Anatomia de um Corretor de Merda

9 Capítulo 9: Diagnóstico de Segunda-Feira


A manhã de segunda-feira na Universidade de Medicina de Konoha (UMK) tinha um peso diferente para Shikadai. O beijo na ponte, sob o luar, ainda reverberava em sua mente como um eco persistente, mas a realidade acadêmica não perdoava sentimentos. Ele caminhava pelos corredores de pedra com as mãos nos bolsos, sentindo uma leveza incomum. O motivo era simples: seu celular ainda estava "em coma" na casa dos pais.

Pela primeira vez em semanas, ele não precisava se preocupar se o seu bolso estava prestes a enviar uma declaração de guerra ou um convite de casamento para o grupo de calouros. Ele era apenas Shikadai Nara, o estudante de medicina, e não o "garanhão do corretor".

No entanto, ao entrar na sala de aula para a disciplina de Fisiologia Humana, ele percebeu que a ausência do aparelho criava um novo problema estratégico: o vácuo de informação.

— Shikadai! Cara, você sumiu do mapa! — Inojin o interceptou, com o tablet na mão e um sorriso malicioso. — Você não viu o que a Taene postou no grupo? O pessoal está achando que você foi sequestrado pela sua mãe ou que fugiu com a Hilana para o País das Ondas.

— Que saco, Inojin. Eu só estou... desconectado — respondeu Shikadai, tentando avistar Hilana entre as fileiras de cadeiras.

— Pois trate de se conectar rápido. A Professora Anko acabou de postar os temas do seminário prático de hoje. É um sorteio aleatório via aplicativo. Quem não confirmar presença no portal em cinco minutos, fica com o tema mais difícil: "Mecanismos de Choque Anafilático e Reações Alérgicas Graves".

Shikadai sentiu uma gota de suor frio. Sem o celular, ele não tinha como acessar o portal da universidade. Ele olhou ao redor, desesperado, e seus olhos encontraram os de Hilana, que estava sentada no fundo, com seu inseparável caderno de anotações e um pequeno relógio de pulso que parecia ter pertencido a um bisavô.

Ela acenou para ele, apontando para o lugar vazio ao seu lado. Shikadai atravessou a sala, ignorando os cochichos dos outros alunos que ainda comentavam sobre as mensagens do final de semana.

— Bom dia, "desconectado" — disse Hilana, com um brilho divertido nos olhos. — Deixou o inimigo em casa?

— Bom dia. Deixei sim, mas parece que ele está se vingando — Shikadai suspirou, sentando-se. — Eu preciso confirmar minha presença no seminário, senão vou acabar tendo que explicar choque anafilático para a turma inteira sem material de apoio.

Hilana sorriu e, do bolso do seu avental, tirou algo que Shikadai nunca esperaria ver. Era um celular antigo, um modelo de "tijolinho" que mal tinha cor na tela, preso a um chaveiro de sapinho.

— Use o meu. Não tem internet de alta velocidade, mas o navegador de texto ainda funciona para o portal da faculdade. E o melhor de tudo: ele não tem corretor inteligente. Ele só escreve o que eu mando — disse ela, entregando o aparelho a ele.

Shikadai pegou o pequeno dispositivo com uma reverência quase sagrada. Era pesado, robusto e simples. Ele digitou sua matrícula e senha. A resposta foi lenta, mas precisa.

— Confirmado — sussurrou ele, devolvendo o aparelho. — Hilana, você é a minha salvação. Por que você ainda usa isso?

— Porque ele não tenta ser mais esperto que eu — respondeu ela, abrindo seu livro. — E porque ele me obriga a olhar para as pessoas se eu quiser ter uma conversa de verdade.

A aula começou, e o desafio do dia foi lançado: uma prática integrada onde os alunos de Medicina e Enfermagem deveriam simular um atendimento de emergência. Shikadai e Hilana foram escalados juntos para o cenário de um paciente com colapso por exaustão de chakra.


Enquanto os outros grupos se perdiam tentando consultar protocolos em seus tablets de última geração, Shikadai e Hilana operavam em uma sintonia perfeita. Ele analisava os sintomas com sua mente lógica, enquanto ela preparava o acesso venoso e monitorava a pulsação manualmente, sem depender dos bipes dos aparelhos digitais que insistiam em dar erro de conexão.

No meio da prática, a professora, notando a eficiência da dupla, decidiu testar Shikadai.

— Aluno Nara, o paciente está apresentando uma arritmia súbita. Qual o procedimento? Consulte seu guia digital.

Shikadai parou por um segundo. Ele não tinha guia digital. Ele olhou para Hilana, que apenas assentiu, confiando nele.

— Não preciso do guia, professor — disse Shikadai, com uma voz firme que ecoou pela sala. — Pela palpação que a Hilana fez e pela observação da dilatação das pupilas, o diagnóstico é sobrecarga no canal central. O procedimento é compressão manual no ponto de pressão e hidratação imediata.

O professor sorriu, cruzando os braços.

— Finalmente alguém que usa o cérebro em vez do Wi-Fi. Nota máxima para a dupla.

Ao final da aula, enquanto guardavam o material, Shikadai sentiu que aquele era o momento de retribuir a ajuda.

— Hilana, eu estava pensando... meu pai disse que vai me entregar o celular hoje à noite, supostamente "curado". Que tal se a gente saísse para testar se ele realmente aprendeu a se comportar?

Hilana fechou seu caderno e olhou para ele, fingindo pensar.

— Só se você prometer que, se ele começar a falar bobagem de novo, você desliga e me conta o que ele queria dizer pessoalmente.

— Prometido. Que saco... acho que estou virando um fã dessa vida offline — admitiu ele, fazendo-a rir.

Enquanto caminhavam para a saída, Shikadai percebeu que o verdadeiro aprendizado daquela segunda-feira não estava nos livros de fisiologia. Ele estava descobrindo que, para ser um grande médico — e para conquistar o coração de Hilana —, ele precisava estar presente. Sem filtros, sem notificações e sem nenhum algoritmo para mediar a conexão entre eles.

A jornada acadêmica em Konoha estava apenas começando, mas o diagnóstico de Shikadai para o futuro era positivo. Pela primeira vez, ele não sentia que a vida era um problema a ser resolvido, mas uma experiência a ser vivida, um batimento de cada vez.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.