A visita à casa de Reyninna fora frustrada. Mesmo após várias tentativas, a mulher não é encontrada em casa, como se estivesse pressentindo o confronto com a policial. Mas a fuga iria parar algum dia e todas as mulheres da família Mills ficariam frente à frente.

Mais dias se vão e a vida retoma seus trilhos. Naquele final de tarde...

— Ele fez alguma exigência? – Kane ajeita os óculos de lentes amarelas.

— Quer que a esposa recue no pedido de divórcio e quer que o gerente do banco renegocie a hipoteca da casa. – Regina se encosta num carro e observa Vladimir parado em pé ao lado de um uma viatura, aguardando a ordem de invasão. – O que iremos fazer? Você quer conversar com ele?

— Como estão os padres? E qual é sua opinião?

— Ficaram somente os mais jovens e o diretor do mosteiro. O homem está apenas assustado, mas não representa ameaça maior. É apenas um desesperado com uma arma na mão e sequer sabemos se ele sabe usá-la.

Kane fica pensativo e depois nega com um movimento de cabeça.

— Entre lá e leve dois policiais com você. Precisamos resolver essa situação até o horário do jantar.

Momentos depois, Regina caminha pelo corredor do salão paroquial. Sentados nos degraus próximos ao altar, quatro padres jovens e um homem mais maduro, estavam sob a mira de uma arma de fogo. Nervoso, o algoz andava de um lado a outro e enxugava a testa suada, pensando numa saída honrosa para aquela situação. Quando ele vê a aproximação da policial e de um homem oriental, tenta manter o controle para continuar a negociação.

— Senhor, o meu chefe me autorizou a continuar a negociação e a pôr você a par de tudo. – Regina cruza os braços diante do corpo. – Sua esposa não quer retroceder no pedido de divórcio, mas o gerente do banco aceitou renegociar a dívida e rever os juros.

O homem sorri nervoso e aponta a arma na direção do sargento Drew Wu.

— Ele vai me matar?

— Por que teríamos o interesse em negociar, caso fossemos matá-lo? – Regina sorri. – Dê uma mostra de boa vontade e liberte mais padres.

— E-eu a-ainda não sei... eu nunca fiz isso...não sou bandido!

— Mas se continuar apontando essa arma para a cabeça de pessoas inocentes, será julgado como criminoso.

Outra vez, o homem enxuga a testa. Olha para os lados e sofre um sobressalto ao ouvir algum objeto pesado e de metal, cair num cômodo distante dali.

— O que é foi isso? – ele se vira para procurar a origem do som e é naquele momento em que um disparo inesperado, atinge a sua arma e a arranca da mão do homem.

Desesperado, o homem sai em desabalada carreira para o fundo do prédio do mosteiro. Enquanto o sargento Drew Wu e Regina vão socorrer os reféns, Vladimir surge de trás de uma parede e corre atrás do homem, sem hesitar ou perceber os obstáculos à sua frente.

O policial ainda consegue ver o homem descer uma escadaria, no final de um corredor feito de pedras e iluminado por luzes amareladas, que envelheciam o ambiente e criavam um clima assustador. Sem pestanejar ele segue atrás do fugitivo e chega a um andar mais abaixo, quase despencando dos últimos degraus, ao ser surpreendido e sobressaltado pela quantidade de imagens sacras acomodadas ali. Aquilo era assustador, tamanha semelhança das estátuas com seres humanos.

— E então? Vai continuar escondendo-se? Você está desarmado e eu sou um exímio atirador! Isso diz algo para você?

O som de alguém se afastando correndo chama a atenção do policial. Irritado, Vladimir vai rapidamente para outra escadaria que o leva para outro subsolo. E é lá que ele encontra o homem tentando achar uma saída, tocando as paredes com as mãos espalmadas. Sorri ao achar graça na cena.

— Por favor, pare com palhaçada porque isso está ficando irritante. O show acabou! Agora venha! – a ultima frase vem em forma de um grito.

Minutos depois e subitamente, o homem grita e corre na direção do policial, atirando-se no chão e protegendo-se atrás das pernas dele. Aponta para um canto do salão, onde um velho magro e pálido parecia aguardar alguma ordem para atacar. A boca do velho estava aberta e exibia colmilhos grandes, semelhantes às presas de um cachorro.

Vladimir reconhece de imediato a figura do velho: era Lenine, assumindo uma aparência assustadora e ameaçadora.

— Fique longe!! – o policial grita quase histérico, apontando a arma para o velho.

— Não tenho autorização para tocar no senhor, meu Conde. Estamos apenas zelando pela sua segurança e pela manutenção de sua vida. – ele faz uma reverência.

O coração de Vladimir não estava mais dentro de seu peito e batia dentro de sua cabeça. Sentia que não conseguiria manter a arma firme, tampouco defender o homem que estava escondido atrás de suas pernas. Estava sentindo a carne tremer.

— Pode ir em paz, porque não ferirei o senhor, meu Conde. – o velho sorri ainda mais, porém seus dentes estavam retilíneos. – Estávamos apenas zelando pela sua segurança, meu senhor.

— Meu Conde! Meu amado!

Vladimir ouve a voz e vira-se para a origem da voz, encontrando Reyninna em pé junto a uma das estátuas quase humanas. Ela sorri e exibe seus olhos, faróis dourados, maiores do que os normais e dois colmilhos salientes, como se seu estado emocional provocasse aquela alteração.

Movido pelos seus instintos de preservação da espécie, Vladimir dispara na direção da mulher e faz com que um dos projéteis atinja um dos ombros dela. Um grito horrendo é ouvido e ecoa por todo o andar, como se várias vozes estivesse juntas em um coro.

— Corra!! – o policial grita e empurra o outro homem com sua bota.

O homem que se levanta e desaparece na semiescuridão, subindo a escadaria para fugir dali. Vladimir se volta para continuar o ataque àquelas criaturas, mas recebe um golpe violento contra seu rosto. Cai deitado no chão de pedras.

Zonzo, Vladimir é arrastado pelos tornozelos, mas tenta agarrar-se em algum móvel fixo para evitar ser levado dali. Ele grita e debate-se, porém, sua força é pequena demais, para aquelas mãos fortes que se assemelhavam a grilhões. E é neste momento que algo inesperado acontece: ele é libertado e consegue se arrastar para longe de seus agressores.

Rapidamente, apanha sua arma que estava caída em um canto e volta-se para efetuar mais disparos. É quando se encontra sozinho no salão.

—Vlad! – a voz de Regina é ouvida e ela surge correndo para salvar seu policial.

Sem perder tempo, Vladimir fica em pé e sem saber de onde retira forças, agarra a esposa pela cintura slim e a carrega para fora daquele lugar assombroso.

Momentos depois, na casa de Regina...

— Não vou confirmar o que o cara disse. Ele é um lunático que ficou apontando uma arma para a cabeça de padres. Quem irá acreditar nele? – Vladimir esfregava as mãos de maneira histérica, embora estivesse mais controlado, depois de ser medicado. – Ele delirou e nada do que disser, será confirmado! Não havia vampiro algum naquele subsolo!

— Sugiro que se afaste de suas funções, enquanto tentamos contato com Reyninna. – Kane acaricia o ombro do filho. – Precisamos saber os reais motivos que a faz perseguir sua família.

— Você nos ensinou que se fugirmos dos problemas, eles sempre correrão atrás de nós. – Killian coça a ponta do narigão e sorri. – Quero saber como ela sabia que eles estariam lá.

— Da mesma forma que soube sobre nossa invasão ao presídio. Ela está nos seguindo e vigiando. – Regina se mostra irritada.

Kane olha a nora com o máximo de carinho e sente um aperto no coração, como sinal de mau presságio. Depois, encara o filho.

— Eles lhe disseram alguma coisa?

— Lenine me disse que jamais me feriria, pois não tinha permissão e que a função dele era me proteger. Depois, Reynina me chamou de Conde e de amado. – ele olha nervosamente para os lados. Não queria demonstrar fraqueza, porém, estava apavorado. – Ela estava com a mesma aparência daquela velha assustadora que me atacou. Tinha dentes pontiagudos como se fosse uma loba!

— As duas são a mesma pessoa, companheiro. A velhinha veloz e a condessa canina.

Olhando para a esposa e pedindo proteção, Vladimir estende os braços e assume sua fragilidade. Atira a toalha.

Cora surge trazendo uma bandeja com canecas com chocolate quente para todos os adultos que ainda estavam na sala. Naquele momento, Vladimir e o filho já haviam sido postos dormir.

— Temos de vigiar o quarto para evitar...

— Eles estão sobre um dos altares de uma família, Gigia. – Kane sorri e agradece à bebida. – A mesa onde colocamos o pão e a cama onde dorme o casal, são dois altares naturais. Todas as civilizações acreditam nisso. Ninguém os atingirá ali.

— Zelena me ligou e confirmou que a nossa parenta não está na casa dela. Ela conseguiu entrar naquele casarão de pedras e não sentiu a presença dela por lá.

— Zelena foi sozinha naquele covil? Por que não nos chamou? – Killian se sente afrontado. – A Condessa é uma bruxa que pensa que é vampira ou coisa assim!

Cora sorri amável e vai sentar-se.

— Minha filha sabe defender-se. Não viu vestígios da presença deles na casa, a menos que estivessem bem escondidos. – a mulher mais velha se inclina para frente. – Vamos ser francos e assumir com quem estamos lidando. Reyninna foi convertida e não é apenas uma habilidosa, agora.

Todos os olhos se voltam para ela.

— Reynina não está doente fisicamente. A doença dela é espiritual e tenho receio de afirmar que ela não veio apenas atrás de minha filha Regina. Até pode ter vindo, mas... ao ver Vlad, mudou o foco de sua estadia aqui. Não gostaria de assumir isso, mas a pessoa a quem ela mais ama no mundo não é Regina.

Emma concorda com um movimento de cabeça e complementa:

— Ela mordeu Vlad e depois se apresentou nesta casa quando ele estava sozinho. Hoje, ele ouviu que precisava ser protegido e foi arrastado para algum ponto daquele prédio, como se quisessem aprisioná-lo. Em minha humilde opinião, ela está querendo tirar o homem de Regina. – opina Emma, recebendo a expressão de horror de Killian em sua direção. – Talvez ela tenha vindo em busca de Regina, entretanto, apaixonou-se por um homem proibido.

Os outros adultos não falam nada.

— Reyninna é a mesma mulher velha que vigiou a casa; vocês sabem a idade dela, comprovada pelo exame de DNA; há os caixões com terra que foram roubados do laboratório; o rejuvenescimento dela; os colmilhos imensos que foram descritos por Vlad...assumam, crianças, vocês estão lidando com uma vampira velha. Ela não é somente uma habilidosa, mas é uma transgressora e seria interessante se conseguíssemos ouvir a história dela.

Cora sorri e concorda. Algo já lhe dizia isso há muito tempo, apenas não queria aceitar que uma das mulheres de sua família havia enveredado por aquela ponte.

— Aquela impressão que tínhamos sobre alguma seita satânica com rituais vampirescos... na verdade não eram rituais. – Killian segura a mão da namorada. – Era o estilo de vida dela.

— A proteção que devemos dar ao meu filho, extrapola o poder policial. – Kane fala e olha para todos os rostos. – Mas por que o meu filho?

Regina estreita as sobrancelhas e faz uma careta de que a resposta seria incômoda.