Anatomia de um Corretor de Merda

8 Capítulo 8: Encontro Sob as Sombras (Sem Wi-Fi)


A noite em Konoha trazia uma brisa fresca que contrastava com o calor sufocante do pavilhão de Medicina. O jantar no Restaurante Ichiraku havia sido uma experiência que Shikadai Nara classificaria como "nível S de perigo". Enquanto o lamen fumegava, ele assistira, impotente, a sua mãe, Temari, submeter Hilana a um interrogatório digno da Divisão de Inteligência. Ela queria saber tudo: desde a precisão de Hilana ao aferir uma pressão arterial até sua paciência para lidar com o temperamento preguiçoso dos homens da família Nara.

Shikamaru, por sua vez, tentara ser um mediador, mas o cansaço do trabalho no escritório do Hokage o fizera cochilar duas vezes sobre a tigela de caldo de porco, sendo acordado por cutucões discretos (e nada suaves) de Shikadai. No fim das contas, de forma milagrosa, Hilana não apenas sobrevivera, mas parecera ganhar o respeito de Temari ao responder com firmeza sobre a importância do cuidado humanizado na enfermagem.

Agora, finalmente, o silêncio. Shikadai e Hilana caminhavam pela Ponte Memorial de Konoha, um local que unia a parte histórica da vila aos novos distritos tecnológicos. A lua cheia de estava espetacular, uma esfera de prata que se refletia nas fachadas de vidro dos prédios modernos e nas águas calmas do rio que cortava a aldeia.

Shikadai sentia uma sensação estranha. Sua mão direita buscava instintivamente o bolso da calça, procurando o peso do smartphone, apenas para encontrar o vazio. O aparelho "psicopata" estava agora exilado na residência dos Nara, mergulhado em uma caixa de arroz cru — uma tentativa desesperada de Shikamaru de salvar os circuitos após o mergulho na solução fisiológica. Sem o dispositivo, Shikadai sentia-se mais leve, como se tivesse se libertado de uma algema digital, mas também sentia-se perigosamente vulnerável. Sem uma tela para fingir que estava ocupado, ele era obrigado a enfrentar a realidade: ele estava em um encontro com a garota que fazia seu sistema nervoso entrar em colapso.

— Sobrevivemos — disse ele, quebrando o silêncio enquanto paravam no centro da ponte. Ele olhou para as estrelas, tentando encontrar nelas a calma que lhe faltava. — Peço desculpas pela minha mãe. Ela é... bem, você viu. Problemática é pouco.

Hilana soltou uma risada baixa e cristalina, que pareceu ecoar pelo metal da ponte. Ela se apoiou no parapeito, observando as luzes da cidade refletidas na água.

— Não precisa se desculpar, Shikadai. Eu realmente gostei dela. Ela é direta, intensa e não faz joguinhos. É refrescante encontrar alguém que diz exatamente o que pensa, sem filtros. É o oposto do seu celular, não acha?

Shikadai parou ao lado dela, mantendo uma distância segura, mas sentindo o calor que emanava da presença dela. A brisa da noite bagunçava seu rabo de cavalo, e ele soltou um longo suspiro.

— Aquele celular é o meu maior erro estratégico. Eu queria mostrar que era um cara moderno, conectado, pronto para o Rio... quer dizer, para o centro de Konoha. Mas ele acabou sendo um sabotador.

Ele hesitou, olhando para as próprias mãos, que agora pareciam grandes e desajeitadas sem um aparelho para segurar.

— Hilana, sobre o que aconteceu no laboratório... sobre as mensagens de "exame" e as coisas que minha mãe ouviu... eu queria que você soubesse que eu não sou aquele cara. Eu não sou um conquistador de rede social. Na verdade, eu sou um desastre. Eu prefiro planejar uma cirurgia de dez horas ou resolver um enigma de lógica do que tentar traduzir o que eu sinto em palavras. Especialmente para você.

Hilana virou-se para ele. A luz da lua iluminava seu rosto de uma forma que nenhum filtro de fotografia jamais conseguiria replicar. Ela não precisava de um sensor de frequência cardíaca para saber que o pulso de Shikadai estava disparado; ela conseguia ver a pulsação na base do pescoço dele e o brilho de nervosismo em seus olhos verdes.

— Shikadai — ela disse, aproximando-se um passo. — Você passou os últimos dias tentando me convencer de que era um tipo de "garanhão tecnológico" por culpa de um corretor maluco. Mas eu vou te contar um segredo: eu nunca estive interessada naquele personagem.

Ela estendeu a mão e, com uma coragem que fez o coração de Shikadai saltar, segurou a mão dele. Os dedos dela estavam frios por causa da brisa, mas o toque enviou uma descarga elétrica pelos canais de chakra de Shikadai.

— Eu prefiro esse Shikadai aqui. O que gagueja um pouco quando fica sem assunto. O que se preocupa genuinamente com o que os pais pensam. O que sabe identificar cada nervo do plexo braquial sem precisar consultar o Google. Em um mundo onde todo mundo está tentando ser um "perfil perfeito" e postar apenas vitórias, ser "problemático" e real é a coisa mais atraente que existe.

Shikadai olhou para as mãos unidas e depois para Hilana. Pela primeira vez na vida, ele não sentiu vontade de reclamar da complexidade das situações humanas. Ele não sentiu que aquilo era um "saco". Pelo contrário, ele sentiu que todas as suas análises de probabilidade o levaram exatamente para onde ele deveria estar.

— Minha estratégia falhou miseravelmente em te impressionar pelo celular — ele admitiu, com um sorriso de lado que fez os olhos de Hilana brilharem. — Mas se o resultado dessa falha foi estar aqui com você, sem nenhum sinal de Wi-Fi por perto... acho que foi a melhor derrota da minha vida.

Hilana sorriu e diminuiu ainda mais a distância entre eles. O aroma de hortelã e livros antigos que a acompanhava envolveu Shikadai, silenciando o barulho da metrópole ao redor.

— Sabe, médico... — ela sussurrou, a poucos centímetros do rosto dele — a anatomia humana diz que o coração é apenas um músculo que bombeia sangue. Mas a enfermagem ensina que ele é muito mais que isso. E o meu está me dizendo que você deve parar de analisar a situação e simplesmente agir.

Shikadai não precisou de mais nenhum dado para tomar sua decisão. Ele se inclinou lentamente, fechando os olhos e deixando que os instintos que ele tanto tentava suprimir tomassem o controle. Ali, sob o luar de Konoha, sem flashes de câmeras, sem notificações de grupos de calouros e sem nenhum corretor ortográfico para distorcer seus motivos, eles tiveram seu primeiro beijo real.

Foi um momento puramente analógico. O toque dos lábios, o calor da respiração compartilhada e a sensação da mão dela em sua nuca eram informações que nenhum processador de titânio poderia processar. Shikadai descobriu, na prática, que a anatomia de um beijo apaixonado era muito mais complexa e gratificante do que qualquer capítulo de livro que ele já havia devorado na biblioteca.

Longe dali, na quietude da sala dos Nara, o celular de Shikadai, ainda enterrado no arroz, acendeu a tela por um breve segundo. O sistema de Inteligência Artificial, operando em baixa energia, processou o último registro de GPS e o silêncio prolongado do usuário. Uma última notificação silenciosa apareceu na tela bloqueada:

"Conexão de alma estabelecida. Erro de sistema corrigido. Modo Offline: Ativado permanentemente para momentos importantes."

Shikadai e Hilana continuaram ali, abraçados na ponte, enquanto Konoha seguia seu ritmo frenético. Mas para eles, o tempo havia parado. Eles haviam encontrado algo que a tecnologia jamais poderia oferecer: a beleza de serem imperfeitos, juntos e cara a cara.