Anelize

3 Capítulo 3 - Crise em Família


Já era outro dia, quando o Padre Fábio estava no hospital visitando a enteada do irmão. Suzana estava aos prantos, enquanto Rogério tentava consolá-la. Fábio olhou com piedade para com a jovem que estava ali na cama, que acidente terrível. Fábio perguntou: “_Como foi o acidente?”

Enquanto que na residência dos Hansur, a discussão era outra: “_O que minha sobrinha estava fazendo nua aqui em casa?” Alfredo escutou a pergunta com paciência, enquanto que sua esposa vociferava contra ele. O homem respondeu: “_Não sei oras. Ela disse que ia tomar banho, não sei o que ela foi fazer de toalha ali na escada.” Mas a mulher continuou: “_Ninguém sabe da nada aqui em casa. Pergunto a você, você não sabe. Sua filha é igualzinha você, nunca sabe de nada. O que fazer, meu deus.” Alfredo tentou consolar com a mão o rosto da esposa, mas a mulher segurou o braço do homem no ar: “_Não me toque seu filho da puta imundo. Eu não consigo acreditar em nenhuma palavra do que você diz. Vou esperar minha sobrinha acordar e reze para que ela não revele o que eu pense que seja, ou você estará ferrado na justiça seu porco.” E com um cuspe no rosto, se despediu do marido, indo até a porta da frente para ir visitar a sobrinha.

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Em seu quarto, Anelize colocava fogo no bilhete que começou todo aquele alvoroço. Foi quando seu pai entrou no quarto e conseguiu salvar metade do bilhete das mãos da menina. Em tom de assustado o pai começou: “_O que significa isso Anelize? É alguma brincadeira de mal gosto não é? Você por acaso não teria nada haver com o que aconteceu, teria?” Mas Anelize permaneceu séria e calada. Desta vez com um grito o homem vociferou: “_Me responde caralho!” A mão do mesmo se levantou para bater na garota, afim de conseguir alguma cooperação, mas foi interrompido com uma resposta surpreendente: “_Não me encoste, ou todos os seus segredinhos vão se espalhar por aí papai. Eu sei de tudo, você decide o que quer pro seu futuro.” Alfredo deus dois passos pra trás: “_Mas o que você sabe. Tudo o que?” Anelize respondeu secamente: “_Você sabe. Agora antes que você pergunte mais qualquer outra coisa, seu dinheiro está no banheiro, dentro da bolsa da piranha. Se quer ser esperto, tire logo ele de lá. Outra dica, não entre mais no meu quarto sem ser convidado, de agora em diante sou eu quem dita as regras aqui e qualquer hora que você sair da linha, todos os seus segredinhos irão por água a baixo.” Alfredo, assustado com a frieza e sagacidade de sua filha, saiu tremendo do quarto da mesma, fechou a porta com violência, permaneceu ali, olhando para um ponto qualquer, desorientado e sem saber o que fazer, deu um soco na parede e praguejou: “_Mas que porra!”

Mas o silêncio reinou quando de dentro do quarto da garota pôde se ouvir: “_Nem mais um pio papai. Não quero ouvir nem mais um pio.”

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Joana chegou até o hospital. Suzana estava contando a história ao Padre e ao marido, mas não toda ela, ocultando o detalhe de que a filha estaria nua, ela tentava proteger Alfredo, pois poderiam pensar coisas absurdas sobre seu amor.

Quando Suzana viu a irmã, pareceu ter um choque. Antes mesmo que ela pudesse cumprimentar o padre e o cunhado, foi puxada para um canto pela irmã: “_Olha, por favor, não diga nada sobre minha filha estar nua para eles, ou podem pensar coisa errada e do jeito que Rogério é, ele pode querer ir tirar satisfação com Alfredo.” Joana respondeu: “_Que tire e que acabe com a raça daquele miserável. Como ele pôde fazer aquilo.” Um tapa seco no rosto explodiu no ar: “_Nunca mais pense estas coisas de minha filha e de seu marido. Que absurdo irmã, se for pra falar estas asneiras prefiro que vá embora agora.” Joana olhou com um ar de ódio para com a irmã, virou as costas e se despediu: “_Que seja. Melhoras para a Aninha.”

Suzana voltou até onde os homens estavam, os mesmos perguntaram de sua irmã, ao que ela respondeu: “_Ela tem mais o que fazer.”

Andando sem rumo, pelas ruas de Araguari, Joana andava com os pensamentos soltos e acelerados. Porque sua irmã falou daquela forma àspera com ela? Era até compreensível a reação dela por causa da filha, mas como ela podia defender Alfredo? Enquanto caminhava distraída, seu celular tocou. Um detetive que se apresentou como Eduardo, lhe informou sobre um assassinato que ocorrera perto de Uberaba. As vítimas eram conhecidas de Joana. A irmã e o cunhado de seu marido, terrivelmente assassinados. A primeira suspeita era de que a esposa tinha estrangulado o marido enquanto o mesmo dormia, pois a marca das mãos da mulher estavam no pescoço do mesmo e logo depois ela teria passado a faca no próprio pescoço. Era uma história difícil de se engolir, e se tornou mais complicada ainda ao descobrirem que o homem morreu antes de ser estrangulado, pois ingeriu algum tipo de veneno, outra coisa que bagunçou a mente dos investigadores, foi o fato de que algo foi queimado, como se fosse pra apagar vestígios. Algo não se encaixava naquela história toda segundo Eduardo, e como vizinhos disseram que tinha uma garota com os tios por estes dias atrás, pensou em marcar uma conversa com a mãe,o pai e a garota, para ver se conseguia alguma informação nova. Joana se mostrou cooperativa e disse que ajudaria no que fosse possível.

Com o celular desligado, Joana parou em um canto da calçada e vomitou. Seu estômago estava embrulhado com toda aquela história, que horrível isso ter acontecido. Sua filha poderia ter estado em perigo, alguém poderia ter matado Anelize de forma cruel. Ou se realmente um de seus tios foram responsáveis por aquilo, ela poderia ter ficado traumatizada, o que seria da sanidade de sua garotinha? A forma natural como o detetive lhe traduziu toda aquela carnificina não lhe pareceu adequada, Joana estava totalmente sem chão. Não podia recorrer a irmã que já tinha seus próprios problemas, não sabia como dizer aquilo tudo ao marido, se ela que era cunhada não digeriu tudo aquilo, imagina ele que era o irmão. E sua filha, como contar aquilo a uma garotinha daquela idade? O mundo parecia ter desabado por cima de Joana, parecia um sonho. Algo a despertou de seus pensamentos sombrios, era o Padre Fábio. Sem pensar duas vezes a mulher o agarrou com um abraço forte, enquanto seus prantos escorriam pela face cansada da mesma, até se perder para sempre ao chão quente da calçada de cimento. Antes mesmo que o Padre pudesse perguntar, Joana começou: “_Algo terrível aconteceu Padre. Eu não sei. E não quero saber o que fazer. Me ajude.”

Sentados em uma lanchonete, estavam Fábio e Joana. Um pedaço de pizza estava acabando já no prato do Padre, enquanto que a coxinha no prato da mulher permanecia intocada. Fábio continuou: “_Sua filha realmente não viu nada de estranho, ou mencionou a você algo suspeito de quando ela esteve por lá?” Mas Joana parecia não estar atenta à realidade: “_Não Padre. Minha filha não. Não sei o que aconteceu. Porque isso tudo está acontecendo comigo? Eu quero morrer.” O segundo tapa do dia ecoou por toda a lanchonete. A balconista, junto a mais alguns fregueses olharam curiosos para a cena. Os olhos arregalados de Joana pareciam ter acordado de uma alucinação, o Padre meio sem graça, mas com um tom de autoridade falou: “_Nunca mais fale isso, você tem uma filha. Não sei quais são seus problemas, ou tudo o mais que você está enfrentando, mas você tem uma filha pra cuidar e proteger, nunca mais pense em acabar com sua vida está me entendendo?” Joana suspirou, enquanto lágrimas escorreram de seu rosto: “_Desculpe Padre, eu só não sei o que fazer.”

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No hospital, Ana acordou gemendo de dor e desesperada: “_O que estou fazendo aqui?”

Sua mãe gritou: “_Minha filha, você acordou. Finalmente, estava aflita.” Ana sem entender perguntou novamente: “_Sim, como pode ver eu acordei. Mas o que eu estou fazendo nessa droga de cama?” Suzana olhou sério para a filha e explicou: “_Não se lembra, você caiu da escada na casa de sua tia.” Uma expressão de pavor e dor tomou conta do rosto de Ana: “_Não quero voltar lá nunca mais. Não quero aquela garotinha perto de mim, nunca mais. Não deixe que ninguém venha aqui mãe, por favor.” Suzana, preocupada com a filha perguntou o que tinha acontecido e porque ela estava histérica assim, ao que a jovem respondeu secamente: “_Você nunca se preocupou comigo, não precisa se preocupar agora. Deixe que resolvo meus próprios problemas. Só não quero ninguém aqui, quero que todos vão ao inferno.” Suzana olhou para a filha, em seu rosto ela deixou transparecer tristeza e mágoa com as palavras com que sua garotinha dirigiu a ela, logo se levantou e saiu dali com um peso enorme na alma. Sozinha ali, dentro do quarto de hospital, Ana acumulou um pedaço de ódio nos lábios e comentou: “_Que aquela pirralha queime no inferno, junto com a minha mãe. Sim, é isso que eu quero.”