Ange
1 Tormento
Notas iniciais
Olhei para o relógio “12:15”.
Só mais cinco minutos.
Cinco.
O garoto ao meu lado me olhou e eu notei um ar de curiosidade.
Não olhe.
Virei.
— Tudo bem Srta. Carter? — Perguntou o professor de quimica, ahhhh como eu odeio essa aula.
— Sim. — Respondi rápido demais. — Na verdade, professor, eu preciso mesmo ir embora, o senhor...
O sinal tocou, AMÉM. Peguei meu material e lancei um sorriso para o professor Houston. Ao andar pelo corredor notei olhares estranhos, talvez estivesse muito feia ou talvez muito linda.
— Ei! Ange! — Spancer saltou do meu lado e eu pulei de susto. — Esqueceu seu caderno!
— Obrigada, Spancer, muito gentil de sua parte! — Me virei e peguei o caderno colorido com tons pastéis e continuei andando... Eu precisava mesmo ir embora, não queria ser grossa, mas eu precisava!
— Hoje a noite vamos á clareira, quer ir conosco? — Ele continuava andando ao meu lado.
— Spancer... Não me leve a mal, mas eu realmente não posso e agora estou com muita pressa! — Sorri tentando ser o mais gentil possivel.
— Tudo bem. — Ele pareceu desanimado, meu coração se partiu.
Spancer era meu amigo a quatro anos e nesses ultimos meses fui obrigada a deixa-lo de lado, o que é extremamente triste e me faz chorar muito. Ok. Era uma obrigação, mas não posso negar que me relaxa e diminui minha raiva muito mais do que sair para essas festas ridiculas onde as pessoas bebem e se drogam até não se lembrarem de mais nada. Ao chegar no estacionamento vi meu lindo e preto Zenvo ST1 na primeira faixa, corri até ele e o abri com um clique, joguei minha bolsa no banco ao lado e me senti poderosa ao ligar o motor. Esse carro é sensacional. Eu o ganhei dos meu pais quando havia completado dezesseis anos e com certeza foi e é o melhor presente que uma adolescente poderia ganhar. Apesar de não ligar para bens materiais Zenvo era meu xodó, pois sempre sonhei com um carro de grande pontência e convenhamos que também não era barato, dinheiro não era problema para meus pais, mas presente é presente.
Enquanto dirigia para a pequena reserva na praia vi oito ligações de Demetri em meu celular, maldita tecnologia. Demetri era meu mentor e também meu guardião (isso é uma longa história), que infelizmente passou a usar seu inutil celular para me atormentar com mensagens de "faltam vinte e cinco minutos para seu treinamento começar" ou "você ira se atrasar, Ange!". Ele havia se tornado um grande chato ao descobrir o WhatsApp.
Estacionei o carro ao lado da casa de Bonaff, desci a andei para o centro de treinamento.
— Atrasada por cinquenta e sete segundos, quase um minuto! — Demetri apareceu com seu sorriso brincalhão. — Jura que vai treinar com botas de salto alto? — Seu cabelo loiro caia um pouco em sua testa conforme a brisa batia e seus olhos azuis me fitavam com um olhar engraçado.
— Não enche, Dem! — Sorri e dei um soco em seu ombro. — Estou ficando melhor que você, de salto vou arrancar sua cabeça.
Dem bufou e logo em seguida soltou uma gargalhada. Ao entrar no centro senti o ar limpo e fresco do ar condicionado, as paredes e o chão brancos faziam com que o lugar parecesse o céu ou algo do tipo. Ao andar pela sala de espera vi a porta onde ficava a identificação por digital, pus meu dedo e a porta grossa de titânio se abriu para uma enorme sala dividida por vidros blindados.
— Hoje vamos testar suas habilidades com a lança. — Dem sorriu, ele sabia que eu odiava lanças.
— AH NÃO, NEM PENSAR! — Soltei um leve grito e todos que estavam sentados se arrumando me olharam. — Me desculpem. — Me encolhi.
— Tudo bem, então será mão a mão. — Ele me olhou seriamente. — Dessa você não passa.
— Vou arrancar sua cabeça. — Rosnei.
— Lutando e extravasando, você sabe que isso ajuda a não trazer seu lobo interior. — Ele sorriu, mas seu tom ainda estava sério.
— Tudo bem, vamos lá. — Concordei.
O lobo. Sim. Eu sou uma transmorfo e por mais estranho que isso soe, eu estou entre os humanos, estou entre todos eles.
Entrei na primeira sala de vidro, eram oito no total. Sorri para Dem que estava com seu traje de "guerra" e num movimento ele esticou seu braço direito e me jogou no chão com um golpe.
— Atenção, Ange! — Ele rosnou. — Outra pessoa não teria dó de você. Então estremeci.
— Eu não preciso de dó. — Rosnei e me levantei num pulo agarrando o pescoço de Demetri, soltei minhas presas e a onda de raiva me atacou, em segundos ele estava no chão tentando pegar uma de minhas mãos.
Sorri sarcasticamente, eu sou a melhor.
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