Andromeda
2 Prólogo
17 anos atrás.
A mulher de branco parada na calçada oposta à da Igreja observava os flocos de neve rodopiarem e caírem suavemente se prendendo ao chão. Em seus braços, um bebê dormia tranquilamente, a sono solto, sem saber que estava fora de casa, sem saber que nunca voltaria.
Marieth atravessou a rua, sentindo os pequenos flocos brancos e gelados se prenderem em seus cabelos claros. Seus passos firmes não denunciavam o quão assustada estava, não mostravam o quão abalada estavam sua vida e suas emoções.
Sua aparência se camuflava ao ambiente ao seu redor. Sua pele branca não parecia sentir os efeitos da neve que grudava em seus cabelos loiros e seus olhos muito azuis estavam fixos à Igreja a sua frente.
Ainda com o pequeno bebê dormindo, Marieth entrou no local sagrado, sentindo que ali era o lugar certo para fazer o que estava prestes a fazer. Não deveria ser tão difícil, mas a cada passo que ela dava em direção ao altar a sua frente, mais pesadas suas pernas pareciam. Quando finalmente chegou ao altar, suas pernas pareciam de chumbo e seus olhos lacrimejaram ao olhar para a figura de Jesus preso à cruz, pagando por pecados que não eram seus.
A mulher abaixou o olhar, deixando uma lágrima perolada cair sobre a manta clara que cobria a pequena criança.
Ela sabia que não era correto o que estava prestes a fazer, mas também sabia que era o que sua irmã pediria. Com sua casa devastada e sem nenhuma perspectiva de segurança e do fim da guerra, aquela pobre criança ficaria melhor com os terráqueos. As pessoas de sua galáxia, as pessoas de seu planeta que desejavam — e praticavam — mal a qualquer um que não os seguisse não conseguiriam achar a menina ali, no meio de tantas pessoas que não sonhavam com vida inteligente fora de seu próprio planeta.
Marieth sabia que o bebê em seu colo estaria a salvo naquele planeta cheio de pessoas tão diferentes dela e de sua cultura.
A pequena criança ressonou alto nos cobertores que a tia lhe enrolara. Tão pequena, tão frágil, talvez estivesse sonhando com seus pais sorrindo e lhe dando amor, porque mesmo dormindo, um sorriso pequeno se formava em seus lábios.
Marieth abaixou no altar, rezando para qualquer que fosse o Deus dos terráqueos, que protegesse seu bebê. Respirou fundo e a deixou ali mesmo, no chão do altar, abaixo dos pés de Jesus, certificando-se que estava confortável.
— Tenha uma boa vida, minha doce criança. — ela sussurrou, dando um beijo na bochecha rosada e ajeitando uma carta em seus cobertores. — Eles vão entender. E você vai ficar bem.
Que ficasse bem e fosse feliz. Era tudo o que Marieth pedia para o futuro daquela criança.
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