Andrômeda - Livro 1
2 Meros Enganados.
Notas iniciais
CINCO DIAS DEPOIS
ATUALMENTE
A garota despertou de seus profundos pensamentos quando estacionou sua lata velha ao lado daquela lanchonete quase vazia. Retirou o cabelo do rosto e os ajeitou atrás da orelha em um movimento um tanto necessário.
Saiu do automóvel batendo sem querer a porta. Caso acontecesse algo com aquele carro, seu tio a matava. Mesmo valendo pouca grana, aquela sucata carregava histórias, lembranças que Spencer não gostaria de jogar fora. Jamais.
Assim, caminhou até o estabelecimento. Avra precisava de um café urgentemente, pois somente a cafeína reconfortaria seus nervos.
Ela só não parecia furiosa. Poderia matar uma pessoa depois do que Jake fez. A garota passaria a cogitar o real significado da palavra quando o mesmo disser que a ama.
Ambos estavam juntos há dois anos e nada produtivo fora resultado de tanto tempo de relacionamento. Portanto era justo estar farta. Farta das palhaçadas, farta das mentiras, farta de um amor que não parecia certo, que não parecia para ela.
Seus pés a levaram para dentro da lanchonete de forma um pouco desnorteada.
Deparou-se de frente com a atendente na qual fitava-a já esperando sua chegada.
— Boa noite. – Falou a mulher.
— Por favor, um cappuccino. – Pediu Avra enquanto a dor de cabeça se manifestava de forma sutil e sublime. A atendente se colocou em preparar o pedido sem ao menos assenti em resposta.
Debruçou na bancada pela intensa pontada de dor que lhe atingira. Ela pouco acreditava que Jack fora capaz de causar tal imenso mal-estar. Seria o descarrego de dois anos de silêncio pelas coisas que o namorado fazia? Talvez, mas não queria lembrar quais. Estava cansada e ainda precisaria voltar para casa e tomar um banho para esfriar a cabeça.
Manejou a cabeça sobre os braços para aconchegar-se melhor e ele entrou o estabelecimento mantendo seus passos firmes.
A jaqueta preta de couro puro parecia equilibrar o grande porte que compunha seu corpo atleta. O cabelo mesmo estando molhado se encontrava arrepiado, sua fisionomia fechada o presenteava com um ar autoritário… Não, Avra. Não se deixe levar pela fossa.
Ele é só um cara qualquer, pensou ela, desviando de todas as formas possíveis qualquer atração que aquele lhe empoderava. Mas tinha algo de estranho, algo que Avra percebia e sabia que não era normal, humano.
— Aqui está seu café. – Disse a atendente, entregando o copo de 500mL recheado da bebida que logo faria Avra Melhor.
Ela, assim assentiu em agradecimento ao mesmo tempo que ele arrastou o banco e sentou dois lugares vagos em que ela sentava.
Avra levou o copo à boca e pelo objetivo de simplesmente beber, porém quando o líquido tão cobiçado fez contato com a sua língua, a sensação foi mais do que avassaladora. Somente um gole foi capaz de trazer de volta um pouco do imenso ânimo que faltava. Ela bebeu outra vez a fim de relaxar os nervos e, além de tudo, apreciar o gosto rústico e prazeroso.
Suspirou. Estava melhor. Pouco, mas melhor do que a situação que se encontrava antes. Agora sim poderia voltar para casa e entrar debaixo do chuveiro sentindo a água morna tocar seus ombros nus.
Descartou o copo vazio na lixeira próxima à saída, pegando a chave da lata velha no bolso traseiro e saiu da silenciosa lanchonete, ficando de cara com o seu escurecido.
Quanto tempo ficara lá dentro enquanto enrolava a bebida tomando-a de gole em gole? Não sabia, também pouco importava.
Já dentro do carro, engatou a chave e ligou o automóvel pronta para dar partida, tateou os bolsos à procura do seu celular. Na hipótese mais provável, Spencer ligaria preocupado. No fim das contas lembrou que o colocara sobre o balcão quando se debruçou no mesmo. Bufando, Avra saiu do carro voltando para a lanchonete pisando duro.
Com a cabeça baixa, começou a murmurar liberando o stress:
— Como fora tão esquecida, Avra?! Idiota.
Ela já podia imaginar as trezentas ligações não atendidas de Jake estampadas no visor do aparelho. Teria que se explicar para seu tio a demora anormal quando chegasse.
Avra estendeu a mão para empurrar a porta, mas invés da madeira que a porta era feita, ela encontrou o vácuo. Nada. Seu corpo pendeu para frente e ela tinha certeza que cairia e nem mesmo a certeza de que se esborracharia pode libertar nem mesmo um pequeno grito.
O que ela não sabia era que estava enganada.
Quando o peso do seu corpo junto com a insana gravidade a puxou para baixo, algo se fez presente em sua frente como uma muralha. Por incrível que pareça, Ele estava saindo do estabelecimento na hora que ela entrou.
Avra impactou contra o peito dele que pouco se moveu com o encontro inesperado.
— Ah, desculpe. Eu não…
De repente, a mão dele tocou o queixo dela de forma impressionantemente delicada.
Ela logo via sangue. O tilintar do confronto de espadas era algo inevitável. Dois guerreiros, uma mulher e sangue, muito sangue.
No seguinte movimento de ataque, os olhos dourados tomaram sua visão. Eram tão vivos, mágicos de um intenso amarelo. E quando a lâmina mortífera do adversário estava retilínea na direção do dono do ouro na visão, este desviou, arqueando a coluna para depois atacar. Sua espada cortou o ar furiosamente sem exercer nenhum som. Somente quando a cabeça do outro lutador rolou entre as rochas que foi evidente o efeito daquele voraz golpe.
— Aphro… – Sua voz aparentava surpresa absoluta. Ele também estava enganado.
Avra manejou a cabeça, parecendo estar tonta. O que acabara de ver? Uma luta, sabia ela, porém seu significado era subliminar. Ela ergueu o rosto, fitando-o. A cor dos olhos do homem foram mesclando para o castanho após darem partida de um mel.
— Desculpe. Eu não vi você saindo, perdão. – Ela contornou o corpo do homem e em seguida entrou na lanchonete colocando outra vez seu cabelo atrás da orelha um tanto constrangida.
Ela pegaria seu celular e desapareceria dali extremamente confusa… Assim como ele.
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