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Levantou-se pela enésima vez na última hora; a noite estava fria e isso ajudava os seus pensamentos inquietantes. Ela até gostava das noites frias, na verdade, gostava das noites e ponto. Mas, aquela com certeza não estava nenhum pouco agradável. Não quando estava sozinha.

Saiu do quarto caminhando lentamente pela casa vazia e silenciosa. Ora, só assim para a calmaria! — pensou.​ Adiantou-se pelo corredor, abriu lentamente a primeira porta, o seu primogênito dormia, porém se mexia um tanto inquieto, foi-se silenciosamente até ele, era frio, ela tão logo soube. Igualzinho ao pai! Sorriu. Puxou-lhe as cobertas, beijou-lhe a testa, o menino na hora aquietou-se em seu sono.

Saiu do quarto e adentrou a porta a frente. Sua princesinha, tão pequenininha encolhida no canto da cama agarrada à boneca de pano dada pelo avô. Não ousou aproximar-se sabia que sua pequena tinha o sono tão leve como o dela; contentou-se em guardar a leve respiração dela em seu coração.

Foi-se para a sala, iluminada pela luz da lua. Olhando o breu da noite lá fora através do vidro da janela com o coração apertado, ela divagou...

​Saudade, como é possível? Mesmo depois de tanto tempo? Mas, ali estava ela, o coração ardia de saudade. E era uma saudade tão desnecessária, tão sem motivo. Motivos... sorriu. ​O que era um motivo? Existia classificação para motivos? Um motivo era um motivo e pronto. Dependia apenas do coração para o sê-lo.

“Um motivo, estou lhe dando um motivo para voltar!” Sorriu de novo. A saudade lhe deu um cutucão mais forte no peito. Um beijo era um motivo, simplesmente porque o coração queria que fosse. Tão improvável tão incoerente... Mas, o que era coerência em se tratando de sentimentos?

"Ema... se eu te amasse menos, eu seria capaz de falar mais. Mas, meu amor é esse. E minhas palavras essas." Jorge lhe dissera uma vez.

Jorge. Tão querido Jorge, tão amado Jorge, tão maduro, tão inteligente para o tino das leis humanas; perdera-se na incoerência dos sentimentos.​ Fora tão leigo em cultivar sentimento,​ tão leigo nas leis do amor. O fizera morrer com a ausência e a distância. Interessante​, ​pontuou: ​O amor também morria. Entendeu. ​Se ela fosse procurar algum resquício do que sentira por Jorge não encontraria, não naquela intensidade. Ficara​ o carinho e até admiração. Mas amor...? — Pensou melhor, suspirou, ​ sorriu​ irônica. — Aquilo não era amor. O que sentia por Jorge, nunca fora. Deu-se conta agora, talvez só agora porque nunc​a mais tinha pensado em seus sentimentos por ele. Fora paixão, entendeu espantada, quase chocada. Sentirá uma paixão por Jorge. A paixão que ela mesmo descrevera certa vez:"A paixão é como uma fumaça feita do vapor dos suspiro dos apaixonados, é só isso, é só ar quente que se dissipa no ar, se esvai , depois fica só o vazio, o sufocamento da ausência e não resta mais nada."— Descrevera para a pessoa errada. Pois foi exatamente o que aconteceu com seus sentimentos por Jorge. ​

​Ah aquela noite... Deus, como estivera enganada!

"Se amo Jorge, a minha paixão é sua Ernesto!" ela realmente acreditara naquilo. E na hora era uma verdade. Porém nada, nenhum sentimento nessa vida é conclusivo, hoje ela sabia. A exemplo: descrevera sua paixão por Ernesto como algo "que se dissipa no ar, que se esvai". Porém ainda era apaixonada por ele, esse sentimento nunca se esvaiu, nunca se dissipou. Existia o vazio e o sufocamento, estes mesmo lhe acometiam naquele exato instante. Mas... Puxou na memória:

"Eu te amo tanto que não cabe no meu peito e sai pelos meus poros, pelos meus olhos e eu explodo por dentro." O coração dela acelerou, como se aquelas palavras tivessem sido ditas naquele exato momento para descrever o que ela estava sentindo. Pois era como estava, ali, separada da escuridão da noite pelo vidro da janela, era o que ela sentia: um amor tão forte que não lhe cabia no peito, que a estava deixando angustiada, aponto de explodir. Sim, amor, um amor loucamente apaixonado era o que ela sempre sentiria por Ernesto. Entendeu isso, quando percebeu que o tempo não levara aquele sentimento.

Tempo. O que era o tempo? As lágrimas vieram em seus olhos. A saudade aumentando, como ela mesma dissera: a sufocando! Precisava tanto dele! Desde que o conheceu, sempre precisou. Tão sábio quanto a sentimentos! Tão... intenso! Sorriu da sua própria arrogância em chamá-lo de ignorante!

"Você não tem o direito de negar meu sentimento de amor, classifique você o seu próprio." dissera-lhe ele, tão cheio de si, tão seguro, tão convicto, como sempre o era. E classificara bem os deles, tanto que agora ela tomava sua descrição para si.

"Não é amor, Ernesto!" — Tola!!! — "Ninguém é capaz de viver por muito tempo com esse sentimento que você descreveu."— ela queria poder voltar no tempo e dizer a aquela tola Ema o seu exato estado atual. — "As suas palavras: eu explodo? O amor não explode..."— Sim. Sim o amor explode, o amor explode a paixão, a torna mais avassaladora. — "O amor constrói."— Foi à única coisa acertada que falou naquele dia.


Ema sabia que Ernesto sabia daquilo, pois ele ia construindo, mesmo sem se ater ao que fazia, pouco a pouco, com cada gesto, com cada detalhe, com cada atenção... A paixão não virou amor, não, não foi isso. A paixão misturou-se ao amor. Lembrara-se que na mesma noite daquela conversa, na noite em que ela tanto ferira seu coração, ele estava lá lhe estendendo um copo d'água, vendo-a chorar por outro, mas estava lá... Construindo algo, construindo amor para eles... Brigaram aquela noite, como sempre, briga refletida na paixão, que já era presente e intensa. Brigas que se alastraram por anos a fio sem descanso.

O sentimento que tinha por ele era completo demais: tinha paixão, raiva, desejo, intensidade, tinha medo... tinha tudo! Porque eles construíram assim, como pedras constroem castelos. Aquilo era amor. Tão longe era tal sentimento do que sentira por Jorge e o tinha descrito como amor. Agora que conhecia o sentimento, mesmo que não quisesse julgar Jorge, agora via que talvez nem era amor o que ele sentia por ela. Jorge a tinha abandonado, tantas e tantas vezes, colocara tantos outros sentimentos, tão menos intenso, a frente do amor que dizia sentir. Já Ernesto, em sua "paixão" nunca desistira dela, mesmo quando ela mais mereceu. Lembrou-se de quando descobriu da falência da família, lembrou-se de São Paulo, lembrou-se​ do casamento arranjado com Edmundo... Deus! Ernesto tinha estado certo todo tempo: Ele já a amava naquela época!​ Já era amor na intensidade da paixão. Sorriu, sorriu com lágrimas nos olhos. Acertou o alvo mesmo sem enxergá-lo na época. Não que tenha se casado sem amor, sabia que amava o marido quando disse seu aceito, mas só agora percebia, só agora percebia ... A verdadeira dimensão do sentimento. Talvez o tempo e a experiência pudesse lhe falar com mais prioridade, não era teorias ou pensamentos era a vivencia do amor que a fazia entender, justamente ali, enquanto tinha a apreensão da saudade sem sentido, porque fazia apenas duas horas que ele tinha saído batendo a porta do quarto, por causa de uma briga. Brigas de sempre, rotineiras e deliciosas, brigas que a fez sozinha naquele momento, briga que ela nem se lembrava mais do motivo​...

Fora tão feliz em pular do precipício de sua paixão por ele. Nunca imaginou que voaria e depois que planaria, mas que novamente podia voar e voar de novo quantas vezes ele quisesse. Casou-se por paixão, casou-se por amor... Casou-se com Ernesto, o homem mais errado para ela que poderia ser, e descobriu que nunca poderia viver sem aquele seu maior erro.

Pela janela o viu surgir em meio a escuridão, andava largado, apressado em direção a casa. Correu para o sofá, deitou-se e fechou os olhos; a ansiedade a matando, a expectativa lhe explodindo,​ o amor arremetendo em seu peito enquanto a paixão corria veloz​ pelas suas artérias.

Quinze anos! Quinze anos e os sentimentos continuavam igualmente intensos. Ouviu quando ele abriu a porta, os passos pesados, o ouviu seguir e logo em seguida estancar, mais um pouco e sentiu a presença dele, o cheiro amadeirado de almíscar, a espera fora difícil e longa, mas lhe confortava sentir os olhos dele sobre si. Depois o sentiu mais perto, sentiu o afago na face por um tempo, até sentir braços fortes a envolvê-la e ser içada por eles. Ah as sensações, ah os sentimentos... Agarrou-se, ainda em seu sono fingido ao pescoço dele, enquanto era carregada provavelmente para o quarto. Com destreza ele abriu a porta, e foi só quando ela ouviu o barulho da mesma sendo fechada que beijou-lhe o pescoço, sentiu a respiração dele falhar, subiu os beijos do pescoço para o queixo e enfim a boca, sempre, sempre suculenta. Beijou-o com ardor e saudade, o sentindo retribuir na mesma intensidade, enquanto ainda a sustentava em seus braços.

Quando as bocas se soltaram ela sorriu, um sorriso malicioso.

Ele estreitou os olhos.

— Estava fingindo, baronesinha?! — a voz já rouca, era ainda mais sedutora.

— Amo está em seus braços, meu amor! — disse-lhe, lhe acarinhando a face. — não perderia nunca uma oportunidade de fazê-lo.

Ele a beijou novamente, enfim os encaminhando até a cama. Era ali que a paixão aflorava forte; às vezes iam se deitar apenas com o sentimento de ternura e rotina, mas quando se encostavam, ou se beijavam, a paixão despertava e sim, como dissera Ernesto há mais de quinze anos: não cabia no peito, saia pelos olhos, pelos poros, eles explodiam! Explodiam forte no literal sentido da palavra. Depois, nada de vazio, nada de ausência, nada de sufocamento, depois era o amor tomava conta; eles se conchegavam nos corpos um do outro e vinha a plenitude, vinha a paz, o conforto e a certeza!

Deus, abençoada era ela!!

— Sabe estive pensando! — disse, deitada sobre o peito dele, enquanto sentia a sua respiração aos poucos ir acalmando.

— Vai admitir que eu estava certo, e a briga de algumas horas atrás foi por pura tolice? — provocou-lhe, afagava-lhe lentamente os cabelos enquanto a outra mão subia e descia pelas suas costas nua.

— O que?! Não é claro que não. — foi categórica, embora ainda não se lembrasse do motivo da briga. — Estava pensando em nós durante todos esses anos. Como é possível Ernesto, continuamos os mesmos? — ela o olhou.

— Os mesmos? Você não tinha cabelos brancos quando a conheci!

Ela estreitou os olhos para ele.

— Não tenho cabelos brancos. O senhor é que está ponto do grisalho! — ele sorriu. .

​— Não fuja, minha baronesinha! Envelheceremos juntos. Cabelos brancos e todas as rugas que pudermos aguentar, e ainda sim — desceu a mãos de seus cabelos e lhe segurou a face. — Continuarei o mesmo idiota apaixonado por você.

Os olhos de Ema marejaram e instantaneamente as lágrimas desceram. Ele as enxugou.

— Eu sou tão feliz, Ernesto. Tão maravilhosamente feliz ao seu lado. Meu Deus, como eu o amo! — ela acariciou-lhe os lábios, o coração tornando-se acelerado, enquanto deitada encima de seu peito sentia o dele no mesmo ritmo. — Ah, como eu estive enganada, como eu era obtusa e leiga em relações aos sentimentos.

— Do que está falando? — perguntou ele, confuso embora emocionado.

— Você. Minha eterna paixão, desde o principio até agora! Como é possível? Agora eu sei, agora eu sinto com clareza, eu amo você de todas as formas possíveis!

Ele sorriu.

— Está romântica? Esse é seu jeito de admitir que eu estava certo? — ela bateu no braço dele, mas sabia que ele estava emocionado, os olhos brilhavam e ela ainda conseguia sentir o coração dele bater mais acelerado do que antes. — Eu te amo! Te amo! Sempre soube disso! Jamais teria me permitido tanto subjugo a um sentimento que não fosse amor.

— Te dei muito trabalho não foi? — o amargor na boca do arrependimento, por saber que se realmente não fosse por ele, ela nunca teria experimentado tamanha felicidade.

— Valeu a pena! — Ele a beijou. — Valeu muito a pena, meu amor. — repetiu, rente aos lábios dela, o corpo começando aquecer-se novamente.

​- Minha paixão, — a voz dela embargou. — simplesmente virou o grande ​amor da minha vida!

Ah, os beijos... Nunca se cansariam deles. E naquela cama se amaram, literalmente, pelo resto da noite. Amor, paixão, desejo, cumplicidade, afeto... ali provavam-se como eram completos.

Notas finais
Bem, como eu disse, eu tinha LOGO que escrever sobre os sentimentos da Ema, porque as últimas cenas não me saíram da cabeça. E sinceramente o desfecho é claro se o Bernstein não pirar!! Mais uma vez obrigada pelo carinho, e por favor, me digam se dessa vez eu viajei demais, Rs! Bjo e até a próxima ​♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!