Anatomy
40 Capítulo 40
Notas iniciais
Recebi MPs, galera me cobrando e com razão. Espero que me perdoem de coração a demora e que aproveitem este capítulo.
Aqui finalmente descobrimos o que Collins fez a Brian que o magoou muito. Boa leitura.
- Você está melhor? – Zachary perguntou, mantendo o olhar colado à sua frente, sem se fixar em um objeto ou qualquer outra coisa. As órbitas verdes se mantinham vidradas em algo que parecia ser o “vazio”, não sabia ao certo para onde ou o que olhar, mas sabia que esse onde não era ao seu lado, e muito sabia que “o que”, não era aquele que estava sentado no banco de passageiro.
Conseguia sentir o olhar de Brian vidrado no chão. Sua respiração oscilava entre serena e pesada, tão pesada quanto um fardo que estava prestes a cair em suas costas, como uma cascata de más informações.
- Não. – o mais novo respondeu num murmúrio.
Zachary assentiu calmamente, pensando no que fazer e falar, já que suas perguntas se perdiam a cada instante que abria a boca, tentando pronunciar qualquer curiosidade. Manteve-se em silêncio por um bom tempo, medindo as palavras e pronunciando-as com a voz mais calma e inexpressível que arranjara. Não queria assustar Brian, muito menos demonstrar seu receio.
- Quer ir para minha casa? – perguntou por fim, suspirando levemente. Fechou a mão esquerda em um punho duro, enquanto alojava a outra em sua coxa, a abrindo e fechando.Eram gestos que demonstravam o quanto a tensão o atormentava. Não desejava ser grosso, mas também não queria ser um fraco que aceitaria qualquer tipo de mentira ou meia verdade.
Brian negou com um meneio torto.
Zachary suspirou derrotado, pensando em qualquer coisa que pudesse fazer o garoto se abrir, expressar pelo menos uma pequena comunicação. Pensando em algo que faria Brian se acalmar, confiar nele para qualquer tipo de noticia.
- Então... – começou a falar na tentativa desesperada de fazer o rapaz encará-lo. – Vou leva-lo a um lugar que sei que vai gostar. – em um suspiro longo e alto se virou para o lado, forçando um sorriso e aguardando qualquer tipo de reação.
- Onde? – o moreno pela primeira vez ergueu o olhar, mas desviou assim que se sentiu queimado pela postura esguia e fria de Zachary. Não tinha coragem nem mesmo de falar em um tom acima de um murmúrio, então não era agora que fitaria o outro. Mas, com a mesma melancolia exposta, continuou – Não vai voltar a dar aula? Olha, eu não quero te atrapalhar...
- Hey. – o mais velho o interrompeu, abrindo sua casca dura pela primeira vez. E se virando, Brian percebeu o quanto os globos esmeraldas estavam apagados, mais para uma cor cinzenta ou negra, algo que era impossível vindo de Zacky. As pálpebras deste se fecharam, desviando o assunto e se mantendo calado.
Longos minutos se passaram, até que Zachary decidiu continuar.
- Eu não vou sair daqui sem você. Eu vou ficar onde você estiver. Eu vou onde você for. Brian, você não se verá livre de mim, nem hoje e nem nunca. – aquelas palavras foram uma bomba para Brian, que sabia que o silêncio tinha sido muito mais confortável e produtivo para si mesmo. Ele começou a tremer, mas não sabia se era frio ou nervosismo. Não, com aquele sol em seus braços morenos, queimando-o a cada segundo, não poderia ser frio, a não ser que estivesse com uma febre devastadora. Mas a única febre que tinha era o segredo que escondera de seu professor... Do seu namorado.
- Mas...
- Você ainda não percebeu que só existo por você, para você?
Fitando o tapete velho, mas impecavelmente limpo, Brian esboçou um tênue sorriso. Aquilo, de alguma forma, o aliviou. Ainda não conseguia se virar, começar a falar, seu medo ainda não o permitia, mas o sorriso, e suas palavras, aquelas que criou forças para dizer, já era um meio caminho.
- Onde quer me levar?
Como resposta, Zachary somente colocou a chave na ignição e a girou, dando partida no carro.
Brian’s Pov
Assim que Zachary saiu do estacionamento da faculdade, eu já sabia para onde ele me levaria: a orla.
O rádio do carro estava e ficou desligado durante o caminho inteiro, deixando aquele silêncio intimidador. Aquele silêncio que pode ser bom, mas ao mesmo tempo agonizante.
Eu estava conturbado com tudo que estava me acontecendo, apenas querendo acordar do meu longo pesadelo que parecia nunca ter fim.
Será que teria fim?
Na verdade, eu tinha a sensação que o fim desse meu pesadelo só viria com a minha própria morte. Mas eu queria me agarrar à esperança. Na esperança que a vida estava me devendo, no pouco de alegria que eu sei que merecia. Esse pesadelo iria acabar me fazendo viver uma nova vida.
Uma nova vida boa.
Zachary mantinha seu olhar sobre mim, mas eu sequer conseguia retribuir. Estava nervoso demais e com medo, medo da sua rejeição, medo da sua reação, medo de perdê-lo por conta desse pesadelo que tanto me atormentava, que tanto me doía. Mas eu tinha de abrir meu coração a ele, antes que eu surtasse com o meu próprio pensamento, com os meus próprios sentimentos. Eu tinha de conversar com ele, e eu iria conversar com ele. Custasse ou não o fim da nossa relação.
- Antes de nós descermos... – toquei em seu braço assim que ele estacionou o carro, fazendo-o olhar para mim. — Você me ama? – minha voz saiu manhosa e trêmula. Eu odiava transparecer meu lado tão sensível. Mas naquele momento não era necessário manter uma máscara, mostrando um Brian sereno e tranqüilo, pois eu realmente não estava.
- Amo... E você sabe disso, Brian. – senti sua mão acariciar meu rosto e seu braço me envolver para um abraço, eu não hesitei e logo nossos corpos estavam unidos. Seu corpo como sempre irradiava calor. – Amo mais que tudo. — Minha cabeça pousou em seu ombro e meu rosto escondeu-se na curvatura de seu pescoço. – Independente do que aconteça ou o quê aconteceu, eu vou continuar te amando do mesmo jeito.
Aquelas palavras me acalmaram. Talvez Zachary estivesse blefando, dizendo aquilo da boca para fora apenas para arrancar de mim as devidas explicações em relação aquela fotografia, mas eu não me importei, não naquele momento.
- O que você viu naquela foto... Realmente aconteceu. – mordi o lábio, enquanto Zachary me encarava nos olhos. – Mas... Foi horrível, foi totalmente diferente do que eu já havia imaginado para a minha primeira transa, com meu primeiro namorado. – ri nervoso. – Tudo bem, eu sempre fantasiei sobre como seria minha primeira noite de amor... Coisa de menina adolescente, eu sei. – sequei uma lágrima que insistiu em escorrer de meu rosto. – Era o dia de folga do meu pai, minha mãe me chamou para sair com eles, mas eu recusei, eu tinha combinado de sair com Collins e Owen. Logo após meus pais saírem sozinhos, eu fui ao encontro de Collins, que alegara que Owen não poderia ir. Então ele me convidou para ir a sua casa, para decidirmos o que faríamos. Eu, tolo, aceitei e assim fomos para a sua casa. Éramos namorados, eu tinha plena confiança nele... E-Eu o amava. – era impossível tentar evitar o choro, Zachary mantinha uma expressão séria, mas segurava minhas mãos, me encorajando a desabafar. – Ele me ofereceu uma bebida assim que chegamos e eu aceitei, eu era um adolescente bobo, gostava de beber qualquer aberração alcoólica que me ofereciam, gostava da sensação que o álcool me trazia. – Zachary passara a acariciar a maçã de meu rosto com o polegar. – Ele me conduziu até seu quarto e me entregou o copo com a bebida, mas eu nem me importei com o conteúdo, ingeri tudo de uma vez, Collins riu e disse para eu ir com calma. Mas logo fui surpreendido pelo efeito daquela bebida, não era nada semelhante com aquele efeito que eu estava acostumado e até gostava. Eu fiquei zonzo, minhas pernas ficaram bambas e eu já não tinha domínio nenhum de meu corpo. A expressão de Collins mudara, ele parecia tenso e dizia que eu não devia ter bebido tão rápido. – me calei e fechei meus olhos por alguns instantes, me lembrando daquele momento. – Ele me conduziu até sua cama e começara a dizer repetitivamente que me amava. Logo eu podia sentir sua mão acariciando meu corpo inteiro, sobretudo minhas partes intimas. Eu tentava pedir pra ele parar, mas minha voz não saia, apenas grunhidos saiam de minha boca e ele logo tratou de me calar com um pedaço de pano. Eu fiquei assustado, pois nós já tínhamos conversado sobre ter uma relação sexual e ele disse que sempre esperaria pelo dia que eu estivesse pronto a finalmente transar com ele, mas parecia que ele não se lembrava mais da nossa conversa...
- Oh meu Deus! – ouvi Zachary exclamar, já prevendo a continuação.
- E-Ele me virou de costas e tirou minha calça; não havia gentileza, muito menos pena. Sem pudor algum já estava esfregando seu membro rígido em mim. – mais lágrimas escorriam e eu pude ver que Zachary queria chorar também, mas fazia de tudo para evitar isso. – Ele afastou minhas pernas, disse mais uma vez que me amava e penetrou... De uma vez. Nenhuma lubrificação, sequer um mero preparo. Aquilo me machucou, machucou muito. E eu não conseguia lutar para evitar, eu não conseguia dominar meu próprio corpo, eu sequer conseguia mover um dedo. Aquela bebida havia me paralisado por completo. Eu não movia meu corpo, mas eu sentia. Sentia cada centímetro do meu corpo doer e ele investia mais e mais em mim, cada vez mais forte, cada vez me machucando mais e mais. Era possível sentir o sangue escorrendo pelas minhas pernas. – encostei minha cabeça no banco.
- Brian... – Zacky sussurrou.
- Ele continuava dizendo que me amava, até durante o ato. – continuei. – Em uma tentativa quase impossível eu consegui virar meu rosto e pude notar que tinha alguém na porta, assistindo aquela cena, mas minha visão estava muito embaçada para eu distinguir quem era. Meu corpo inteiro continuava a doer, e eu queria me acostumar com aquela dor, pois eu sabia que aquilo ia acabar e então eu orei. Fechei meus olhos e orei, pedi que aquilo acabasse logo, pedi que aquela dor acabasse e então Collins penetrou mais uma vez e mais forte, a dor foi tanta que eu desmaiei.
Zachary engolia seco e me encarava sem reação. Eu acabei soltando um riso fraco, sem vontade.
- Eu não sei quantas horas demorou para que eu acordasse. Só sei que quando despertei, eu ainda estava de bruços, nu, sujo de sangue seco e esperma e com muita dor. Então eu comecei a chorar, chorar muito, desesperadamente. – mordi meu lábio. – Eu sentia nojo de mim mesmo, me sentia sujo, invadido, humilhado. Eu custava a acreditar no que tinha acontecido comigo.
- Por Deus, Brian. O que esse filho da puta fez com você? Por que, Bri? – Zachary me abraçou desajeitadamente em seguida, e então eu me entreguei de vez ao choro. – Aquele desgraçado te dopou para transar com você, aquele desgraçado teve coragem de te estuprar.
Mordi o lábio mais uma vez e me desvencilhei do abraço, passando minha mão pelo meu cabelo, numa tentativa frustrada de amenizar minhas más lembranças.
- Ele me machucou muito. E-Eu... Foi horrível, Zacky, foi horrível. Eu só... Eu preciso esquecer-me disso, Zachary. E-Eu o odeio por ter me feito sofrer, por ter me machucado. Eu quero esquecer isso, Zacky. EU PRECISO! – as palavras saiam de minha boca num tom desesperado, eu gaguejava e soluçava enquanto minhas mãos tremiam. – Eu não queria que acontecesse daquele jeito. Eu não queria que ele me forçasse...
- Calma Brian, calma. – Zachary me abraçou, e me manteve firme em seus braços durante um longo tempo. Sua mão acariciava-me no cabelo, na tentativa de me acalmar. – Já passou. Está tudo bem agora.
- Sabe Zachary, depois de muito esforço eu me vesti e procurei ir embora de lá o mais breve possível mesmo com ele não estando mais lá. Sentei numa calçada próxima e liguei para o meu pai para que ele me buscasse. Eu estava disposto a contar tudo o que tinha acontecido para minha mãe, já que meu pai não interpretaria aquilo corretamente. Depois da quarta tentativa de ligar para meu pai, outra pessoa atendeu e quando eu achava que minha vida não poderia piorar, essa pessoa contou que o carro dos meus pais tinha sido alvejado e minha mãe havia sido baleada. – peguei nas mãos de Zachary e entrelacei nossos dedos. – Eu com toda dor física e psicológica que estava sentindo, procurei chegar o mais rápido possível ao hospital, não me importando mais com as minhas próprias dores. Minha visão por vezes ficava turva, mas eu caminhava, me escorando em muros e postes. Nenhum táxi passava, assim como nenhuma viatura da polícia.
Foi o trajeto mais difícil que eu pude encarar, mas o pior foi saber mais tarde, que ele aquele trajeto me traria um dos piores momentos da minha vida.
Flashback
O relógio marcava 21h45min. O hospital estava vazio, a não ser por um casal entristecido que se apoiava em uma das muitas paredes brancas. A mulher continha o soluço enquanto abraçava o namorado, que fechava os olhos com o sofrimento de sua tão visível amada. Era audível o comentário seguido “Ele ficará bem, nosso pequeno ficará bem”. Com tais palavras, ele selou os lábios finos e pálidos nos tão avermelhados da mulher.
Ao desviar a atenção, deparei-me com uns colegas de profissão do meu pai. E assim que eles me reconheceram, vieram até mim.
- Brian, venha conosco. – o policial moreno, de cabelos longos e levemente repicados, me encarava seriamente. Não havia engano algum naquela aparência séria e rígida, devia ser Alexander, o tal policial que frequentava as ruas mais por diversão do que por oficio.
- Meus pais estão bem?
- Seu pai está em observação...
- E minha mãe?
Alexander nada respondeu, apenas me conduziu entre os corredores daquele hospital, acenando para alguns enfermeiros que cruzaram por nós pelos corredores.
- Mãe...
- Brian... – ela disse fraca. – Que bom te ver, filho. Dói tanto...
- Não fala nada, mãe.
- Eu estou morrendo...
- Não, você não está. – eu disse entre lágrimas. – A senhora vai ficar bem.
Ela sorriu enquanto tateava a maca, procurando minha mão, entrelaçando nossos dedos.
- Eu poderia me entregar pra essa dor, mas eu sabia que você apareceria antes... O médico demorou pra me atender e eu estou me sentindo cada vez mais fraca.
Eu me entreguei ao choro, caindo de joelhos ao seu lado.
- Não chore, Brian...
- Mãe...
- Prometa pra mim que cuidará do seu pai e que você será um adulto feliz e que viverá cada segundo de sua vida intensamente, assim como eu vivi. Prometa que você se formará como médico e cuidará das pessoas como sempre planejou desde criança.
- Mãe...
- Me prometa, Brian. – lágrimas brotaram de seus olhos.
- Eu... Prometo.
Ela sorriu em meio as lágrimas.
- Eu te amo, meu filho. Seja feliz. – ela largou minha mão e fechou seus olhos.
Minha mãe acabara de morrer
/Flashback
- Então tudo aconteceu de uma vez, minha mãe morreu na minha frente no mesmo dia em que fui estuprado. Perdoe-me por não contar isso antes, Zee... Isso é tão difícil pra mim.
- Eu imagino, Bri. – ele acariciou meu rosto. – Eu sinto muito.
- Às vezes eu sinto como se eu fosse o culpado disso tudo. – eu disse baixo. – Você não sabe quantas noites eu passei em claro, com nojo de mim mesmo.
- Você não teve culpa de nada. Principalmente pelo fato de ter sido... Você sabe.
- Não foi o que meu pai achou quando viu essa foto.
- Seu pai chegou a ver essa foto? Quando?
- Dias depois que aconteceu. Foi então que ele descobriu que eu era gay. E ele passou a me odiar a partir de então.
- Ele não te odeia Brian, nenhum pai odeia seu filho.
- Sim Zee, ele me odeia. Não importe quanto tempo passe. – suspirei. – Quando ele viu aquela foto, ele me bateu, disse coisas horríveis, como que jamais aceitaria um filho gay e que eu era uma aberração para a sociedade. Por fim, ele disse que me declarava morto junto com minha mãe. Mas antes, alegou que eu era uma vergonha para a minha família, principalmente por isso ter sido revelado poucos dias depois da morte de minha mãe.
Zachary me encarou triste, deslizando sua mão pelo meu rosto.
- Eu realmente sinto muito.
- Eu guardo muita mágoa do meu pai, mas eu o perdoei. Dos tapas, dos xingamentos. Eu não queria que nada fosse daquele jeito, mas é isso. A minha vida virou de pernas pro ar desde o dia que Collins fez tudo isso comigo. Eu me tornei uma pessoa sozinha, triste, desamparada e desiludida. – mordei meu lábio. — Você não sabe o quanto eu agradeço aos céus todos os dias por você ter surgido na minha vida, por amenizar tudo de ruim que aconteceu comigo.
Zachary sorriu fraco, secando minhas últimas lágrimas.
- A partir de então, eu tive medo de me envolver com outro alguém. Tinha medo de que tudo poderia acontecer de novo e que me machucassem mais de novo. Mas você... – eu sorri fraco. — Eu conseguia ver no seu olhar que se nós ficássemos juntos, você me trataria bem. Você se importaria comigo. E foi exatamente assim que aconteceu. Eu me sinto bem com você, e embora essas más lembranças me atormentem, eu tento amenizá-las, porque eu tenho você pra me dar e deixar boas lembranças...
- Vem. – murmurou, descendo do automóvel em seguida e então eu o segui. Ele encostou-se no carro e abriu os braços para mim, eu fui ao seu encontro podendo sentir seus braços me acolherem. — Saiba que eu também agradeço todos os dias por ter um anjo como você do meu lado. E eu vou te ajudar a apagar de vez essas más lembranças.
Brian’s Pov Off
Joseph’s Pov
- Atende logo, John... – murmurei contra o aparelho, enquanto guiava meu carro rumo à casa de John.
- Fala J.J. – sua voz rouca usual, atendeu e eu suspirei levemente em alívio.
- Collins agiu de novo.
- Mas que inferno! O que ele fez agora?
— Enviou à todos os colegas da sala da faculdade uma foto um tanto... Íntima dele e de Brian, juntos.
- E por que diabos ele faria isso? – seu tom de voz demonstrou surpresa.
- Sinceramente? Eu não sei. Estou indo para a sua casa, quero te mostrar pessoalmente.
- Ok, então irei aguardar.
- Brian foi claramente humilhado. Como uma pessoa que alega amar alguém, humilha a pessoa amada desta forma? Isso não faz um pingo de sentido. – eu disse enquanto descia de meu carro, acenando para um dos vigias de John que sorriu em cumprimento. – Bom, abra a porta, já estou chegando.
- As portas estão abertas pra você, pequeno. Só entrar.
Sorri fraco comigo mesmo e desliguei o aparelho, subindo a escadaria do prédio abandonado, acenando para outros vigias de John que acenavam de volta, liberando minha passagem.
A porta do “escritório” de John estava realmente aberta, e eu, sem pestanejar, adentrei.
- Oi. – sorri de canto, assim que me deparei com John sentado em sua poltrona e com os pés apoiados na mesa.
- Hey. – ele retribuiu o sorriso e indicou com a cabeça para que eu me sentasse. – Vamos logo ao assunto, me mostre a foto e me conte tudo o que você sabe.
Entreguei meu celular a ele e me acomodei na cadeira a sua frente.
- Hoje eu estava chegando na sala de aula e me deparei com Brian saindo correndo da mesma, ele parecia estar chorando e eu sem entender questionei Ashley sobre o que tinha acontecido com ele...
- Ashley?
- É... – desviei o olhar. — Uma amiga de Brian.
- Hm... Continue.
- Ela perguntou se eu não tinha recebido um e-mail anônimo com uma foto. No caso, essa foto. – me referi a fotografia que estava em meu celular. – Ela me mostrou e logo pude reconhecer Brian, e em seguida reconheci Collins. Pelo que pude perceber, não só eu e Ashley que recebemos o e-mail, mas sim todos os alunos da nossa sala receberam.
- Você disse que reconheceu Collins na fotografia. Como? Você nunca o viu... – John arqueou uma sobrancelha, sentando-se corretamente em sua poltrona.
- Você me mostrou uma foto dele no dia em que ordenou que eu me aproximasse de Brian, você me mostrou uma fotografia de Brian e Collins juntos. Não só o rosto de Brian ficou gravado na minha memória, mas o rosto de Collins também. – sorri fraco.
John encarou a foto em meu celular mais uma vez e concordou, voltando a me olhar.
- Por que Collins faria isso? – John perguntou mais para si do que para mim. – Isso não me parece obra dele. Primeiro, como ele teria o e-mail de todos os alunos de sala de Brian? Além do mais essa fotografia... – ele devolveu meu celular. -... Ela é antiga. Época onde Collins era um dos nossos. Preciso que um dos meus homens descubra de onde vem esse e-mail. – fez menção de se levantar.
O encarei pasmo e arqueei uma sobrancelha.
- O quê? Um dos nossos? Ele foi um dos nossos?
- Sim. – ele respondeu óbvio, após me encarar rapidamente. – Ok, você não sabia.
- Ele estava com Brian na mesma época que estava na gangue?
- Exatamente. Ele era um adolescente querendo se firmar na sociedade, um completo idiota. E eu o aceitei na gangue, pois ele parecia ter potencial no tráfico.
Eu o encarava ainda com uma sobrancelha arqueada.
- Mas vejamos como o mundo da voltas. – sorriu forçadamente. — Agora ele é um concorrente. Além de um completo traíra, e é por isso eu o procuro de todas as formas. Você sabe o que fazemos com traidores, certo?
- É, já ouvi falar de muitas execuções.
John concordou com a cabeça, sorrindo sádico.
- Não vejo a hora de estar frente a frente com ele, com uma arma apontada na cabeça dele, enquanto ele implora pela vida.
Eu ri forçadamente, tentando disfarçar o meu receio em relação a sua reação.
- E quando que ele se tornou um “concorrente”? – perguntei em seguida.
- Lembra quando aquele amigo de Brian, Owen, se não me engano, nos disse que a ultima vez que viu Collins havia sido há cinco anos?
Concordei.
- Foi nessa época. – ele continuou. — Há cinco anos atrás.
- Justamente na época que Peter foi preso?
John suspirou, desviando o olhar.
- Sim. Foi uma época muito conturbada que eu não quero mais falar sobre. – ele se levantou, acendendo um cigarro em seguida.
- Como quiser, chefe! – sorri fraco, me levantando também. – Vou indo nessa.
- Joseph... – ele chamou pelo meu nome assim que dei as costas. Surpreso por ele não ter me chamado pelo costumeiro apelido, me virei para ele.
- Sim?
Ele se aproximou e selou nossos lábios rapidamente.
- Obrigado por sempre ser tão fiel e estar ao meu lado. – disse me encarando nos olhos.
Eu apenas sorri sem jeito e me retirei. Eu continuava confuso em relação aos meus sentimentos e a partir de então tinha certo receio em relação a John, já que ele poderia associar nossa relação a fidelidade em relação a nossa “gangue”.
Assim que adentrei em meu carro, passei a pensar na conversa tida com ele em relação a Collins. Eu não sabia se era mero delírio meu, mas algumas coisas começaram a se encaixar e eu estava começando a ficar com medo do rumo que tudo estava correndo.
Joseph’s Pov Off
Zachary’s Pov
Após passarmos o fim da manhã e o começo da tarde na orla, resolvemos ir para minha casa.
Brian parecia melhor, sorria mais, conseguia a partir de então me olhar nos olhos. Eu diria que ele parecia mais leve.
O caminho para a minha casa fora extremamente silencioso. Minhas mãos seguravam firme o volante, embora eu procurasse não transparecer, minha cabeça trabalhava constantemente numa tentativa quase nula de digerir tudo o que Brian havia me contado.
Eu imaginava o quão doloroso devia ter sido aquele momento de sua vida. A morte da mãe dele e o estupro. Aquele bastardo não havia o dopado completamente. Brian estava acordado quando tudo aconteceu, sentindo dor, precisando de ajuda.
Minha vontade era de ir ao encontro de Collins, para socá-lo de forma que ele se arrependesse de ter feito Brian sofrer tanto, e ainda ser capaz de fotografar um momento daqueles e divulgar.
Divulgou para o pai de Brian naquela época e divulgou alguns anos depois. Será que era para me afetar? Já que era provável que ele sabia que eu estava com Brian? Ou seria para afetar o próprio Brian?
Eu só sabia que Matthew Collins era um psicopata que pagaria por tudo.
E então eu me questionava: Como alguém podia ser tão sangue frio a ponto de fazer isso? Além do mais, com Brian.
Logo Brian, o meu Brian.
Senti-me mal por ter julgado meu namorado, antes de saber o que realmente tinha acontecido. Senti-me mal por imaginar coisas absurdas.
E a partir de então, eu passei a enxergar todo o sofrimento que os olhos tristes de Brian carregavam, por todo aquele tempo, desde que nos conhecemos.
- Por que você não o denunciou? – finalmente eu havia resolvido me pronunciar. – O que ele fez contra você foi grave.
- Quem acreditaria em mim, Zachary? – riu com escárnio. – Collins era meu namorado. Como eu provaria que o quê ele fez foi contra a minha vontade?
- Mas ele tirou uma foto disso. E ainda denegriu sua imagem.
Brian nada respondeu, apenas balançou a cabeça.
- Medo, insegurança, tristeza. – disse por fim.
- E se você o denunciasse agora?
- Depois de tantos anos? Acha que adiantaria?
- Não custa tentar...
-E-Eu não sei. – suspirou.
Soltei minha mão direita da direção e pousei em cima da sua, entrelaçando meus dedos nos seus.
- Collins vai pagar por isso, eu prometo. – minha voz saiu firme, tomado de sinceridade e revolta.
Brian sorriu fraco e me encarou mais uma vez.
- Não suje suas mãos...
- Eu vou procurar meios legais. – o interrompi. – Mas caso não funcione, ele vai pagar de modo que se arrependerá de ter surgido na sua vida. Eu juro, Brian.
Diversos modos de me vingar de Matthew Collins me vinham em mente, fosse do modo mais “legal” como processá-lo, ou pagar alguém para simplesmente matá-lo e acabar de vez com todo o mal que nos cercava. Eu não sabia exatamente o que eu faria, mas o que ele havia feito comigo não importava mais, eu apenas queria vingar cada minuto que Brian sofreu na mão dele.
- Obrigado por me ouvir e por acreditar em mim. Eu achei que nunca teria esse tipo de apoio. – a voz de Brian tirou-me de meus devaneios.
- Eu sou seu namorado e minha obrigação é te proteger. De tudo. – sorri sincero enquanto parava o carro em frente a minha casa. – Agora vamos entrar, vou preparar algo para comermos. Temos uma guerra pra enfrentar.
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