Anatomy
38 Capítulo 38
Notas iniciais
Brian’s Pov
Filmes natalinos que envolviam senhores bondosos, vestidos de vermelho, com barbas longas, carregando um saco lotado de brinquedos no ombro, tiravam toda a diversão do meu dia sagrado... De puro tédio. Sendo assim, bocejei pela enésima vez, jogando o controle remoto para o lado, após desligar a televisão.
Para ajudar, o tempo estava mais nublado que nunca.
As folhas que caiam das árvores insistiam em grudar na janela, que rugia com o tilintar dos galhos espessos.
Meus passos lentos e arrastados dirigiram-me até o banheiro, enquanto eu retirava preguiçosamente e desanimadamente cada peça de roupa minha.
Zachary havia me ligado insistentemente nos últimos dias, na tentativa de convencer-me a passar o natal em sua casa. Extremamente contrariado, aceitei seu convite, embora meu desejo de ficar só, fumar alguns cigarros e adormecer como se aquela noite fosse como qualquer outra aflorava.
Não era nada contra Zachary, até porque estar ao lado dele sendo na maioria das vezes em sua casa me fazia bem, mas datas comemorativas realmente me deixavam mal. E eu percebia que nem tentando recomeçar a minha vida com ele, eu conseguiria me animar nessas datas. Eu não sentia mais aquela alegria, que era comum sentir quando eu tinha por volta dos 16 anos. Porque eu sabia que nada mais seria igual, minha mãe nunca mais estaria ali, meu pai não me abraçaria mais e sequer sorriria com ternura ao me entregar um presente, minha cachorrinha nunca mais pularia no meu colo, pedindo por um petisco enquanto se iniciava a ceia.
Enquanto a água escorria pelo meu corpo, eu fechava meus olhos e lembrava-me de vários momentos do meu passado e inevitavelmente Matthew Collins surgiu em minha memória mais uma vez, para me assombrar. Meus punhos se fecharam e um soco fora desferido na parede, graças a mágoa que vivia alojada em meu peito.
Numa tentativa de amenizar novamente os flashes que minha mente fazia questão de me mandar, eu balancei a cabeça negativamente e me retirei do box, secando-me com uma toalha branca desde um fio de cabelo até meus pés. Passando a me vestir com o mesmo desânimo que tinha retirado meu pijama há instantes atrás.
Meu pai não havia dado sinais de que apareceria em casa, então após eu dar uma averiguada na janela e ver que apenas garoava, eu decidi sair de casa para evitar qualquer desagradável encontro com ele.
Vesti um blazer cinza por cima da camisa preta, pegando meus pertences em seguidas e finalmente me retirei. Pousando minhas mãos no bolso do blazer e caminhando calmamente pelas ruas, admirando as decorações que todas as casas – exceto a minha – exibiam naquela época.
Zachary não gostava da idéia de eu andar sozinho pelas ruas e seria de praxe pedir um taxi ou até pedir que ele me buscasse. Mas eu precisava de um momento só meu, eu precisava me distrair nos meus próprios pensamentos enquanto meus olhos rondavam pelas luzes que piscavam alegremente e minhas pernas me levavam num rumo já tão conhecido.
Eu precisava ver algumas crianças correndo e sorrindo, famílias inteiras se abraçando, enquanto diversos tipos de músicas soavam em cada casa. Eu precisava que minha mente me fizesse recordar que eu também já havia vivido tudo aquilo como todas aquelas famílias estavam vivendo. Eu precisava ver e perceber que nada durava para sempre e que era necessário viver intensamente cada ocasião, independemente de quem esteja nela.
Eu já havia passado com meus pais, com Owen e agora seria com Zachary.
E eu não tinha que me lamentar por querer ficar sozinho, eu tinha que rir, viver e aproveitar aquele momento.
Sorri largamente e apressei meus passos, não tardando para estar na frente de sua casa, tocando rapidamente a campainha.
- Olá. – sorri para Zachary assim que o mesmo abriu a porta para mim.
- Hey. – retribuiu o sorriso, cedendo espaço para que eu entrasse. – Pensei que tinha desistido de vir, já que é quase meia-noite e você não deu sinal.
- E te deixar sozinho? Não. – selei nossos lábios enquanto passava a encarar a mesa de jantar devidamente arrumada juntamente com decoração de natal. – Você fez tudo isso?
- Você se refere às comidas ou a decoração?
- Os dois.
- Sim, fiz. – sorriu, gabando-se. – Nossa primeira noite de natal juntos merece uma dedicação a mais, não acha?
- Você anda muito dedicado a decoração... – comentei risonho.
- Acho que é a convivência com você. – riu enquanto eu fingia estar ofendido. – Bom, vamos comer!
- Não vai esperar dar meia noite?
- Faltam poucos minutos, acho que não faria muita diferença. – afastou uma cadeira e indicou para que eu me sentasse. Retirei meu casaco e deixei em cima do sofá, me dirigindo até a cadeira e me sentando enquanto acenava para ele.
Zachary foi para a cozinha e em instantes retornou com mais uma travessa recém tirada do forno, sentando em minha frente logo em seguida.
- Virá mais alguém? – perguntei antes de começarmos a nos servir.
- Não. Por quê?
- Tem muita coisa. – comentei baixo, arrancando risadas de sua parte. – E está tudo com uma aparência tão boa. Eu sabia que você cozinhava bem, mas não sabia que tinha jeito para preparar jantares tão requintados.
- Eu tinha o costume de ajudar Kathleen a preparar jantares para recepcionar os amigos em casa, mas com o passar do tempo e todos os acontecimentos que se sucederam, perdi esse costume... Até por que, cozinhar para quem? – sorriu fraco. — Então, hoje eu acordei inspirado para reviver e fazer tudo isso pra você.
Sorri.
- Só sei que já estamos meses juntos e eu ainda não experimentei nada que você tenha preparado. – comentou em seguida.
- Para ser humilhado? – acabei rindo após degustar o vinho que ele havia acabado de servir. – Você cozinha maravilhosamente bem, o máximo que conseguiria fazer seria uma gororoba.
Dessa vez foi Zachary que riu.
- Duvido.
- É sério!
Entreolhamos-nos enquanto ainda ríamos, passando a degustar todos os pratos que ele havia feito para aquela ocasião.
- O que você costumava fazer na noite de natal? – perguntei em meio ao nosso jantar.
- A mesma coisa que estou fazendo com você. – riu pelo nariz.
- Só você e Kathleen? – bebi mais um pouco de vinho.
- Junto com Charles e Alicia. – disse sem muita emoção.
- Você sente falta?
- Um pouco... Mas o mundo deu voltas e é ótimo estar com você hoje. – mordeu o lábio e finalmente me encarou.
Eu sorri para ele e voltei minha atenção para a taça de vinho.
- E você? – perguntou.
- Eu costumava ficar com meus pais, mas depois que minha mãe morreu, eu passava o natal sozinho ou com Owen, quando ele não viajava com os pais.
- E seu pai?
- Ele saia na véspera e não voltava antes do dia 26.
Senti sua mão pousar em cima da minha e seu olhar pousar sobre o meu.
- Não precisa sentir pena. – ri baixo. – Antes estar só do que estar com alguém bêbado ao seu lado, te dizendo coisas horríveis numa noite que dizem que é para celebrar.
Zachary concordou com a cabeça e assim voltamos nossa atenção para a mesa farta até demais para apenas nós dois.
Passamos então a conversar sobre outros assuntos, como a chuva que passara a cair lá fora, ou os excessivos enfeites de uma casa próxima a dele.
- Hora dos presentes! – sorriu assim que terminamos de retirar a mesa da ceia.
- Zee... Eu... – mordi meu lábio. Eu não havia sequer ido atrás de qualquer coisa para presenteá-lo. Fui egoísta, mas não havia sido intencional. Eu havia relutado tanto para passar uma simples data com ele, pensado em tantas desculpas para evitar sorrir naquele dia, que eu sequer pensei em comprar ao menos um bombom para ele. E naquele momento, encarando seus olhos que brilhavam mais que o normal, eu me sentia mal por isso.
— O que foi? – perguntou, acariciando meu rosto.
- Eu não trouxe nada pra você. – suspirei, esperando qualquer reação negativa.
- Brian... – ele segurou em minha mão sorrindo. – Você já é o meu presente.
- Não fale assim. – sorri sem graça. — Eu poderia ao menos comprar qualquer coisa, eu...
- Você já me presenteou demais. Agora para de se martirizar e sente-se para receber o meu presente.
- Tudo bem. – fiz o que ele pediu. Sentei-me próximo a árvore que ele havia montado na sala.
- A melhor parte chegou! Se bem que eu estou um pouco nervoso pra esse momento.
- Por quê? – questionei sem entender. – Pode ter certeza de que qualquer coisa que você me der, certamente irá me agradar.
- Estou nervoso, pois o presente que eu vou lhe dar é pequenino, mas representa um valor imenso. – Zachary agachou-se em minha frente após pegar do bolso de trás da calça uma pequena caixinha de cor azul. – O que tivemos esse ano foi tão intenso e tão... Bom. Mas até então, eu nunca soube definir o que realmente temos, mas eu sei o que sentimos. E eu sei que o amor que eu sinto por você é recíproco. Então eu percebi que eu não suporto a idéia de te ter longe dos meus braços, seja por qualquer motivo. E eu não ligo para o que possam pensar por você ser homem, por nós dois sermos homens. Nós nos amamos e é por isso que eu quero te dar essa aliança... Namora comigo, Brian?
Minha voz falhou, mas meu sorriso se alargou. E eu me levantei e o abracei.
- Isso é um sim? – perguntou baixo em meio a risadas.
- Sim. – sorri enquanto sentia-o colocar a aliança no meu dedo anular em minha mão direita. Fiz o mesmo com ele e por fim nos beijamos.
Agora éramos namorados.
Eu estava oficialmente namorando meu professor de anatomia.
- Obrigado por proporcionar o melhor natal da minha vida. – disse contra os seus lábios assim que pausamos nosso beijo, numa tentativa de recuperar o ar que começara a nos faltar.
- Obrigado por me trazer de volta a vida. – sussurrou, voltando a me beijar com volúpia.
Brian’s Pov Off
Joseph’s Pov
Meus olhos fixaram-se sobre a mensagem que eu havia acabado de receber no pequeno aparelho de celular enquanto meu corpo tentava em vão acomodar-se no sofá pequeno e desconfortável de minha sala. As poucas palavras escritas ali faziam minha mente embaraçar-se mais do que já estava embaraçada.
“Você não sabe o quanto eu gostaria de ter aqui. Eu sinto sua falta.”
Aquelas palavras eram de Ashley, que segundo Brian, viajara com a família para Londres e voltaria somente quando iniciassem as aulas.
Eu não sabia se eu deveria respondê-la, ou se deveria ignorá-la como tinha feito com ela desde o dia em que ela tentou me beijar quando estávamos na casa de Zachary.
Mas se eu resolvesse a responder... O que eu responderia? Que eu também sentia falta dela? Que eu também gostaria de estar ao lado dela? Eu sequer sabia responder a mim mesmo, como poderia respondê-la então?
Eu estava enlouquecendo e tinha consciência disso.
Ouvi alguém bater em minha porta e eu por um momento pensei em fingir que não havia ninguém. Era véspera de natal e eu odiava datas comemorativas e nunca escondi minha preferência pela solidão nessas épocas. Mas ao perceber que a pessoa não desistiria de bater tão cedo, decidi levantar-me, jogar o celular em cima da mesa — ignorando a mensagem de Ashley-, e abrir a porta.
- Pra nós não passarmos o natal sozinhos, resolvi vir aqui te fazer companhia. – fui surpreendido por John encostado em minha porta com um sorriso meigo nos lábios.
- E eu achando que você, assim como eu gostasse da solidão. – comentei dando espaço para ele entrar enquanto reparava em dois embrulhos que ele carregava.
- E eu até gosto, mas natal é natal. – deixou os embrulhos em cima da mesa e veio em minha direção, selando nossos lábios rapidamente. É, eu tinha de me acostumar com a idéia que eu e John tínhamos um relacionamento indefinido. – Trouxe bebidas e um presente pra você. Espero que esteja fazendo o peru.
- Peru? Eu estava pensando em fazer um miojo e só pra mim. – ri. – E um presente? Pra mim? Ah, John, o que é que te deu? Presenteando-me assim a custo de nada.
- Clima natalino. – sorriu presunçoso, sentando-se no sofá. – E tudo bem, eu me contento com um miojo.
John estava muito eufórico. Certamente tinha usado alguma substância antes de vir para minha casa. Mas até que era bom vê-lo animado e tagarelando.
- Ah sim... Infelizmente não comprei nada pra você. – mordi meu lábio enquanto ia até a cozinha e procurava por copos limpos para nós.
- Mas você sabe como presentear. – fui surpreendido com John me abraçando por trás e mordiscando minha orelha. – Mais do que ninguém.
Beijou-me da nuca ao pescoço e virou-me de frente pra ele, fazendo com que meu corpo ficasse prensado entre ele e a pia. Iniciando um beijo forte, regado de vontade e luxúria.
Logo estávamos em meu quarto, fazendo aquilo que nos unia: sexo.
Joseph’s Pov Off
Charles’s Pov
O gosto amargo do uísque queimava minha garganta enquanto descia lentamente. Meus olhos estavam fixos na lareira recém acesa, e Mozart soava pelos quatro cantos de meu apartamento.
Os sentimentos de raiva e de solidão davam espaço para que uma alegria inexistente, um prazer desconhecido.
Eu que sempre procurei passar datas festivas com as pessoas queridas, estava ali sozinho, com um copo de bebida em mãos, enquanto lembrava-me de fatos do passado que eu até então não fazia tanta questão de relembrar.
Flashback
- Zacky? – o chamei enquanto ele parecia distraído lendo um gibi.
- Hm. – murmurou.
- Nós vamos ser amigos pra sempre, né?! – perguntei. Eu estava cabisbaixo ao lembrar que já se faziam quatro anos desde que meus pais tinham se separado. E principalmente ao reparar no péssimo clima que ficava toda vez que eles se cruzavam, quando um me levava de volta para a casa do outro, sendo que antes da separação eles sempre trocavam juras de amor falando que viveriam juntos para sempre.
Eu tinha medo do ‘para sempre’ não existir.
Em qualquer circunstância e ocasião.
Eu tinha medo da minha amizade com Zachary (que na época já durava três anos) acabar assim como o casamento de meus pais.
- Sim. – ele sorriu, sem entender o porquê de eu perguntar aquilo subitamente.
- E ninguém, sequer uma namorada irá nos separar.
- Nunca.
Sorrimos.
/Flashback
- Charles?
Abri meus olhos lentamente e me deparei com Matthew parado ao meu lado e me olhando com aquele azul intenso que eram seus olhos.
- Olá Matthew. – minha voz saiu mais grave que o normal.
- Feliz natal! – sorriu forçado. – Já passou da meia noite caso não percebeu.
Olhei para o relógio desinteressado e voltei a olhá-lo.
- Hm. – murmurei, bebendo o resto do líquido que continha em meu copo.
- Eu gostaria de conversar com você.
- Sobre?
- Posso? – apontou para a poltrona a minha frente.
Acenei com a cabeça enquanto pegava o controle do aparelho de som e pausava a música que ainda soava pelo recinto.
- O que devo a honra de sua visita? – perguntei com um pouco de humor assim que o ambiente se silenciou.
- Você me parece triste... – comentou, me encarando nos olhos.
- Você não veio aqui para falar sobre minha aparente tristeza. – forcei um sorriso.
- Não mesmo. – riu fraco. – Eu precisava conversar com você... E só você será capaz de me ajudar.
Arqueei uma sobrancelha, indicando com a cabeça para que ele continuasse.
- Eu não sei o que você achará de mim depois que eu contar certas coisas... Mas você como um bom advogado que é, não pode virar as costas para seu cliente.
Suspirei alto.
- Então essa nossa conversa é extremamente profissional? O que você fez?
Dessa vez foi Matthew quem suspirou alto.
- Você já deve ter se perguntado sobre quem eu sou, sobre aonde eu vou quando não estou aqui com você, ou o que faço pra sobreviver.
- Sim. – respondi rouco. – Mas nunca te questionei sobre...
- E se eu te falar que sou traficante e comando a segunda maior quadrilha de tráfico de drogas da Califórnia, que todo dia tenta desbancar a maior e mais investigada, que era comandada por Peter Saller?
Eu o encarei surpreso por alguns segundos e por fim suavizei minha expressão.
Não era de se estranhar que Matthew fosse um criminoso. Eu já havia me questionado diversas vezes sobre ele, e em todas as minhas suposições, Matthew estava envolvido em algo ilegal.
- Ele foi preso há alguns anos, não? – questionei após minutos em silêncio.
- Sim e atualmente a quadrilha é comandada por John, seu braço direito e suposto amante. E embora todos acreditassem que essa quadrilha havia se desequilibrado com a prisão de Peter, John conseguiu administrar tudo e as autoridades perderam de vez o controle do tráfico na região... Sei disso porque já estive naquela quadrilha e eu mais do que ninguém quero o fim de John.
- Pra querer comandar todo o tráfico da região? – perguntei soando irônico.
- Sim e não. – sorriu confiante. — O tráfico me traz bom dinheiro e isso eu não posso negar, mas a questão é que eu tenho pequenos problemas pessoais com John e quero os resolver o mais breve possível. Mas venho agindo com cautela porque sei que por enquanto ele está em vantagem.
- Como assim?
- Por enquanto, John tem muitos homens que trabalham pra ele, além de ter a milícia ao seu lado. Mas nada que oferecer uma boa grana para os mais corruptos de seu bando e matar os mais fiéis para deixá-lo enfraquecido aos poucos. – ele mantinha o sorriso nos lábios enquanto pegava um copo contendo gelo e servia-se de uísque. – Mas por enquanto, quem corre o risco sou eu. Vivemos em uma constante busca, onde ele tenta me localizar enquanto eu tento enfraquecê-lo.
- E você já matou alguém por conta disso?
- Um ou outro. – disse fazendo pouco caso.
- Você de começo me parecia perigoso, mas depois foi mostrando outro lado seu... Até me pareceu bom moço. – forcei uma risada. – Mas eu sempre achei que tinha algo errado com você, e vejamos só, eu estava certo.
- Eu estou no meio termo, acredite. Não sou tão malvado, mas também não sou tão bondoso. – riu sem humor. – E o cerco parece que está se fechando contra mim. Eu apenas preciso de alguém bom para me defender, caso a justiça me pegue, e sei que você é o certo para isso. Você confiou em mim ao me deixar pôr os pés em sua casa durante esse tempo, e bem, eu confio em você, Charles. – mordeu o lábio e pela primeira vez, vi Matthew com a aparência tensa.
- Você lida com tráfico, já matou pessoas... – eu disse, me levantando e buscando pela minha garrafa de uísque, despejando mais uma dose em meu copo. – Olha por quem eu troquei minha bela noiva. – rolei os olhos, ingerindo o líquido todo de uma só vez.
- Eu errei em não te falar sobre isso antes... Eu só tinha receio. Entenda Charles, eu realmente gosto de você e confio em você, sei que só você pode me ajudar.
Eu o encarei por instantes.
- Você realmente tentou matar Zachary?
Ele engoliu em seco.
- Não. – sua voz falhou.
- Então por que ele te acusou quando te viu?
- Talvez ele tenha se confundido... Não faz sentido eu querer matar seu amigo.
- Mas nós ainda não tínhamos nada. – arqueei uma sobrancelha. — Sequer nos conhecíamos.
- Charles... Acredite em mim, eu não tentei fazer nada com seu amigo. – ele se levantou e se aproximou, mas eu me afastei e fui até a janela, encarando a rua pouco movimentada. – Por favor.
- Eu só queria saber por que Zachary cismou com você...
- Eu não sei... Talvez ele tenha sentido ciúme ao ver o melhor amigo com um cara. – sorriu. – Se você não se lembra da noite em que nos conhecemos, nós praticamente transamos na frente dele.
- Você está alegando que Zachary inventou essa história porque está com ciúmes de mim?
- Vocês até então eram inseparáveis, pelo jeito que você sempre me conta dele. Não é de se estranhar que ele esteja agindo dessa maneira por medo de perder o melhor amigo para um novo romance. Mas estou apenas supondo. – me encarou sério. – Apenas quero lhe mostrar que não faz sentido eu querer matá-lo.
- Mas o que seria mais uma morte no currículo de um traficante? – ri sem vontade.
- Pare de soar irônico, Charles. – ele rolou os olhos e voltou para o seu lugar na poltrona. – Eu preciso de você caso me peguem.
E embora meu subconsciente gritasse para que eu expulsasse Matthew de minha casa e de minha vida pela pessoa que ele acabara de confessar que era, ao mesmo tempo minha mente tentava digerir a suposição de Matthew. Talvez Zachary tenha feito todo aquele escarcéu por ciúme de mim. O que eu não achava justo, já que eu aceitara desde início o novo relacionamento dele com seu aluno Brian.
Então como eu só tinha Matthew ao meu lado naquele momento, eu apenas sorri e acenei com a cabeça.
- Então pode contar comigo, Matthew.
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