“Sim, ela entrou em contato com Zelena e eu, mas nós decidimos ignorar esse encontro. Não temos contato com esta mulher há mais de vinte anos e não queremos proximidade.!

— Você sentiu arrepios com a presença dela?

“Não ironize, Vlad. Não gosto de discutir sobre minhas habilidades, mas elas ficam eriçadas quando nos deparamos com outro habilidoso. Aquela mulher não é confiável e posso afirmar que ela é uma habilidosa!”

— Provavelmente sim, sobretudo, se ela for realmente parenta sua. Isso é o que menos importa no momento. O que quero saber é sobre as reais intenções dela com nossa família.

“O que pretende fazer? Vai ao jantar?”

— Sei que Gigia não irá aprovar, mas enviei a taça na qual a dama bebeu vinho. Os peritos vão analisar as digitais e poderemos fazer a nossa investigação pessoal sobre a mulher surgida do nada e disposta a fazer de todos nós, os seus herdeiros.

“Sugiro que não leve Jonny ao jantar e sugiro também que use pétalas de rosas, nos bolsos internos das roupas. Habilidosos perversos não toleram as rosas, porque elas absorvem tudo o que enviarem de mal.”

— Vou levar meu irmão como meu amuleto. – Vladimir começa a rir.

“Não brinque com o desconhecido, moço! Killian tem mais juízo que vocês dois e sugiro que o leve, sim!”

Era começo da noite, dois dias depois, quando Regina e Vladimir são recebidos em uma casa elegante num bairro afastado do centro. Um homem velho, magro e pálido os recebe carinhosamente e os conduz para a sala principal, onde são acomodados até a chegada de Reyninna.

— Boa noite, meus queridos! – ela surge perfeita dentro de um vestido prateado, colado ao corpo e acentuando suas curvas generosas. – Por favor, Lenine, traga uma bebida quente para meus convidados!

Rapidamente, Regina leva seus olhos escuros, enciumados e atentos para o rosto do marido e o encontra tão frio como se fosse uma estátua de gelo. A segunda pele que Reyninna chamava de vestido não havia surtido efeito nos hormônios de Vladimir. A policial sorri satisfeita.

— Eu me sinto honrada em vê-los aqui, aceitando meu convite.

— Minha curiosidade foi maior. – Regina sorri. – Quero mesmo que sejamos amigas.

— Por que não trouxeram Johnathon?

— Meu irmão e minha cunhada o levaram para o cinema. – Vladimir responde amável.

— Radu está...digo, seu irmão tem uma amada? Isso é a coisa mais linda da vida! O amor!

— Ele se apaixonou pela médica que cuidou de mim. – Vladimir sorri amplamente, acentuando o tamanho de sua boca.

Reyninna olha-o como se ele fosse a pedra preciosa mais rara em um leilão. Todos os ângulos, delicadamente cortados para que a luz pudesse passar por todos eles, exibindo ao mundo a pureza do diamante lapidado. Lindo, raro e perfeito! Seu Conde, amnésico e inocente, mas ainda era o seu Conde Vlades.

— Seu irmão é um belo homem. – ela tenta controlar suas emoções e seus desejos selvagens. – Gostaria muito de poder conhecê-lo um dia, pessoalmente.

— Minha mãe não apreciou o seu contato. Por quê?

A Condessa leva seus olhos encantados para o rosto bonito de sua parenta. Havia buscado aquela criança por muitos anos e quando a encontrara, já era uma mulher, linda, valente e estava vivendo ao lado do seu Conde que havia retornado em outra época e em outro mundo. Estava amando e odiando Regina.

— Somos polos diferentes e ela sabe disso há tempos, como acredito que você também tenha percebido. Não estou com espírito bélico e gostaria de deixar isso bem claro. Eu vim para esta parte do mundo, apena por amor. Tudo o que sinto é extremo amor e foi este amor que me manteve viva, esperançosa de encontrar aqueles a quem amo.

— Como já lhe disse quando estivesse em sua casa, minha mãe nunca me falou de sua existência. O que houve entre vocês duas?

“A velha bruxa sabe exatamente o que sou. Sabe que meus desejos não são puros, sua mundana!”, a Condessa pensa e sorri.

— Adversidade de opiniões.

— Opiniões muito adversas, mesmo! Porque Cora me desaconselhou a ter contato com você. O que fez a ela, para que fosse ignorada por anos? – o tom de Vladimir é rude.

Reyninna sorri e desce os olhos à meia visão.

— Por que não me pergunta o que ela me fez?

O policial levanta o queixo em sinal de desafio e fecha o rosto, cobrindo seus olhos com um véu de desconfiança. Ia continuar a investigação, quando seu celular vibra e ele percebe que algo importante clamava a sua presença. Pede licença e caminha para um canto da sala, sob o olhar atento das duas mulheres.

— Ele é tão lindo...- a Condessa não consegue esconder seu encanto. – É um nobre... Como a natureza pode cometer o mesmo erro, duas vezes?

— É lindo por dentro e por fora. – Regina sorri e não escuta o que a mulher mais velha, fala. – Eu quero que meu filho tenha a mesma dignidade e honra que o pai.

Um sorriso suave ilumina os lábios vermelhos da Condessa.

— Estou morrendo, Regina. Estou mais fraca a cada dia que surge no horizonte e temo não sobreviver ao próximo verão.

Instintivamente, Regina cobre os lábios com uma das mãos. Não consegue esconder a sua surpresa.

— Eu lamento...

— Já vivi o bastante e muito bem. – ela aponta ao redor. – Posso comprar ou alugar o que sempre desejei. Mas agora, quero ter a chance de ter algo que não pude comprar: o amor.

— O que você...o que há com você?

— Algo degenerativo, minha querida. Algo que me consumirá lentamente até que eu me torne um vegetal seco e sem consciência. Por isso, quero despertar o amor em alguém e ao mesmo tempo, quero deixar tudo o que possuo para quem...

— Temos de ir embora, Gigia! – a voz imponente de Vladimir interrompe a fala da anfitriã e atrai seu olhar. – Kane mandou nos chamar para um problema na Universidade Estadual! Homens estão mantendo alunos e professores como reféns! Precisaremos ir!

A maneira austera como o homem se aproxima, evoca lembranças nítidas da maneira rude com que seu Conde comandava suas tropas naqueles campos de batalha. Sua voz potente e firme, expondo sua autoridade e segurança no que estava ordenando, enchia seus comandados de confiança e força para os enfrentamentos. Apenas faltava sua armadura de metal.

— Lamento muito, mas...- Regina se levanta e sente a mão forte do marido segurar o seu braço.

— O dever em primeiro lugar. Vocês são soldados e conheço bem o espírito que rege seus corpos.

Vladimir sorri e afasta-se, depois de soltar o braço da esposa. Apanha seus casacos, entregues pelo velho Lenine e caminha impaciente para a porta. Enfia a mão em um dos bolsos para apanhar a chave do carro e quando a retira, traz as pétalas de rosas para fora e as espalha pelo chão, sem importar-se com isso.

O velho Lenine pula para trás, como se fosse um gato evitando ser molhado por algum respingo. Olha horrorizado para as pétalas e desperta a atenção de Vladimir, que se incomoda com a reação do velho.

— Capitã! Precisamos partir! – ele altera o tom de voz.

Sem esperar nenhum momento a mais, Regina passa por ele e sai da casa, seguindo em direção ao carro. Vladimir olha para as pétalas, depois para o velho, em seguida para a Condessa de rosto amarelado e depois cruza com o olhar escuro de uma mulher com cabelos crespos e ruivos. Os dois se encaram e algo se remove na alma do policial.

Quando estão somente os três naquela casa alugada, o silêncio impera por alguns momentos que pareciam ser eternos e lentos. Soltando um urro de dor e de agonia, Reyninna se ajoelha e começa a chorar, misturando lamentos com gritos.

Mérida se ajoelha ao lado da mulher e acaricia suas costas. Observa o velho Lenina fazer o mesmo, com a habilidade de um menino.

— Ele não me reconheceu! O meu Vlades me ignorou! Não varreu meu corpo com os olhos, como fazia antes e nem sentiu o meu aroma!

— Ele precisa ser estimulado, minha senhora.

— Ofereci a visão de meu corpo, o aroma de meus cabelos e enviei a ele todo o calor e desejo de minha alma! Ele não me percebeu! – Reyninna crispa as mãos e crava suas unhas na palma, criando filetes de sangue que escorrem. – Não me elogiou e nem me despiu com os olhos, como fazia em nossos encontros! Ele resistiu aos meus encantos!

— O homem esteve do outro lado da cortina, minha menina. – Lenine se senta no chão. – Mas tudo está guardado na alma dele, precisando apenas ser reavivado. Tudo o que precisa fazer é sugá-lo mais duas vezes. Assim recriará o vínculo que vocês tiveram no passado.

Reyninna encosta a testa no chão e chora ainda mais. Depois se levanta.

— Eu não poderei esperar por muito tempo! Já esperei demais e minhas forças estão esgotadas! Quero o meu Conde de volta aos meus braços e não vou perdê-lo outra vez! Eu tive a segunda chance que meus ciganos disseram que eu teria! Não é justo que eu seja infeliz outra vez, por causa da presença de outra mulher!

— Crie o vínculo, minha senhora. – murmura Mérida. – Estamos aqui para ajudá-la.

— Eu preciso estar com ele agora. – Reyninna enxuga suas lágrimas rubras e fica em pé. – Quero que me acompanhem. Preciso ficar ao lado dele.

Na manhã seguinte, a negociação comandada por Regina ainda continuava. Várias formas de mídias acompanhavam o desenrolar daquele episódio que somente acontece depois das duas horas da tarde. Os atiradores de elite haviam entrado no prédio e conseguido dominar os três homens que mantinham cerca de vinte pessoas numa sala de aula. Conseguem evitar que um dos homens acionasse uma bomba que havia acoplado ao corpo de uma jovem estudante.

De volta à Central, todos cansados e famintos, são convocados por Kane para uma conversa com o grupo. Depois de dispensar os demais policiais, o Comandante ordena que seus protegidos permaneçam ali.

— O perito acabou de entregar o resultado da análise daquelas impressões digitais que foram enviadas, Vlad.

— Você me parece preocupado. O que houve?

— Que impressões digitais? – pergunta Regina, prendendo novamente os cabelos no alto da cabeça. Ela olha o sogro e o marido.

A porta é aberta violentamente e o sargento Drew Wu exibe seu rosto cansado e suado.

— Kane, urgência! Estourou uma rebelião no Presídio Estadual e há muito reféns entre os funcionários! Os líderes dos grupos uniram-se e tomaram conta do presídio! Há focos de incêndio!

Sem hesitar ou terminar o teor da conversa, todos saem correndo da sala e instantaneamente, incorporam o espírito guerreiro e insano de todo policial.

Durante todo aquele dia, os grupos de policiais e negociadores trabalham para conseguirem a libertação de reféns ou de pelo menos parte deles. Porém, os líderes dos grupos criminosos não estavam dispostos a cederem.

Era noite, quando um grupo de reféns é trocado por água e alimentação. Tendo estudado a planta do prédio, Kane decide organizar seus melhores atiradores para uma invasão pelos dutos desativados do ar condicionado.

— Desejo boa sorte a todos! Vamos à luta! – grita Kane.

Quando os seus colegas seguem para sua missão, Regina tem a sensação de ter visto a figura amarela de sua parenta, entre a pequena multidão de profissionais. Não! Ela estaria fazendo o que ali? Que pensamento tonto! Em seguida, dispersando o pensamento, Regina cobre seu rosto com a touca balaclava e torna-se incógnita. Mistura-se aos colegas e vai exercer a sua função naquele drama noturno.

Lá dentro na sala do Diretor, o grupo formado pelos líderes das facções, observavam as movimentação dos policiais do lado de fora do prédio. Assistiam tudo pela tela de um celular, pois a energia elétrica havia sido desligada.

— Não dá para ver os cachorros do Kane. Estão babando em alguma parte em volta do presídio. Nem o Kane e nem aquela Capitão deliciosa estão na negociação. Deduzo que estão bem perto de nós.

— Levem dois reféns para o telhado e ateiem fogo neles. Será nosso sinal de que queremos que eles se revelem.

Dois homens saem da sala do Diretor para atenderem à ordem. O tempo vai passando e nenhuma novidade surge na televisão do celular. E eles não retornam.

— O que está havendo? Por que os reféns não foram fritados?

Um dos líderes se levanta, apanha um fuzil e sai da sala. Caminha pelo corredor e dirige-se para a saída que levaria até o telhado do presídio. Naquele corredor iluminado pela lanterna, encontra dois corpos caídos e mutilados: eram seus comandados.

— Desgraçados! – ele apanha um celular e entra em contato com os outros líderes. – As ratazanas do Kane já estão aqui dentro! Mataram dois dos nossos e é certo que salvaram os reféns! Vamos pegar mais dois safados para fazer o churrasco...

Antes que pudesse terminar sua frase, o homem sente algo afiado passar em sua garganta. Ele leva a mão ao ferimento e cai ajoelhado, engasgado pelo sangue. Arregala os olhos ao ver aquela figura reluzente e amarela, linda com seus cabelos longos.

— Meu Vlades não é um rato de Kane. Ele é um valoroso soldado! Um general de exército!

Momentos depois, outro líder sai da sala e é acompanhado por quatro de seus comandados. Diz para os lideres que ainda estavam na sala.

— Vamos ordenar que os nossos homens liberem uma ala, prendam os carcereiros ali e ateiem fogo! O porcão do Kane está abusando demais!

E mais uma vez, aqueles que saíram dali, não retornam. Começa a surgir uma sensação de pânico e insegurança entre os rebelados. Até que alguém entra correndo ali.

— Caras, os cachorros do Kane conseguiram entrar pela tubulação desativada do antigo ar condicionado! Eles estão camuflados entre os detentos e estão protegidos pela escuridão. Os detentos estão falando que muito estão tombando sem que se ouçam os disparos! Estão camuflados e usando silenciadores nas armas!

— Vamos pegar esse malditos cachorros! E quando conseguirem pegar um deles, vamos desmembrá-los para que sirvam de modelo aos demais!

O homem que estava em pé sob o batente, é atirado num canto da sala. Todas as lanternas se voltam para a figura assustadora que surge ali: uma mulher de cabelos amarelos e olhos que refletiam a luz das lanternas, como se fossem espelhos.

Alguns disparos são efetuados contra ela e não há alteração alguma na criatura. Todos começam a gritar em busca de salvação, quando ela desembainha uma espada e começa a decepar mãos, pernas e cabeças, com gestos rápidos demais para os olhos humanos.

Era manhã, quando as equipes de rescaldo invadem o presídio, encontram diversos corpos feridos por projéteis de arma de fogo e outros tantos mutilados por uso de lâminas poderosas.

— Isso é um cenário de guerra. Seremos trucidados pela Corregedoria e pelo Governo Estadual.

— Não somos responsáveis pelas mutilações, Kane. – Vladimir fala, depois de apenas erguer a touca balaclava e exibir o rosto. – Nós obedecemos suas ordens e apenas atiramos. Os líderes das facções lutaram entre si e se mataram...

— E um deles deveria ter sobrevivido, meninos. Já que ele usou a espada para cortar os companheiros, quem usou a espada contra ele?

Killian acha graça na pergunta.

— Eu não estou nem um pouco preocupado com os autores das mutilações! Eu fiz a minha parte e não empunhei espada ninja alguma, contra pobres e indefesos detentos rebelados! – ele fecha o rosto numa careta de zanga. – Os reféns estão todos salvos e esse era nosso objetivo! E que isso sirva de exemplo para quem tentar outra rebelião!

— Desta vez, meu irmão tem razão. Tenho de concordar com as sandices dele. – Vladimir observa Regina se aproximando. – Os detentos líderes das facções brigaram por poder e se agrediram. Eu nunca soube que os latinos fossem parceiros dos nazistas ou dos muçulmanos...por isso é que se dividiam em facções.

E a fala de Vladimir é utilizada por Kane e Regina, durante a entrevista coletiva. Mas Regina sabia que algo estava prestes a ser descoberto, caso ela aprofundasse suas investigações. Depois de finalizada a confusão, a memória de ter visto a sua parenta romena em meio à multidão de policiais, deixa evidente que algo incomum havia acontecido ali dentro.