Andarilho dos Sonhos
1 Entre o fim e o começo.
Notas iniciais
A frustrada tentativa de transformar o ginásio do colégio em um salão de festa estava de mal a pior, aquela não era a cultura local, não se faziam bailes neste pais, o Brasil , mas como houve a idéia, baseada na fixação feminina pelos filmes estereotipados de ensino médio americano, houve uma infeliz votação e a democracia prevaleceu, o número de garotas é 20% maior ao que de rapazes no colégio, e assim, venceu a idéia de fazer o “Baile da Primavera” para encerramento do ano letivo. Panos foram jogados por cima da trave de basquete e grades de proteção da arquibancada na expectativa de transformar o ginásio de esportes em salão, luzes foram distribuídas para que se desse a sensação de balada, mesas , de plastico branco, foram trazidas e colocadas nos cantos. Foi montado um palco improvisado próximo a trave de futebol que rangia toda vez que alguem se movimentava encima dele. O piso feito para chuteiras e tênis estava sendo todo arranhado pelos saltos e volte meia se escutava o som estridente de sapato derrapando e gritinhos agudos de garotas que efetivamente caíam.
O Rei do Baile já havia sido coroado, não houve tanto drama para este anuncio, era de se esperar qual garoto venceria, todas as garotas do colégio falavam dele fazia semanas, todas sabiam da fama que ele carregava, todas queriam conhece-lô melhor. Brenno, o garoto novo, mais velho, marrento, de olhos azuis e rico. Com toda sua imponência e arrogância, a feição do rapaz posicionado no palco estava ainda mais fechada do que de costume, deixando claro sua insatisfação em estar ali, aquela luz forte dos holofotes mal posicionados o cegavam, a aparelhagem de som em péssimo estado, a musica mais modista possível e as inúteis garotas fúteis que gralhavam feito gansos em frente ao palco, lhe dava nos nervos, contudo, ele se mantinha no local, até mesmo aceitou utilizar a ridícula coroa de plastico comprada, provavelmente, em um 1,99 qualquer.
Ele aceitava aquele martírio por apenas dois simples motivos, para comprovar seu desdem aos garotos do colégio e para descobrir, sem ter que ele mesmo analisar, qual era a garota mais bela da noite, assim seria fácil ter um foco para atacar. Seu plano era pegar a garota mais bela do baile ,sair daquele lugar e se embebedar para comemorar.
Após ter repetido duas vezes o ultimo ano do ensino médio, ser expulso das três melhores escolas particulares da cidade, por brigas e utilização de alucinógenos, seu padrasto, para puni-lo, o colocou em um colégio público qualquer e, naquela noite, sua tortura acabaria. Ele concluiria o ensino médio e assim teria direito a sua porcentagem da empresa do pai, como esta descrito no testamento, iria morar sozinho e fazer o que bem entendesse com sua fortuna particular, não teria que suportar mais nada.
Com um sorriso de escarnio fitou os olhares de ódio e promessas de sangue nos rostos dos rapazes ali presentes, sabendo que jamais iria vê-los novamente, até mesmo divagou rapidamente sobre o destino infeliz que esperava aqueles que ele considerava como miseráveis, observou com ar analítico as varias garotas ali presentes, identificou aquelas que ele já tivera acesso, aquelas que ele descartara, e ainda haviam aquelas que ele não tivera tempo de identificar e que não mais classificaria, mas nenhuma realmente interessante para que ele sentisse pesar em perder.
A diretora, uma senhora de baixa estatura e relativamente acima do peso, a qual ele comparara naquele momento com um botijão de gás encapado, em seu vestido azul royal e cabelos negros presos em um coque, que se soltava pelo fato dela andar de um lado a outro resolvendo problemas, com o pescoço e as bochechas vermelhas de suor, abria um envelope preto, do qual retirou um papel, dizendo:
— E a nossa Rainha do Baile de Primavera, a mais bela das belas deste colégio é a… — ficou em silêncio com ar de mistério, todas as meninas pareciam não respirar, por fim, com um gritinho de excitação que ninguém esperava ouvir vindo da diretora, concluiu. — Aaah! Natálie Simas!
Houve um alvoroço, risadas, palmas e congratulações de felicidade, acompanhados de choramingos discretos de decepção e ofensas resmungadas de inveja.
A jovem chamada subiu no palco improvisado, altiva e sorridente sobre a analise cuidadosa de Brenno, este, concluiu que ela era sexy, beirando a vulgaridade, o que, para seu objetivo, era bem interessante. Ela usava um vestido vermelho que lhe delineava as curvas, mais definidas que a da maioria das meninas daquela idade, havia um decote profundo que deixava muito pouco a imaginação, tinha longos cabelos, o que sempre o atraía e olhos tão negros quanto os cabelos numa pele parda. Sem mencionar que ela sabia utilizar o que tinha, assim que passou por ele, lançou um olhar provocante e mexeu a cintura ao andar, realçando assim, sua presença.
Passado toda a pompa improvisada e plagiada dos costumes americanos, eles finalmente ficaram livres para se divertir, porém, ali não havia condições de divertimento ao olhos do Brenno, não havia nenhum tipo de bebida alcoólica, as músicas eram as mais irritantes que vivem se repetindo nas rádios, ele não poderia usufruir da companhia de Natálie como gostaria, sem mencionar as várias garotas que ainda tentavam lhe roubar a atenção, dançando próximas demais a ele e os rapazes que passavam dando ombradas e empurrões discretos.
Avisou Jean, seu único amigo, não somente naquele inferno de lugar, mas sim na vida, já que este era o filho do jardineiro e eles cresceram praticamente juntos, que eles sairiam dali em pouco tempo. Logo em seguida, viu uma brecha, um descuido dos monitores, segurou Natálie pelo pulso e saiu do colégio, seguido por Jean e a namorada. Entraram no mais novo brinquedinho de Brenno, um BMW preto, última geração, ele tirou o paletó e a irritante coroa e jogou no banco de trás, pouco se importando com os resmungos vindos da namorada de Jean e então, foram realmente aproveitar a noite.
Estava agora no início da madrugada, todos estavam ligeiramente bêbados, estavam se dirigindo até um lugar mais apropriado para que pudessem se divertir em casal, iriam, obviamente, para o lugar mais caro, Brenno gostava de ostentar sua riqueza. O problema era que Natálie parecia ser fraca para bebidas, estava alta e ficava cortando a animação de todos, pois continuava a matraquear sobre o como era linda e que ganhara a coroa, esta que continuava em sua cabeça até o momento. Numa tentativa de calar a moça, Jean pediu para aumentar a música, que já estava alta, TNT do AC/DC gritava dos alto-falantes, um clássico da banda em questa.
Natálie, mesmo um pouco contrariada foi aumentar o volume e acabou deixando cair a coroa no colo de Brenno, que dirigia. Viu ali uma oportunidade de impressiona-lo, mordiscando o lábio e olhando para Brenno provocativamente se debruçou para pegar a coroa, com a boca, mas como estava bêbada, o fato de ter se abaixado a fez ficar enjoada e voltar rapidamente a seu lugar, para conseguir respirar, batendo a cabeça no braço direito de Brenno, que o levou a perder o controle do carro por meros segundos.
Brenno apenas viu uma coroa de plastico em seu colo, uma bela garota a seu lado e as luzes de um caminhão a sua frente.
E então, tudo ficou escuro e veio a sensação de estar caindo num abismo.
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