Anatomia de um amor imortal
16 Todos avançam

Vladimir permanece calado, olhando o movimento do lado de fora da janela. Na sala da casa, seus acompanhantes aguardavam uma reação de sua parte.
— E se ela me prender e levar-me embora daqui? Ela tem Lenine e Mérida, os dois criados monstros! Como conseguirei ser páreo para eles? Minha força física é humana!
— Não fique temeroso em ter contato com ela, Vlad. – Kane fala suavemente e percebe a sensação de tranquilidade que surge na alma do filho. – Pelo que percebemos, essa Condessa tem respeito mórbido pelo que é consagrado verdadeiramente. Você irá protegido.
— Além disso, ela afirma que o ama. – Killian ergue os ombros. – Embora tenha atacado você no mosteiro...
— Não está ajudando, Killian. Ela deve apenas ter surtado, porque não o macularia em solo sagrado. A religião sempre teve espaço fundamental na educação de jovens donzelas, preparadas para serem boas esposas e boas mães. O que não podia ser explicado era considerado pecado que culminaria a perda da alma e a danação do inferno. Isso era amplamente divulgada pelos religiosos. Nas mãos deles estava o começo e o fim, a salvação ou a condenação. – Emma fala e empurra um livro na direção de Regina, que olha o objeto de soslaio. – Por isso essas criaturas seculares temem o sagrado.
Killian ergue os olhos e dá uma espiada nas páginas do livro, mas em seguida volta sua atenção para os bonecos de super-heróis com que brincava com o sobrinho.
— Isso é tão confortável! – o policial mais jovem ironiza.
— Devo permitir que ela me toque? – Vladimir olha para os companheiros.
— Isso é decisão sua, meu amor. Mas precisa pensar que se ficar muito frígido, ela irá desconfiar. Mesmo que ela não o toque, você precisará tocá-la e conseguir convencê-la a receber o colar. – Regina sorri amável e confiante.
— Você já trabalhou disfarçado, companheiro. Apenas precisa tomar cuidado para não se apaixonar por ela. Seres imundos como eles, costumam ser rasteiros e traiçoeiros. – Killian fala sem erguer a cabeça.
Levantando-se e indo para junto do filho adotivo, Kane estende a mão e toca em seu ombro.
— Estaremos ao seu lado, filho. Eu nunca o deixei sozinho e não será agora que o deixarei. Vamos lutar todos juntos contra essa mulher e sairemos vencedores, porque o nosso amor é verdadeiro, não é ciumento e nem faz cobranças, por isso é mais forte.
Vladimir olha por cima do ombro e passa seus olhos por todos os rostos dos que estavam naquela sala. Fala com os dentes travados:
— Vamos atrás dessa criatura. Porém, caso eu seja transformado numa coisa como ela, voltarei para assombrar um a um de vocês. Não é uma ameaça, mas é uma promessa.
Killian emite uma risada gutural e rouca, não muito diferente dos sons emitidos por Reynina.
Num ponto qualquer daquela cidade, Mérida passa a escova pelos cabelos de Reyninna. Cada vez mais jovem, a Condessa admirava sua beleza refletida no espelho.
— Por que eu ainda me reflito no espelho, Mérida?
— Talvez porque nunca completou sua conversão, Condessa. Dizem que você ficou bem no meio da ponte e jamais será enquadrada em parte alguma. Nem entre os humanos e nem entre os...os...aqueles que a senhora sabe. Lenine não conseguiu fazer sua total mutação, Mestra.
Reyninna sorri e admira a beleza que vê diante dela. O pó compacto usado sobre sua pele, ofuscava o brilho típico de seu rosto, enquanto o restante da maquiagem acentuava sua formosura.
— Lembra-se da reação do Conde Vlades Bognan, quando meu pai nos apresentou?
— Sim, Condessa. Ele não conseguia conter a excitação e ficou com um sorriso bobo nos lábios.
— Ele me amou desde o primeiro momento, Mérida. Era um soldado impiedoso, mas em nosso leito era a maciez das nuvens em seus toques. Durante todos os anos em que estivemos casados, sempre despertei com uma flor sobre o travesseiro, exceto quando ele estava em batalha.
— Sim, Condessa.
— Ele nunca soube que eu estava esperando um filho dele, porque minha traição não permitiu e Vlades morreu antes da notícia sobre minha gravidez. Por mina cegueira, tive meu filho na sujeira daquele presídio de pedras nos Montes Cárpatos e o pequenino não pode conviver com o pai dele.
— A senhora foi enganada pelo irmão do Conde. Era inocente, amava tanto, e não tinha como saber que Boris era um mentiroso desgraçado.
— Perdi meu marido e o amor de minha vida... e agora que reencontrei minha descendente, também, fui presenteada com a volta de amado...mas ele me odeia.
Mérida para com sua atividade e vai sentar-se ao lado da sua senhora. Não diz nada, apenas a olha com carinho e admiração surgida depois de tantas e tantas luas de dedicação. Ouve os lamentos de Reyninna:
— Por tanto tempo vivi nas sombras, apenas seguindo a história dos descendentes de meu filho...até encontrar a mais linda de todas as meninas. Vi Regina Mills crescer e carregar em seu rosto, todos os meus traços. E eu a amei desde então, mas a perdi pelos caprichos de Cora. Quando me aproximei da família dela, Cora a afastou de mim e não permitiu que eu desse à menina, tudo o que ela merecia.
Mérida a interrompe com um toque na mão:
— Senhora, será que o marido da policial é mesmo o seu Conde que retornou? E se for apenas alguém com traços semelhantes, provocando lembranças e amor em seu coração?
— Nunca pensei nessa possibilidade. Prefiro pensar que ele é meu Bognan, que retornou para meus braços e que trouxe o nosso filho com ele. Sabia que poderei ter Vlades ao lado do nosso menino e ainda conseguirei conviver com Regina? Ela será a nova Condessa Tepescu!
A serviçal acaricia os cabelos desbotados da Condessa. Olha-a com tristeza e piedade.
— O corpo de nosso Conde apodreceu depois que os ciganos o enterraram, minha Senhora. Não foi conservado para aguardar a volta da alma. Como poderia a alma do Conde ter assumido o corpo decomposto?
Reyninna inclina a cabeça para o lado e encara a serviçal.
— Eu não faço ideia desse papo de retorno, Mérida! Não me pergunte o que não sei responder!
Um sorriso suave surge no rosto sardento de Mérida.
— E a senhora já se perguntou se tudo não passa de mera coincidência? Vi na internet, um programa que procura seus sósias no mundo todo e os encontros são impressionantes! E se Vladimir não for o Conde Vlades Bognan? E se Killian não for o pirata general Radu? E se apenas Regina tiver ligação com a senhora?
Naquele momento, Reyninna encara sua serviçal como se estivesse com vontade de separar sua cabeça e seu corpo. Sorri cinicamente e não responde de imediato, porque simplesmente não tinha como e o que responder.
— E se você descobrisse que há outras construções frasais, além da pergunta?
No começo do entardecer do dia seguinte, Lenine encontra na parte externa da porta principal, uma carta endereçada à Condessa. Discreto e elegante, aguarda que ela desperte, aprume-se e venha alimentar-se. Entrega a ela, que ávida apanha o pedaço de papel ao ler o nome de Vladimir do lado externo do envelope. Era puro romantismo, receber uma carta em vez de telefonemas secos e distantes.
“Caríssima Condessa,
Mesmo contrariado, decidi que precisamos esclarecer alguns pontos e discutirmos sobre sua estadia em nossas vidas. Fiquei muito curioso com a história sobre o seu Conde e gostaria que me contasse. Não tenho conseguido aquietar o meu coração e senti que somente você por sanar minhas dúvidas e esclarecer lembranças que não consigo explicar. Mas lhe peço que me respeite e não me produza dor, para que eu possa confiar em você. Estarei em sua casa, logo mais à noite e peço que esteja aqui para conversarmos. Vlad.”
Ela sorri e entrega a carta para que Lenine a leia. O homem não demonstra alteração alguma, apenas a devolve e aguarda algum comentário.
— Eu vou apostar minhas duas mãos, que minha queria Regina está tentando manipular os meus sentimentos. Mas nós vamos ensinar uma lição para uma jovem amadora. – Reyninna se levanta e caminha para a escada que a levaria aos quartos. – Tenho absoluta certeza de que ele estará protegido, como esteve quando nos visitou. Por isso, quero Mérida e você aqui na sala comigo, porque juntos seremos mais fortes.
Lenine reverencia sua dama com um movimento de cabeça.
— Eles estarão vigiando o policial, porque Regina não permitirá que o marido venha despido de proteção. Prometo, minha Condessa, que deixarei tudo pronto para a nossa fuga e sugiro que aproveitemos a única oportunidade que terá, ficando a sós com o seu Conde. Apanhe-o e tire-o daqui, porque o restante eu providenciarei.
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