Anagénnisi

1 Capítulo 1 Confusões


Ele tinha uma sensação molhada nas costas. Seu corpo parecia tão leve quanto uma pluma.

Ele se viu em meio a um lago negro rodeado de árvores retorcidas.

De repente algo lhe puxou para o fundo e se enroscou em sua garganta enforcando-o violentamente até que ele soltou sua última bolha de ar.

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O rapaz despertou de seu pesadelo completamente ensopado de suor e arfando rápido. Tocou no pescoço para verificar se aquilo tinha sido apenas fruto de um sonho ruim ou se realmente algo tentou matá-lo.

Ele sentou na cama de pedra revestida de esteiras e refletiu por alguns segundos antes de se levantar de uma vez. Pegou uma túnica num cesto e após se vestir saiu para caminhar a luz do luar.

Desde que havia se mudado para aquela cabana isolada do mundo suas caminhadas noturnas tornaram-se cada vez mais freqüentes. O ar da noite e o cheiro de orvalho das plantas faziam com que sua mente viajasse.

Seguindo meio sem rumo durante alguns minutos o rapaz enfim para a beira do lago. Aquela água tão parada e luminosa fazia-o tremer por dentro como se a morte o rondasse.

“Mas que grande besteira!” pensou consigo mesmo. “A morte só deve ser temida pelos covardes e pecadores.”

No entanto lhe ocorreu que homens de bem e famílias honestas também temiam pela silenciosa senhora que podia tomar-lhes o sopro da com a gentileza de uma brisa ou com um golpe doloroso que dilacera a carne... Bom. Pensar nisso não ajudaria em nada. O melhor a fazer era retornar a sua cabana simplória e começar seu trabalho mais cedo.

Ele já ia se distanciando quando avistou uma silhueta na outra margem do rio, agarrada as pedras que emergiam da parte rasa. O rapaz tateou o chão em busca de algo para se defender no caso de um ataque brusco, mas só encontrou galhos e uma pedra lisa, a qual escolheu como arma.

Atravessou lentamente a parte rasa até se aproximar do vulto. O desconhecido era um rapaz de cabelo ruivo – vivo e raspado na lateral. Tinha o rosto arranhado e um pouco inchado e um filete de sangue brotando de suas costas onde havia uma flecha cravada.

— Ei!- disse o primeiro rapaz- Quem é você? Pode me ouvir?

O outro abriu os olhos lentamente e pareceu assustado ao ver quem o chamava.

— Não... — prosseguiu o primeiro — Olhe, não vou lhe machucar- disse enquanto soltava a pedra em sinal de paz – Sou... Ângelus.

O segundo garoto balbuciou algumas palavras antes de desmaiar de fraqueza.

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O cheiro de rosas e óleos fazia o ambiente ficar mais calmo e acolhedor.

Seus olhos abriram lentamente e a visão que teve foi de estar em um quarto rústico, porém limpo e organizado.

O garoto que havia lhe salvado entrou abruptamente através da cortina carregando ungüentos em potes. Ele deixou alguns frascos caírem ao perceber que estava sendo observado. Ajoelhou-se de maneira desajeitada foi catando os recipientes.

— Sua ferida era bem feia- disse Ângelus ainda organizando os frascos caídos – Eu consegui estancar o sangue e costurar o corte. Seu corpo está febril e fraco então não se esforce tanto. — Ângelus se levantou e ficou de costas para a cama antes de prosseguir a conversa — Como... O que uma mulher faz para merecer um castigo assim?

A estranha ruiva não se pronunciou ou demonstrou vergonha ao ter seu segredo descoberto. Ela apenas encarou as costas daquele estranho que salvara sua vida.

Sua vida... Essa frase lhe parecia tão vaga agora que perdera sua dignidade e a aceitação de suas irmãs.

— Desculpe- disse Ângelus interrompendo os pensamentos da mulher – Creio que agora não seja a melhor hora.

Ele deu um longo suspiro antes de caminhar em direção a cortina.

—Agnes! – respondeu a voz fraca da mulher fazendo Ângelus a encarar – Meu nome é Agnes.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.