Anesthesia
1 Imprevisível
- Tire a roupa.
As palavras reverberaram pelo cômodo, pois ninguém fez muito esforço para capturá-las. Murmurei um xingamento baixo e virei-me para ele, meio descrente de que ouvira mesmo aquilo. Só pude ver Szayel entrando no cômodo e trancando a porta, em silêncio. Ele realmente parecia não ter mais nada a declarar.
- O que você disse?
Szayel virou-se. Sorria. Senti um, dois, vários calafrios, aquele sorriso perdido no meio da noite. O que exatamente havia por detrás dele?
- Por que o susto? – As palavras saíam meio assobiadas, os lábios dele pouco se moviam. – Sabe muito bem o que viemos fazer aqui.
O Octavo retirou uma daquelas luvas de cientista com os próprios dentes, languidamente, encarando o chão. Ele era um ponto luminoso perdido na penumbra: os olhos amarelos, o cabelo róseo, a pele clara. Nunca prestara muita atenção em sua estatura baixa e nos ombros finos – perto dele, eu me assemelhava ainda mais a uma aberração. E Aporro, a uma pequena pedra preciosa, previamente perdida nas areias de Las Noches.
Nada se passava pela minha cabeça quando comecei a tirar minha jaqueta branca. Fui no impulso, Szayel sabia ser extremamente persuasivo. Não desgrudei meus olhos dos seus; ele fazia o mesmo. Parado, com as costas na porta trancada, observava-me. Desviava a atenção para meu peito iluminado para a Lua, e então encarava-me novamente. Sua reiatsu oscilava a ponto de equiparar-se à minha, algumas vezes.
No entanto, eu sabia que poderia fazê-la elevar-se à de um Espada Primero.
Eu queria fazer isso.
Szayel atraía-me com seus movimentos furtivos, no meio daquela realidade estática de Las Noches. Szayel e sua esquizofrenia, sua volúpia. Szayel e seus cabelos rosas, expressão de insanidade completa. Ele era enlouquecedor, essa é a pura verdade.
Despregou-se da porta e veio caminhando até mim, no que demorou uma eternidade. Passos discretos, Aporro foi iluminado pela Lua minguante, tão frágil e maldoso ao mesmo tempo. Jogou a outra luva no chão, para encostar seus dedos frios em meu peito. Deite-se, falavam. Deite-se, seus lábios delinearam o convite. Obedeci, mais uma vez sem pensar em muita coisa, acatando uma ordem sem proferir xingamentos.
Olhando-o de cima, minha vontade de socá-lo era incontrolável. Sim, ele me enchia de raiva. Quem era ele para ter esse controle sobre mim? E eu ainda estava três posições acima! Szayel Aporro não passava de um plebeu que se superestimava. Travei.
- Deite-se, Nnoitra. – Ele forçou um pouco mais as mãos. Claro que eu não cederia.
Meus dedos magros puxaram os cabelos de sua nuca. Lá estava ele, com os lábios úmidos refletindo o brilho da Lua. Olhando-me de soslaio por trás dos óculos.
- O que está fazendo?
Excelente pergunta.
Puxei-o para mim, um pouco mais violentamente do que era a intenção. Não sabia o que era, mas aqueles lábios arroxeados me apeteciam. Sua respiração ligeiramente alterada, tão próxima que se confundia com a minha própria, estimulava-me. Meus dedos de aranha rastejaram por seus cabelos sedosos, enquanto não desviávamos o olhar um do outro...
- Isso é efeito do remédio. Controle-se, Nnoitra.
Sem dar-lhe ouvidos, minha outra mão apertou seu braço com força, pois Szayel insistia em tentar me afastar. Eu não estava ali naquele momento. Não o ouvia, mesmo que quisesse; só via o movimentar de seus lábios na tentativa falha de formular ordens. Seus olhos continuavam semi-cerrados, sensualmente.
Falasse o que quisesse, ele não tentava realmente me impedir. Afinal, Aporro sabia apelar para a força, e se não o havia feito ainda é porque não o desejava. Puxei-o, colei nossos corpos, quase sentia o gosto azedo de seus lábios...
E uma repentina espetada na barriga fez o rosa mesclar-se ao negrume, tudo se embaralhou e minha cabeça latejou. Abri os olhos, mesmo sem antes perceber que os havia fechado, e lá estavam eles: os óculos, os olhos amarelos, o mesmo quarto, o Espada me encarando com a mesma excitação de antes. Sorria sem muito mistério, estava empolgadíssimo. Tudo se confundia em meus pensamentos.
Mais um pesadelo?
- Dormiu bem, Nnoitra?
Pisquei os olhos algumas vezes, ainda deitado e sem camisa. Quando tentei me levantar, o próprio Szayel amparou-me, dizendo que estava fraco devido à ação das mais variadas drogas. Fiquei curioso sobre o que aquele cientista louco fizera comigo, embora houvesse preocupações mais... urgentes.
Aquilo havia sido um sonho? E pior: o meu sonho? Como meu ser teve a coragem de imaginar tal situação?
- Ah, finalmente vou poder analisar o que é um pesadelo de um Hollow! Quem poderia imaginar que somos capazes de tê-los? – Szayel falava mais para si do que para mim, gargalhando no cômodo fechado. – Ainda por cima, parece que tive uma tremenda sorte. Do jeito que você gemia, Nnoitra – nesse ponto, ele me encarou fulminantemente – deve ter sido um péssimo sonho!
Como ele havia se distanciado, pude me sentar e sentir o vento frio que sempre percorria Las Noches. Estava tonto, completamente confuso e, óbvio, envergonhado. Só então fui me lembrar que Aizen-sama havia mandado que eu procurasse Aporro, pois já sofria repetidamente de pesadelos. Um fato inédito. Uma humilhação. Procurei Szayel de imediato, antes que a novidade se espalhasse por entre os outros.
O problema é que, embora não me lembrasse com clareza, os pesadelos até então não haviam sido desse jeito. O último foi sem dúvida o mais apavorante de todos.
E Szayel iria examiná-lo?
- O que exatamente você vai fazer com isso na sua mão? – O objeto assemelhava-se a um filme fotográfico, e eu tinha um certo palpite sobre o que ele refletia. Ainda mais quando notei os vários fios presos a minha cabeça, monitorando-me.
- Examinar seu pesadelo. Talvez assim eu descubra um modo de refreá-los. – Gelei. Sem muito pensar, pulei da cama, a vontade de cortar-lhe o pescoço explodindo dentro de mim. A tontura, porém, não me deixou ir mais do que dois passos à frente, antes de eu ajoelhar-me e a visão escurecer.
- O que houve? Eu disse para não se levantar.
- Fodam-se suas ordens. Me dá essa... qualquer coisa.
Szayel olhou-me de cima, com aquele olhar cético. Enfureceu-me a visão de que me ajoelhava a seus pés. Mas que merda em que fui me meter...
- Ora, “fodam-se as suas ordens”! Você me procurou querendo ajuda, e admito que estou curiosíssimo, até mesmo excitado, em descobrir o que tenho em minhas mãos. – Ele sorriu de modo insano. – Ainda mais depois desse showzinho...
Ele não podia ver aquilo. De jeito nenhum. Nem ele, nem ninguém. Precisava impedi-lo, de alguma maneira, mesmo tonto e desarmado. A porta ainda estava trancada.
- Espera. – Uma de suas mãos estacionara na maçaneta, mesmo que eu não imaginasse que ele me obedeceria. Sim, eu ainda era seu superior – e como essa palavra soara promissora para a hora. – O que você fez comigo?
Szayel olhou-me com aquele ar de intelectual, como se eu fosse um ignorante completo. Ainda assim, pelo menos me respondeu.
- Nada que nos próximos cinco minutos não passe. – Apressou-se em virar a chave, antes que eu o perturbasse novamente.
- Venha cá, Aporro.
Mais uma vez, ele congelou, mas sua reiatsu tinha o triplo da impaciência de antes. Zangar-se, nunca. Sabia que, se demonstrasse raiva tão abertamente para mim, o preço não seria barato.
Szayel achou melhor obedecer.
- Ponha-me novamente na cama, pelo menos.
Merda de cautela! O Octavo deixara o filme próximo da porta, desagradavelmente longe de meu alcance. Sorria, provocando-me. Fuzilei-o com meus olhos, no entanto mantive silêncio. Ele não poria as mãos novamente naquele rolo.
Chegou-se e enrolou seus braços curtos um pouco abaixo de meus ombros, fazendo com que seu cabelo farfalhasse na minha cara. Havia um perfume doce neles, uma essência que me deixava facilmente enjoado, que me engasgou na mesma hora. Não esperaria aquilo jamais de um Espada, nem mesmo de Szayel. Levantou-me com força, encostando-me em um de seus ombros, ao que fiquei espantado com a diferença das alturas. Aporro parecia uma criança, com pensamentos um pouco mais maldosos.
Arrastou-me, eu um pouco mais tonto, até chegarmos à cama. A partir daí, entretanto, a cena seguiu-se como no próprio filme: suas mãos mais frias do que eu esperaria deitando em meu peito, os lábios sussurrando vagarosamente a ordem “deite-se”. O olhar amarelo que deixava transparecer um quê incógnito.
Só sentei. Não era minha intenção deitar – sendo sincero, sentia que mais uma vez esquecia minhas reais intenções. Continuei olhando para ele, meio ausente. Vi que Szayel encurvou as sobrancelhas, sem entender o que havia de tão interessante nele próprio. Nem mesmo eu sabia responder. Só que havia. Tão interessante que, quando ele se virou para pegar o rolo de filme, puxei sua mão – para impedi-lo de ver meu sonho ou para mirá-lo mais uma vez?
Puxei sua mão e logo a empurrei, junto com seu corpo, erguendo o meu. Pouco liguei para a tontura ou qualquer outro problema, imprensei-o contra a parede, travando qualquer movimento. Olhava-o de baixo – finalmente – com malícia e perversidade, e vi quando ele engoliu em silêncio. Estávamos os dois mudos. Qualquer palavra poderia revelar o que viria a seguir, fosse bom ou mau.
Ele cedeu à pressão.
- Mas que merda você está fazendo, Nnoitra? – Falou, num tom um pouco comedido.
- Eu quem pergunto! Que merda você injetou em mim, Espada imprestável? O que diabos você fez para eu perder o controle desse jeito? – Estávamos próximos, minha raiva era tamanha que não podia evitar a saliva em sua face nas sílabas mais fortes. Intimidava-o como um predador, com gritos e demonstração de força.
Aquilo não funcionaria jamais com Aporro. Bem ou mal, ele me conhecia o suficiente para não se deixar amedrontar assim.
- Patético. Não lhe fiz nada. Só lhe dei um anestésico, o que explica sua fraqueza, tontura e outros aspectos físicos. O que você está fazendo agora – ou estava delirando ou Szayel realmente sussurrava ainda mais próximo do que estávamos antes – é consequência de suas vontades.
Em Las Noches, somente uma poderosa anestesia pode nos manter na linha. Pode nos estabilizar, nos dar a capacidade de controlar nossa própria reiatsu, sem que explodamos. Pessoalmente, optara por lutar – com qualquer um, a qualquer hora, por qualquer motivo. Era o preço para me manterem controlado.
E agora o cientista me apresentara um novo tipo de remédio. Um tratamento persuasivo e irresistível.
Szayel Aporro Granz era um universo em expansão, completamente novo, desconhecido a minhas mãos e a meu ser. Alguém capaz de me satisfazer, cujos gritos seriam a mais pura e honesta anestesia.
- Continua querendo que eu não veja seu pesadelo?
Sua voz era doce e pontiaguda ao mesmo tempo. Suas mãos começavam a cercar-me as costas, deslizando um pouco mais para baixo.
- Isso não tem mais... muita importância. – Nossos lábios roçaram-se distraidamente. Szayel desviava, escorregava, maltratava.
- Ah... nunca teve. – E então parou, derramando seu hálito quase na minha boca. – Achou mesmo que só lhe dei anestesia?
Cravou-me um beijo tão forte que mal pude pensar em suas palavras. Szayel Aporro, tão perversamente excitante em sua imprevisibilidade.
Notas finais
Fic boba para inaugurar o casal! Se houver leitores interessados, escrevo um lemon como segundo capítulo. Querem? xD
Adorei brincar com meus dois personagens favoritos. O Kubo é, sinceramente, um GÊNIO, e por isso adoro fazer fics de Bleach, só para manipular suas criações xD todos têm caracterizações fantásticas. Espero ter sido fiel, mas original, ao mesmo tempo.
Sejam sinceros e elogiem ou xinguem, não vou ficar brava! Mas adoraria ler reviews <3
Beijos, queridos!
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