Andere Ich

3 Quem eu menos esperava


— Como se sente?

Ouvi uma voz perto de mim, eu estava de olhos fechados, sentindo a textura de um lençol de tecido fino. Abri os olhos e a luz azulada de um abajur perfurou meus olhos. Do meu lado direito havia uma cortina bege com detalhes na cor preta, e em sua ponta esquerda superior se entrevia um brasão prateado.

— O... O que aconteceu? — perguntei, estreitando os olhos, procurando quem havia falado comigo.

— Você teve uma convulsão. Ficou desmaiado por duas hora. Tem andado estressado por esses dias? — disse uma voz feminina.

Passei os olhos em volta de mim. Eu não me recordava daquele lugar, parecia ao mesmo tempo confortável e opressor. A janela de vidro do lado esquerdo dava para uma sala de química, na qual se encontravam alguns alunos do curso de medicina. Apoiei meu corpo no cotovelo e olhei atrás de mim. Uma mulher alta, cabelos cor de bronze com um rabo-de-cavalo no alto da cabeça, uma das pernas apoiadas na parte interna de um armário que ficava no chão. A pia ao seu lado estava repleta de seringas de pressão com líquidos de diversas cores. Alguns estavam jogados dentro de uma bacia metálica, outras estavam intactas no recipiente próprio. Ela não parecia ser muito cuidadosa com o trabalho. Debaixo da pia havia um carrinho de medicamentos vazio encostado na parede.

A mulher chegou perto de mim com uma prancheta nas mãos e examinou os meus olhos, como se tivesse prestes a tirar uma árvore de dentro deles.

— Tinha uma garota... — Eu comecei a dizer, mas pensei melhor a respeito do que falaria naquela situação.

Deixei meus braços caírem na maca e apoiei o antebraço esquerdo em cima dos meus olhos, tentando relembrar o que havia acontecido.

— Sim? Sua namorada era aquela moça de avental branco? Acho que ela não teve estômago suficiente para te ver tremendo no chão.

— Quem te contou isso? — eu perguntei.

— As câmeras do corredor registraram o que aconteceu. Nada muito grave, mas vamos levar uma amostra do seu sangue para fazer um exame. Está de acordo?

— Tudo bem. Mas acho que não tem nada errado comigo.

A moça sorriu. Pegou uma seringa lacrada e a espetou na veia do meu braço, fazendo meu sangue espirrar dentro dela.

— Ok, em vinte minutos sai o resultado. Recomendo ficar um pouco aqui em repouso.

— O que pode ter acontecido? — perguntei.

— Levando em conta que você nunca teve nenhum histórico de convulsões, temos que checar. Você é forte, Kazuki. Depois de tudo sair ileso... Já o seu amigo não teve a mesma sorte.

Zack! Me lembrei da descarga que eu soltei sobre ele, lançando-o longe. Eu precisava vê-lo, e saber se ele viu a garota do pátio. Por fora eu parecia bem, arriscava um sorriso para a médica, conversava normalmente. Mas minha cabeça estava com os pensamentos a mil. Me lembrava das imagens que eu vi, dos sons aterradores, e de toda aquela situação perturbadora. Eu não tinha a quem contar aquilo a não ser que achasse a garota de azul. E apesar de tudo, ela não era feia, e sempre que aparecia uma garota nova nas redondezas, o Zack prestava atenção e fazia a “ficha” da garota ou mulher. E isso não havia acontecido então deduzi que ele não tinha a visto mesmo. Mas eu precisava conferir de qualquer forma.

— Onde está ele? — perguntei, passando a mão nos cabelos e percebendo que estava completamente descabelado.

— Está na sala ao lado – disse ela, apontando com a caneta para o lado oposto da janela.

Fiz menção de me levantar, e a médica não fez objeções. Achei bem estranho da parte dela não me impedir, afinal eu tinha acabado de ter um desmaio. Olhei na parede e o relógio digital embutido me mostrava que era duas da tarde. Tirei as vestes verdes de paciente internado e saí da sala antes que a mulher percebesse.

— Posso saber por que não está com seu chip de identificação, aluno desconhecido? — Disse uma voz atrás de mim. Era o reitor da faculdade. Chips eram usados na nuca da pessoa para identificar anomalias na saúde e servia como uma carteira de identidade para cada indivíduo em qualquer lugar que ele fosse. Eu parei minha pequena caminhada e me virei vagarosamente, pensando em algo para dizer, pois eu não estava com o meu em mãos.

— É... eu devo ter deixado em casa. — Eu disse, tentando olhar nos olhos daquele homem enorme. Depois do acontecido de mais cedo eu estava com medo de olhar novamente para alguém e acontecer de tudo de novo.

— Não fique pensando que só por que é o melhor aluno do seu curso que está livre de punições. Mesmo hoje sendo o ultimo dia de aula você deveria estar usando seu chip. Não falarei duas vezes.

E saiu em passos largos em direção à gerencia. Eu não fiz nenhuma objeção. Apenas continuei seguindo meu caminho em direção à sala onde o Zack estava.

***

Ver o rapaz naquele estado me fez pensar na gravidade da situação. Todas as imagens que eu até agora estava evitando de pensar, de repente surgiram como um redemoinho na minha cabeça. Zack estava com o tórax roxo e respirava com dificuldade. Tinha o rosto cansado e estava com a pele pálida. Apesar disso dormia tranquilamente como se houvesse tido um dia muito cheio no trabalho e agora tirasse uma soneca merecida.

Puxei uma cadeira que estava encostada no canto da sala e me sentei, tapando o rosto com as mãos. Não sabia por onde começar. Duvidas e perguntas invadiam minha mente, me perguntava se Zack ficaria com raiva ou se ele se lembraria de algo, afinal era meio comum as pessoas perderem a memoria por esses tempos.

— O que foi que eu fiz... — Eu disse, suspirando e encostando as costas na cadeira.

— Kazuki! Meu filho, como você está?

Minha mãe entrou no consultório com cautela e a passos curtos, como se estivesse com medo que eu a jogasse longe. Eu levantei os olhos para ela vagarosamente e respondi com a voz sumida.

— Está tudo bem. Tive uma convulsão pelo que a médica me falou, mas vou ficar bem.

Eu não podia contar para a minha mãe o que eu vi. Primeiro que ela não acreditaria em mim, segundo que ela tinha tantas coisas para fazer que não teria tempo pra pensar nisso. E eu queria evitar preocupações. Ela chegou perto da cama onde Zack estava adormecido e passou os dedos no rosto dele, de modo compassivo.

— Sabe, a três anos atrás você teve uma convulsão dessas. — Minha mãe disse, pensativa.

— Sério? Como foi? — Eu disse, surpreso. Não esperava que ela falasse algo da época que eu não lembrava.

— Sim. Foi quando fomos levar o seu pai no aeroporto para ele viajar para a Alemanha. Sofremos um acidente na volta e você ficou muito nervoso. Depois que chegamos em casa você foi para o seu quarto e quando eu fui conversar com você, estava desacordado... Te trouxe aqui mesmo e me disseram que você não pode se estressar que isso aconteceria. Prometi ao médico que você ficaria tranquilo e que nada se repetiria mas... Você não acordou...

— Como assim? — Eu perguntei, com o coração disparado. Aquilo era algo novo para mim, eu não sabia o que pensar, e de todo modo não sabia se deveria confiar na historia da minha mãe. Ela não me olhava nos olhos para contar aquilo, o rosto dela parecia ser de um pesar muito grande, como se estivesse escondendo algo.

— Até hoje ninguém sabe o que aconteceu no quarto. Apenas... A janela estava aberta quando eu entrei, e a cortina estava para o lado de fora, coisa que você nunca faz...

Ela parecia mais nervosa, e ao dizer isso ela enrubesceu e começou a apertar os dedos e a estralá-los. Eu levantei de onde estava sentado e peguei no rosto dela de forma suave, olhei dentro de seus olhos castanhos que já estavam enchendo-se de lágrimas.

— Ei... está tudo bem, era só a semana de provas que me deixou assim. Mas agora acabou, passou. Tudo vai ficar bem. Ok?

Ela olhou para mim com as lagrimas quase querendo pular para fora do rosto. Depois de olhar para o chão e desviar o olhar para a parede, ela me abraçou forte, algo que há muito eu não recebia dela.

— Eu não quero perder mais um, Kazuki. Só me restou você , estou preocupada com sua saúde...

— Não se preocupe com isso, eu estou bem. Me sinto ótimo, foi só um susto. Me prometa que não vai ficar pensando nisso?

— Tudo bem. Vou tentar relaxar. Estou pensando em viajar nesse fim de ano. O que acha? Você e eu precisamos respirar novos ares, sabe?

Me desvencilhei dos braços da senhora Meihiro e sentei novamente na cadeira. Eu não gostava muito de viagens. E o japão pós-guerra não estava totalmente restaurado, mesmo tendo-se passado cinquenta anos. Ela com certeza gostaria de ir para a casa da minha tia.

— Para onde quer ir?

— O que acha... Da casa da minha irmã? — Disse ela, com os olhos brilhando.

Eu sorri, ela era bem previsível. Fiz menção de respondê-la, mas quando eu ia falar, uma garota loira com óculos escuros, short jeans curto e rasgado nas pontas, uma camiseta regata rosa que doía meus olhos e cheia de pulseiras barulhentas no pulso, entrou na sala aos tropeços e debruçou-se em cima do Zack adormecido.

— Zack! Fale comigo, diga que você está bem!

— Saia daí menina, não está vendo que ele está desmaiado!? — disse a minha mãe, pegando no braço da intrusa e afastando-a da cama.

Ela virou bruscamente para minha mãe e fez um olhar de desprezo. Começou a resmungar algo mas ao me ver, se calou.

— O que faz aqui, Lily? — Eu perguntei da forma mais fria e desinteressada que consegui.

Lily era bem popular na faculdade por causa de sua beleza e inteligência. Já tivera os cabelos de todas as cores possíveis, por isso não havia como descrevê-los muito. No momento estavam loiros e cacheados e caíam até o meio das costas. Seus olhos negros como a noite eram muito espertos e encantava a todos. Muitos alunos diziam que nós éramos o casal perfeito, e outras bobagens parecidas. Mas havia algo nela que me repelia. Seu jeito observador era muito parecido com o meu, ao passo que seu jeito oferecido com todos os caras do colégio me enojava. Ela gostava de usar os rapazes para seus egoísmos e depois descartava-os sem piedade, e ainda assim todos “comiam” em suas mãos.

A moça deu um passo para frente, chegando perto de mim o suficiente para que eu sentisse o cheiro de seu perfume doce.

— Qual é o problema de ver um aluno que se feriu por estar andando com a pessoa errada? — Disse ela, piscando os olhos e olhando bem dentro dos meus, como se quisesse passar alguma informação pelo ar.

Nesse momento, Zack acordava preguiçosamente, e olhou para os lados. Quando viu Lily quase me abraçando, estreitou os olhos para mim e fingiu que não havia visto. Joguei a garota para o lado e enchi a boca de perguntas.

— Ei Zack, eu sinto muito. Está sentindo muitas dores? O que os médicos te disseram? Você se lembra do que houve?

Zack fez uma careta e começou a rir da minha cara. Confuso, eu me afastei dele.

— Cara, não seja antipático. Eu acabei de acordar. Se eu lembro? Eu me arrisquei para observar aquela gatinha que estava no pátio... Ela não é da escola, mas cara! Muito linda.

— De quem você está falando? — perguntei, e meu coração disparou novamente. Ele viu a garota! Eu não estava sozinho. Será que ele acreditaria se eu dissesse o que houve comigo? Será que ela também olhou para ele? Será que...

— Era uma moça de cabelos azuis. Só que eu acho que tentei chamar muito a atenção dela, e caí da sacada no pátio. Que ridículo, por favor – e começou a gargalhar novamente.

— Você caiu...? — Perguntei, e por um momento todas as minhas perguntas ficaram no ar.

— Sim, cara. Você estava lá comigo. Acho que quebrei umas costelas.

Zack não parava de rir. Parecia que estava em um transe, rindo da própria idiotice. Cada risada dele fazia eu ter vontade de sair correndo dali e lavar o rosto com soda cáustica. Eu estava enlouquecendo.

Lily olhou para mim e sorriu. Foi até a bancada de granito e pegou uma seringa que continha um liquido esverdeado dentro de si.

— Qual foi o médico que te atendeu, gracinha? — disse ela para o meu amigo, fazendo-o ficar vermelho.

— Nossa. Você interessada em mim, fico lisonjeado... — Ele fez uma cara sugestiva para mim, e continuou – Foi o professor Saymon, aquele alemão muito louco que faz aquelas experiencias na feira cultural de fim de ano, sabe?

A moça deu um passo para trás, engolindo a seco. Olhou para mim novamente e dessa vez não aparentava estar muito segura de si, como o de costume. Foi o que eu achei ter percebido, pois no segundo seguinte ela já estava acariciando o rosto do Zack e sorrindo para ele.

— Ele é um ótimo médico. Gosto muito dele. Já foi para a câmara de Amni?

— Acho que sim, não estou mais sentindo as dores de antes. — disse ele.

A câmara de Amni era um aparelho que foi desenvolvido durante a terceira guerra mundial. Era como um acelerador de partículas que agilizava o processo de cicatrização de feridas e fraturas. Havia passado por um longo tempo de testes, e matou muitos soldados no processo de aperfeiçoamento.

Eu olhei para a minha mãe e ela estava distraída apreciando o armário de medicamentos que havia no canto do consultório. Quando voltei os olhos para Lily, percebi nossos olhares se encontrarem, ela também estava analisando minha mãe de forma interessada. A moça deu a volta na cama onde Zack estava semi deitado, afastou a cadeira que estava entre eu e ela, e eu fiquei imóvel, olhando para o nada. Lily chegou mais perto de mim e passou a mão esquerda pelo meu rosto até chegar em minha nuca, colou os lábios na minha orelha e sussurrou:

— Eu sei o que houve com você. Não precisa acreditar no que te dizem.