Anastasias Tragedy.
1 Capítulo Único
O telefone tocou. Estava no quarto, olhou-o e não atendeu. Sabia exatamente quem era. Anastasia, sua amada. Entrementes, não podia atende-la justamente por isso. Pouco depois, tocou novamente. "Deus, ela deveria desistir disso!", pensou. Estava sentado na cama, no quarto escuro, de cortinas fechadas. Não queria nem arriscar deixar alguma luz ligada, a menina poderia ver e tudo estaria arruinado. Mas, não viu mal nenhum em ligar a TV. Não que quisesse realmente assistir, mas o barulho acalmava os nervos.
Era tudo um plano. Pretendia pedi-la em casamento. Mas, para isso, queria pega-la de surpresa. O rapaz fez questão de sumir na última semana, para aparecer no aniversário de um ano de namoro, com uma aliança. Tudo estava indo bem, todas as amigas de Anastasia sabiam do plano e não contaram nada para a jovem.
Para todos os efeitos, estava fora da cidade. Não deixara nenhuma explicação, e sabia que a namorada estaria muito preocupada. Contava com isso, pois assim, o pedido seria totalmente inesperado. Conseguia imagina-la gritando com ele por ter sumido, mas mudando de expressão subitamente ao ver o anel. Choraria? Ou daria um sorriso envergonhado? Mas, sua imaginação fora dispersada por um barulho. Pensou que fosse um dos vizinhos, afinal, os outros moradores do prédio eram terrivelmente rudes.
Mas o barulho se repetiu. Talvez fosse uma briga, não tinha certeza. E continuava aumentando. Resolveu dar uma olhada pelo olho mágico. Viu uma movimentação estranha, ruídos e vozes. Não conseguiu identificar nenhum rosto, mas definitivamente, tinha alguém gritando com alguém, e chorando. Resolveu abrir a porta, e assim que a luz do corredor inundou a escuridão do seu apartamento, entendeu o que estava acontecendo.
- Anastasia? O que você...?
- Canalha!
A mão da menina estalou na face do maior. Apesar de confuso com a bagunça do corredor, mas sabia que merecera o tapa. Talvez devesse buscar a aliança agora. Viu que o vizinho estava sentado, encostado na parede, provavelmente desmaiado. Vivia chegando bêbado.Virou as costas e correu para dentro. Nem se deu conta que seu rosto estava marcado, com a mesma coisa que escorria do bêbado.
- Não ouse me dar as costas, cretino!
Ouviu os passos da amada atrás de si. Fez menção de virar, mas sentiu uma forte fisgada nos rins. Sentiu o aço frio furando sua pele, penetrando suas entranhas. Não conseguiu gritar. Anastasia retirou a faca e voltou a enfia-la, agora na altura dos pulmões. Num gemido de dor, o garoto afastou-se, na direção do criado mudo, aonde repousava calmamente o telefone. Não chegou ao destino, infelizmente. Caiu, sentindo o sangue escorrer pela sua camiseta, e repousar no chão, numa poça quente e grudenta. Agora, sentia a marca da mão da namorada no rosto, por que não percebera o sangue antes?
Anastasia chorava, segurando a faca, trêmula. Deu longos suspiros, olhando a cena que criara. Viu a TV do namorado ligado, a essa altura, passando a novela, O casal protagonista se beijava, apaixonadamente. Num grito, a menina foi até o aparelho e o desligou. Ainda em prantos, passou o olho pelo apartamento. Pequeno, mas muito bem cuidado, se comparar aos vizinhos. Seu olhar demorou-se no criado mudo, com o telefone.
- Por que você não me atendeu, idiota?! — Urrou.
Mas, notou algo ao lado do telefone. Uma pequena caixa de veludo preto. Entendeu o que era assim que a viu. Deixou a faca cair num baque surdo, e atirou-se sobre a cama, para pegar o objeto. Abriu a caixa, tremendo e chorando mais que nunca. Dentro, um belo anel de platina, com uma safira relativamente grande, e na pedra, pode ver seu próprio rosto refletido. No que tinha se tornado? Como pode deixar seu medo irracional causar isso? Já não sabia nada, e sentia-se enjoada. Por fim, escuridão.
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