Angústia
1 Capítulo Único - One Shot
Notas iniciais
Ele olhou para cima e encarou as nuvens por um instante, o céu estava totalmente nublado e tons cada vez mais escuros coloriam as nuvens, mas fazia calor, dias frios e quentes se mesclavam naquela cidade litorânea, em que o céu era nublado na maior parte do verão, mesmo vestindo roupas leves ele já podia sentir um pouco de suor sobre o corpo enquanto caminhava naquela rua de paralelepípedos.
Ora ou outra, voltava a olhar para o céu, para o movimento das nuvens. Não fazia muito tempo desde que saíra de casa, e ele riu ao perceber que pensava naquele lugar de uma maneira tão íntima. Ele já estava farto de andar, e havia andado bastante em seus passos largos e apressados, olhando apenas para frente com a cabeça meio baixa e imersa em pensamentos. Ocasionalmente ele olhava para cima, para as nuvens nubladas, e para os lados quando passava em alguma loja. Um pouco mais a frente, encontrou uma padaria do outro lado da rua, e entrando no estabelecimento, procurou pelo que queria no caixa, enquanto se dirigiu para uma velha senhora que estava atendendo, perguntando se ela vendia o cigarro que ele procurava. A velha senhora estava fazendo algumas anotações em um caderno de contabilidade, e não perdeu o foco de suas anotações quando respondeu com um simples “não”, ele agradeceu e foi saindo da loja quando aquela senhora se dirigiu novamente a ele dizendo que ele não iria encontrar esse tipo de cigarro em lugar algum, pois o mesmo havia sido proibido de se comercializar já fazia algum tempo, mais uma vez ele agradeceu, e saiu dali. Era a terceira vez que ele havia ouvido isto, a primeira foi na sua cidade natal meses antes de ter vindo para o lugar onde se encontrava, e a segunda em um armazém a algumas quadras de distância. Naquele exato momento ele pensou se deveria voltar, mas já havia chegado até ali, então continuou seguindo seu caminho e notou que alguns pingos de chuva já começavam a cair do céu, mas ele continuou andando sem se importar e andou por mais um bom tempo sem encontrar mais nenhuma loja, até parou de caminhar e seus olhos se voltaram para uma esquina à sua esquerda, e soltando um suspiro resolveu fazer o caminho de volta por ali, apenas para variar e conhecer melhor o local.
A rua era estreita e mal conservada, e não era muito movimentada, mas o que chamou sua atenção foi um pequeno armazém que havia em uma esquina de um cruzamento a frente, no lado esquerdo da rua. Pensou mais uma vez se valia a pena parar para perguntar, e por fim, decidiu entrar, já que não tinha mais nada a perder. Naquele armazém apertado e mal iluminado, havia um homem negro, alto e gordo atendendo no balcão. Ele olhou rapidamente a prateleira de cigarros em cima do balcão enquanto perguntou ao caixa se ele vendia o cigarro que ele procurava, e este sem lhe responder pegou da prateleira uma carteira de cigarros preta, onde havia um símbolo verde na parte da frente e o nome da marca por cima, e o entregou pelo balcão. Enquanto pegava os cigarros pediu também um isqueiro grande e algumas gomas de mascar sabor canela, o homem lhe entregou um isqueiro de cor azul e a goma de mascar, e disse o preço, com uma voz grossa e rígida e após pagar e pegar o troco ele saiu dali com a carteira de cigarros e o isqueiro no bolso e continuou seu caminho de volta, dobrando aquele cruzamento, e andando por aquela parte do bairro que ele não conhecia, andando devagar e com a esperança de encontrar um caminho de volta por ali.
No caminho de volta, sentiu-se satisfeito, e pensou se já que aqueles cigarros não vendiam mais, essa carteira era possivelmente uma já estava abandonada naquela prateleira de cigarros há algum tempo, mas sem se importar com isso, ele tirou do bolso a carteira de cigarros, abriu, e retirando um, apertou um ponto no filtro de onde sentiu uma bolinha estourar e o levou a boca pegando o isqueiro e acendendo-o, ele deu uma boa tragada e deixou que a fumaça saísse lentamente de sua boca enquanto andava calmamente e de cabeça abaixada, então ele resolveu pensar nos últimos acontecimentos, principalmente nos mais recentes. Nos acontecimentos que o fizeram sair de casa, deixar sua cidade e ir para aquela cidade litorânea, das coisas que viveu em ambos os lugares, das pessoas que conheceu e das que teve que dizer adeus (algumas até para sempre), daquele casarão e da casa vizinha, e dos momentos em que se colocava na sacada do casarão e conseguia com que sua mente relaxasse um pouco apenas sentindo a brisa litorânea e bebendo uma cerveja gelada.
O cigarro já estava acabando, ele jogou fora a bituca e levou mais um à boca, acendeu, e começou a pensar novamente, sobre as pessoas com quem ele convivia, não só ali, mas em sua cidade também, e chegou à conclusão que convivia somente com dois tipos de pessoas: Amigos e pessoas que ele preferia manter por perto. Tendo chegado a esta conclusão deu um sorriso breve, que foi leve, e forçado. Andando em silêncio, mas com a mente inquieta, pensou também sobre aquele casarão, e as pessoas que (talvez) estivessem esperando por ele, nesse momento, ele jogou fora seu cigarro que já estava acabando e acendeu mais um, e com uma grande tragada, deixou com que sua mente simplesmente se esvaziasse conforme a fumaça do cigarro saia devagar de sua boca, nesse momento os pingos de água que caiam do céu foram ficando mais fortes, e protegendo seu cigarro da chuva voltou a andar a passos largos, porém, logo depois pensou novamente, e preferiu voltar a andar devagar. Começando a reconhecer as ruas e casa por onde passava, chegou à conclusão de que seu destino já estava próximo, e pensou em como o tempo havia passado rapidamente, e lembrou-se de um ditado que diz que “a viagem de volta é bem mais rápida que a de ida”.
Um pingo de chuva caiu sobre seu cigarro que já havia passado da metade, apagando-o, então ele calmamente olhou para o cigarro apagado e o jogou fora, colocando a mão no bolso, ele retirou algumas gomas de mascar que começou a mastigar enquanto terminava seu trajeto. Virou uma esquina e andou mais um pouco, até que virou outra esquina e de longe já conseguia ver o casarão em que estava hospedado, ele já estava na calçada do mesmo, quando parou e mascou seu chiclete por mais um tempo, apoiado no muro e deixando que os pingos da chuva que ia se intensificando caíssem sobre ele por mais alguns momentos, antes de atravessar o portão para o terreno do casarão e voltar para aquela estranha realidade em que se encontrava.
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