Andarilho
2 II-Trevas luminosas
Notas iniciais
Código Samurai
A mulher aterrorizada cai no chão ao ver o corpo mutilado de seu esposo. O sangue escorre até os pés do Ronin, cujo rosto não pode ser visto.
–O que quer? Por que fez isso? Nós não somos importantes! Suplica a mulher
O Ronin não responde, levanta sua Katana e aplica o corte mortal a mulher. Tempos depois, na aldeia desolada pelo ganancioso Tsubaki-Oda , todos lamentam a perda do suado trabalho. Uma reunião na casa de Kurenai procura uma solução para o problema. Todos estão em pé em volta dos anciãos sentados na Chabudai. A improvisada comissão é formada por Kurenai e outros três patriarcas. Wuzushiro é um velho vendedor, Mashiko já serviu ao exército imperial e por fim Yosohito, um chefe de família idoso que já não trabalha em vista da idade. Os quatro (incluindo Kurenai) são os mais velhos da aldeia, cabe a eles resolver o infortúnio.
–Cinco meses de trabalho. Cinco Meses! Reclama Mashiko
–Temos de ter calma, devemos evitar provocar Tsubaki, seus cavaleiros não tem piedade, Diz Wuzushiro
–Isso é uma besteira, vamos armar os homens, mulheres e todos aqueles que possam empunhar uma arma. Vamos tirar o tirano do poder! Exclama euforicamente Mashiko
–Você está desequilibrado, seremos massacrados. Nós nunca atacamos ninguém, nossa cultura é a paz. Diz Wuzushiro
Mashiko bate suas palmas com força na Chabudai, os pés da pequena mesa oriental estremecem.
–E olhe o que ganhamos morte e desgraça! Eu sempre disse que esse dia poderia chegar. Mas ninguém me escutou! Diz Mashiko furiosamente
O mais velho, Yosohito, se manifesta:
–Não haverá armas, nem batalha e nem guerra, não tentaremos resgatar a filha de Kurenai-San, não podemos entrar em guerra com Tsubaki-Oda. Nós não a queremos e nem a venceremos.
–Mas... Tenta retrucar Mashiko
–Esta é a mina decisão final. Conclui Yosohito
Na tradicional aldeia a voz de um homem mais experiente tem muito peso. É uma desonra contestar a sabedoria do mais velho ancião. Todos saem, o velho Yosohitod está caminhando para a porta, Quando Kurenai chama sua atenção:
–Yosohito-Sama, poderia eu lhe dirigir a palavra? Pergunta ele
–Claro, Kurenai-San, sinto muito por sua perda, velho amigo. Responde Yosohito
–Yoi foi o motivo do ataque. Confessa Kurenai
–Seja mais claro. Pede Yosohito
–Durante meses tenho negado a mão de minha filha a Tsubaki. A paciência dele esgotou-se e ele trouxe a tragédia até nós. Diz Kurenai
–Devia ter nos informado isso. Seu egoísmo trouxe desgraça a todos os aldeões. Espero que tamanha insolência não se repita. Nossos problemas são compartilhados. Não contarei aos outros para não aumentar o peso de sua lástima
–Mas, eu nunca mais verei minha filha? Não conseguirei viver sabendo que ela está sob o jugo daquele demônio.
–Às vezes, caro amigo, a paz tem um sacrifício que envolve grandes perdas. Acostume-se a conviver com esse sentimento e o sacrifício de Yoi não será em vão. Tenha uma boa tarde e pedirei por você em minhas adorações matinais. Diz Yosohito
Yosohito sai, deixando Kurenai desolado. Natsumikan vem até ele e segura sua mão:
–E agora? Pergunta Kurenai desnorteado
Fora da aldeia, na estrada deserta, um homem mal vestido, com cabelos longos e barba mal feita e usando um quimono surrado anda tranquilamente, porém sem rumo. Ele possui uma Katana, seu rosto esboça certo cansaço, mas não da caminhada, parece um cansaço pessoal e intimo acumulado dentro do seu ser. Ele olha para um poço e vai até lá.
Chegando ao poço, o misterioso viajante puxa a corda levemente trazendo o balde até em cima. Ele pega o balde e pega um punhado de água juntando as palmas de suas mãos, levando até a boca. O Homem olha no horizonte a sua frente e vê uma aldeia relativamente próxima. Ele baixa o balde até o fundo delicadamente, como se fosse feito de porcelana. Terminando ele passa a caminhar rumo a aldeia.
Ao entrar na aldeia, todos olham com desconfiança para o misterioso forasteiro. Ele mostra não se importar e mantem seu rosto sem expressão. Todas as mulheres fecham as casas a medida que ele passa. Todos temem o estranho. Então ele vê o armazém queimado, suas cinzas ainda voam. Ele fica de frente para o armazém, parado diante dele, preso em seus sombrios pensamentos quando de repente uma espada de bambu acerta a cabeça dele:
–O que quer? Pergunta Mashiko numa cômica posição de luta
O forasteiro encara Mashiko, olhando-o com estranheza. Kurenai que estava andando próximo intercede:
–Mashiko-San, não faça com que o forasteiro saia com mau relato de nossa aldeia.
–Ele pode ser um inimigo, um espião de Tsubaki-Oda! Diz Mashiko
–Por que Tsubaki mandaria espiões? O que temos a esconder? Pergunta Kurenai
–Mas...
–Você ouviu Yosohito-Sama, Nada de ataques. Diz Kurenai
Mashiko joga sua espada de bambu no chão e sai bufante dali. Kurenai olha para o forasteiro mal vestido e surrado pela poeira:
–Você tem fome ou sede? Pergunta ele-Tenho caminhado já faz alguns dias, gostaria de um lugar para pernoitar e tenho dinheiro para uma noite numa hospedaria. Diz o Forasteiro
–Não temos hospedarias aqui, mas minha casa está a sua disposição. Diz Kurenai
Kurenai guia o viajante até sua casa. Ao chegarem a porta, tiram as sandálias e entram:
–Minha esposa, temos um convidado! Exclama Kurenai
Natsumikan sai e vê o viajante. Ela logo vê a Katana portada pelo viajante. O forasteiro tenta esconder sua arma ao perceber o desconforto por ela causado.
–Esta é minha esposa, Natsumikan. E este é...Bem, você não me disse seu nome. Diz Kurenai
–Sou apenas um Ronin. Responde o viajante
–Bem, se prefere que o chamemos assim. Afirma Kurenai
Um silêncio toma conta do ambiente, silêncio quebrado por Kurenai:
–Natsumikan, pode voltar a suas atividades, senão acabaremos jantando fora do horário.
Natsumikan saúda o visitante baixando sua cabeça e volta a suas atividades.
–O que ouve com o armazém? Pergunta o Ronin
–Foi incendiado por Invasores. Relata Kurenai
–Isso explica o medo. Diz o Ronin
–Não entenda mal, é tradição sermos hospitaleiros. Mas o medo muda as coisas. Diz Kurenai
–E você, por que não está com medo? Pergunta o Ronin
–Por que sei o que eles queriam. E eles já levaram. Responde Kurenai
A feição de Kurenai muda, ele agora parece triste. Não explicitamente, mas nota-se um sentimento negativo em sua voz.
–Um homem de sua idade não muda de humor sem motivo. O que eles levaram? Pergunta o Ronin
–Levaram minha única filha. Diz Kurenai com uma voz trêmula
O Ronin volta a olhar para aldeia, sem responder Kurenai. Quando o ancião se prepara para sair do cômodo:
–Você vai desistir de sua filha? Pergunta o Ronin
–Não tenho nada a fazer. Ela deve estar dentro de uma grande fortaleza. Reponde Kurenai
A imagem de um guerreiro sombrio andando em meio a uma aldeia em chamas vem a cabeça do Ronin.
–Já fiz muitas coisas, agora torturar um velho ancião está além. Diz o Ronin
–Você... Fez?
O Ronin permanece calado, seu olhar para a aldeia torna difícil adivinhar seus pensamentos ou sentimentos. Mas Kurenai sabe que está diante de um homem com um grande peso nas costas. E sente que há algo em comum entre eles.
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