Angel
1 "Do quê você precisa?"
Notas iniciais
Críticas construtivas serão bem vindas!
"A gente aprende a viver
No fio da navalha
De que adianta viver em vão
Não deixe a vida escorrer das mãos"
Fresno
Uma, duas, três. Quatro. Cinco.
A cada gota, um barulho diferente e, ao mesmo tempo, igual. Eu felizmente aprendera a diferenciar o barulho da chuva. Antes, eu facilmente a confundia com as lágrimas de minha mãe. E sentia como se elas fossem ácidas. Prontas para me ferir.
Eu não sei dizer o porquê, mas, as lembranças estavam cada vez mais fortes. Lembrava-me da dor ao receber a notícia, lembrava-me do rosto sem expressão de meu pai; dos gritos histéricos de minha mãe. Eu havia passado dias e noites inteiras sem conseguir sequer passar em frente a porta do quarto de meu irmão. Só de pensar em seu nome sentia como se estivesse de volta ao fatídico dia.
Toc, toc, toc.
— Entre — eu murmurei, ainda encarando o teto.
— Oi. — Amelie resmungou, entrando em meu quarto. — Achei que já fosse te encontrar pronta.
— Eu já disse que não vou. — reclamei, mesmo sabendo que aquela era uma batalha perdida. Quando Amelie cismava com alguma coisa, não havia quem a fizesse mudar de ideia. Virei levemente a cabeça para encará-la. Seus cabelos loiros estavam soltos e caíam em cascata por seus ombros. Ela usava uma camisa branca, florida, e um short jeans claro de cintura alta e eu sabia que seus pés estavam descalços. Suas várias pulseiras fizeram barulho e seu perfume inundou meu quarto quando ela caminhou em direção ao meu guarda-roupa.— Mel, será que você pode, por favor, me respeitar? Nós já havíamos conversado sobre isso.
— Eu respeito você, Em. — ela bufou. Sabia que estava irritada. — E acima do respeito, pra mim, vem o amor. Você é minha melhor amiga. Eu amo você. Por isso é que não vou permitir que você passe o resto da vida deitada na cama se martirizando por algo que você não teve culpa. E — ela aumentou o tom de voz, vendo que eu estava prestes a reclamar. — se eu achar que te levar para um luau é uma boa opção para te animar... Não vou sair daqui enquanto você não estiver linda, cheirosa e florida.
— Mel, eu agradeço muito a sua preocupação, mas, você sabe que eu não tenho mais vontade para essas coisas e...
— Eu detesto ser dura com você, Emma, mas na maioria das vezes você não me dá outra opção. — Amelie suspirou, pegando um vestido e caminhando até minha cama em seguida. — Infelizmente, Theo morreu. Mas você não. Você continua aqui, Emma. Aceite este fato. — ela jogou a peça de roupa em mim. — Aproveite a vida que seu irmão não pôde aproveitar.
✳
— Desculpe se acabei sendo estúpida com você, amiga. — Amelie murmurou, sem graça, enquanto trançava meu cabelo. — Você sabe que eu detesto fazer isso, mas...
— Eu sou realmente difícil de lidar. — interrompi, sorrindo para ela através do espelho. — Eu é que devo te pedir desculpas. Sempre acabo estragando suas tentativas de me ajudar.
— O importante é que você está linda e pronta para botar um sorriso nesse rostinho lindo! — Mel exclamou apertando minhas bochechas. Eu podia parecer ingrata, na maioria das vezes, mas sinceramente não sabia o que minha vida teria se tornado sem a ajuda de Amelie. Ela nunca havia me culpado pelo que aconteceu e, pelo contrário, sempre encontrava uma maneira de me distrair e apoiar.
Nosso momento doce — e raro — foi interrompido por uma batida na porta.
— Estão prontas, crianças? — meu pai indagou, abrindo minimamente a porta.
— Já estamos indo, tio! — Mel gritou, pegando sua bolsa em cima da cama.
— Só preciso de um minuto. — pedi, apontando com a cabeça em direção a porta. Amelie saiu, deixando-me sozinha.
Suspirei, encarando-me no grande espelho que ficava atrás de minha porta.
Meu cabelo castanho estava preso em uma longa trança lateral, com um laço branco na ponta. Eu usava um vestido simples, branco com uma estampa floral clara que caía perfeitamente em cinco camadas. Tinha alças finas e um decote arredondado, tornando-o ainda mais bonito. Eu estava de pés descalços, também. Peguei minha bolsa e desci, não vendo mais como adiar aquele momento. Talvez até conseguisse me divertir um pouco.
— Você está linda, Emma. — minha mãe comentou, parada ao pé da escada. Ela sorria minimamente.
— Obrigada, mãe. — dei um beijo em seu rosto de forma tímida. Eu sabia que ela e meu pai haviam discutido novamente. Ela ainda me culpava pelo acidente e, consequentemente, pela morte de Theo.
A noite estava abafada. Eu sabia que acabaria chovendo, mas meus amigos pareciam não se deixar abalar por isso. Eu já havia perdido Amelie há muito tempo e não estava interessada em conversar com mais ninguém. Caminhei até a beira do mar, sentando-me na areia. A música era lenta e não estava muito alta. Nem precisei olhar para trás para descobrir que vários casais dançavam abraçados. Os postes de luz estavam enfeitados com plumas e flores e estavam sendo vendidas bebidas de todos os tipos e cores no bar. As risadas baixas eram música para meus ouvidos, mesmo que eu não tivesse vontade de partilhar delas. Levantei-me pegando meu copo de bebia na areia e caminhei vagarosamente até que as ondas tocassem a ponta de meus dedos.
— Ei, Emma! — ouvi uma voz conhecida chamar, embora não tenha associado a voz ao dono. Não me virei. — Não ‘tá me ouvindo, gracinha? — estremeci ao reconhecer a voz de Cameron, meu ex-namorado. Não preciso nem comentar como me senti ao perceber que ele estava embriagado, certo?
Tentei caminhar na direção oposta, aproximando-me cada vez mais do mar, mas já era tarde. Enrijeci quando os dedos frios de Cameron tocaram minha pele.
— Não precisa fugir. — ele riu, puxando-me em sua direção. Senti seu bafo de cerveja e meu estômago se embrulhou no mesmo instante. — Vai negar que ‘tá com saudade?
— Me solta, Cameron. — pedi.
— Não tão cedo... — ele sussurrou, fechando os olhos e roçando os lábios em meu pescoço. Levou sua outra mão até o meio de minhas costas, prendendo-me contra seu corpo. — O tempo passa e você continua gostosa, Emma. É incrível.
— Me solta, seu nojento! — tentei me desvencilhar, mas ele apenas apertou mais seus braços em torno de mim, descendo seus lábios até meus seios. Porque é que eu tinha me afastado tanto da festa? Droga!
— Solte-a. — ouvi uma voz grossa dizer. — Agora.
— Ih, parceiro, nem vem. — Cameron debochou, encarando alguém atrás de mim. — Depois que eu me divertir um pouquinho você volta. — senti meu estômago revirar novamente quando senti sua risada baixa em meu ombro.
— Eu mandei soltá-la. — a voz era controladamente calma, e eu percebi Cameron vacilar. Mas como bom otário que era, ele não desistiria.
— Achei primeiro. — ele desceu sua mão por minha cintura, parando em minha bunda e apertando-a com força. Senti meus olhos arderem e senti o gosto forte da bílis em minha garganta. — Pode suspirar, Em, eu sei que você está gostando. — Cameron passou os dentes por minha orelha eu senti as lágrimas descendo por meu rosto.
Estava começando a ficar desesperada. Soltei um soluço e senti Cameron ser jogado para longe de mim quando o garoto da voz lhe deu um soco no rosto, fazendo-me cambalear com o baque, mas, antes que eu conseguisse chegar perto do chão, braços fortes me seguraram impedindo-me de cair.
— Você está bem?
Assenti, ainda sentindo as lágrimas escorrerem.
— Não chore, estou aqui. Vai ficar tudo bem. — o garoto sussurrou, tentando se aproximar de mim. Sua voz estava mais leve.
— Ei, Emma... — Cameron gritou enquanto se levantava da areia. — Vá embora a pé. Não peça para o seu pai vir te buscar. Você não vai querer matar o seu velho também, não é?
Aquela foi a gota d’água. Desvencilhe-me dos braços do estranho e sai correndo, deixando minha bolsa, meu copo e o restante de minha alegria para trás.
— Ei, Emma, espere! — o desconhecido chamou. — Volte aqui!
Apenas corri pela areia, sem saber para onde ia. Eu não conseguiria passar um único dia sem que alguém me culpasse pela morte de Theo. Vi pelo canto dos olhos quando o garoto se aproximou e pulou sobre mim, derrubando-me na areia.
— Acalme-se! — ele ralhou, segurando meus braços acima de minha cabeça. — Eu não quero machucar você. — murmurou. Sua voz, seu toque e seus olhos amigáveis me acalmaram, no fim das contas.
Ele acariciou meus pulsos com seus polegares, desenhando leves círculos em minha pele que, sensível, fazia com que eu me arrepiasse.
Encarei seu rosto atentamente, já que ele fazia o mesmo.
Não tinha olhos azuis ou o cabelo dourado. Seu rosto era magro e seus olhos grandes e castanhos. Curiosos. Doces. Seu nariz era fino e alongado. Seus lábios finos tinham o contorno perfeito. Pareciam desenhados pela mão de um artista. Sua barba fina chamava a minha atenção, assim como a correntinha de prata que pendia de seu pescoço, balançando entre nós. Seu cabelo era escuro e liso, bem penteado. Sua pele emanava um cheiro agradável de mar, coisa que, em poucos minutos, deixou-me embriagada. Ele abriu a boca algumas vezes, fechando-a em seguida. Parecia querer falar alguma coisa, embora não soubesse o quê. Nessas tentativas, pude observar seus dentes brancos e perfeitamente alinhados.
— Oi. — ele murmurou. — Está mais calma?
Apenas assenti, encarando a pinta que ficava logo acima de seus lábios. É claro que eu estava mais calma.
Se fosse qualquer outro garoto, eu com certeza estaria me sentindo realmente ridícula por ter tido um ataque, e no entanto... Eu sentia-me segura. Confortável. Sentia que deveria estar tranquila.
— Como é o seu nome? — indaguei, repentinamente desinibida.
— Angelo. — ele respondeu. É claro. Parecia mesmo com um anjo. Sua voz grossa fez com que algo dentro de mim revivesse, mas eu ignorei este fato. Permaneci encarando-o por alguns segundos, sem saber o que falar. Eu não ouvia música nenhuma e sequer via as luzes da festa. — Eu ainda estou te segurando. — ele concluiu.
Assenti, rindo quando ele me soltou. Angelo levantou-se rapidamente, sentando-se na areia. Imitei-o, sentando-me também. Percebi que meu cabelo estava cheio de areia, por isso soltei a trança e comecei a passar os dedos pelos fios, soltando-os.
— O que você está fazendo? — ele indagou.
— Soltando meu cabelo — respondi, dando de ombros. Ele assentiu, respirando fundo. — Já estou bem. Pode voltar para a festa.
— Eu não estava na festa. — foi sua vez de dar de ombros.
— Então como chegou até aqui? — questionei.
— Estava passando aleatoriamente e ouvi você gritar.
— Entendi. — ele não parecia querer qualquer tipo de conversa. — Vou indo. — murmurei, levantando-me.
— Espere! — Angelo tocou minha canela. — Fique mais um pouco.
—Eu preciso encontrar minha amiga e...
— Amelie está bem. — ele respondeu. E eu soube que ele estava falando a verdade. Suspirei ao sentar-me novamente na areia.
Passamos mais alguns minutos em silencio, apenas observando as ondas. Aquilo não me incomodava. Era confortável o modo como a respiração de Angelo parecia estar sincronizada com o movimento das ondas.
— Eu não sabia que havia me afastado tanto da festa. — comentei, mexendo na areia. Ele não me respondeu.
— Você está triste. — era uma afirmação. — Você tem um sorriso lindo, mas as pessoas não o conhecem.
— Você está me chamando de mal humorada? — indaguei.
— Não. Estou dizendo que você precisa parar de mostrar esse sorriso superficial. O gesto mais bonito e sincero vem do coração e vem de forma natural, então... Pra quê escondê-lo? Você não tem motivos para se sentir assim.
— Você fala como se me conhecesse. — retruquei. Estava bom demais para ser verdade. É claro que eu não conseguiria passar alguns minutos em paz com aquele garoto. Ele me julgaria, como qualquer outra pessoa. — Você nem ao menos sabe o que já me aconteceu.
— Então me conte. — Angelo respondeu sem hesitar.
Sem que eu percebesse, uma risada irônica escapou de meus lábios. Ele me encarou, arqueando levemente a sobrancelha.
— Você me ajudou e está sendo bem legal, mas...— resmunguei. — Porque você acha que eu contaria minha vida para você?
— Porque você quer fazer isso. E eu estou disposto a ouvi-la. Apenas ouvir, sem julgar.
Encarei aquele garoto estranho por alguns segundos, vendo novamente a confiança em seu olhar. Seus olhos curiosos aqueciam meu interior. Pareciam dar vida a algo que eu nem sabia estar morto. Respirei fundo. Então contei.
— Minha mãe não consegue ficar perto de mim por mais de duas horas seguidas. Eu não consigo dormir uma única noite sem sonhar com ele. As pessoas ainda me olham estranho na rua e minha ex-cunhada trocou de escola para não ter que me ver. É tudo culpa minha.
— O que é sua culpa? O que aconteceu? — Angelo não falava como se estivesse apenas curioso. Não parecia querer me induzir a falar e usar aquilo contra mim mais tarde. Parecia interessado, preocupado.
— Meu irmão... — respirei fundo. — Meu irmão mais velho, Theo, faleceu há sete meses e a culpa é minha.
— Sua culpa? — Angelo se deitou na areia, apoiando a cabeça nos braços. — Você o esfaqueou? Empurrou na frente de um carro? Você atirou no seu irmão?
— Porque está falando assim? — indaguei, magoada. Ele não percebia que aquelas palavras duras machucavam?
— Me responda. Em algum momento você teve a intenção de machucar Theo?
— É claro que não! — minha voz soou um tanto quanto histérica, porém eu não me importei.
— Conte-me como foi. — ele pediu e, mesmo que ofendida, eu não consegui segurar as palavras. Precisava falar sobre aquilo e precisava falar sobre aquilo com ele.
— Eu fui a uma festa na casa de um colega da escola. — contei, lembrando-me perfeitamente daquele dia. — Meu pai disse que eu não deveria voltar tarde e eu prometi que pegaria carona com alguma de minhas amigas. Eu bebi naquela noite, acabei me afastando de minhas amigas e não vi quando foram embora. Encontrei-me sozinha no meio da madrugada e, sem saber o que fazer, não vi outra solução além de ligar para meu pai. — suspirei a Angelo assentiu, incentivando-me a continuar. — No entanto, foi Theo quem atendeu ao telefone. Ele riu, dizendo que estava apenas esperando a minha ligação. Disse que me buscaria em segredo se eu prometesse assistir uma maratona de filmes com ele no outro dia. — minha voz se perdeu e, inconscientemente, sequei as lágrimas que novamente caíam. — Então, ele pegou o carro e saiu. Eu não sei como aconteceu, mas... Ele acabou batendo o carro. Theo morreu no caminho do hospital. E é tudo minha culpa. Se eu não tivesse sido imprudente, se eu tivesse obedecido meu pai... Eu matei...
— Vou lhe perguntar mais uma vez, Emma. — a voz dura de Angelo me interrompeu. — Você teve a intenção de machucar Theo? Fez qualquer coisa para machuca-lo?
— É claro que não. — solucei. — Eu teria trocado de lugar com ele, se possível. Queria que eu estivesse naquele carro, e não ele. Theo tinha tanta coisa para viver...
— E você também tem. — Angelo aproximou-se de mim, sentando-se ao meu lado. Sua calça jeans desgastada roçava em meu joelho nu. — Não se culpe Emma. Você procura, todos os dias, achar uma solução para o que aconteceu e na sua cabeça o mais simples para isso é culpar-se a si mesma, mas... Não existem culpados para esse tipo de coisa. Assim é a vida. Ela leva as pessoas que amamos e, às vezes, presenteia-nos com pessoas incríveis e inesperadas.
Solucei, sem conseguir me conter. As lágrimas atrapalhavam minha visão, de modo que eu não enxergava mais as ondas.
— Não chore, criança. — Angelo murmurou, tocando timidamente seus dedos em meu cabelo. — Diga-me... Do quê você precisa? Eu gostaria de lhe ajudar.
— Eu... — não conseguia conter meus soluços. — Eu gostaria apenas de saber que Theo me perdoou. Que ele não me culpa pelo que aconteceu. — meu peito subia e descia mais rápido que o normal e por mais que eu tentasse prender a respiração, não conseguia parar de chorar. Em poucos segundos meus soluços se tornaram violentos, fazendo com que todo meu corpo se sacudisse. Eu não chorava daquela maneira desde a manhã do enterro.
— Emma. — Angelo chamou. — Emma, olhe para mim. — ele esperou pacientemente por alguns segundos, mexendo em meu cabelo. Quando finalmente levantei a cabeça e o encarei, percebi que ele estava chorando. Angelo pigarreou e levou seu polegar até minha bochecha, como se pegasse uma lágrima. — Assim como você diz que gostaria de trocar de lugar com Theo... Tenho certeza de que ele faria o mesmo por você, Emma. Seu irmão te amava e ama muito. Ele não tem porque perdoar você, afinal, ele sabe que você não teve culpa de nada. O fato é que você é quem precisa se perdoar. Você não pode deixar que sua vida pare. É difícil, eu sei. Pode acreditar, eu já perdi várias pessoas que amo. Isso já se tornou algo rotineiro, e eu sei que mesmo assim, nunca irei me acostumar com isso. Mas é você quem não pode morrer, Emma. Precisa continuar vivendo, por você. Por Theo.
— Não é justo. — tentei dizer por entre os soluços. — Ele era tão novo... Não merecia.
— Você também não merece. E Theo merece muito menos ver que você está sofrendo por causa dele. — Eu nada respondi. Não sabia o que dizer. Angelo tinha razão, é claro, mas admitir aquilo seria egoísmo. Ele estendeu a mão até meu rosto mais uma vez, porém não a tirou. A palma de sua mão encaixou-se perfeitamente em minha face e, sem perceber, aninhei meu rosto contra sua mão, fechando os olhos. — Finja que sou Theo. — ele disse. — Finja que você tem uma última oportunidade para falar com seu irmão. Diga tudo o que você gostaria e nunca teve oportunidade.
— Eu te amo. — falei sem pensar duas vezes. — Eu te amo, Theo. Você sempre foi e sempre será o melhor irmão do mundo. Eu sinto a sua falta, sabia? Sinto falta de como você me importunava para lavar seus tênis e arrumar sua cama. De como você bagunçava meu cabelo todos os dias só para trançá-lo em seguida. Sinto falta de entrar em meu quarto e te ver deitado em minha cama, fingindo estar dormindo. Sinto falta de ouvir sua risada debochada a cada vez que eu me interessava por um de seus colegas de time. Sinto falta de ter um amigo, alguém com quem eu pudesse contar a qualquer momento, para as coisas mais tolas. Sinto falta de alguém me fazia rir sem precisar pronunciar uma frase inteira. Sinto falta da pessoa que tinha o melhor abraço do mundo, aquele abraço responsável por alegrar o pior dos dias. Sinto falta dos conselhos e das palavras reconfortantes que pareciam tirar um peso de minhas costas. Sinto falta de te ouvir cantando enquanto lavava a louça, sinto falta dos puxões de orelha cada vez que eu deixava alguma coisa jogada dentro do seu carro. Sinto falta do meu professor particular de matemática, do irmão mais lindo do mundo. Sinto falta do meu melhor amigo, sinto falta do meu herói.
Quando terminei de falar, senti algo dentro de mim mudar. Senti-me vazia. Não, senti como se estivesse me esvaziando. Meu choro se transformou em um lamento baixo e constante. Eu murmurava coisas desconexas, que, no fundo, faziam sentido. E eu não conseguia controlar. Cada lembrança de Theo, dos dezessete anos em que convivemos juntos, era responsável por mais dez lágrimas. Vinte, trinta. Quarenta.
E aquele completo estranho não soltou meu rosto um minuto sequer. Angelo não disse nada, mas ouvindo-o soluçar baixinho, era como se ele estivesse dizendo tudo o que eu precisava ouvir. Quando meus soluços estavam mais controlados e minha respiração voltava ao normal, ele estendeu seu braço por minhas costas e me puxou de encontro a seu corpo. Angelo soltou meu rosto para apertar meus ombros, deslizando seus dedos por toda a extensão de meu braço. Minha pele ficava quente onde ele tocava. Sem pensar, aninhei minha cabeça na curva de seu pescoço, sentindo o perfume que vinha de sua camiseta escura. Abracei sua cintura enquanto ele afagava meu cabelo. Meus soluços diminuíram e, em poucos minutos, nossas respirações pareciam uma só.
— Eu nem te conheço. — murmurei depois de um bom tempo e me surpreendi com o quão rouca minha voz soava. — Porque você está aqui? Quero dizer... Porque me ajudou e ouviu? Você não precisava fazer isso.
— Estou aqui porque quero. Você nunca vai entender, mas... Eu precisava fazer isso. Fico muito feliz em ter absorvido um pouco de sua tristeza.
— Você quer ser triste? — indaguei, incrédula, erguendo a cabeça. Dei de cara com sua correntinha prata. Havia um pingente, no formato de uma asa, e eu resisti ao impulso de tocá-lo. Contentei-me apenas em respirar fundo, sentindo o perfume de seu pescoço.
— Não, não quero ser triste. — ele deu uma risada baixa e harmoniosa, gostosa de se ouvir. — Eu apenas quero te ver mais feliz.
— Obrigada, Angelo. — murmurei, sorrindo. Senti minha face esquentar e agradeci aos céus ser mais baixa que ele. Assim, não poderia ver meu rosto. — Você é muito legal.
— Acredite, eu não fiz mais que a minha obrigação.
Permanecemos mais alguns momentos em silêncio, até que Angelo subiu a mão até meu rosto. Ele afastou meu cabelo e permitiu que eu aninhasse minha face em sua mão novamente. Apertei sua cintura, abraçando-o com força e pude sentir seus músculos sob o fino tecido de sua camiseta.
Nem por um momento passou por minha cabeça que eu havia acabado de desabafar sobre o pior momento de minha vida com um completo estranho. Não me importei também com o fato de que o toque daquele estranho era extremamente confortável e importei-me menos ainda por estar abraçando-o como se o conhecesse há anos. Senti meus olhos pesarem quando Angelo tocou minha mão, entrelaçando nossos dedos. Ele pareceu perceber a minha sonolência, pois tratou de se mover rapidamente.
— Vamos. — murmurou. — Eu vou levar você para casa.
Eu apenas sorri. Duas horas antes, eu estremeceria apenas por pensar na possibilidade de alguém me levar em casa ou sair para me buscar. Mas... Naquele momento, não. Eu havia me perdoado.
Angelo abaixou-se para pegar minha bolsa, que ainda estava jogada na areia e em seguida estendeu a mão, ajudando-me a levantar. Quando eu já estava em pé, ele não a soltou.
Caminhamos em silêncio em direção oposta à festa, até um carro preto que se encontrava estacionado perto de um dos quiosques. Eu sabia que não deveria entrar no carro de um estranho, mas também sabia que podia confiar em Angelo. Ele não me faria mal.
Angelo abriu a porta do carona para mim e eu senti um formigamento desconfortável em minha mão quando ele a soltou. Conferindo meu celular, percebi que já passavam das quatro da manhã. Por isso eu estava tão sonolenta. Silenciosamente, Angelo ligou o carro e estendeu a mão livre para tocar a minha. Ele não perguntou onde ficava a minha casa, não pronunciou uma palavra sequer. Apenas continuou acariciando minha mão. Aquilo estava me anestesiando. Era como se ele quisesse que eu dormisse.
.— Oi. — Angelo murmurou quando percebeu que eu estava acordada. Atordoada, olhei ao redor e... Não! Não poderia ser! Angelo estava sentado em minha poltrona e eu estava deitada em minha cama. Pelo menos ainda usava meu vestido.
— Como entrou aqui? — indaguei, sentando-me na cama.
— Shiu. — ele gesticulou pedindo-me para falar baixo. — Você não quer acordar seus pais, não é mesmo?
— Como foi que você entrou aqui? — perguntei novamente.
— Emma, eu... — ele parecia procurar as palavras certas e, de repente, toda a curiosidade e o nervosismo me deixaram. Eu estava calma novamente. — Eu preciso ir embora. — ele murmurou, desviando o olhar.
— O quê? Mas já? Porque você não fica mais um pouco? — pedi. — Não me contou nada sobre você.
— Eu não posso. — os cantos de seus lábios se ergueram, mas sua expressão era tristonha.
— Como não? — questionei, ofendida. — Eu lhe contei muitas coisas e...
— Essa era a minha missão, Emma. Eu precisava te ajudar. — ele deu de ombros, levantando-se em seguida. Caminhou em direção a minha cama, sem desviar os olhos dos meus por um minuto sequer. — Você estava pedindo por socorro, mesmo que inconscientemente. — ele estendeu o dedo, tocando meu peito. Eu sabia que sua intenção não era tocar meu seio e sim meu coração. — E agora que você está livre, eu preciso ir.
— Pode ficar comigo até que eu durma, pelo menos? — pedi. Estava confusa e sonolenta, mas sentia-me feliz. Encarei o relógio de parede e percebi que já passavam das sete da manhã. Era constrangedor e reconfortante pensar que ele havia passado horas sentado em minha poltrona enquanto eu dormia. Era ainda mais estranho pensar que Angelo não passava de um estranho e no entanto eu sentia como se o conhecesse desde... Sempre. Sentia como se suas palavras e gestos fossem precisos. Como se ele fizesse exatamente o que eu previra. Ele agia de acordo com meus pensamentos e vontades.
— Você... — ele coçou a cabeça, divertido. — Você vai se importar se eu me deitar aí com você? — apontou para minha cama, com um sorriso tímido brincando em seus lábios. — Você sabe que pode confiar em mim.
Eu apenas sorri e me movi na cama, dando espaço o suficiente para que ele se deitasse ao meu lado.
— Tire os sapatos. — resmunguei, fechando os olhos. — E cuidado com o chulé.
A risada graciosa de Angelo inundou meu quarto e de repente eu senti como se fosse outro lugar. Era como se eu tivesse mantido o quarto fechado por muito tempo e, de repente, alguém abrisse as janelas. Angelo estava fazendo com meu quarto o mesmo que havia feito comigo. Senti o colchão se mover sob seu peso, mas não abri os olhos. Senti sua respiração e o calor de seu corpo quando ele se deitou ao meu lado, mas... Ele não me tocou. Não me abraçou, nem sequer estendeu a mão para tocar meu rosto. Estava longe. Irritantemente longe. Virei-me na cama, abrindo os olhos. Em seguida, desejei que não o tivesse feito. Seus olhos castanhos estavam bem abertos, me encarando. Porque a luz do quarto estava acesa? Porque um estranho estava deitado em minha cama? Porque eu confiava tanto nele? Porque seu rosto era tão bonito? Angelo me analisava atentamente e eu sentia como se ele pudesse me tocar com seus olhos. Num impulso, estiquei meu braço em frente a seu rosto. Ele assentiu silenciosamente, o sorriso tímido brincando em seus lábios novamente. Estendi meus dedos até tocar sua face, rindo ao perceber o contraste entre minha pele branca e seu rosto moreno. Quando meus dedos repousaram em sua bochecha, Angelo fechou os olhos. Parecia deliciado com o toque. Espalmei minha mão em sua face, cobrindo sua bochecha e o canto de seus lábios. Ele roçou levemente o rosto em minha mão. Fechei seus olhos, tocando levemente meu dedo indicador em suas pálpebras. Angelo entreabriu levemente os lábios e ver aquela cena fez com que todo meu corpo se arrepiasse. Ele se moveu delicadamente, esticando os braços até tocar minha cintura e, em questão de segundos, puxou meu corpo para junto do seu. Nossos peitos estavam colados e eu sentia seu coração batendo contra o meu. Rápido, feliz, vivo. Viva. Era aquela a palavra. Eu sentia-me viva. Depois de quase um ano, permitia-me viver novamente. Sem pensar, ou, quem sabe, pensando demais, fechei os olhos e entreabri meus lábios, aproximando meu rosto do de Angelo. Eu podia sentir sua respiração batendo em meu rosto e seu hálito doce era extremamente convidativo. Permiti que meus lábios roçassem levemente nos seus e senti algo dentro de mim corresponder. Talvez fosse meu coração. Talvez não. Angelo não se moveu e por isso, pude aproveitar perfeitamente a sensação de seus lábios macios contra os meus. Ele riu novamente, fazendo com que eu me arrepiasse. Angelo prendeu meu lábio inferior entre os seus, fazendo-me suspirar e levar às mãos até sua nuca.
— Emma, eu... — ele tentou dizer, mas eu o interrompi selando nossos lábios novamente. Angelo apertou minha cintura e eu abracei seu pescoço, tocando seus lábios timidamente com minha língua. Quando ele abriu os lábios, aprofundando o beijo, eu finalmente me senti completa. Feliz. Doce. Alegre. Realizada. Feliz. Rosa. Dia na praia, tarde ensolarada, comida favorita.
Os lábios de Angelo eram macios e seu beijo era doce. Ele soltou minha cintura, tomando meu rosto em suas mãos em seguida.
— Obrigada, Emma, obrigada. — ele suspirou.
— Pelo quê? — questionei, sentindo minha face esquentar. Minha respiração estava ofegante.
— Por me permitir viver por uma noite.
Perdi a conta de quantas vezes Angelo me beijou antes de me aninhar em seus braços. Adormeci com a cabeça encostada em seu pescoço, brincando com sua correntinha. Seu cheiro era divino. Era doce e másculo. Meigo e sensual. Tinha cheiro de felicidade.
— Durma, pequena... — ele murmurou, afagando meu cabelo.
— Você vai voltar? — questionei sem nem me dar ao trabalho de abrir os olhos.
— É claro que vou. — Angelo riu, fazendo-me sorrir. — Eu sempre volto.
Então fechei os olhos e me permiti adormecer abraçada a ele, sabendo que quando acordasse, Angelo estaria ali.
✳
Respirei fundo, sentindo seu cheiro inebriante. Ainda estava impregnado em meu travesseiro. E eu esperava que permanecesse ali por um bom tempo.
— Angelo? — chamei, sem abrir os olhos. Ele não respondeu, mas não importava. Toquei meus lábios sem acreditar que havia mesmo um sorriso neles. Há quanto tempo não me permitia acordar com um sorriso nos lábios!
Como era possível que uma pessoa até então desconhecida me fizesse tão feliz em uma única noite? Que me transformasse por inteira? Que me devolvesse a vida que eu havia negado por quase um ano?
Abracei meu travesseiro contra mim, lembrando das palavras doces de Angelo. Lembrava-me do sabor de seus lábios e de seu toque frio contra minha pele.
Eu sabia que meu pai me mataria ao descobrir um garoto em nossa casa e, mesmo assim, um sorriso leve teimava em brincar em meus lábios.
No entanto, ouvi algo que me despertou por completo. Havia barulho, muito barulho. Vozes altas. Havia alguém gritando? De repente, a atmosfera tensa não combinava com a calmaria e a felicidade em meu interior. Levantei-me rapidamente da cama, obtendo a certeza de que Angelo não estava ali. Seus tênis não estavam ao pé da cama, onde ele havia os deixado. Aquilo me deixou alarmada. Corri até a janela, apoiando-me no peitoril. Então, senti que poderia cair. Quis cair.
Havia um carro preto no poste do outro lado da rua. Como se o motorista tivesse acelerado em direção ao posto. Senti-me nauseada só de olhar, afinal, eu havia andado naquele carro horas antes. A ambulância logo prendeu minha atenção. Mas eu não podia acreditar. Não podia, não queria e não iria acreditar. Senti meus olhos arderem de raiva e desviei o olhar do corpo inerte no chão. Não poderia ser Angelo. Parecia tão... Sem vida.
Algo no meio da rua atraiu minha atenção. Algo brilhava. Distingui o contorno de uma gargantilha. Era estranho. Ela não parecia jogada ou esquecida. Não estava embolada. Parecia ter sido colocada ali de propósito. E eu sabia que se pulasse a janela em direção aquele brilho encontraria um pingente em forma de asa, colocado ali especialmente para mim.
Notas finais
Queria dizer que, depois de mostrar a história pra uma amiga minha, ela me disse que imaginou o Angelo como o Theo, (ignorando a parte do beijo, é claro) afinal, o Angelo devolveu à Emma toda a vida que ela perdeu com a morte de Theo. Como se o irmão dela fosse seu verdadeiro anjo, entendem? Embora não tenha sido essa a minha intenção, achei algo bem interessante e bonito, por isso, deixo-lhos livre a imaginarem e interpretarem da forma que bem entenderem.
Agora, gostaria de agradecer aos lindos (sem nomes, até pq foram vários comentários) do grupo do Nyah! no Facebook que me ajudaram de alguma forma, sendo com as capas (que ficaram lindas!), correções, ajuda pra desenvolver parágrafos e até mesmo opiniões. Estou realmente MUITO agradecida, a todos.
E acho que é isso aí. Beijos, e se cuidem. Muito obrigada por terem lido. s2
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