Anatomia De Um Relacionamento Perto Do Fim
1 O Que A Afonso Pena Não Conta
A cidade estava agitada. O som dos foliões e dos blocos cortavam a noite afiado como navalha. Há quem reclame das ruas cheias, do trânsito tumultuado, das noites que emendam nos dias… Mas eu absolutamente amo Carnaval. Da varanda do apartamento observava o último bloco da noite subir a Afonso Pena, invejando aquelas pessoas que se aventuravam na multidão, pois, não curtia Carnaval a bastante tempo.
Dei o último trago no cigarro e voltei para a sala de estar apenas para encontrar uma Liz de cara fechada.
— Eu pedi para você manter a porta fechada. Custa tanto assim manter a merda da porta fechada? — Em uma mão segurava um livro grosso e na outra a vontade de me bater.
— Eu abri para fumar na varanda. Não é isso que você vive me pedindo, para não fumar na sala? Só segui suas ordens. — Sarcasmo com uma pitada ofensiva era a minha especialidade.
— Nossa amor, não precisa ser grossa comigo.
— Grossa, eu? Você que entra aqui igual a um furacão falando alto comigo e eu que sou grossa? — Ironizei. Ela quase cuspiu fogo. Se pudesse me trucidar nesse momento, ela o faria.
Nos encaramos e ela fez aquela cara que só a Liz faz; olhos cerrados, boca entreaberta, respiração cortada, cabeça tombada para o lado. Eu amo essa mulher, mas me olhando assim ela parece um dragão prestes a incendiar um vilarejo inteiro.
Que seja.
— Ok, eu fecho a porta. — Fui até a porta da varanda e a fechei, peguei o controle e desliguei o aparelho televisivo também.
— Não precisa desligar a TV, Carla, basta abaixar o volume. Lá fora está uma gritaria infernal por causa dos blocos, não consigo concentrar desse jeito!
— Eu abri a porta por dois minutos, amor, dois minutos. — Eu não quero brigar, mas meu sangue não é de barata. Faz tempo que a gente tá nessa Guerra Fria, é cansativo. Tudo, absolutamente tudo é motivo suficiente para iniciar uma briga. Eu só queria aproveitar meu carnaval em paz, mas nem isso eu posso.
— Poxa, amor, custa me ajudar? Custa fazer menos barulho? — Pelo visto não teve o menor efeito extinguir o problema. Incrível como mesmo concordando, ela ainda insistia na briga. — Será que terei que trancar o quarto todo? Me prender la dentro?
— Eu quero exatamente o contrário, estou tentando te tirar desse quarto a três dias.
— Para perder tempo nesses blocos entupidos de gente? — Disse com desdém.
— Para passar tempo COMIGO. Será que eu não valho mais um dos seus dias tão valiosos? Algumas poucas horas? — Eu sinto sua falta, falta da gente. A gente agora só se estranha.
— Eu preciso estudar, amor! Você sabe o quanto eu quero passar nesse concurso. — Ela respirou alto e sentou no sofá. Tirou o óculos e olhou diretamente nos meus olhos com uma feição de cansaço. — Me ajuda, por favor.
— Eu sei que você tá estudando, Liz, sei do seu sonho de passar no concurso. — Sentei ao seu lado sem cortar a conexão de olhares que estabelecemos. — Me sinto presa dentro dessa casa. Você tem seus estudos para te entreter, eu não tenho nada.
Ela tirou justamente o feriado do carnaval para estudar. Estamos na terça feira e tudo o que fizemos durante todo o recesso foi estudar leis e códigos de sei lá o que. Eu sei que a casa de um estudante precisa ser um ambiente onde todos os moradores contribuem, mas e quanto a mim? Meu próprio apartamento se tornou minha prisão.
— Me entreter? Carla, estudar é um saco! Faço porque preciso, mas não sinto prazer algum nisso.
— E o que então te dá prazer, Liz? Me conta porque eu sinceramente não sei mais o que fazer. Tudo que a gente tem feito ou começa ou termina em briga. Eu tô cansada de discutir. — Disse em um tom baixo e ferido. — Eu só quero que a gente fique bem…
— Eu também quero isso, amor.
— Então para de gritar comigo por conta de uma droga de porta. Isso me magoa.
— Não teria gritado se você pensasse mais em mim.
Ah, você só pode estar de brincadeira comigo.
Nos encaramos por mais alguns segundos até que desisti.
— Que seja. Vou sair. — Perguntei vasculhando visualmente os móveis para localizar minha carteira.
— Como é que é? Você pretende sair? Curtir o carnaval sem mim? — Nos levantamos do sofá juntas e eu fui em direção à minha carteira na mesa do outro lado da sala.
— Você claramente não tem interesse em ir, então sim, vou curtir o carnaval sem você. É o que deveria ter feito a muito tempo. — Suspirei tentando aliviar a tensão nas minhas têmporas. — Lisângela, eu amo carnaval. Amo os blocos, amo ver fantasias inusitadas, gosto de GENTE. — Meu tom de voz subia gradativamente. — Não consigo ficar aqui tentando existir da forma mais quieta possível para não te atrapalhar. Eu vou sair quer você queira ou não.
Ela estava a essa altura visivelmente enfurecida, seus olhos a um triz de saltar do rosto.
— É por isso que a gente vive se desentendendo. — ela cruzou os braços e falou em um tom mais ressentido. — Depois me pergunta como chegamos a esse ponto...
Eu não acredito que ela está jogando isso em cima de mim. Perdi a paciência para o draminha dela. Deixei-a na sala falando com as paredes e fui para o quarto trocar de roupa e colocar uma bota. Peguei a pochete no cabideiro, enfiei lá dentro minha carteira, celular e fui para a sala pegar minha chave.
— Porra, Liz, eu só quero pisar na rua, ver gente. Por que você não consegue entender isso? Você sabe o quanto odeio ficar em casa por muito tempo. Eu tô saindo para não brigarmos mais.
— É engraçado você dizer isso quando você ir embora agora é exatamente o que está nos fazendo brigar. — Se fosse possível matar apenas com a voz, ela o faria bem aqui.
— A gente só briga quando você quer…
— Quando eu quero? Eu só quero estudar, só isso. Eu ia terminar uns exercícios, fazer anéis de cebola para a gente. Eu até fiz uma listinha durante a semana de filmes para gente ver hoje. Eu tô tentando salvar a gente mas você parece nem ligar para o nosso casamento!
— Obrigada por isso, Liz, de verdade. Mas se você me conhecesse um pouquinho saberia que o que eu quero é ir para a rua, curtir o feriado, encontrar os nossos amigos. Sair deste apartamento um pouco.
— Você sabe que não é o que eu quero.
— É, eu sei, a gente quer coisas muito diferentes agora… — Como por exemplo, você quer se enfiar na cama de outras pessoas, não é, Liz? — Olha, eu vou sair. Quando eu voltar, se ainda quiser brigar a gente briga, se quiser conversar a gente conversa, se quiser ver filme a gente vê.
Fiz menção de me dirigir à porta, mas sua voz me impediu.
— Eu não aguento mais esse seu comportamento! Você não sabe lidar com as coisas como adulta, nós não temos mais vinte anos, você não pode só levantar e ir embora na primeira cobrança. — Agora sim ela oficialmente soltava fogo pelas ventas. — Se eu peço para conversar sobre o que houve, você foge. Se te digo que quero sair do meu emprego para me dedicar aos meus estudos, você levanta e sai no meio da conversa. Te digo que quero ter filhos, você muda de assunto ou foge para a rua. Tudo o que você parece ser para fugir do nosso casamento. — Tomou fôlego — Não tá dando para mim, não tá dando. Sou sempre eu a chata, a que briga, a que cobra. Acordo e vou dormir me culpando pelo nosso casamento ter desandado. Perco noites de sono tentando achar um jeito de consertar a gente. — Seus olhos começavam a ficar marejados. — Quantas noites de sono você perdeu pensando na gente?
— Você quer saber quantas vezes eu fiquei até tarde te esperando chegar quando saia com suas “amigas”? Quantas vezes me senti estúpida por te dar um voto de confiança depois do que fez, ou quantas dessas eu me senti um lixo por desconfiar? Quantas vezes me revirei na cama analisando cada palavra que você me disse procurando por alguma mentira, ou das que me senti a pior esposa por duvidar de você? — Pausei para ver como ela reagiria, se o remorso passaria pelos seus olhos. — Sabe quando a Jú disse que sabia todas as vezes que a Sara mentia pelo comportamento dela? Eu nunca aprendi a ler suas mentiras, sabe por quê? Nós não éramos assim. Não tinha mentiras ou desconfianças, não tinham segredos. Aí um dia descobri que passei 10 anos achando que te conhecia e não sei mais ler suas intenções.
— Você fala como se fosse perfeita, como se nunca tivesse cometido erros. É muito fácil me diminuir e se colocar num pedestal. Você tem falhas assim como eu. Você nunca está comigo Carla, nem parecemos um casal mais. Esses dias minha mãe me ligou, queria saber o que te dar de presente e eu não soube responder. Eu não sei mais nada sobre você. — Ela tomou fôlego, abaixou o olhar. — Você está fria e distante, me evita, fica se esgueirando pela casa para não esbarrar em mim.
— Eu fico me esgueirando pela casa para não criar outro conflito. A gente junto só se estranha.
— Quando foi que nosso casamento virou campo minado que a gente precisa ficar observando onde pisa?
Você jura que não sabe? Certeza?
Meu instinto me dizia para atravessar aquela porta o mais rápido possível, mas minha mão travou na massaneta, incapaz de abri-la sem dizer o que não me deixava respirar a meses.
— O nosso casamento está morrendo porque você me traiu — abri a porta — e quando eu olho para você, isso é tudo o que vejo. — e saí.
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