a partir dos pincéis em que tocava e minhas obras nem pareciam ter sido feitas pela mesma pessoa. Todos diziam que eu estava deixando a dor de ser órfã pra trás, mas já superei isso há muito tempo. Tinha que ser outra coisa.
Eles ficaram em silêncio. Ela cutucou a própria comida, exatamente como fez quando ambos se sentaram ali pela primeira vez, mas os olhos do garoto não deixaram escapar a diferença crucial: o semblante dela, que na outra ocasião estava luminoso e doce, agora era nublado e sofredor. As lágrimas ameaçavam surgir em seus olhos a qualquer instante.
-Então... – Kanda retomou o assunto, meio sem jeito – você procurou essa vidente, certo? – ela meneou a cabeça – E conseguiu uma resposta?
-Ela disse – começou ela sem encara-lo – que a mudança era no meu espírito, que se preparava para encontrar o meu amor, a minha metade que me acompanhou em todas as minhas vidas. – ele sentiu um solavanco no estômago com a resposta.
-Isso me parece algo bom. Porque está triste?
-Ela também disse – agora o choro já embargava a voz da menina e ele entrou em pânico – que antes de eu encontrar essa pessoa vou encontrar um obstáculo: essa pessoa, só que errada.
-Não faz sentido. – respondeu ele, franzindo o cenho ao tentar achar uma lógica naquilo.
-Eu vou encontrar essa pessoa, mas antes disso vou achar uma versão dela que pertence a uma outra vida minha. E vou ter que deixa-la ir. Mas e se eu não quiser?
Ambos se olharam, tentando ver mais que o exterior, se aprofundando até decifrarem o coração um do outro.
-O mais engraçado é que ela me falou alguns nomes de vidas passadas minhas. – retomou ela repentinamente.
-Gostou de algum? Sempre dá pra colocar nos filhos. – respondeu ele, tentando anima-la; funcionou e Hasumi deu uma risada curta.
-Tinha alguns nomes estrangeiros, de mulher e de homem. – comentou – Mas tinha um bem engraçado que não consigo dizer pra que gênero seja.
-Qual.
-Alma. Alma Karma.
Ela olhou para ele em busca de risadas ou um comentário cruel e insensível como só ele conseguia fazer, mas encontrou um Kanda chocado e indecifrável. Mas para ele, tudo fazia sentido e isso o fazia sentia dor, uma tão profunda e ancestral para o exorcista que sua visão nublou. Apenas sua voz o tirou do devaneio.
-Yuu?
-Hn.
-O que você acha que devo fazer? – ele tinha que acabar com aquilo de uma vez.
-Eu acho que... você tem que ficar com quem é certo para você.
-E abrir mão da outra pessoa?
-Para que ela possa voltar para sua outra vida? É o certo.
-Entendo. – disse ela, quebrando o contato visual entre ambos novamente.
-Hasu?
-Hn.
-Você acreditou nas palavras dela?
-Acreditei sim. Eu sinto que é a verdade.
-Então não pode ficar triste por saber que cada vida sua tem sua metade. Quantas pessoas no mundo tem a chance de viver algo assim? – ela deu um sorriso fraco.
-Tem razão. Acho que está na hora de irmos não é?
-É.
Eles voltaram para a estação, mas ao invés de ir na mais próxima foram até uma consideravelmente mais distante, no trajeto passando por vários lugares que haviam visto juntos. Ele pagou um sorvete para ela, de chocolate e morango como gostava e em uma livraria ela tirou um embrulho grande e pesado para ele, dizendo que tinha encomendado a versão do inglês britânico, a original, porque achou que ele devia sentir saudades de casa.
Já na entrada da estação, eles trocaram um longo, apertado e de certa forma apaixonado abraço. Sem fazer ou dizer mais nada, cada um foi para seu o seu lado. Não precisavam de promessas ou de um adeus.
Todos na mansão notaram a aura frágil do exorcista e preferiram deixa-lo em paz; em seu quarto, ele abria o embrulho e via uma porção de livros com capas coloridas, cutucando um deles com a ponta de sua shinai.
-Ela é louca se acha que vou ler uma série desse tamanho. – murmurou ele para si mesmo com um leve sorriso; mas pensar nela lhe doía e por isso ele iria enterra-la fundo, no mesmo lugar em que Alma estava.
...
Por mais que ele tentasse se concentrar não conseguia; mal a primeira aula começou e ele já batia a lapiseira na carteira para tentar afastar a irritação.
O voo de Hasumi partiria às 11h e se saísse dali agora ele conseguiria vê-la, nem que fosse pela última vez. Mas será que devia? Tinha o direito? A imagem do estado da menina ontem, sem saber o que decidir lhe veio à mente, deixando o garoto confuso e magoado. Mas por fim ele se decidiu, mesmo porque não havia tempo a perder.
Ele a veria, mas isso não quer dizer que ela precisasse saber que ele estava ali. E sem dar explicação alguma, Kanda saiu da sala chamando um carro urgente pelo celular.
Quando ele pôs os olhos sobre ela, estava sentada com gigantescos fones de ouvido coloridos e os olhos inchados entregavam o estado em que provavelmente passou a noite anterior. Apesar de sentir um aperto no peito, ele sabia que o máximo que podia fazer era observá-la de onde estava, atrás de um pilar próximo a fileira de cadeiras dela.
Então um garoto surgiu e parou diante dela; era alto e tinha o cabelo comprido preso em um rabo folgado que caía sobre um ombro; usava roupas escuras e fones de ouvido simples e discretos e uma capa nas costas que podia guardar tanto uma shinai quanto um taco de baseball, duas paixões dos japoneses daquele século.
-Você é Rairakku Hasumi? – perguntou ele com uma voz entediada.
-Isso mesmo. – respondeu ela sem a costumeira empolgação.
-ótimo. Sou Murasaki Hasuki, você me veio me buscar certo?
Então ela de fato olhou para ele ao mesmo tempo em que Kanda fazia a mesma coisa e foi como um estalo na mente do exorcista. Ele sabia, de alguma forma estranha e assustadora, de que estava diante de.... uma outra vida sua. A encarnação de si mesmo naquele século.
E então ele foi embora, de volta para o colégio onde sabia que Haninozuka iriam atormenta-lo para saber o porquê havia saído no meio da aula. Ele tinha uma missão a cumprir e se demorasse mais tempo ali Tiedoll teria um ataque.
Hasumi ficaria bem. Ela tinha a ele. Sempre teriam um ao outro.
...
Allen não sabia ao certo se os boatos da namorada misteriosa do Kanda eram verdadeiros, mas ele não podia negar que o amigo estava mais calado que de costume; não o Kanda antissocial que ele conhecia, mas sim uma versão que passava longos períodos refletindo sobre algo que todos estavam longe de adivinhar e olha que os palpites já haviam se tornado um jogo apreciado entre os membros dos clubes esportivos, do Host Clube e do terceiro ano em geral.
Com cuidado ele abriu a porta do garoto e o viu estirado na cama com um livro nas mãos; era uma cena comum nos dias atuais, mas que ainda causava estranhamento no garoto. Mas nada o surpreendeu mais do que flagra-lo com um sorriso verdadeiro no rosto.
-Er... Kanda?
-Tsc. Que foi moyashi?
-Tudo bem?
-Hn.
-A janta está pronta ok?
-Hn. – ele fez menção de sair, mas parou e olhou para ele uma última vez.
-Porque estava sorrindo?
-Sirius é um cara legal no fim das contas. – murmurou ele erguendo o livro.
Allen deu de ombros sem entender nada e fechou a porta.
Notas finais
Até o próximo cap, beijos! (*--*)//
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